A pessoa que se leva muito a sério – A psicologia do Trickster

“Se o homem persistisse em sua loucura, tornar-se-ia sábio.”

William Blake, O Casamento do Céu e do Inferno.

Toda nova caminhada, seja para iniciar um novo projeto, um novo relacionamento, uma mudança de carreira ou uma viagem, começa sempre com uma ruptura. Você sai de algo conhecido e entra no desconhecido. E esse movimento inicial, por mais que você tenha planejado alguma coisa, não é totalmente racional. Há alí um certo impulso, uma curiosidade que te motiva e te faz dar o primeiro passo no escuro. 

E é justamente nessa fronteira, no limiar do conhecido e do desconhecido, que está presente a manifestação do arquétipo do trickster, talvez um dos arquétipos mais antigos que a humanidade já experienciou. O trickster quebra a inércia. Ele te faz questionar padrões. Ele te empurra para fora do que é seguro ou do que é conhecido. É por isso que ele vive em cada fronteira, como explica o escritor americano Lewis Hyde:

“Em resumo, o trickster é um cruzador de fronteiras. Todo grupo tem suas delimitações, seu senso de dentro e fora, e o trickster está sempre lá, nos portões da cidade e da vida, certificando-se de que haja comércio. Também frequenta as fronteiras internas por meio das quais os grupos articulam sua vida social.”

Lewis Hyde, A Astúcia Cria o Mundo.

Quando estamos falando de arquétipos no sentido junguiano, estamos falando de padrões de comportamento que atravessam épocas e culturas. Na psicologia analítica, o Trickster é um arquétipo que aparece justamente quando você está diante de algum momento de tensão ou responsabilidade. Ele está muito ligado ao caos e à quebra de regras, pois o Trickster vive na fronteira de todas as coisas. Ele não respeita a ordem racional da consciência nem a lógica dos argumentos. Pelo contrário, ele aparece para distorcer nossas escolhas, ou inverter aquilo que parece óbvio. Isso pode dar a impressão de que as manifestações do trickster são imorais, mas o que acontece é que o trickster é amoral, ou seja, não possui moral alguma.

É muito difícil falar sobre o trickster porque ele é um arquétipo extremamente maleável e ambíguo, com características que ora podem te ajudar, ora podem te levar para a destruição.  Existe um lado criativo, adaptativo e até genial nesse arquétipo. Mas quando você não tem consciência dele, esse mesmo potencial se transforma em autossabotagem. Ele raramente se apresenta como um problema. Ele aparece quando nossa personalidade está rígida demais. Quando nossas garantias são supervalorizadas e passamos a acreditar muito em nós mesmos. É o trickster que nos tira do pedestal que criamos para nós mesmos, nos forçando a darmos conta do nosso próprio ridículo.

Em outras palavras, ele é uma das formas pelas quais a função inferior se expressa quando está inconsciente. Dentro da tipologia de Jung, cada pessoa organiza sua psique em torno de funções psicológicas (pensamento, sentimento, sensação e intuição). Uma delas é dominante, que é aquela que você usa com naturalidade. Mas há outra que é sempre inferior, pois é menos desenvolvida e carrega uma maior carga emocional. E por ser mais instável, no momento que a função inferior começa a emergir, nossa personalidade se torna mais irônica e contraditória.

Um exemplo disso é relatado pela psicoterapeuta Marie-Louise von Franz. Em um de seus seminários, ela contou que um professor de filosofia, que foi discípulo de Heidegger, atacou a psicologia de Jung em um jornal da cidade de Zurique, dizendo que o inconsciente era uma invenção dos psicólogos. Só que o artigo do professor foi tomado por sentimentalismos, onde ele escreveu que o inconsciente era uma teatro de marionetes e fantasmas. O professor, que tinha a função do pensamento muito desenvolvida, relacionada à lógica, ao controle e à clareza, foi surrupiada pela função inferior, a do sentimento, o que ocasionou uma explosão de sarcasmo e descompensação emocional, como explica Marie-Louise von Franz:

“[O professor] perdeu inteiramente o estilo objetivo, ao qual estamos acostumados na discussão científica, e se sentiu como um profeta cuja missão era salvar a humanidade de um veneno maligno, de modo que pudemos ver que toda sua função moral, ou sentimento, contaminava o seu pensamento. Seu pensamento se tornou subjetivo em vez de objetivo, e estava claro que ele nem mesmo havia lido a literatura sobre a psicologia do inconsciente, nem mesmo os principais livros!”

Marie-Louise von Franz, Psicoterapia.

Para Jung, os mitos e as figuras míticas, bem como os deuses da antiguidade, são manifestações do inconsciente coletivo da humanidade. Há uma espécie de participação mística, em um nível mais profundo e instintual, em que todos participam e são indiferenciados. E é nessa camada que jazem os arquétipos. Já que temos uma estrutura que permite nos comportamos como humanos, desenvolvemos padrões de comportamento de acordo com a nossa experiência humana. Isto são os arquétipos. Trickster vem de “trick”, que quer dizer trapaça, truque ou engano. E tanto nas manifestações da psique, através dos mitos, quanto no nosso comportamento, o trickster é sempre um embusteiro, como Jung explica:

“Esta figuração é mais visível pelo fato de o motivo do ‘trickster’ não se apresentar apenas sob a forma mítica, aparecendo também ingênua e autenticamente no cidadão desavisado; isto sempre ocorre onde este está à mercê dos acasos, que perturbam seu querer e fazer, aparentemente com uma intenção maléfica. […] O ‘trickster’ é representado por tendências opostas no inconsciente e, neste caso específico, por um tipo de segunda personalidade de caráter pueril, inferior, semelhante àquelas personalidades que se manifestam verbalmente em sessões espíritas, ou causam fenômenos totalmente infantis, característicos do poltergeist.”

Carl Jung, Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo.

O trickster, sendo um dos inúmeros arquétipos, reúne uma série de características que carregam o caráter de trapaceiro, embusteiro ou de malandro. E esse tipo de comportamento, parecido com o de um adolescente, pode ser percebido no campo da experiência compartilhada da parapsicologia. Jung entendia os fenômenos paranormais como uma manifestação do inconsciente coletivo atrelado à sincronicidade, que é quando eventos externos se unem a eventos internos da psique sem uma causalidade aparente. Jung escreveu o seguinte::

“Como as figuras míticas correspondem a vivências interiores, tendo sido originariamente produzidas por estas últimas, não é surpreendente que ocorram fenômenos no campo da parapsicologia, apresentando traços do ‘trickster’. São as manifestações do poltergeist, que sempre sucederam em todo tempo e lugar. Acontecem particularmente onde há crianças na pré-adolescência. As travessuras engraçadas ou maliciosas deste espírito são tão conhecidas quanto seu baixo nível de inteligência, isto é, a tolice notória de suas ‘comunicações’. A habilidade de transformar-se também parece representar uma característica do poltergeist na medida em que numerosos relatos lhe atribuem formas animais.”

Carl Jung, Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo

Mas o trickster e os arquétipos de forma geral, não se manifestam somente no comportamento, como acabamos de ver. Como são estruturas vivas da psique, eles aparecem nos mitos, nos contos de fadas, nas lendas de fundações das civilizações e na cultura de forma geral.

Um dos exemplos mais conhecidos vem das tradições indígenas da América do Norte através da figura do Coiote. O trickster muitas vezes é representado por algum animal, e o coiote representa a manipulação e a ardilosidade. É o coiote, nos mitos norte-americanos, quem rouba o fogo para os humanos, quem participa da criação do mundo e quem quebra a ordem antiga para que algo novo possa surgir.

Na mitologia nórdica, encontramos Loki. Ele é um dos exemplos mais claros da ambiguidade do trickster. O caos instalado por loki muitas vezes é a fonte de evolução e de fortalecimento das coisas. Exemplo disso é como contado em um mito onde Loki, sem motivo aparente, corta os cabelos dourados de Sif, a esposa de Thor. Para evitar uma guerra, ele precisa descer até a forja dos anões e os convencerem a criar cabelos de ouro tão brilhantes quanto os que Sif tinha antes. Os anões, se sentindo desafiados, acabam também criando o Mjolnir, o martelo de Thor e símbolo máximo do poder. Isso mostra que o Trickster provoca o caos sem necessidade mas, ao tentar corrigir, acaba gerando algo ainda mais poderoso. 

Na mitologia grega, temos a representação do Trickster na figura do deus Hermes. Em um dos mitos, é relatado que, logo no seu nascimento, Hermes roubou as cabeças de gado do deus Apolo. Apolo é o deus do sol, ligado à racionalidade. O comportamento de Hermes mostra que os instintos muitas vezes sabotam a razão. Mas o detalhe é que essa mesma razão pode se reconfortar quando ela encontra no caos um certo valor. Isso é mostrado no mito quando Hermes, a partir do casco de uma tartaruga, cria uma lira e a entrega para Apolo, fazendo dele não só o deus da razão, mas também da música e da poesia, misturando o pensamento com o sentimento, a ordem com o caos.

Todos esses mitos mostram que a força do caos que o Trickster oferece é necessário para que o mundo se transforme e se movimente, como Lewis Hyde escreveu:

“O trickster como o herói cultural está sempre presente; seus atos aparentemente antissociais continuam a manter o nosso mundo cheio de vida e a conferir-lhe a flexibilidade necessária para perseverar. […] as origens, a vitalidade e a durabilidade das culturas requerem que haja espaço para figuras cuja função é expor e desorganizar as próprias coisas nas quais as culturas se baseiam.”

Lewis Hyde, A Astúcia Cria o Mundo.

A força do trickster está nos limiares da vida. É sempre necessário uma certa ousadia para começar as coisas. Os começos sempre nos demonstram um certo nível de ignorância mas também de força para romper a barreira de um estado de permanência e indiferenciação. É por isso que o trickster é muitas vezes um deus mas também um animal, responsável por criar o mundo e as civilizações, mostrando sempre o limite desse arquétipo. O animal simboliza o instinto e a natureza divina representa o símbolo máximo de perfeição, como explica Jung: 

“O trickster é um ser originário ‘cósmico’, de natureza divino-animal, por um lado, superior ao homem, graças à sua qualidade sobre-humana e, por outro, inferior a ele, devido à sua insensatez inconsciente. Nem está à altura do animal devido à sua notável falta de instinto e desajeitamento. Estes defeitos caracterizam sua natureza humana, a qual se adapta às condições do ambiente mais dificilmente do que um animal. Em compensação, porém, candidata-se a um desenvolvimento da consciência muito superior, isto é, possui um desejo considerável de aprender, o qual também é devidamente ressaltado pelo mito.”

Carl Jung, Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo.

O trickster também pode aparecer na sociedade humana como uma figura importantíssima para fazer com que a gente perceba os nossos próprios equívocos. Uma das manifestações desse lado é através da figura do bobo da corte. Se na mitologia o trickster é um mensageiro dos deuses para os humanos, que transita entre mundos, o bobo da corte é a única figura que consegue transitar entre as classes sociais, da corte do rei à plebe mundana. Ele é o único que pode dizer a verdade para o rei sem ser punido pela sua ousadia. 

Na peça Rei Lear, de Shakespeare, o bobo da corte é, paradoxalmente, uma das figuras mais lúcidas da história. A peça mostra o que acontece quando alguém perde a capacidade de enxergar a realidade, e é justamente o Trickster que, surpreendentemente, faz com que a percebamos melhor. 

Na história, o rei Lear, já velho, decide dividir seu reino entre suas três filhas. Mas, para fazer isso, cada uma deve declarar publicamente seu amor pelo rei. Aqui aparece o típico número três dos contos de fada: duas delas fazem discursos exagerados, cheios de bajulação e dizem tudo o que o pai quer ouvir.

Mas a terceira filha, a Cordélia, é mais sincera. Ela ama o pai, mas se recusa a exagerar ou mentir seus sentimentos. Vamos ler este trecho da peça: 

“LEAR: Agora, nossa alegria, embora a última e mais moça, por cujo amor juvenil os vinhedos da França e os prados da Borgonha disputam apaixonados; que poderás tu dizer que mereça um terço mais opulento do que o delas duas? Fala.
CORDÉLIA: Nada, meu senhor.
LEAR: Nada?
CORDÉLIA: Nada.
LEAR: Nada virá do nada. Fala outra vez.
CORDÉLIA: Infeliz de mim que não consigo trazer meu coração até minha boca. Amo Vossa Majestade como é meu dever, nem mais nem menos.”

William Shakespeare, Rei Lear.

E isso fere o ego de Lear, pois ele interpreta a honestidade de Cordelia como um desamor. No fundo, o velho rei é uma criança que espera ser condicionada positivamente. Depois disso, Lear toma a decisão que inicia toda a tragédia da peça: ele deserda Cordelia e entrega o reino às outras duas filhas. 

Só que depois de entregar o poder, Lear esperava que fosse continuar sendo tratado como um rei. Mas as duas filhas mudam completamente e começam a desrespeitá-lo, reduzindo sua autoridade. E aos poucos, Lear percebe que foi enganado e que também se enganou. Essa peça apresenta uma das cenas mais icônicas da literatura, onde Lear aparece gritando em meio a uma tempestade, sendo consumido pela sua loucura, olha o que ele fala:

”LEAR: Sopra, vento, até arrebentar tuas bochechas! Ruge, sopra! Cataratas e trombas do céu, jorrem torrentes até fazer submergir os campanários e afogar os galos de suas torres. […] Arrota as tuas entranhas! Vomita, fogo! Alaga, chuva! A chuva, o vento, o trovão e o fogo não são minhas filhas. Elementos, eu não os acuso de ingratidão; nunca lhes dei reinos ou chamei de filhos, nunca me deveram obediência alguma. Portanto, podem despejar sobre mim o horror do seu arbítrio. Olhem, aqui estou eu, seu escravo, um pobre velho, débil, doente, desprezado. Mas continuo a chamá-los de cúmplices subservientes que se uniram a minhas duas desgraçadas filhas para lançar os batalhões do céu contra esta cabeça tão velha e tão branca.”

William Shakespeare, Rei Lear.

Essa tempestade reflete a confusão e o arrependimento que acontece dentro de Lear. 

Mas, durante toda a queda do rei Lear, é o seu bobo da corte quem o acompanha. E, como todo Trickster, ele usa humor, ironia e sarcasmo para dizer verdades que ninguém mais conseguia dizer. Ele ridiculariza o rei, expõe suas falhas e vai mostrando, ao longo de toda a peça, tanto para o rei quanto para nós, as ambiguidades e contradições da natureza humana. 

O bobo da corte também estava presente durante o monólogo que o rei proferiu na tempestade, e disse o seguinte:

“BOBO: Quem tem uma casa onde botar a cabeça tem um belo capacete.
Quem cuida mais da braguilha
Do que da própria virilha
Terá piolhos à beça
Na cabeça e na… cabéça.
Quem cuida mais do dedão
Do que do seu coração
Não dormirá mais, traído
Por um calo dolorido.
Pois nunca houve uma mulher bonita que não fizesse boquinhas diante do espelho. “

William Shakespeare, Rei Lear.

Antes disso, no começo da peça, quando Cordélia abandona o reino de Lear e ele se enfurece diante do que ela tinha dito, o rei pede ao bobo para que apareça na corte e lhe conforte. Ele, falando a verdade com um tom de humor, diz o seguinte sobre o comportamento do rei:

“BOBO: Camarada, vou te ensinar uns provérbios.
LEAR: Ensina.
BOBO: Presta atenção, titio:
Mostra menos os teus bens
No que sabes não te expandas
Empresta menos do que tens
Cavalga mais do que andas
Ouve na justa medida
Só arrisca o que não importa
Larga amantes e bebida
Tranca bem a tua porta:
E terás em cada vintena
Mais que o dobro da dezena. […]
LEAR: Estás me chamando de bobo, Bobo?
BOBO: Você abriu mão de todos os outros títulos; esse é de nascença […]
LEAR: Desde quando te encheste de canções, patife?
BOBO: Adquiri o hábito no dia em que transformaste tuas filhas em tuas mães;
arriaste os calções e deste a elas a vara de marmelo. (Canta)
E aí elas choraram de súbita alegria
E eu me pus a cantar só de tristeza
Vendo o rei cabra-cega em correria
Mais um Bobo entre bobos sem defesa.
Eu te peço, titio, arranja um professor que ensine teu Bobo a mentir. Gostaria tanto de aprender.”

William Shakespeare, Rei Lear.

O Bobo representa exatamente aquilo que falamos antes: a verdade disfarçada de astúcia que, se for ignorada, se transforma em tragédia. Tanto as duas filhas como o bobo são faces do trickster. As duas filhas e o bobo da corte manipulam o rei pela palavra; elas bajulando e o bobo instruindo, ou seja, a dupla personalidade do Trickster. O arquétipo também se revela no próprio rei Lear, que se engana profundamente quando confunde bajulação com lealdade. A capacidade de enganar a si mesmo com argumentos que parecem verdadeiros revela a possessão do arquétipo do Trickster. Ninguém precisou mentir diretamente para destruir Lear. Ele já estava predisposto a acreditar na sua ilusão sozinho.

É somente quando Lear perde tudo, o reino, as filhas, a sua coroa, e então enlouquece, que ele começa a enxergar as coisas, atestando mais uma vez o objetivo do trickster. Quando a estrutura falsa cai, a verdade finalmente aparece, só que de forma caótica. Foi assim com o mito de Hermes, Loki e com o Coiote. Primeiro, o trickster deixa a gente criar nossas próprias ilusões, para nos perdermos dentro dela, e só depois nos oferece a solução. Ele nos leva até o limite para ver se vamos dar um salto de fé no abismo e encontrar o ouro lá nas sombras. É por isso que ele está no limiar, na fronteira do mundo, dançando com a vida e com a morte.

O Trickster sempre está no início e no fim de toda a jornada e por isso o louco é a primeira carta do Tarô. O louco é uma das manifestações do arquétipo do trickster. No Tarô tradicional, o Louco é representado como alguém à beira de um precipício. Ele olha para o alto, e não para o chão. Carrega apenas uma pequena bagagem e está acompanhado de um cachorro. E parece completamente alheio ao perigo. Mas isso representa a abertura ao desconhecido, a capacidade de dar um passo sem garantias, como explica a autora Sallie Nichols:

“Em muitos baralhos de Tarô, o Louco aparece com um cachorrinho que o está mordiscando, como se quisesse comunicar-lhe algo […] De qualquer maneira, o Louco se acha em tão estreito contato com o seu lado instintual que não precisa olhar para onde vai no sentido literal: sua natureza animal guia-lhe os passos. Em algumas cartas do Tarô o Louco é retratado como se tivesse os olhos vendados, o que lhe enfatiza ainda mais a capacidade de agir antes por introvisão do que pela visão, utilizando a sabedoria intuitiva em lugar da lógica convencional.”

Sallie Nichols, Jung e o Tarô. 

Em outras palavras o Louco, e sobretudo o Trickster, representa as partes mais arcaicas da psique, ligada aos instintos, e que apesar do desenvolvimento da consciência, essas partes arcaicas ainda se apresentam e exercem uma enorme influência no ego. Por isso a força do Trickster pode ser tanto construtiva quanto autossabotadora. Ela está vinculada à nossa estrutura humana mais primitiva. Se nos afastarmos tanto assim da nossa natureza animal, dos instintos, vamos perder a via do sentimento e incorrer em racionalizações e paralisar o curso da vida. Mas se nos aproximarmos demais dos instintos, viveríamos como meros animais e perderíamos o contato com aquilo que nos diferencia de todos os outros animais, ou seja, nosso lado racional, espiritual e cultural. Sallie Nichols continua:

“O nosso louco interior nos empurra para a vida, onde a mente reflexiva pode ser supercautelosa. O que se afigura um precipício visto de longe pode revelar-se um simples buerozinho quando enfocado com a volúpia do Louco. Sua energia varre tudo o que estiver à frente, levando outras criaturas de roldão como folhas impelidas por um vento forte. Sem a energia do Louco seríamos meras cartas a jogar.”

Sallie Nichols, Jung e o Tarô.

O problema não é a energia do Louco. O problema é a falta de consciência ao usá-la. Quando você percebe o Louco de forma inconsciente, ele se manifesta como impulsividade, ou decisões mal pensadas, se tornando um ciclo repetitivo de erros. Você começa projetos sem terminar, entra em situações sem avaliar as consequências. Nesse sentido, o Trickster é bem parecido com o arquétipo do puer. Mas quando você se torna consciente das suas manifestações, você mantém a coragem de agir, só que com consciência. e mantém a leveza só que sem perder o compromisso com as coisas. Em geral, é o trickster que não nos faz esquecer as forças regressivas da própria psique. Não é porque a humanidade em geral conquistou a consciência que não estamos livres da força do inconsciente; nem de longe, como o próprio Jung explicou:

“A partir disso, seria compreensível a razão pela qual o mito do ‘trickster’ se manteve e desenvolveu: a exemplo de tantos mitos possuiria talvez um efeito psicoterapêutico. Ele mantém diante dos olhos do indivíduo altamente desenvolvido o baixo nível intelectual e moral precedente, a fim de que não nos esqueçamos do ontem. Supomos que algo incompreensível seja incapaz de ter um efeito positivo sobre nós. Não é o que sempre acontece. O ser humano raramente compreende apenas com a cabeça, e menos ainda se for um primitivo. O mito, graças à sua numinosidade, tem um efeito direto sobre o inconsciente, quer a consciência o compreenda ou não.”

Carl Jung, Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo.

É por isso que todo rei tem o seu bobo da corte. O rei, representando a consciência diferenciada, não pode se esquecer do inconsciente primitivo da onde essa consciência veio, como Sallie Nichols continua:

“Às vezes o Louco, retratado mais claramente como o equivalente do rei, apresenta-se com uma coroa. Simbolicamente, a coroa é um halo dourado, aberto em cima para receber a iluminação do alto, de modo que assim o rei como o louco são vistos recebendo a inspiração divina. E assim como o rei governava por direito divino, assim o seu equivalente tinha o direito igualmente de criticá-lo e oferecer-lhe sugestões desafiadoras.”

Sallie Nichols, Jung e o Tarô.

Um grande erro é achar que tudo advém do mundo externo, que somos condicionados apenas pelo meio em que vivemos, que somos determinados pelo ambiente. Mas quanto mais fechamos espaço para os mitos e para as manifestações religiosas em nossas vidas, abrindo espaço cada vez mais para a razão e para a ciência positiva, mais a sombra dentro de nós vai crescendo e fazendo pressão, e por consequência é projetada no mundo, acusando os outros de conteúdos que estão dentro de nós, formando assim as guerras, os as polarizações e as inúmeras disputas políticas. Jung explica que:

“A opinião desastrosa de que a alma humana recebe tudo de fora pelo fato de ter nascido tabula rasa é responsável pela crença errônea de que em circunstâncias externas normais o indivíduo está em perfeita ordem. Ele espera sua salvação do Estado e responsabiliza a sociedade por sua própria ineficiência. Pensa que o sentido da existência seria atingido se o seu sustento lhe fosse fornecido de graça a domicílio, ou se todos possuíssem um automóvel. Estas puerilidades e outras semelhantes ocupam o lugar da sombra que se tornou inconsciente, mantendo-a nesse estágio. Sob a influência desses preconceitos, o indivíduo sente-se dependente por completo do seu meio, perdendo a capacidade de introspecção.”

Carl Jung, Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo.

O trickster aparece para nos lembrar da imensa sombra coletiva que carregamos quando desconsideramos todos o legado psicológico da humanidade. Achamos que somos intelectualmente superiores porque não acreditamos mais em forças da natureza, espíritos ou em Deus; de que o mundo seria um lugar melhor quando o desenvolvimento acontecesse fora, por meio da técnica e do avanço científico. Mas o trickster aparece nesse momento como o mensageiro daquilo que foi reprimido. Ele aparece quando a ordem está rígida demais. Em sociedades que se dizem extremamente racionais, o Trickster aparece como caos emocional e impulsividade coletiva. Em culturas moralmente rígidas, ele surge como escândalos, hipocrisias expostas, comportamentos duplos. Os deuses da antiguidade não desapareceram, eles apenas trocaram de nome, e são chamados de síndromes, diagnósticos e transtornos. Tudo que é reprimido não desaparece completamente, apenas fica acumulado, esperando uma forma de se manifestar.

“O assim chamado homem culto esqueceu-se do Trickster. Lembra-se dele apenas de modo figurado e metafórico, quando, irritado pelos próprios desacertos, fala das brincadeiras dos kobolds [superstição] ou coisas parecidas. Ele nem suspeita que em sua própria sombra, escondida e aparentemente inofensiva, há propriedades cujo perigo nem de longe imagina. Quando as pessoas se reúnem em massa na qual o indivíduo submerge, essa sombra é mobilizada e – como demonstra a história – pode ser personificada ou encarnada.”

Carl Jung, Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo.

O Trickster além de ser o responsável pela nossa autossabotagem, também é a fonte da nossa criatividade e da nossa capacidade de adaptação. O problema nunca foi a existência dele, mas sim a falta de consciência sobre quando ele está no comando. O Trickster precisa de movimento. Ele precisa de espaço para quebrar padrões, para testar e explorar. Se você tentar viver uma vida completamente rígida, ele vai encontrar uma forma de escapar, e geralmente, da pior maneira possível. Mas se você cria espaços conscientes para testar limites, talvez ele pare de te sabotar um pouco. Ele passa a trabalhar a seu favor e não contra você.

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