O vídeo para você conhecer a si mesmo (Assista quantas vezes precisar)

Na agricultura, existe um princípio descoberto no século XIX pelo químico alemão Justus von Liebig que ficou conhecido como Lei de Liebig, ou Lei do Mínimo. Em síntese, ela diz que:

“O rendimento de uma colheita é limitado pela ausência de qualquer um dos nutrientes essenciais, mesmo que todos os demais estejam disponíveis em quantidades adequadas, onde o excesso de um nutriente não supre a falta de outro.”

Atribuída a Justus von Liebig.

Em outras palavras, uma planta só consegue crescer bem quando o solo oferece todos os nutrientes de que ela precisa, na quantidade certa. Se faltar um nutriente essencial, mesmo que todos os outros estejam disponíveis em abundância, o solo não consegue compensar essa falta. Aquele nutriente em menor quantidade se torna, então, o limite para o crescimento da planta. 

Observe essa imagem, que ficou conhecida como barril de Liebig. A tábua mais baixa, que ali está representada como a tábua do potássio, define o quanto de água o barril consegue reter. Ou seja, não basta ter ferro, zinco ou magnésio em abundância. Se um elemento essencial, como o potássio, por exemplo, estiver faltando ou em menor quantidade, o crescimento da planta ficará limitado justamente pelo nutriente em menor quantidade. Mas o que acontece é que o barril de Liebig é uma excelente metáfora para a nossa personalidade. 

Pense na sua personalidade como esse barril. Você pode ter uma função psicológica dominante muito forte. Pode ter passado anos refinando aquilo que mais combina com você. Mas, se uma ou algumas das suas outras funções psicológicas continuam abandonadas, primitivas, ressentidas ou até mesmo inconscientes, elas se tornam a tábua mais baixa na sua vida, e inevitavelmente o seu desenvolvimento individual fica limitado; e em muitos casos isso pode ser catastrófico. Para ilustrar isso, vamos usar como exemplo a história do clássico filme Anjo Azul, que está disponível no Youtube, inclusive.

No filme, um professor, já com anos de experiência dando aulas de língua inglesa e literatura, desenvolveu boa parte da sua vida funções cognitivas voltadas para essas competências. Seu pensamento e raciocínio são muito bem desenvolvidos por conta da sua profissão. No entanto, ele se apaixona por uma atriz de cabaré depois de descobrir que alguns alunos estavam com fotos dela na sala de aula. Mas a paixão cega leva o professor a negligenciar cada vez mais sua profissão, e ele acaba perdendo o emprego e, no final, se torna o palhaço assistente da atriz em seus shows. Pelo fato de ter negligenciado durante toda a vida seus sentimentos e se focar somente no pensamento acadêmico, suas emoções são caóticas e primitivas, e ele não sabia o que fazer quando elas apareciam, ficando sujeito a qualquer pessoa que mexesse com elas. 

O desenvolvimento pessoal não envolve apenas fortalecer aquilo que temos de melhor. Nós também precisamos olhar para aquilo que evitamos em nós mesmos. Os momentos mais importantes da nossa vida são decididos, muitas vezes, pelo nosso lado esquecido e inconsciente, e não pelo lado mais fortalecido. Para dar conta de uma verdadeira mudança é preciso se perguntar: “O que eu faço todos os dias?”

Talvez você tenha crescido, desde a infância, num ambiente onde fosse forçado a desenvolver apenas uma função psicológica. Talvez você tenha aprendido desde cedo a resolver tudo pela lógica, fortalecendo o seu pensamento. Você argumenta bem, organiza bem as ideias, toma decisões com base em evidências e se tornou um excelente acadêmico, ou um pesquisador, ou um bom funcionário. Isso pode ter trazido bons frutos. Mas se você precisar avaliar seus valores e suas relações, você pode se encontrar totalmente perdido. Durante toda sua vida, você percebeu o sentimento como fraqueza porque tinha que tomar decisões com base na frieza, e agora o sentimento aparece como ressentimento ou indiferença ou explosões emocionais fora do seu ambiente de trabalho, sendo descontados principalmente nos seus amigos ou familiares próximos.

Mas o mesmo pode acontecer com alguém guiado somente pelo sentimento. Você cresceu sendo um excelente comunicador; todos gostam de estar na sua presença e se tornou um ótimo advogado, ou uma excelente pedagoga ou um profissional da saúde. Mas, talvez quando você precisa pensar um pouco de forma objetiva, o pensamento aparece de forma rígida e acusatória, como se você, ao tentar ser racional, perdesse a delicadeza que normalmente possui. 

Carl Jung dizia que a unilateralidade da consciência gera compensações. Em outras palavras, quanto mais você empurra uma parte da psique para fora da sua identidade, mais essa parte tende a voltar por caminhos inconscientes. Mas antes de falarmos sobre as funções psicológicas, precisamos falar sobre as atitudes que as orientam. Basicamente, nossa atitude perante o mundo pode ser extrovertida ou introvertida. Isso foi demonstrado durante anos de pesquisa, em que Jung percebeu que esse dois tipos de atitudes marcam não só a nossa vida e nossa visão de mundo, mas também a natureza de forma geral. Ele escreve o seguinte:

“A natureza conhece dois caminhos fundamentais diferentes de adaptação que tornam possível a sobrevivência dos organismos vivos: um caminho é a enorme proliferação, mas com relativamente pouca força defensiva e curta duração de vida [a extrovertida]; o outro é a dotação do indivíduo com inúmeros meios de autoconservação, mas com relativamente pequena proliferação [a introvertida]. Parece-me que este contraste biológico não é apenas o análogo, mas o fundamento geral de nossos dois modos psicológicos de adaptação.”

Carl Jung, Tipo Psicológicos.

De forma geral, uma pessoa com atitude extrovertida tende a se orientar pela realidade objetiva, do mundo exterior. Ela observa o que está acontecendo fora de si mesma; ela responde ao ambiente e se adapta facilmente às circunstâncias. As pessoas, as oportunidades, os problemas, as tendências e os acontecimentos exercem forte atração sobre ela. Ela geralmente adere a opinião da maioria e sua visão de mundo é baseada nos padrões e na moral de algum grupo. Jung escreve que: 

“A extroversão se caracteriza pelo pendor para o objeto externo, abertura e boa disposição para o acontecimento externo, desejo de atuar sobre ele e de deixar-se envolver por ele, prazer e necessidade de estar junto e participar, capacidade de suportar movimento e barulho de qualquer espécie e, inclusive, encontrar satisfação nisso, e, finalmente, atenção constante ao mundo ambiente, cultivo e relacionamento com amigos e conhecidos, mas sem rigorosa seleção, grande importância ao modo de influir sobre o meio ambiente e, por isso, forte tendência de exibir-se. Sua cosmovisão e ética são, por isso, de natureza coletiva, com forte acento no altruísmo, e sua consciência depende em grande parte da opinião pública. As dúvidas morais só acontecem quando ‘os outros tomam conhecimento’. As convicções religiosas são determinadas, de certa forma, pela decisão da maioria.”

Carl Jung, Tipo Psicológicos.

Jung dá alguns exemplos de uma atitude extrovertida. Ele afirma que Santo Agostinho, por exemplo, não acreditaria nos evangelhos se a autoridade da Igreja não o obrigasse a isso. Uma filha teme fazer alguma coisa que possa desagradar ao pai. Alguém gosta de uma música porque todos a sua volta também estão escutando; acontece não raro que

alguém se case com certa pessoa só para agradar a seus pais, mas contra seu próprio interesse. Há pessoas extrovertidas que preferem se sujeitar ao ridículo só para agradar aos outros do que não serem notadas. De forma geral, a energia psíquica do extrovertido é voltada para o objeto, para fora, e não para o próprio sujeito.

Do outro lado, uma pessoa com atitude introvertida tende a se orientar primeiro pelo fator subjetivo. Isso não quer dizer que ela ignore o mundo externo, mas que a experiência externa passa por uma mediação interior mais intensa. A pessoa não se entrega imediatamente ao objeto. Ela preserva uma distância maior. Às vezes, o mundo externo parece excessivo ou invasivo, como Jung escreve: 

“O introvertido não vai ao encontro do objeto, mas está sempre em posição de retirada diante dele. Esta se mantém distante dos acontecimentos externos, não participa, tem acentuado desprazer social logo que se encontra em meio a grande número de pessoas. Em grandes reuniões, sente-se só e perdido. Quanto maior a quantidade, maior sua resistência contrária. De forma alguma gosta do ‘estar no meio’, e não tem nenhuma simpatia por reuniões entusiásticas. O que faz é sempre à sua maneira, eliminando totalmente influências externas. Sua aparência é desajeitada, parecendo, às vezes, inibido; acontece muitas vezes que, devido a certa rudeza, mau humor ou escrúpulo impróprio, ofenda as pessoas. Suas melhores qualidades ele as reserva para si e muitas vezes faz o possível para ocultá-las. Facilmente é desconfiado, teimoso, sofre de sentimentos de inferioridade e, por isso, às vezes é invejoso.”

Carl Jung, Tipo Psicológicos.

De modo geral, a energia psíquica, ao invés de ser voltada para o objeto, no introvertido, se volta para o próprio sujeito. Mas isso tudo não significa que o extrovertido não seja reservado e o introvertido não seja comunicativo. Um extrovertido pode ser reservado, mas ainda assim orientar suas decisões pela resposta do ambiente, pela ação concreta, pela aprovação externa ou pelos fatos objetivos. Um introvertido pode falar muito, dar aulas, criar conteúdo, liderar pessoas, mas sua orientação principal continuar sendo interna: ele fala a partir de uma elaboração subjetiva, de uma visão própria, de uma fidelidade ao que percebe dentro de si.

Outro coisa que precisa ser desmistificada é a questão da determinação. Ninguém é totalmente introvertido ou totalmente extrovertido. Isso significa que todos nós temos capacidade de voltar-nos para fora e para dentro. A diferença está na predominância. Quando uma atitude se torna habitual, ela passa a organizar a personalidade de modo mais constante. A pessoa aprende a confiar mais em uma direção da energia psíquica e, com o tempo, pode se tornar unilateral. Se a atitude consciente for introvertida, por exemplo, a atitude inconsciente será extrovertida, pois a psique sempre visa o equilíbrio e a compensação. Mas já que a atitude inconsciente não é percebida, ela pode sabotar e confundir nossa atitude consciente. O extrovertido, por exemplo, pode se perder no excesso de adaptação. Ele responde tanto ao mundo, às pessoas, às oportunidades e às pressões externas que começa a se afastar da própria interioridade. Em casos assim, a pessoa está sempre fazendo, respondendo, opinando, resolvendo, aparecendo ou reagindo, mas tem dificuldade de permanecer em silêncio diante de si mesma.

Quando essa pessoa é obrigada a parar, surge um desconforto intenso, pois sua atitude introvertida inconsciente está fazendo pressão na consciência. O vazio interno, antes abafado pelo contato com o mundo, começa a aparecer. Isso acontece porque a consciência ficou treinada demais para buscar referência fora e pouco treinada para sustentar uma relação íntima com o próprio interior.

O introvertido unilateral enfrenta o risco oposto. Ele pode se prender tanto às próprias impressões, às idéias, aos sentimentos internos ou imagens subjetivas que começa a perder contato com a realidade objetiva. O mundo externo passa a ser percebido como ameaça ou como vulgaridade. A pessoa se protege demais e pode ter dificuldade de agir, de se expor, de testar suas ideias na realidade. No geral, todo introvertido queria ser um pouco extrovertido e todo extrovertido, um pouco introvertido. Uma passagem de Franz Kafka ilustra magistralmente a angústia do introvertido, sendo o próprio Franz Kafka um introvertido:

“Quem quer que leve uma vida solitária, e vez por outra deseje vincular-se a algum lugar; seja quem for que, de acordo com as variações das horas do dia, do tempo, da situação do seu trabalho ou de algo semelhante, de súbito anseie por um braço qualquer, ao qual possa de algum modo se agarrar – ele não seria capaz de aguentar por muito tempo sem uma janela que se abrisse para a rua.”

Franz Kafka, Na Colônia Penal.

Bom, e além das atitudes psicológicas pelas quais a energia psíquica ganha expressão – o movimento em direção ao sujeito, no introvertido, ou para o objeto, no extrovertido – temos também as funções psicológicas pelas quais nos orientamos no mundo. As funções psicológicas são maneiras de percepção pelas quais entendemos as coisas. Porque, quando observamos a vida cotidiana, percebemos que nem todos se relacionam com os fatos da mesma maneira. Algumas pessoas precisam compreender logicamente antes de agir. Outras precisam sentir se algo está ou não alinhado com seus valores. Outras confiam no que é concreto, visível, prático e verificável. E outras captam possibilidades, tendências e significados antes mesmo de conseguir explicá-los com clareza. Jung identificou, então, quatro funções psicológicas: o pensamento, o sentimento, a sensação e a intuição.

Começando então pela função pensamento. É através dela que somos capazes de organizar a realidade por meio de conceitos, de relações lógicas, de critérios ou de juízos. Se fôssemos sintetizar a função pensamento em algumas perguntas de orientação seriam essas: “Isso faz sentido? É coerente? Qual é a causa disso? Qual é a consequência? Qual é a estrutura por trás desse problema?” Quando a função do pensamento é bem desenvolvida, ela ajuda a pessoa a tomar decisões com clareza, separar fatos de emoções momentâneas e construir uma visão mais objetiva das situações. Jung escreve que:

“Na sua forma mais simples, o pensamento exprime o que uma coisa é. Dá nome a essa coisa e junta-lhe um conceito, pois pensar é perceber e julgar.”

Carl Jung, A Vida Simbólica.

A segunda função é a do sentimento, mas não devemos confundir sentimento com emoção nem com afeto. Essa é uma confusão muito comum. Emoções ou afetos são reações frente às situações. Elas produzem alterações físicas e hormonais imediatas de acordo com as situações. O sentimento, no modelo de Jung, é uma forma de avaliar as situações. Uma pessoa com o sentimento desenvolvido percebe nuances nas relações e consegue avaliar o impacto humano de uma decisão. É como se ela se perguntasse: “Isso é bom para mim?”, “Isso me aproxima ou me afasta de algo ou de alguém?”. De outro modo, Jung escreve que:

“O sentimento nos informa, através da carga emocional, acerca do valor das coisas. É ele que nos diz, por exemplo, se uma coisa é aceitável, se ela nos agrada ou não. Ele nos diz o que é de valor para nós. Devido a este fenômeno não podemos perceber ou aperceber sem uma determinada reação sentimental.”

Carl Jung, A Vida Simbólica.

A terceira função, a da sensação, é a função que se relaciona com as coisas concretas. A sensação nos dá o senso de realidade, do presente momento, do corpo, dos detalhes, dos fatos e das condições reais. Sem ela, viveríamos presos em abstrações. É a função que percebe se o ambiente está organizado, se uma tarefa foi executada, se há dinheiro suficiente, se o corpo está cansado, se o alimento tem sabor, se o chão existe debaixo dos pés. Em outras palavras, ela nos informa que as coisas são.

E por último temos a função da intuição, que percebe possibilidades. Para Jung, essa é a função mais misteriosa de todas, porque ela realmente tem um quê de misticismo. Não há como explicar muito a função da intuição, mas é através dela que podemos antecipar muitos eventos que podem ou não acontecer. Ela conecta sinais dispersos e imagina futuros possíveis, nos dando criatividade e nos fazendo perceber padrões. Jung escreve que:

“Tudo tem um passado e um futuro; tudo procede de um lugar, e se encaminha para outro. E é impossível saber qual seja essa origem e essa destinação, a menos que se tenha o que vulgarmente é chamado ‘palpite’. Se suas atividades se relacionarem ao ramo artístico ou ao de venda de móveis antigos, você pode ‘ter um palpite’ de que determinado objeto pertence a um grande mestre de 1720, pressentindo ser esse um bom trabalho. Ou, então, não saber como se comportará a bolsa de valores, mas ter um palpite de que subirá. A isso se chama intuição, uma espécie de faculdade mágica, coisa próxima da adivinhação, espécie de faculdade miraculosa.”

Carl Jung, A Vida Simbólica.

Dessas quatro funções, duas delas, a do pensamento e a do sentimento, são chamadas de funções racionais. E as funções sensação e intuição são chamadas funções irracionais. Mas o termo irracional não significa que elas são ilógicas ou sem razão. A sensação e a intuição não dependem da lógica para atuarem. A sensação capta simplesmente as coisas como são, e da mesma forma a intuição, que existe por si só, sem precisar da razão. 

Você também deve estar surpreso da função sentimento ser uma função racional, ao lado do pensamento. Isso porque, como eu havia dito, o sentimento é uma função que avalia as coisas de que gostamos ou não, e isso só é feito por um processo reflexivo que culmina num juízo particular sobre as coisas. 

E uma outra coisa importante de ser dita é que todos nós temos as quatro funções psicológicas. No entanto, devido às circunstâncias da vida ou pelas exigências da sociedade, sempre vamos desenvolver uma função mais do que todas as outras três. E essa função mais desenvolvida é a chamada dominante. Sabemos que uma função é dominante quando seu uso é controlado pela nossa própria vontade. Quando há uma decisão a tomar, é por ela que a pessoa tenta se orientar. Quando a realidade se torna incerta, é nela que a pessoa busca uma certa segurança. 

Uma pessoa de pensamento dominante, por exemplo, tende a buscar tudo pela lógica, pelos princípios, pelas evidências, pelas causas e consequências. A pessoa com o sentimento dominante tende a buscar tudo que a faça se sentir bem. A pessoa com a sensação dominante não consegue viver sem rotina, por exemplo. E a intuição dominante faz com que a pessoa pense em diversas possibilidades e caminhos possíveis. Ela não se preocupa com os detalhes.

Mas tudo que tende somente para um lado, pode acabar gerando consequências desagradáveis. Se somente nos guiarmos pela função dominante, vamos enrijecer nossa personalidade e acabar nos tornando imaturos. Ela isola o sujeito na sua própria visão de mundo e pode fazer com que ele se veja perdido diante de algumas situações que aquela função não dá conta de passar. Então, se você está se sentindo estagnado, talvez você não deva olhar para a sua função dominante, mas para as outras funções, que são chamadas de auxiliares, relativas à função dominante que se esgotou diante de alguma situação.

Só que, por consequência de uma função ser mais dominante, inevitavelmente a função da mesma categoria se torna uma função inferior. Não é possível termos duas funções racionais dominantes ou duas funções irracionais dominantes, ou mesmo duas funções dominantes. Se a sua função dominante for a do pensamento, a função inferior será o sentimento, pois é da mesma categoria, uma função racional. Se a sua função dominante for a intuição, então a função inferior será a sensação, pois ambas são irracionais. Logo, as funções auxiliares sempre são as funções da categoria oposta a da função dominante. Para deixar mais claro, a imagem que está aparecendo na tela mostra um exemplo da função dominante, das duas funções auxiliares e da função inferior em relação à dominante.

Não é possível que a sensação e a intuição sejam dominantes, por exemplo, pois não é possível que tenhamos uma plena consciência dos fatos exteriores e interiores da mesma maneira. Portanto, aqui mostra que a função intuição é a dominante, então a função sensação será a função inferior, que é da mesma categoria que a intuição, uma função irracional. E em relação a esse exemplo, a função do pensamento e sentimento serão as funções auxiliares, pois são da categoria oposta, das racionais.

Para ilustrar o exemplo da imagem, cuja função dominante é a intuição, podemos imaginar uma pessoa que, no trabalho, costuma ser a pessoa que tem ideias novas antes dos outros. Ele percebe oportunidades em projetos que ainda parecem confusos. Consegue imaginar uma empresa crescendo ou uma carreira mudando de direção. Se você perguntar para ele como ele conseguiu pensar nessas coisas, talvez ele não consiga responder. Mas como sua função dominante é a intuição, sua função sensação é a inferior. Então ele esquece prazos facilmente, subestima o tempo necessário para executar tarefas, ignora sinais de cansaço do próprio corpo, deixa a mesa desorganizados e se irrita quando alguém insiste para que mostre detalhes do projeto. Para ele, os detalhes parecem justamente obstáculos diante da sua intuição. Mas como o seu pensamento e seu sentimento são auxiliares, ele pode desenvolver estratégias e desenvolver relacionamentos que o auxiliem a colocar sua intuição em prática. Mas sua principal autossabotagem na vida está justamente na função inferior, que, se seguirmos a analogia do começo do vídeo, é o fator limitante. E se soubermos olhar para ela com mais atenção, vemos que ela pode ser a possível causa da precepçãp de estagnação na vida.

A função inferior é a parte de nós que não acompanha o nível de desenvolvimento da nossa consciência. Podemos ser competentes em muitas áreas, mas ainda assim existir dentro de nós uma região psíquica pouco amadurecida, que aparece justamente nos momentos de pressão ou desajuste, como se tivesse vida própria. Jung escreve que:

“[…] a natureza da função inferior é caracterizada pela autonomia; é independente, ela nos acomete e nos fascina, a ponto de deixarmos de ser donos de nós mesmos e não nos distinguirmos mais exatamente dos outros. Mesmo assim, é necessário para o desenvolvimento do caráter que esse outro lado, justamente essa função inferior, também possa manifestar-se.” Carl Jung, Psicologia do Inconsciente.

É por isso que a função inferior costuma ser vivida como algo estranho. Quando a função inferior aparece no nosso comportamento, é como se sentíssemos que não somos nós. O indivíduo racional pode sentir vergonha ou desconforto quando estiver em público. O indivíduo sentimental pode se assustar com pensamentos de vingança ou muito analíticos que aparecem quando se sente traído ou frustrado. O indivíduo sensorial pode ser tomado por fantasias, medos ou pressentimentos que não sabe como organizar. O indivíduo intuitivo pode se sentir esmagado por exigências concretas do dia a dia, como a rotina, a educação financeira, os prazos e outros detalhes. A função inferior tem um caráter paradoxal porque, de início, ela parece fraca, mas pode exercer um enorme poder sobre a vida. Pelo fato dela estar mais próxima do inconsciente, ela carrega uma intensidade emocional muito grande, e por isso ela descompensa nossas reações e atitudes conscientes.

A função inferior está muito associada com o arquétipo do trickster, justamente porque ela é imprevisível e parece concluir as coisas ao seu modo. Nos contos de fadas, a função inferior geralmente se manifesta através daquele personagem que é deixado para trás ou que é aparentemente menos desenvolvido, mas que na verdade carrega um enorme potencial. O patinho feio, por exemplo, que na verdade estava deslocado porque descobriu que não era um pato, mas um cisne. Um conto de fadas nórdico mostra a história de um herói chamado Ivan, que é tido como o mais bobo entre os filhos do rei, mas é precisamente ele quem herda o reino de seu pai. A psicoterapeuta Marie-Louise von Franz escreve que:

“[…] se estudarmos casos individuais, veremos que a função inferior tende a se comportar à maneira desse herói ‘bobo’, o bobo divino ou herói idiota, que representa a parte desprezada da personalidade, a parte ridícula e inadaptada, mas que também é a parte que cria a conexão com a totalidade inconsciente da pessoa.”

Marie-Louise von Franz, Psicoterapia. 

Pelo fato da função inferior ser mais primitiva, ela está mais próxima dos instintos do que as outras funções. E por isso também que nos contos de fadas o animal está associado com a função inferior. O animal muitas vezes é quem sabe o caminho, quem ajuda o herói ou quem revela uma verdade. Sempre que um herói ajuda um animal, ele, de alguma forma, volta para ajudar o herói em sua caminhada, pois o instinto do animal se demonstra bem mais eficaz que a consciência racional para muitos aspectos. A função inferior é animalizada porque ela é menos socializada e menos controlada, mas também porque carrega uma energia vital que a consciência perdeu.

Existem algumas características para identificar a função inferior. A primeira delas é a de que ela não está adaptada à sociedade. A função dominante permite com que façamos as coisas de modo mais eficaz e quase sem nenhuma dificuldade, mas a função inferior é age ao seu modo e quase que totalmente fora do nosso campo de consciência. Se alguém com a função dominante do pensamento quiser entender seus sentimentos, ele vai precisar ficar muito tempo parado para tentar compreender qual emoção está sentindo. Se um tipo intuitivo quiser executar uma tarefa manual aparentemente simples, ele terá que prestar bastante atenção às instruções e provavelmente vai voltar desde o começo várias vezes, pois ele se perde em detalhes e em execuções sequenciais. 

Mas existe um lado positivo na lentidão da função inferior: ela nos prepara para o envelhecimento, o momento onde nossa energia vital dá uma abaixada e precisamos diminuir o ritmo. Talvez realmente precisamos perder mais tempo, sem apressar as coisas, como explica Marie-Louise:

“Assim, essa lentidão da função inferior não deve ser tratada com impaciência nem tentativa de educar a ‘maldita função inferior’: em vez disso, devemos realmente aceitar o fato de que, nessa esfera, temos de desperdiçar nosso tempo, e que esse é exatamente o valor dela, porque confere ao inconsciente a necessidade de se fazer presente.”

Marie-Louise von Franz, Psicoterapia.

Outra característica da função inferior é a sua alta sensibilidade e tirania. Quando a função inferior aparece na consciência, a pessoa se torna sentimentalista e infantil, desajeitada ou afobada. Se você fizer uma crítica para uma pessoa com o sentimento dominante, ela ficará com aquilo na cabeça por várias semanas e aumentará ela mesma ainda mais as críticas, beirando a uma histeria. Se um tipo sensação tiver um pressentimento ruim, ele será tomado pelos mais assombrosos pensamentos de catástrofe e premonições, pois a intuição, sua função inferior, vem com muita força. Marie-louise continua:

“Este é um caso do que sempre acontece com a função inferior da maioria das pessoas. Elas tiranizam o seu ambiente imediato sendo melindrosas, porque toda sensibilidade é uma forma de tirania. As pessoas sensíveis são simplesmente tirânicas – todas as outras têm de se adaptar a elas, em vez de elas tentarem se adaptar aos outros.”

Marie-Louise von Franz, Psicoterapia. 

Portanto, para detectarmos nossa função inferior, precisamos nos perguntar onde reagimos como se tivéssemos menos maturidade do que nós temos em outras áreas da vida. Essa pergunta costuma apontar para a função inferior. Há pessoas brilhantes profissionalmente que se tornam adolescentes bobinhos no amor. Há pessoas afetivamente cuidadosas que se tornam rígidas e simplistas em discussões lógicas, reduzindo tudo a oito ou oitenta. Há pessoas práticas que se desesperam diante de mudanças simbólicas da vida. Há pessoas visionárias que se perdem diante de compromissos básicos do dia a dia.

Outro ponto interessante para tratarmos nossa função inferior é parar de terceiriza-la. É comum buscarmos no outro aquilo que não desenvolvemos em nós. Isso pode aparecer em relacionamentos, amizades, nas áreas profissionais e etc. A pessoa que não sabe lidar com detalhes pode se apoiar sempre em alguém mais prático. Quando entregamos permanentemente uma parte da nossa psique a outra pessoa, ficamos vulneráveis, infantis e ressentidos. O outro assume um poder sobre nós, não porque ele quer, mas porque estamos entregando uma parte nossa para ele carregar.

Mas para fazer tudo isso, não podemos atacar a função inferior diretamente, isso nunca funciona porque é como se estivéssemos mexendo num vespeiro. Precisamos desenvolver nossas duas funções auxiliares para alicerçar o caminho em direção a função inferior, processo esse que é feito de maneira lenta e gradual. Marie-Louise escreve que:

“Tentar puxar para cima a função inferior seria como tentar trazer para cima todo o inconsciente coletivo, que é algo que simplesmente não podemos fazer. O peixe seria grande demais para o caniço e, se o pegarmos, o que faremos com ele? Deixaremos que vá embora de novo? Se o fizermos, nós regredimos! Mas se não cedermos, o peixe nos puxará para dentro d ‘água.”  

Marie-Louise von Franz, Psicoterapia. 

Por isso que, sendo a nossa parte primitiva, a função inferior deve ser compreendida a partir do que Jung chama de Cortesia da Selva. É uma expressão usada para descrever uma atitude muito comum nos contos de fadas: o herói da história, ao tratar com respeito aquilo que parece pequeno, inferior ou sem importância, ele, consequentemente , vai receber uma grande ajuda depois. Isso aparece quando o personagem encontra um animal e poderia desprezá-lo, mas escolhe alimentar ou escutar aquele ser. Mais tarde, justamente esse animal retorna e ajuda o herói a cumprir uma tarefa impossível. Essa cortesia simboliza a atitude correta do ego diante do inconsciente e dos instintos. A função inferior costuma aparecer como algo desajeitado e animalizado da nossa personalidade. Se o ego a despreza, ela vai voltar como autosabotagem, compulsão, medo,  impulso e assim por diante. Mas, se o ego se relaciona com ela com respeito, ela se torna uma das nossas principais fontes de vida. Marie-Louise von Franz escreve que:

“Diria que a única maneira de nos relacionarmos no nível da função inferior é através do que Jung chama de cortesia da selva. Na selva, quando as pessoas se encontram, elas param dez metros uma da outra e baixam ostensivamente as lanças para mostrar que não têm intenções agressivas. […] Tudo isso é bastante semelhante à maneira como se aproximam um do outro os animais que não se conhecem. Eles olham de longe, avançam um pouco, param de novo, e depois tentam ler nos olhos do outro o que ele vai fazer. Fazemos exatamente a mesma coisa! Tão logo caímos na função inferior, nós nos comportamos como pessoas primitivas com relação uma à outra e, por conseguinte, precisamos de todos os rituais que as pessoas primitivas usam quando se encontram.”

Marie-Louise von Franz, Psicoterapia.

A cortesia da selva é a capacidade de respeitar os instintos e as partes inferiores da psique, em vez de tentar dominá-los ou destruí-los. É a humildade do ego diante de uma inteligência mais antiga, natural e inconsciente.

Bom, e depois de compreender as atitudes de introversão e extroversão, e depois de conhecer as quatro funções psicológicas, nós podemos, dessa forma, entender que o tipo psicológico nasce da combinação entre a direção da energia psíquica oferecida pelas atitudes introvertida e extrovertida, e a função psicológica que a consciência mais utiliza para se orientar na vida. A personalidade consciente de uma pessoa se organiza quando uma das quatro funções passa a atuar dentro de uma determinada atitude, a introvertida ou a extrovertida. Por isso, uma pessoa pode ter pensamento introvertido ou pensamento extrovertido; sentimento introvertido ou sentimento extrovertido e assim por diante para as outras funções; Se a função dominante for extrovertida, a função inferior será introvertida, e vice-versa, pois, lembre-se, a psique sempre busca o equilíbrio e a compensação. A partir disso, é possível, então, um total de 8 combinações envolvendo a atitude e as funções, que nos levam a 8 tipos de personalidades diferentes.

O tipo pensamento extrovertido volta suas reflexões para os dados objetivos da realidade, para as circunstâncias externas. O pensamento extrovertido, já que é voltado para fora, se preocupa com fatos e análises das evidências. É nessa função psicológica que se encontram os políticos, os pesquisadores, os filósofos e os empresários bem-sucedidos. Porém, é nesse tipo que também podemos encontrar os fanáticos religiosos, os políticos oportunistas e os tiranos e ditadores. A função inferior do pensamento extrovertido é o sentimento introvertido, e por isso, esse tipo tende a ser hipersensível, mesquinho e desconfiado, já que não sabe muito bem qual sentimento está se passando dentro dele, e tudo que é inconsciente dentro de nós, ou desconhecido, tende a ser projetado no mundo e nos outros.

O tipo sentimento extrovertido é o tipo que consegue fazer amizade com facilidade e sempre consegue deixar o ambiente mais leve e agradável. Já que sua orientação é voltada para fora, a vida social do sentimento extrovertido importa muito para ele. Ele vai à festas, teatros, igrejas, sempre está nas reuniões do trabalho, envia presentes em datas comemorativas e principalmente celebra o dia do aniversário. No entanto, se o sentimento extrovertido se deixar levar muito pelo objeto, ele começa a parecer bajulador e desagradável. E pelo fato do pensamento estar introvertido nesse tipo como função inferior, suas reflexões podem se tornar catastróficas e depreciativas se não forem elaboradas, ao ponto do sentimento introvertido pensar que ninguém dá a ele o devido valor que merece ou de que não conseguirá progredir na vida.

O tipo sensitivo extrovertido é a pessoa que é orientada para a realidade objetiva e por isso possui um enorme vínculo com os sentidos sensoriais. Eles são quase que especialistas nos detalhes da vida: conseguem perceber nuances quando chegam nos lugares, têm enorme facilidade para montar e aprender coisas novas, gostam de organização e de rotina. Nos relacionamentos, o toque e os atrativos físicos do parceiro são o mais importante para ele. Mas como o sensitivo extrovertido se orienta muito pelas coisas palpáveis e objetivas, sua intuição introvertida o faz ter medo e receio de coisas abstratas, e é por isso que ele pode pensar o pior de quase tudo no futuro, tem ataques de ansiedade, pressentimentos negativos, pensamentos de desconfiança e ideias catastróficas sobre a própria vida.

O tipo extrovertido intuitivo condiciona suas intuições e percepções através do mundo exterior. Ele percebe aspectos do mundo que não são percebidos pelas outras funções. Por isso que são ótimos especuladores, apostadores ou visionários. Ele está mais no futuro do que no presente e por isso conseguem imaginar coisas prontas antes mesmo de serem feitas. O seu principal problema está na sua função inferior, a sensação introvertida. Eles raramente terminam o que começam e se vêem aprisionados quando precisam se preocupar com detalhes de qualquer coisa, como relatórios, redações e montagem de qualquer coisa. Não são tão bons com julgamentos e podem parecer insensíveis pois não se preocupam com os detalhes de uma conversa que poderia fazer diferença para o outro.

Esses foram os quatro tipos psicológicos com a atitude extrovertida, ou seja, são pessoas que se orientam através das informações do mundo, das coisas fora delas mesmas. Agora, os tipos introvertidos, que se orientam pelas informações subjetivas, vindas de dentro.

O tipo pensamento introvertido se preocupa mais com a teoria do que com a prática. Já que sua orientação é introvertida, eles tendem a ser muito perfeccionistas e detalhistas. Quando escrevem, se preocupam em deixar os termos bem definidos e o mais claros possíveis. São excelentes contadores de histórias, tem muita facilidade para aprender outras línguas e são muito difíceis de serem influenciados por opiniões opostas. E pelo fato da sua função inferior ser o sentimento extrovertido, eles tendem a ser muito desajeitados em tudo que diz respeito a relacionamentos. Usam os clichês mais bregas e as declarações de amor mais infantis e melosas possíveis, sendo por isso muito pegajoso e dependente do parceiro. Esse tipo é o exemplo do professor no filme o Anjo Azul, do começo do vídeo.

O tipo sentimento introvertido é muito diferente do tipo sentimento extrovertido. Eles são tímidos e não buscam se destacar nem se exibir. Evitam festas e lugares aglomerados porque não conseguem processar muitas coisas ao mesmo tempo. Mas uma coisa interessante é que o comportamento desse tipo influencia todos ao seu redor. Pelo fato de serem comportados, eles exibem um sistema de valores internos que contamina todos a sua volta e elas passam a se comportar decentemente na presença dela. Só que, a sua função inferior, o pensamento extrovertido, muitas vezes o leva a achar que ele sabe o que as outras pessoas estão pensando e por isso eles podem ter vontade de ditar ordens e criar regras para os outros conviverem com eles. Se o pensamento extrovertido não for elaborado, o tipo sentimento introvertido pode se tornar egocêntrico e cada vez mais inacessível para os outros. 

O tipo sensitivo introvertido, assim como o tipo pensamento introvertido, é muito detalhista, mas dessa vez para percepções dos objetos que mais lhe interessam, e não para abstrações e fantasias. Eles podem se tornar excelentes desenhistas, pintores e arquitetos. Em geral são pessoas muito calmas na aparência e não esboçam quase nenhuma reação diante de um fato que para todos os demais seria impressionante. E se a função inferior do sensitivo extrovertido tinha sua intuição voltada para dentro, a do sensitivo introvertido tem a intuição voltada para fora, e por isso, se for não elaborada e cuidada, seus pressentimento se tornam visões catastróficas não dele próprio, mas dos outros. O sensitivo introvertido tem uma forte inclinação a fantasias sombrias sobre a sua família, seus parceiros ou sobre o mundo como um todo. Isso pode levar a se desesperançar das coisas e não mover esforços para ajudar os outros.

E o último tipo, o intuitivo introvertido, é talvez o tipo mais excêntrico de todos. É nesse tipo que estão os profetas, os xamãs, os poetas e, em muitos casos, os santos. Eles não tem muitas habilidades de comunicação e parecem sempre falar por enigmas e dificilmente conseguem concluir algum raciocínio. A sua sensação extrovertida como função inferior faz com que esse tipo se perca facilmente no mundo: esquecem facilmente caminhos, raramente aparecem na hora certa para compromissos, esquecem coisas onde largaram, são péssimos de memória e podem permanecer indiferentes e desinteressados por qualquer coisa manual.

Mas aqui precisamos tomar muito cuidado. Essas combinações não devem ser entendidas como caixinhas fechadas. Jung não estava tentando transformar seres humanos em categorias fixas, como se cada indivíduo pudesse ser resumido pelo seu tipo psicológico. Ele estava tentando compreender o modo como a consciência se organiza preferencialmente. A atitude mostra para onde a energia tende a se mover. A função mostra por qual via a pessoa costuma compreender a realidade. Só que, de acordo com as circunstâncias da vida, nossa atitude consciente muda, bem como nossa função dominante também pode mudar. Em minha análise pessoal, por exemplo, atualmente, eu talvez seja um intuitivo extrovertido, com a função sensação introvertida inferior e a função do sentimento introvertida como auxiliar. Mas esse tipo pode mudar conforme minhas próprias circunstâncias e exigências, tanto internas quanto externas.

Essa visão é muito importante para o nosso tempo, porque hoje muitas pessoas buscam testes de personalidade esperando encontrar uma resposta definitiva sobre quem são. Um teste pode até oferecer uma hipótese inicial, mas ele não substitui o autoconhecimento. Você não descobre seu tipo psicológico apenas marcando alternativas em um questionário. Você começa a compreendê-lo observando a própria vida. Como você reage quando está sob pressão? O que você evita? O que você despreza nos outros? Que tipo de situação drena sua energia? Onde você se sente naturalmente competente? Onde você se torna infantil, rígido, impulsivo ou inseguro? Que padrão se repete nas suas escolhas, nas suas relações, nos seus conflitos e nas suas defesas?

Marie-Louise von Franz observa que o desenvolvimento unilateral começa cedo, porque tendemos a fazer com mais frequência aquilo que fazemos bem, enquanto evitamos o que nos causa insegurança. O tipo psicológico deve servir como um mapa, mas você não pode se prender a ele. Ele ajuda você a perceber sua direção natural, mas também mostra o lado que você deu menos atenção. No fim, o melhor caminho para compreender seu tipo não é procurar uma resposta definitiva fora de si, mas desenvolver uma relação mais atenta com sua própria experiência. Somente o exame constante da própria vida revela, com profundidade, como sua consciência realmente funciona.  

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