A Psicologia do Arquétipo do Self
Transcrição do vídeo
Em uma famosa entrevista que cedeu para o programa “Face to Face”, da BBC, Carl Jung, ao ser indagado pelo entrevistador John Freeman sobre a crença em Deus, disse o seguinte:
Ele disse que não precisava acreditar em Deus, pois ele sabia! Essa afirmação foi um choque para todos na época, e Jung foi inundado de cartas de várias pessoas perguntando o que ele queria dizer com aquela afirmação. Em uma das cartas em resposta, Jung escreveu o seguinte:
“Eu sei da existência de imagens de Deus em geral e no particular. Eu sei que é uma questão de uma experiência universal e, à medida que não sou nenhuma exceção, sei que também tenho essa experiência, que eu chamo de Deus. É a experiência da minha vontade contra outra vontade, muitas vezes mais forte, cruzando meu caminho na maioria das vezes com resultados aparentemente desastrosos, colocando ideias estranhas na minha cabeça e manobrando meu destino às vezes para as esquinas mais indesejáveis ou dando a ele algumas guinadas inesperadas mas favoráveis, tudo isso fora do meu conhecimento e da minha intenção.”
Carl Jung, Carta a Valentine Brooke, 1959.
Em outras vezes, Jung disse que foi pego de surpresa pelo entrevistador e teve que responder a primeira coisa que veio à sua cabeça. Mas o saber que Jung estava se referindo era um tipo de saber que vem da vivência empírica da imagem de Deus na psique humana. Jung não tentou provar se Deus existe ou não no sentido metafísico. Em vez disso, ele observou que a imagem de Deus aparece de forma recorrente na nossa psique, seja em sonhos, visões, em símbolos, nos mitos e sobretudo nas experiências individuais. Para Jung, a idéia de Deus é um fato psicológico, um impulso maior que o próprio ego consciente, e até mesmo maior que a nossa própria vontade, e devemos aprender a conviver com tal impulso, como ele mesmo escreveu:
“Quando digo que impulsos encontrados dentro de nós devem ser considerados como ‘vontade de Deus’, não é minha intenção insistir em que devemos considerá-los como desejos e vontade arbitrários, mas como dados absolutos com os quais é preciso, por assim dizer, saber conviver de maneira correta. A vontade só consegue dominá-los parcialmente. Poderá, porventura, reprimi-los, sem conseguir alterá-los em sua essência; aquilo que tiver sido reprimido, voltará a manifestar-se em outro lugar e sob uma forma modificada, mas desta vez carregado de um ressentimento que transforma o impulso natural, em si inofensivo, em nosso inimigo.”
Carl Jung, Aion.
Ou seja, quando nós não reconhecemos que há algo dentro de nós com uma vontade maior que a do ego consciente, ela, de alguma maneira, vai aparecer ao seu tempo e ao seu modo para que percebamos. Essa imagem de Deus na nossa psique está profundamente ligada com o arquétipo do Self, o centro organizador da psique, associado à totalidade, ao sentido e ao que Jung chama de experiência do “numinoso” (algo que nos afeta com certo fascínio e temor ao mesmo tempo).
Se o ego é aquilo que diz “eu sou”, o Self é aquilo que contém tudo o que você é, inclusive o que você ainda não reconhece. Jung escreve que:
“Tudo o que se diz sobre a imagem de Deus pode ser aplicado sem nenhuma dificuldade aos símbolos da totalidade. Mostra-nos a experiência que os mandalas individuais são símbolos ordenadores, razão pela qual se manifestam nos pacientes sobretudo em épocas de desorientação ou de reorientação psíquicas. Eles exorcizam e esconjuram, sob a forma de círculos mágicos, as potências anárquicas do mundo obscuro, copiando ou gerando uma ordem que converte o caos em cosmos.”
Carl Jung, Aion.
As mandalas são imagens clássicas para compreender toda a dimensão do Self. O centro representa o ponto organizador, enquanto a circunferência representa a totalidade da psique, com os seus conteúdos. O ego, nesse modelo, não ocupa o centro absoluto, ele é apenas uma parte. O processo de desenvolvimento psicológico consiste justamente em colocar o ego em contato novamente com esse centro mais profundo.
Jung chamou de individuação o processo pelo qual uma pessoa se torna quem ela é em sua totalidade. Isso envolve reconhecer e incluir os aspectos inconscientes, confrontar a sombra, dialogar com conteúdos simbólicos, e, aos poucos, alinhar-se com o Self. Mas esse caminho dura toda uma vida e certamente envolve crises, rupturas, perdas de referências e momentos em que o ego precisa ceder espaço para algo maior, ele precisa saber que, muitas vezes, ele não está no controle.
Muitos sintomas psicológicos podem ser compreendidos como sinais de desalinhamento com o Self. Quando o ego se afasta demais do Self, seja por adaptação excessiva às expectativas externas, seja pela recusa de alguma exigência interna vinda do próprio sujeito, a psique tende a reagir, o Deus interior começa a se enfurecer. A reação dele pode aparecer na forma de ansiedade, vazio, sensação de falta de sentido, repetição de padrões e crises existenciais. O psicoterapeuta James Hollis explica que:
“O que Jung está sugerindo é que sempre que a agenda do ego é suplantada, sempre que o ego está sob as garras de forças transcendentes, ele está diante da presença da divindade. Esse Algo de quem, ou do qual, ele fala tem uma opinião, que têm pouco em comum com a nossa. Se, por exemplo, ele estivesse totalmente de acordo conosco, nós seríamos imortais, lindos, sábios e onipotentes – e nós não somos nada disso.”
James Hollis, Mitologemas.
A situação comum a todos os seres humanos é o estado de perda, da separação e da solidão. Em algum momento de nossas vidas, vamos nos sentir desligados e distantes de algo que nos conecta com algo ainda maior. A palavra religião significa justamente “religar” ou “reconectar”. Em última instância, nós ansiamos pela reconexão a um estado de completude com a totalidade. Quando éramos bebês, mantinhamos uma conexão indiferenciada com o Si-mesmo. Não existia distinção entre ego e Self.
À medida que fomos nos desenvolvendo, nosso ego, ou seja, o que entendemos pelo eu, foi emergindo e perdendo cada vez mais essa conexão com o Si-mesmo. Nosso trabalho, durante toda a vida, é nos relacionarmos com esse Si-mesmo através do processo de individuação. Mas esse caminho não é nem um pouco linear, e alguns são até destrutivos e alienantes. Muitas compulsões e parafilias advém desse desejo de reconexão, como a compulsão por comida ou pelo álcool; que, por sinal, a palavra álcool vem de uma palavra árabe, que significa espírito. James Hollis, continua:
“O desejo de conexão é transferido de forma simbólica para a comida (matéria/Materno), aquisições, álcool, trabalho, um corpo caloroso. Em todos os casos, o desejo existencial é transferido para um substituto e o símbolo é materializado em uma obsessão seguida de um comportamento paliativo ou uma compulsão. A cura da ferida arquetípica é, claro, apenas transitória e por isso precisa ser repetida; essa é sua característica causadora de dependência.”
James Hollis, Mitologemas.
Uma passagem bem famosa de Jung diz o seguinte:
“As doenças psíquicas são sempre um sofrimento da alma que não encontrou seu sentido.”
Carl Jung, Psicologia da Religião Ocidental e Oriental.
Então não é surpresa que estamos num momento da história onde tantos não encontram sentido para suas vidas; vivem alienados de suas histórias porque a configuração de vida atual dificulta a possibilidade de encontrarmos um significado maior para a nossa vida.
No entanto, essa reconexão com o Self, como vimos nos exemplos e como veremos mais detalhadamente a seguir, não é um processo rápido. Durante o nosso desenvolvimento humano, desde o nascimento até a velhice, a relação entre o ego e o Si-mesmo, o Self, passa por diversos estágios de transformação. Esses estágios também não são lineares. Não é porque passamos de um estágio para outro no desenvolvimento que não possamos retroceder para um anterior. A relação do ego com o Si-mesmo é cíclica, como explica o psiquiatra Edward Edinger:
“O processo de alternância entre a união ego-Si-mesmo e a separação ego-Si-mesmo parece ocorrer de forma contínua ao longo da vida do indivíduo, tanto na infância quanto na maturidade. Na verdade, essa fórmula cíclica (ou melhor, em forma de espiral) parece exprimir o processo básico de desenvolvimento psicológico do nascimento à morte.”
Edward Edinger, Ego e Arquétipo.
A nossa vida psicológica pode ser entendida como uma história de diferenciação e reconexão entre o ego e o Self. Começamos totalmente imersos no Self, em Deus, sem o nosso ego, depois sofremos a queda, a separação, para, novamente, nos religarmos a Ele. O mito bíblico explicita essa jornada. O paraíso do jardim do Éden é o equivalente ao início da vida, onde não há uma separação clara entre ego e Self. O bebê vive em um estado de unidade indiferenciada, não existe ainda um “eu” separado do mundo. O Self, nesse estágio, engloba tudo, como Edinger explica:
“Nascemos num estado de inflação. Na mais tenra infância, não existe ego ou consciência. Tudo está contido no inconsciente. O ego latente encontra-se completamente identificado ao Si-mesmo. O Si-mesmo nasce, mas o ego é construído; e, no princípio, tudo é Si-mesmo. […] Esse é o estado original de unidade e perfeição inconscientes, responsável pela nostalgia que todos sentimos com relação às nossas próprias origens, tanto pessoal quanto historicamente.”
Edward Edinger, Ego e Arquétipo.
Diversos outros mitos projetaram esse estado paradisíaco de perfeição e totalidade. Além do paraíso bíblico, o poeta grego Hesíodo, há mais de 2800 anos, descreveu na sua obra O Trabalho e os Dias, um período conhecido como era de Ouro, em que os homens viviam num estado divino, sem sofrimentos, sem se preocupar com o trabalho e sem angústias.
O filósofo grego Platão, em seu diálogo intitulado O Banquete, escreveu que o estado originário do ser humano era redondo, onde masculino e feminino eram um só. Olha o que ele escreve:
“[…] nossa natureza outrora não era a mesma que a de agora, mas diferente. […] inteiriça era a forma de cada homem, com o dorso redondo, os flancos em círculo; quatro mãos ele tinha, e as pernas o mesmo tanto das mãos, dois rostos sobre um pescoço torneado, semelhantes em tudo; […] Eram por conseguinte de uma força e de um vigor terríveis, e uma grande presunção eles tinham.”
Platão, O Banquete.
Todos esses mitos mostram que a perfeição se assemelha ao círculo, e que o estado de divindade é correspondente à totalidade. E o período psicológico em que experimentamos esse estado é na infância. A artista do século XX, Rhoda Kellog, observou que a criança desenha predominantemente círculos, semelhante à mandalas, logo nos primeiros anos de vida. Esse estado de completude e perfeição também é conhecido como estado inflacionário, pois é o momento da vida em que nos sentimos como deuses, sem angústias e sem sofrimento. E lembre-se bem dessa parte, pois conforme o desenvolvimento do ego e da consciência, o período da queda desse paraíso é inevitável, e a falta desse estado inflacionário vai ser sentida em algum momento. O curso natural da vida nos força a sair desse estado inflacionado de perfeição. Com a consciência, vem as dores e as angústias.
E esse momento da vida foi representado pelo símbolo da serpente no jardim do Éden. A tentação da serpente diante de Eva para comer o fruto da árvore do bem e do mal representa, psicologicamente, o despertar da consciência, como continua Edward Edinger:
“O ato de comer o fruto proibido marca a transição do estado eterno de unicidade inconsciente com o Si-mesmo (o estado sem mente, animal) para uma vida real e consciente no espaço e no tempo. Em resumo, o mito simboliza o nascimento do ego. O efeito desse processo de nascimento é a alienação do ego com relação às suas origens. O ego agora passa para um mundo de sofrimento, de conflito e de incerteza. Não admira que relutamos ao dar o passo que nos leva a uma maior consciência.”
Edward Edinger, Ego e Arquétipo.
Agora, perguntar por que a serpente apareceu no Paraíso para tentar Adão e Eva, mesmo diante de um Deus onipotente, é a mesma coisa que perguntar por que a consciência surgiu para nós. A consciência simplesmente acontece, e além disso tudo, ela sempre será vista como um ato de revolta, de sofrimento e de desrespeito contra a autoridade reinante. O mito de Adão e Eva mostra que a consciência nasceu da desobediência diante de Deus. O mito de Prometeu mostra que a consciência nasceu através da revolta contra os deuses, onde Prometeu roubou o fogo divino do Olimpo e o entregou aos humanos, despertando-os à consciência. E em um nível mais pessoal, o desenvolvimento de um indivíduo só consegue caminhar justamente no ponto em que uma atitude considerada desobediente precisa ser cometida, como explica Edinger:
“Encontramos, na psicoterapia, muitas pessoas cujo desenvolvimento foi aprisionado justamente no ponto em que o crime necessário precisa ser cometido. Alguns dizem: ‘Não posso desapontar meus pais ou minha família’, O homem que mora com a mãe diz: ‘Gostaria de me casar, mas isso mataria minha pobre e velha mãe’. E é possível que ocorra justamente isso caso ele venha a se casar, pois a relação simbiótica que pode existir talvez tenha um sentido literal de alimentação psíquica; se o alimento lhe for negado, o parceiro pode muito bem morrer! Nesses casos, as obrigações para com a mãe são tidas como demasiado fortes para que o indivíduo possa considerar qualquer outro tipo de padrão de vida.”
Edward Edinger, Ego e Arquétipo.
O despertar da consciência será, em última instância, um ato de desobediência necessário para chegar à individuação. Isso implica, em outras palavras, desobedecer à Deus, ou ser cético quanto a ele, pelo menos por um tempo. Mas lembra que eu havia dito que o estado de perfeição ocasionado pela totalidade será sentido em algum momento? Pois bem, com a queda do paraíso, temos o conhecimento do bem e do mal, e isso, em algum momento, nos leva a acharmos que somos como os deuses, gerando um estado conhecido como inflação do ego. Isso acontece quando o ego se identifica inteiramente com o Self.
O indivíduo sente-se especial, absoluto, onipotente, como se estivesse em contato direto com algo grandioso, mas sem reconhecer que isso vem do Self, e não do próprio ego. Psicologicamente, isso pode se manifestar como: uma sensação de grandiosidade, uma certeza absoluta ou dificuldade de reconhecer limites. É uma relação perigosa, porque o ego tenta ocupar um lugar que não é dele.
O arquétipo do puer aeternus, por exemplo, é uma imagem dessa identificação do ego com o Si-mesmo. O puer é aquele que sente que pode fazer qualquer coisa, mas não consegue fazer nada em particular. Sempre começa, mas nunca termina; possui uma série de talentos, mas não consegue se fixar em nada. Em outras palavras, ele vive a chamada vida provisória, um estado de eterno preparo, de eterna espera, mas nunca de concretizações, como explica a psicoterapeuta Marie-Louise von Franz:
“[o puer aeternus pensa que] ainda não é o que realmente queria e há sempre a fantasia de que, em algum momento, a verdadeira coisa vá acontecer. Se se prolongar, essa atitude signifca uma recusa interna constante ao compromisso pessoal com o momento. Essa atitude costuma ser acompanhada, em maior ou menor grau, de um complexo de Salvador, ou de um complexo de Messias, a que está presente o pensamento secreto de que um dia a pessoa será capaz de salvar o mundo; a última palavra em filosofia, religião, política, arte ou alguma outra coisa será encontrada. […] O que esse tipo de pessoa mais teme é estar preso a qualquer coisa.”
Marie-Louise von Franz, O Puer Aeternus.
Mitologicamente, isso aparece em figuras que agem como deuses ou desafiam limites, muitas vezes tendo consequências destrutivas. O mito grego de Ícaro expressa essa inflação do ego. Na história, Dédalo, um artesão, junto de seu filho, Ícaro, são aprisionados no labirinto que ele mesmo construiu para que os segredos da arquitetura do lugar nunca sejam revelados. Mas, para escapar do labirinto, Dédalo cria asas de cera para ele e seu filho escaparem de lá pelo alto. O pai adverte Ícaro para não se aproximar muito do sol, pois o calor faria com que as asas derretessem. No entanto, tomado pela euforia do voo, pela sensação de liberdade, Ícaro começa a subir cada vez mais alto e, ao se aproximar do sol, o calor começa a derreter a cera que sustentava as asas e ele cai no mar.
Simbolicamente, o mito expressa que, quando o ego entra em contato com algo maior, que lhe confere certa liberdade ou criatividade, ele corre o risco de se identificar com essa grandeza, como se fosse ele próprio a fonte disso tudo. Ícaro não reconhece que as asas são uma mediação, um limite. Ele age como se pudesse sustentar-se infinitamente nas alturas. Em outras palavras, o ego tentando ocupar um lugar que pertence somente ao Self, à totalidade. O psicoterapeuta Paul Diel explica que:
“O voo em direção ao sol simboliza a espiritualização; porém, o voo com a ajuda de asas de cera só pode significar a forma insensata da espiritualização: a exaltação vaidosa. Fiando-se vaidosamente em suas asas, que não passam de um artifício, o intelecto, tornado imaginação perversa, não mais escuta qualquer conselho prudente, não conhece mais limite: quer ser o espírito, propõe-se a alcançar o sol. Este é o estado final e decisivo da revolta do intelecto contra o espírito. Mas o impulso exaltado, a imaginação perversa, a vaidade, as asas de cera, não oferecem real sustentação: quanto mais Ícaro se aproxima do sol, vale dizer, da vida do espírito, tanto mais o traem suas asas artificiais. O castigo é infligido pelo próprio espírito: o sol derrete as asas artificiais. Ícaro é fulminado e cai no Mar.”
Paul Diel, O Simbolismo na Mitologia Grega.
A queda de Ícaro representa o estágio pós-inflação, quando o ego percebe que não pode sustentar todo o conteúdo do Si-mesmo. Ícaro caindo no mar representa o encontro com a realidade, que frustra as expectativas infladas e provoca um distanciamento do ego com o Si-mesmo. Nesse estágio, o ego pode se afastar demais do Self, e na busca desesperada por algo que lhe dê sentido de volta, ele pode identificar-se excessivamente com o mundo externo, com as normas sociais, com as expectativas alheias, ou com a racionalidade, se fechando num círculo de intelectualidade que o indivíduo passa a se isolar.
Mas uma coisa aqui é importante de ser dita: o problema não é o ego se desidentificar do Si-mesmo, isso é até desejável, pois do contrário, vimos o que acontece se o ego se imaginar como sendo o Si-mesmo. O problema reside no ego perder o vínculo com ele. É o Si-mesmo que configura significado à nossa vida. Ao mantermos um eixo consciente entre o poder do Si-mesmo e a consciência do ego, não abrimos espaço para a inflação nem para a alienação do ego com o Si-mesmo, como explica Edinger:
“No estado de alienação, o ego não só perde identificação com o Si-mesmo – o que é desejável – como também se desvincula dele – o que é deveras indesejável. A conexão entre ego e Si-mesmo tem importância vital para a saúde psíquica. Proporciona fundamento, estrutura e segurança ao ego, além de fornecer a este último energia, interesse, significado e propósito. Quando a conexão se quebra, o resultado é o vazio, o desespero, a falta de sentido e, em casos extremos, a psicose e o suicídio.”
Edward Edinger, Ego e Arquétipo.
O estado de alienação do ego ocasionado pela perda de conexão com o Self pode ser visto no mito de Caim e Abel. Leiamos essa passagem em Gênesis:
“Abel foi pastor de ovelhas, e Caim foi lavrador da terra. E aconteceu ao cabo de dias que Caim trouxe do fruto da terra uma oferta ao Senhor. E Abel também trouxe dos primogênitos das suas ovelhas; e atentou Senhor para Abel e para a sua oferta. Mas para Caim e para a sua oferta não atentou. E irou-se Caim fortemente, e descaiu-lhe o semblante. E o Senhor disse a Caim: Por que te iraste? E por que descaiu o teu semblante? Se bem fizeres, não é certo que serás aceito? E se não fizeres bem, o pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo, mas sobre ele deves dominar.”
(Gênesis 4:2-7)
Depois disso, Caim chama Abel para o campo e o mata com uma pedra. Deus, sentindo a falta de Abel, amaldiçoa Caim, fazendo-o vagar por regiões até então desconhecidas da terra. Caim é um dos personagens bíblicos que representa o estado de alienação. Quando Caim vaga pela terra longe de Deus, depois de ter matado Abel, é como se o ego estivesse desvinculado do Si-mesmo, alienado. A alienação do ego geralmente acaba em violência, como vimos no mito de Caim, mas também pode terminar em luxúria. Nesse sentido, o psiquiatra Viktor Frankl é extremamente certeiro ao dizer que, normalmente, é a vontade de poder ou de prazer que toma o lugar da falta de sentido, na tentativa desesperada de lhe atribuir algum, como ele escreve:
“Existem ainda diversas máscaras e disfarces sob os quais transparece o vazio existencial. Às vezes a vontade de sentido frustrada é vicariamente compensada por uma vontade de poder, incluindo a sua mais primitiva forma, que é a vontade de dinheiro. Em outros casos, o lugar da vontade de sentido frustrada é tomado pela vontade de prazer. É por isso que muitas vezes a frustração existencial acaba em compensação sexual.”
Viktor Frankl, Em Busca de Sentido.
A alienação do ego fica ainda mais claramente representada pelo protagonista de Crime e Castigo, Raskólnikov. O próprio nome Raskólnikov vem de “raskol”, que significa divisão. Na história do livro, Raskólnikov, para apaziguar os seus sentimentos de frustração, constrói uma teoria sobre o poder, em que existem “homens extraordinários” que têm o direito de transgredir a moral comum em nome de algo maior. Mas quando ele mata uma agiota para testar sua teoria, o estado de inflação que vivera até então dá início a uma queda profunda, e ele começa a ter febre, paranóia e uma culpa que o consome durante todo o romance. Sua vida sem sentido o força a criar uma teoria para se sentir como um deus, mas a incapacidade humana de sustentar essa posição por muito tempo dá início a um colapso maior ainda.
No entanto, injustiça da vida ou não, é preciso passar pelos estágios de inflação e alienação do ego para dar conta da força do Si-mesmo. Há um ditado popular que diz que “O limite do homem é a oportunidade de Deus”. Em termos psicológicos, isso significa que, quando o ego esgotou todos os seus recursos, e acabou percebendo que é essencialmente incapaz de tornar-se independente, o Si-mesmo começa a se manifestar. Raskolnikov, por exemplo, recebeu a visita redentora de Sonia, cuja compaixão o fez denunciar-se às autoridades e pagar por seu crime, aliviando o seu sofrimento sem sentido.
Mas a manifestação do Si-mesmo é mostrada na Bíblia incontáveis vezes. Durante a fuga relatada no Êxodo, os israelitas são alimentados no deserto pelo maná que cai dos céus. Elias é alimentado pelos corvos no deserto. Jó é desprovido de tudo para depois ser recompensado com o dobro de bens e fartura que tinha antes. Em outras palavras, o ego não pode receber o influxo da graça do Si-mesmo se não pagar pelos seus pecados, se não se esvaziar de toda a sua inflação, experiência essa que ocorre por meio da alienação.
E então, e só então, depois de passado os estágios de inflação e alienação do ego, finalmente, o encontro com o Si-mesmo, com o Self, com Deus, acontece. E essa experiência é relatada justamente no livro de Jó. O livro de Jó talvez seja o relato que redefiniu nossa experiência com Deus e, psicologicamente falando, nossa experiência com as forças transcendentes ao ego. Ele representa toda a trajetória que estivemos comentando no vídeo: o estado de inflação, que é quando o ego pensa ser capaz de se identificar com o Si-mesmo, o choque entre o nosso ego e as forças transpessoais do Si-mesmo, o sofrimento que atinge o ego decorrente desse choque, provocando o estado de alienação, a perseverança em suportar a provação sem abandonar a busca de sentido e, finalmente, uma revelação do Si-mesmo que concede redenção ao ego. Edinger escreve que:
“O livro de Jó oferece um amplo relato simbólico de um encontro com o Si-mesmo. O encontro de Jó com Javé é considerado uma representação de uma transição decisiva da consciência do homem com relação à natureza de Deus. Esse fato exigiu, por sua vez, uma resposta de Deus, que levou à Sua humanização e, no final das contas, à Sua encarnação como Cristo. A história de Jó também pode ser considerada sob outra perspectiva, a saber,
como descrição de uma experiência individual, em que o ego experimenta seu primeiro encontro consciente importante com o Si-mesmo. Examinarei Jó sob esse último ponto de vista.”
Edward Edinger, Ego e Arquétipo.
No início do livro, Jó é descrito como um homem próspero, com uma imensa família e muitos bens. Só que nesse meio tempo, há uma conversa entre Deus e o Diabo, onde o Diabo questiona se a fidelidade de Jó a Deus é verdadeira ou se existe apenas porque sua vida é abençoada; a partir daí, Deus permite que Jó seja posto à prova. Em pouco tempo, Jó perde quase tudo: seus rebanhos, seus servos e seus filhos. Mesmo assim, sua primeira reação não é amaldiçoar Deus, mas ele amaldiçoa o dia em que nasceu. Depois disso, a prova se intensifica e ele é atingido por feridas dolorosas no corpo e passa a se sentar em cinzas, em estado de miséria e sofrimento extremo.
É aí que entram os amigos de Jó. Eles vão visitá-lo e começam longos discursos tentando explicar sua dor. A ideia principal deles é que o sofrimento de Jó deve ser consequência de alguma culpa escondida. Jó rejeita essa explicação pois ele insiste em sua inocência e começa a questionar profundamente o sentido do que está vivendo. Ou seja, aqui, Jó ainda não está consciente da sua sombra, do potencial maligno e destrutivo que carrega dentro de si. Ele está convicto que é pura inocência e pura bondade, e isso por si só já é uma atitude inflada. O que Jó se questiona é o que, todo mundo, em algum momento, já se questionou: o que eu fiz para que acontecesse isso comigo?” Mas isso é necessário, como explica Edinger:
“Jó prefere queixar-se a Deus, perguntando-lhe: ‘Se és um pai amoroso e bom, por que não agis como tal?’. Ao atrever-se a discutir com Deus, não há dúvida que Jó, sob determinado ponto de vista, está agindo de forma inflada. Mas o contexto global mostra que essa inflação é necessária e controlada; é essencial para um encontro com Deus. Uma inflação fatal teria ocorrido se ele seguisse o conselho da esposa para blasfemar contra Deus e morrer. Mas Jó evita os extremos. Não sacrifica o grau de consciência que atingiu, mas também não blasfema contra Deus. Continua contestando o significado de sua provação e não descansará enquanto não souber a razão de estar sendo punido.”
Edward Edinger, Ego e Arquétipo.
Os amigos de Jó funcionam como manifestações inconscientes da sua sombra. A sombra é percebida através do outro, das projeções que fazemos nos outros de algo dentro de nós muito difícil de encarar. Em vez de reconhecermos em nós a inveja, a vaidade, a crueldade, a sede de poder ou a capacidade de trair, percebemos isso com clareza sobretudo nos outros. A sombra é difícil de encarar porque ela fere a imagem que temos de nós mesmos. Ela reúne os aspectos rejeitados, inferiores, vergonhosos ou moralmente incômodos da personalidade. Por isso, tomar consciência dela exige admitir que o mal não está só “lá fora”, mas também em nós.
Uma pessoa que sabe do próprio potencial de orgulho, agressão, luxúria, inveja ou dureza pode submeter isso à consciência, à oração, ao arrependimento e à graça. A partir disso, a sombra deixa de ser maligna e se torna um enorme potencial na vida da pessoa, pois ela não vai projetar seus próprios conteúdos nos outros ou no mundo, abrindo espaço para viver as relações com mais maturidade. Nesse sentido, as indagações dos amigos de Jó vão fazendo com que ele tenha mais consciência das camadas mais profundas do seu inconsciente.
Uma citação muito expressiva, tradicionalmente atribuída a São Filipe Néri, vai exatamente nessa direção:
“Vigiai-me, Senhor, neste dia; porque, abandonado a mim mesmo, certamente vos trairei.”
Frase atribuída a São Filipe Néri
Isso exprime que o pecado é uma possibilidade real quando o sujeito confia demais em si mesmo. Em outro momento, Santo Agostinho escreveu que:
“Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos […] e quem pensa viver sem pecado não põe de lado o pecado, mas o perdão.”
Santo Agostinho, Cidade de Deus.
Sem consciência da sombra, não há humildade real; sem humildade, não há vigilância; e sem vigilância, a vida espiritual facilmente vira orgulho.
E depois que Jó persiste nas suas indagações, depois da sua profunda alienação, Deus, o Si-mesmo, aparece para ele. É durante a presença de Deus para Jó que tomamos conta da imensidão do Self perante o Ego. O que Deus fala para Jó é uma revisão da diferença abismal entre o ego e o Self, entre o homem e Deus:
“Onde estavas tu, quando eu fundava a terra? Faze-mo saber, se o sabes e compreendes. Quem fixou-lhe as dimensões? Certamente deve saber.
Quem estendeu sobre ela suas medidas?
Em que se apoiam as suas bases?
Quem assentou a sua pedra angular,
Quando as estrelas da manhã cantavam
E todos os filhos de Deus se rejubilavam? […]
Acaso penetraste tu no mais profundo do mar
Ou passeaste no mais profundo do abismo?
Terão as portas da morte sido reveladas a ti?
Acaso viste os porteiros da casa das trevas?
Compreendeste toda a vastidão da terra?”(Jó 38: 4-7; 16-18)
Em um nível psicológico, o ego está sendo advertido de que não conhece nem um por cento da totalidade da psique. O homem não conhece nem um por cento da vastidão de Deus. As perguntas de Jó foram respondidas por meio da sua experiência vivida, e não por meios racionais, que é o que a maioria espera. A melhor fonte de sabedoria, muitas vezes, são as provações da vida. A experiência da inflação e da alienação fizeram com que Jó encontrasse e se relacionasse com o Si-mesmo, com Self, levando-o a um novo estado de consciência.
No final, Jó foi restituído com o dobro do que tinha antes. Recebeu de Deus o dobro dos seus bens. Isso significa que ocorreu um alargamento da personalidade e o eixo que conecta o ego com o Si-mesmo se tornou plenamente consciente.
O processo de individuação produz um estado em que o ego mantém uma relação com o Si-mesmo sem estar identificado com ele. Você, então, finalmente entende que não há necessidade de controlar tudo. O ego já não se percebe como senhor absoluto da psique, mas também não significa que ele precisa desaparecer ou ser abdicado. Ele encontra, enfim, o seu verdadeiro lugar: não o de centro supremo, mas o de participante consciente de uma totalidade maior.
Isso também não quer dizer que os conflitos acabaram, ou que as dores desapareceram, nem que a sombra foi vencida de uma vez por todas. O que aconteceu foi que a existência ganhou uma nova densidade. As escolhas se tornam mais coerentes, o sofrimento passa a ter mais sentido, e a pessoa começa a viver como quem responde a um chamado interior. Utilizando dois personagens da literatura para explicar a individuação, é como se a pessoa possuísse a simplicidade de Dom Quixote, que enxerga maravilhas em tudo, assim como uma criança, mas que também possui a iluminação espiritual do Dante da Divina Comédia, que esteve nos pólos opostos da vida, no céu e no inferno, e que depois de ter passado por tudo isso, ainda se encanta com a simplicidade de um dia agradável. Ambos vivem interiormente como uma criança, onde o mundo e eles estão em profunda conexão; onde não há acasos:
“O acaso, como categoria da experiência, é um sintoma de vida alienada. Para o homem ligado ao Si-mesmo, tanto quanto para a criança e para o primitivo, o acaso não existe. Talvez seja esse o significado das palavras de Jesus: ‘Se não vos converterdes e vos fizerdes como meninos, jamais entrareis no Reino dos Céus’.”
Edward Edinger, Ego e Arquétipo.
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