Como se tornar você mesmo
Transcrição do vídeo
“Graças a Deus sou Jung, e não um junguiano.”
Frase dita por Carl Jung à Barbara Hannah, sua discípula.
Pode-se dizer que a vida começa, em sentido simbólico, muito depois de alguém nascer. O despertar da consciência, de perceber quem somos e o que estamos fazendo aqui, geralmente começa depois de um confronto, seja com algo externo, do mundo, ou interno, dos nossos afetos e questões pessoais mal resolvidas. O confronto é o que inaugura a consciência e o que nos permite diferenciarmos dos outros e do mundo. Em outras palavras, o verdadeiro despertar da consciência perante a própria vida é sempre um ato de desobediência diante de uma ordem vigente.
Existe um conto dos irmãos Grimm chamado “A Serpente Branca”. A personagem é apenas um servo de um rei. Todos os dias, depois do jantar, o servo leva ao rei uma travessa fechada e recebe a ordem de sair do aposento. Ninguém sabe o que existe dentro dessa travessa.
E durante algum tempo, o servo apenas obedece a ordem. Mas um dia, dominado pela curiosidade, ele leva a travessa para o próprio quarto e levanta a tampa. Dentro dela encontra uma serpente branca. O servo, então, corta um pequeno pedaço da serpente e o come. Imediatamente, o servo começa a compreender a linguagem dos animais, ou seja, o aspecto intuitivo da natureza.
E é assim que o processo de individuação muitas vezes começa: com um ato de desobediência.
Individuação é o processo pelo qual a pessoa se torna psicologicamente mais inteira, diferenciada e consciente de sua própria singularidade. Ela não significa tornar-se “individualista” ou afastar-se dos outros. A individuação é o processo de desenvolver uma personalidade que não esteja totalmente subordinada às expectativas sociais, aos papéis coletivos ou mesmo aos conteúdos vindos do inconsciente. Em termos simples, é o movimento de tornar-se quem se é, integrando aspectos da personalidade que antes estavam inconscientes ou que foram projetados no mundo. Jung define a individuação da seguinte forma:
“A individuação, em geral, é o processo de formação e particularização do ser individual e, em especial, é o desenvolvimento do indivíduo psicológico como ser distinto do conjunto, da psicologia coletiva. É, portanto, um processo de diferenciação que objetiva o desenvolvimento da personalidade individual. É uma necessidade natural; e uma coibição dela por meio de regulamentos, preponderante ou até exclusivamente de ordem coletiva, traria prejuízos para a atividade vital do indivíduo. A individualidade já é dada física e fisiologicamente e daí decorre sua manifestação psicológica correspondente.”
Carl Jung, Tipos Psicológicos
Sim, a individuação é um impulso natural, uma tendência inata do ser humano a descobrir-se e separar-se do todo ou de um conjunto. E a separação sempre será interpretada como um ato de desrespeito, só que necessário. Naturalmente, isso não significa que o amadurecimento psicológico exija desrespeitar qualquer limite ou agir impulsivamente. A desobediência é bem mais simbólica que isso. Ela representa o momento em que o indivíduo pára de aceitar passivamente aquilo que lhe foi entregue e procura conhecer a realidade por experiência própria. O mito bíblico de Adão e Eva inaugura o despertar da consciência a partir da desobediência perante a ordem vigente, de Deus. Da mesma forma que o servo do conto dos irmãos Grimm despertou sua consciência deixando sua posição de servo, Adão e Eva despertaram a consciência se separando do todo com Deus. Não há como dizer o porquê a serpente apareceu no paraíso senão que foi algo que deveria acontecer porque a consciência e a individuação são inevitáveis.
Até então, o criado do conto dos irmãos Grimm vivia sob a autoridade do rei. Ele transportava o segredo, mas não participava dele. Ao provar da serpente, passa a ter acesso direto ao conhecimento que antes pertencia apenas ao soberano. Ele para de receber a verdade de uma autoridade externa e começa a escutar uma autoridade interior.
Essa passagem é decisiva também na nossa vida psicológica. Durante a infância, precisamos acreditar em quem cuida de nós. Recebemos da família, da escola, da religião e da cultura respostas sobre o que é certo, errado, desejável ou perigoso. Essa estrutura inicial é necessária, porque uma criança não possui recursos para construir sozinha uma visão de mundo. Mas chega um momento em que aquilo que recebemos precisa ser examinado. Não necessariamente rejeitado, mas submetido à consciência. Caso contrário, podemos atravessar a vida reproduzindo valores que nunca escolhemos, defendendo ideias que nunca investigamos e procurando autorização para decisões que somente nós podemos tomar. A individuação começa quando você se arrisca a saber por si mesmo. E isso é claro, é tão perigoso quanto libertador, como veremos ao longo do vídeo.
Para compreendermos como acontece a individuação em nossas vidas, vamos utilizar duas terminologias dos alquimistas: a separatio e a coniunctio. Separatio significa literalmente separação ou distinção. A intenção, dentro dos laboratórios alquímicos, era separar o que estava misturado de forma indiscriminada: o puro do impuro, o sutil do grosseiro, o volátil do fixo. A alquimia ocidental desenvolveu-se a partir da ideia de que uma matéria precisava ser reduzida ou desmembrada antes que pudesse ser purificada e transformada, ou seja, a coninuctio. A própria teoria antiga da transmutação pressupunha que se alcançasse uma matéria fundamental para depois reorganizá-la. E esse movimento de separatio também acontece psicologicamente durante a individuação. Ao longo da vida, precisamos nos desidentificar dos papéis sociais externos, ou seja, da persona, e das figuras internas e arquetípicas que surgem na própria psique. O processo de individuação pode ser um pouco contraditório porque ele consiste, inicialmente, em se afastar de muitas coisas que você acredita ser.
Portanto, o processo de separatio psicológica consiste em se desidentificar da persona – das influências externas –, e dos complexos do inconsciente, das influências internas. Falemos primeiro da desidentificação externa.
Todos nós precisamos de uma máscara social, de uma persona. Na psicologia junguiana, a persona é a face que apresentamos ao mundo, o conjunto de comportamentos que nos ajuda a ocupar uma posição na sociedade. Você possui uma forma de agir no trabalho, outra diante dos seus pais, outra entre amigos e talvez uma diferente nas redes sociais. Isso não significa necessariamente uma falsidade. A vida coletiva exige certa adaptação, e ninguém consegue conviver em sociedade expressando de forma imediata tudo o que pensa ou o que sente. Quando assumimos um papel social estamos, de certo modo, nos coletivizando, pois a persona nos torna comum a todos os demais que vestem aquela máscara. O funcionário, o empresário, o professor, o filho, a mãe, o pai; todos, em certa medida são iguais perante a persona. Então, como procuramos a individuação, precisamos ter consciência de que não somos realmente o nosso papel social, como explica Murray Stein:
“A persona é construída de porções do coletivo com as quais o ego se identifica e que funcionam para facilitar a adaptação ao mundo social circundante. A persona é efetivamente um ‘segmento da psique coletiva’, mas ela imita a individualidade. Sua existência pode ser, portanto, uma sutil inimiga da individuação, caso não se a conscientize como ‘máscara’: ‘Os seres humanos possuem uma faculdade que, embora seja da maior utilidade para propósitos coletivos, é sumamente perniciosa para a individuação; trata-se da faculdade da imitação’. Essa é também a base para o recrutamento de soldados e de jovens terroristas. Eles são induzidos a imitar os grandes heróis, sob promessas de funerais com honras militares caso venham a perder a vida em combate.”
Murray Stein, Jung e o Caminho da Individuação.
Aqui, então, percebemos por que a persona pode ser prejudicial para a individuação. Ela pode te tornar uma mera imitação coletiva. E isso é o oposto da individuação, que é tornar-se você mesmo. A identificação com a persona pode ser tanta que a pessoa não se conhece mais senão inserida em um grupo ou partido. Se questionada sobre suas crenças, ela imediatamente se torna agressiva e arrogante. É isso o que acontece com tanta gente que é possuída por movimentos de gênero, políticos ou religiosos. O fanatismo dissolve qualquer capacidade de integração e assimilação por conta própria. Essa tentação é muito forte porque a persona é uma forma de participação mística com o todo. Ela dificulta ou impede o pensamento individual e a decisão baseada na experiência própria. É muito mais fácil se esconder em uma suposta autoridade do que manter um pensamento baseado na experiência de vida. As pessoas passam a falar pelos outros, mas não por elas mesmas, o que distancia o sujeito do seu próprio caminho, como explica Murray Stein:
“Quando alguém se torna um bom cidadão, um filho ou uma filha dedicados, um membro devoto da igreja, da escola e do Estado, um empregado de confiança, um marido ou esposa, pai ou mãe, um profissional ético, as pessoas sentem que podem confiar nessa pessoa e desse modo dedicar-lhe seus mais elevados sentimentos de estima. Pessoas assim falam com clareza pela família, pela comunidade, pelo país e mesmo por toda a humanidade, mas não por elas mesmas. Se indivíduos que adotaram personas leais e firmes assim permanecem inconscientes de sua verdadeira individualidade, essa individualidade mantém-se desconhecida, e eles se tornam meros porta-vozes para as atitudes coletivas com as quais se identificam.”
Murray Stein, Jung e o Caminho da Individuação.
Não podemos ser mães, pais, professores, funcionários, donos e filhos o tempo todo. Se alguma coisa acontecer que quebre essa identificação, podemos incorrer numa crise de identidade e, consequentemente, cair numa crise mais profunda. E isso pode acontecer de forma inesperada. Felizmente ou Infelizmente, algumas pessoas só começam o processo de individuação depois que alguma catástrofe acontece em suas vidas. Pode ser a perda de um familiar, uma demissão, uma depressão, um divórcio, ou uma quebra brusca de expectativa. Em outro conto dos irmão Grimm chamado “A Velha do Bosque”, é possível perceber que o processo de individuação também é iniciado por uma perda que lança o indivíduo num estado de desorientação e liminaridade, aquele território psicológico em que a antiga identidade já não existe, enquanto a nova ainda não se formou.
A protagonista é uma jovem, muito pobre, que trabalha como criada para uma casa. Durante uma viagem com a família a quem servia, o grupo é atacado por ladrões. Todos são mortos, exceto ela, que consegue fugir e acaba completamente sozinha no meio da floresta.
A história retira da jovem todas as referências de uma só vez. Ela perde o trabalho, as pessoas que conhecia, o lugar social que ocupava e qualquer garantia de proteção. Não existe mais ninguém que possa dizer a ela o que fazer. No bosque, ela já não é criada de uma família. Também ainda não sabe quem poderá se tornar.
Essa situação simboliza o lado mais doloroso da individuação. Nós podemos imaginar que encontrar a nós mesmos será uma experiência de expansão ou mesmo de entusiasmo. No entanto, antes que algo novo possa surgir, muitas vezes precisamos experimentar a dissolução daquilo que nos dava uma identidade, a separatio precede a coniunctio.
Você, por exemplo, talvez tenha se definido durante anos por uma profissão, por um relacionamento ou pelo papel que exercia dentro da família. Quando esse papel desaparece, podemos perder a imagem que sustentava a nossa existência.
Continuando a história: ao cair da noite, a jovem se encosta numa árvore e entrega sua situação a Deus, totalmente desesperançosa. Só que, depois de algum tempo, surge uma pomba branca carregando uma pequena chave de ouro. A ave mostra uma fechadura escondida no tronco da árvore. E quando a jovem a abre, encontra pão e leite.
Mais tarde, a pomba retorna com outra chave e indica uma árvore que guarda uma cama confortável. Na manhã seguinte, traz uma terceira chave, por meio da qual a jovem encontra roupas novas, adornadas com ouro e pedras preciosas. Durante algum tempo, ela vive assim, sendo protegida e orientada pela pomba.
Dentro de uma leitura psicológica, a floresta representa o inconsciente, enquanto a pomba pode ser entendida como uma manifestação do espírito interior que começa a orientar a protagonista. Quando todas as estruturas externas desaparecem, quando a persona não exerce mais influência, alguma coisa dentro dela se apresenta e oferece o suficiente para que sobreviva. A pessoa é obrigada a voltar-se para dentro. Essa espera de algo que apareça de dentro é simbolizado pela pomba branca. Ela representa a sabedoria, o Logos, o animus presente na mulher e a sabedoria divina. As melhores qualidades femininas presentes nas mulheres são a parcimônia e a espera. Muitas vezes, quando uma mulher não sabe o que precisa fazer, ela simplesmente senta e espera algo aparecer de dentro, seja uma intuição ou um pensamento revelador. Essa revelação advém de uma relação com o seu animus, o espírito guia.
No mito de Eros e Psiquê ocorre a mesma coisa. Quando Eros desaparece depois de Psiquê encará-lo, descumprindo o acordo de nunca olhar para ele, ela se recolhe e espera uma revelação interior para dar o próximo passo e conseguir seu marido de volta. O homem também precisa dessa qualidade feminina trabalhada com sua anima para não agir impulsivamente ou mesmo ficar indeciso diante de grandes decisões alimentadas pelo complexo materno negativo. Quando mantemos um relacionamento com os instintos, nossa consciência se expande e passamos a ser guiados por uma força maior que nós, mas que sabe do que precisamos.
E aqui entra a segunda parte do primeiro movimento da individuação, a separatio. A separatio, como vimos, consiste em se desidentificar da persona, o processo externo, mas também consiste em não ser possuído pelas influências internas da psique, que são os complexos e as imagens arquetípicas. A anima e o animus, que são guias interiores do ser humano, podem levar a pessoa tanto à individuação quanto para a destruição. Isso acontece pela chamada inflação do ego, quando o ego se acha maior do que ele realmente é. Vamos entender isso:
Em certos momentos, a pessoa parece receber uma resposta, não por meio de uma explicação racional, mas através de uma experiência interna que a atinge por inteiro. Pode ser um sonho de intensidade incomum, uma imagem que surge durante um período de crise, uma obra de arte que provoca um abalo profundo, uma coincidência carregada de significado ou uma experiência religiosa que altera a maneira como ela enxerga a vida.
Esses acontecimentos podem durar poucos segundos, mas podem deixar uma impressão que permanece durante anos. A pessoa sente que entrou em contato com algo maior do que a sua consciência habitual. Não necessariamente maior no sentido de ser superior ou divino, mas no sentido de possuir uma força que o ego não consegue produzir ou explicar completamente. É isso que Jung chama de experiência numinosa.
O termo foi desenvolvido pelo teólogo alemão Rudolf Otto para descrever o encontro humano com o sagrado. Otto percebeu que a religião não podia ser reduzida a regras morais ou ideológicas. Antes de qualquer doutrina, existe uma experiência emocional diante do mistério. Algo que, ao mesmo tempo, assusta e fascina; que provoca temor e desejo de aproximação. A pessoa sente que está diante de algo impossível de ser inteiramente compreendido, embora isso seja profundamente significativo.
Jung adotou o conceito, mas o transportou para o campo da psicologia. Como psicólogo, ele não afirmava que determinada visão, sonho ou imagem fosse uma prova objetiva da existência de Deus. Mas ele também não dizia que experiências espirituais fossem apenas ilusões. Sua posição era de que aquilo que aparece numa experiência numinosa é, em primeiro lugar, uma realidade psíquica, e uma realidade psíquica pode transformar profundamente uma vida quando bem assimilada. Ou seja, uma experiência numinosa pode produzir uma transformação profunda na consciência porque o ego é atravessado por algo que está além das suas capacidades de assimilação, como foi o caso do conto da “Velha do Bosque”.
Mas a experiência numinosa é uma faca de dois gumes. Ela pode aumentar a responsabilidade da pessoa ou alimentar uma fantasia de grandeza. Ela pode aproximar da realidade ou afastar o indivíduo ainda mais dela. Ela pode torná-la mais humana, mais capaz de reconhecer suas limitações, ou fazer com que passe a se sentir superior a todos. Um exemplo de uma experiência numinosa transformadora é a de Joana D’arc. Segundo seu depoimento no seu processo de acusação de 1431, Joana tinha aproximadamente treze anos quando experimentou pela primeira vez aquilo que chamou de uma “voz de Deus”. Era verão, por volta do meio-dia, e ela estava no jardim da casa de seu pai. A voz lhe dizia que fosse uma boa pessoa e frequentasse a igreja. Somente posteriormente começou a ordenar que ela deixasse sua terra e fosse à França levantar o cerco de Orléans e conduzir o delfim à coroação. O numinoso tornou para Joana D’arc o centro organizador de sua vida inteira, acima da família, da prudência pessoal e até das autoridades eclesiásticas.
Agora, imagine alguém cuja vida inteira passou a girar em torno de um sofrimento, de uma compulsão ou de uma ferida. Enquanto esse problema ocupa todo o campo da consciência, ele parece ser um estado permanente e absoluto. A pessoa não consegue enxergar nada além da própria angústia. Mas uma experiência numinosa é que pode justamente romper, ainda que temporariamente, esse confinamento. Ela mostra que a existência por si só é maior do que aquilo que a pessoa está vivendo naquele momento. Isso não elimina o problema, mas modifica a relação com ele. Mas isso por si só não basta. Descobrir um sentido para a dor não significa que a dor foi elaborada. Ter uma experiência espiritual não significa que os padrões emocionais foram transformados. Compreender intelectualmente uma ferida não significa que ela deixou de governar nossos relacionamentos.
Uma pessoa pode participar de retiros, viver estados intensos de conexão, estudar símbolos, meditar durante anos e ainda continuar repetindo os mesmos comportamentos destrutivos. Pode falar sobre amor universal, mas tratar mal aqueles que estão próximos. Pode dizer que transcendeu o ego enquanto reage com agressividade a qualquer discordância. Pode sentir-se profundamente conectada ao universo e permanecer incapaz de assumir responsabilidades básicas.
Quando o discernimento desaparece, o indivíduo corre o risco de ser possuído pelo conteúdo que encontrou. Ou seja, em vez de se relacionar com a imagem, ele identifica-se com ela. Se sonha com uma figura salvadora, ele começa a acreditar que deve salvar todos. Se ele vive uma experiência de unidade, imagina que superou todas as contradições humanas. Se entra em contato com uma imagem de poder, começa a se considerar destinado a liderar ou instruir os demais.
É assim que o numinoso pode alimentar a tal da inflação psicológica, a inflação do ego, daí a faca de dois gumes.
O ego, que deveria reconhecer a presença de algo maior que ele mesmo, apropria-se dessa grandeza. Em vez de dizer que algo apareceu para ele, a pessoa passa a viver como se ela própria fosse essa imagem. Ela, por exemplo, não acredita ter entrado em contato com uma dimensão de sabedoria; ela acredita ter se tornado sábia sem a menor experiência de vida.
Jung alertava que o numinoso tende a empurrar a consciência para os extremos. Uma ideia relativa passa a ser tratada como verdade absoluta. E isso aparece tanto na religião quanto nas ideologias políticas e nas teorias psicológicas. A pessoa já não consegue examinar aquilo em que acredita, porque sua identidade emocional depende dessa crença, como explica Murray Stein:
“Se uma pessoa sucumbe a essa tentação, o resultado é uma inflação psicológica. Essa pessoa se convence de que é um profeta ou um sábio, um herói cultural ou um amante demoníaco, uma Grande Mãe ou Pai, ou alguma outra figura de natureza mitológica, criando-se uma identidade com base em um conteúdo psicológico arquetípico. Para Jung, um exemplo convincente e preciso dessa condição foi o caso de Nietzsche, que se identificou e ‘inflou’ com a figura arquetípica de Zaratustra.”
Murray Stein, Jung e o Caminho da Individuação.
Então aqui percebemos que não estamos apenas sujeitos às forças externas da psique, mas também às forças internas. A separatio alquímica é um trabalho rigoroso e exige uma enorme capacidade de fortalecimento do ego para não sucumbir ao ataque de tantos conteúdos vindos de dentro e de fora.
E uma influência ainda mais próxima que a experiência numinosa que devemos ficar atentos são os complexos. Um complexo é um núcleo emocional formado ao redor de experiências particulares que foram muito intensas. Ele reúne lembranças, imagens, sensações corporais, crenças e formas automáticas de reagir. Por isso, quando um complexo é ativado, por alguns instantes, começamos a sentir e interpretar o presente como se o passado estivesse acontecendo novamente. É por isso que, sob o domínio de um complexo, a pessoa reage de maneira desproporcional. Ela acredita estar respondendo apenas ao que aconteceu naquele momento, mas está respondendo também a tudo aquilo que a situação representa. Os complexos, diferentes da experiência numinosa, são condicionados pela história de vida e pelas experiências individuais. Ao longo da vida, vamos adquirindo algumas feridas devido aos acontecimentos que mais nos impactaram. Essas feridas vão se transformando nos núcleos emocionais carregados com afetos.
E é claro que a maioria dessas experiências advém do modo como nos relacionamos com nossas figuras parentais, já que elas estão presentes desde o nosso nascimento. O complexo materno e o completo paterno são os mais influentes. Muitas vezes adquirimos complexos por uma simples fala do nosso pai ou da nossa mãe. Murray Stein dá um exemplo de um complexo materno que paralisou boa parte da vida de um paciente que atendeu. Aos 40 anos, ele tinha um bom emprego e uma vida estável, mas tinha alguns problemas de autoestima e por vezes se irritava com facilidade. Durante sua infância ele gostava muito de desenhar livremente as coisas que lhe chamavam atenção. Só que, aos oito anos de idade, quando estava desenho a mão livre um mapa geográfico e levou com todo entusiasmo para sua mãe dar uma olhada, a mãe, que era uma professora formada, corrigiu o desenho do menino com uma certa aspereza, dizendo que era para ele desenhar por cima do mapa para ficar mais proporcional.
Pode parecer uma atitude sem grandes proporções, mas foi essa a causa que o paciente conseguiu chegar para o seu complexo materno. A mensagem da mãe atingiu a psique do paciente de modo severo e alojou por lá; ela se tornou uma proibição com relação à liberdade artística e paralisou a sua atividade criativa. Mas para reverter a situação, ele precisou conversar com a sua criança interior e libertá-la desse momento histórico da sua vida. Aos 40 anos, ele tinha lido um livro que lhe apresentou a noção de escrever tudo que viesse à mente com a mão não dominante para se comunicar com a sua criança interior. Além desse pequeno trauma, ele conseguiu acessar outros até mesmo antes desse acontecimento e, depois de muitas semanas de escrita, a criança interior disse ao paciente que ela queria desenhar, e ele assim o fez, podendo finalmente fazer as pazes com a sua criança ferida.
Mas perceba como essa condição ocasionada pelos complexos podem se estender para outras áreas da vida. Pense no tanto de energia criativa que ficou represada por conta deles. O tanto de oportunidades perdidas e desistências que você teve por causa de uma ferida aberta que não foi cicatrizada. Enquanto não retirarmos a carga emocional e nos tornamos conscientes dos complexos que assumem o controle das nossas vidas, vamos achar que o que acontece com a gente é coisa do destino.
Para mostrar como uma ferida pode aprisionar a personalidade e, ao mesmo tempo, esconder uma força criativa, vamos recorrer ao mito de Hefesto, o deus grego do fogo e da metalurgia. Hefesto talvez seja uma das figuras mais humanas do Olimpo. Ao contrário de outras divindades representadas como seres perfeitos, ele nasce com uma deformidade nas pernas. Ele é um deus coxo, desajeitado e inadequado aos padrões de beleza dos deuses do Olimpo. E talvez seja justamente por isso que sua história se aproxima tanto da nossa.
A individuação também acontece quando conseguimos estabelecer uma relação consciente com aquilo que em nós não corresponde a um ideal. A característica que provoca vergonha, a limitação que tentamos esconder, a origem que julgamos inadequada ou a sensibilidade que aprendemos a desprezar podem se tornar pontos decisivos na nossa transformação. É o famoso encontro com a nossa própria sombra.
Segundo o mito, Hefesto nasce dentro de um conflito permanente entre Hera e Zeus. Hera, ressentida com o marido diante dos inúmeros casos extraconjugais, gera Hefesto sem a participação dele. Porém, ao perceber sua deformidade, a própria mãe o rejeita e o lança para fora do Olimpo. Hefesto nasce de um conflito que não criou e é punido por uma imperfeição que não escolheu. Essa imagem descreve uma experiência psicológica muito comum, sobretudo hoje em dia. Muitas crianças chegam a famílias que já possuem tensões, e ressentimentos, ou até mesmo expectativas muito anteriores ao seu nascimento. Elas então acabam ocupando um lugar dentro desses conflitos.
Uma criança pode se tornar a responsável por restaurar a harmonia familiar. Outra pode carregar a frustração dos pais. Uma pode ser tratada como o orgulho da casa, enquanto outra se torna o problema sobre o qual todos projetam aquilo que não desejam reconhecer, se tornando um bode expiatório. Com o tempo, a pessoa pode confundir esse lugar familiar com a própria identidade. Ela passa a acreditar que é inadequada, que acredita que sua função natural é cuidar de todos, justamente porque não reconhece que foi usada como depósito das tensões familiares. Ela, então, conclui que existe algo intrinsecamente errado com ela.
A história de Hefesto mostra que a ferida pessoal pode estar ligada a um conflito coletivo. Sua rejeição acontece dentro de uma organização patriarcal em que o masculino e o feminino estão envolvidos numa disputa de poder. Não estou usando o termo patriarcal aqui, no sentido pejorativo. O regime matriarcal está relacionado ao engolfamento, isso foi visto nos regimes socialistas do século XX. Já o patriarcado está relacionado com a disputa de poder, sendo inaugurado mitologicamente pelo reinado de Zeus no ocidente. Hoje, devido a nossa sociedade ser patriarcal, homens e mulheres disputam o poder, tanto física quanto psiquicamente. Hefesto se torna um dos produtos psicológicos dessa guerra. Nós somos o Hefesto jogado para fora do Olimpo devido a disputa de poder entre homens e mulheres.
Esse detalhe amplia a compreensão dos complexos porque nós não herdamos somente a genética e os costumes de uma família. Herdamos também os medos e as posições diante da vida. Além disso, crescemos dentro de uma cultura que possui suas próprias feridas e conflitos não elaborados. Uma pessoa pode sofrer por não corresponder às expectativas da família, mas essas expectativas também podem refletir valores culturais mais amplos como a obrigação de sucesso, a negação da fragilidade, o desprezo por certas formas de sensibilidade ou a exigência de que homens e mulheres se comportem de maneiras rigidamente definidas.
E depois de ser lançado do Olimpo, Hefesto cai no mar e é acolhido pelas ninfas Tétis e Eurínome. Elas o levam para uma caverna e cuidam dele durante anos. Nesse espaço protegido, o deus ferido começa a trabalhar com metais, fabricar joias e revelar sua extraordinária criatividade. Ou seja, aquele que foi rejeitado pela aparência começa a criar a própria beleza. Esse momento do mito mostra que um potencial, muitas vezes, está escondido num lugar, lá no fundo da personalidade, aguardando condições mínimas de segurança para voltar a se manifestar.
Mas a forja em que Hefesto se refugia também possui um risco. Ela pode ser um espaço de proteção e criação, porém pode se transformar num esconderijo onde a ferida permanece intocada. Hefesto desenvolve suas habilidades, mas continua alimentando uma raiva profunda contra Hera. Diante disso, Hefesto decide se vingar. Ele constrói um trono extremamente belo e o envia anonimamente para Hera. Encantada com o presente, ela se senta, mas imediatamente fica aprisionada. O trono se eleva aos céus e nenhum deus consegue libertá-la.
Essa passagem do mito mostra o momento em que o complexo se apropria da criatividade. A mesma inteligência que poderia construir algo novo passa a virar um tipo de ressentimento. O indivíduo continua completamente ligado à pessoa ou à experiência que deseja punir. É nesse sentido que surgem personagens como o homem do subsolo, que transformou todas as suas feridas em ressentimento. O homem do subsolo é o personagem que não conseguiu realizar a coniunctio depois da separatio. Ele consegue analisar bem, dar conta das coisas e da sua condição, mas não consegue sair dela, porque sente orgulho de estar na própria caverna que entrou.
E quando os deuses procuram Hefesto e pedem que liberte Hera, ele responde que não possui mãe. Essa frase revela que Hefesto ainda está diante do complexo materno. Ele precisa negar o vínculo justamente porque ainda está profundamente preso a ele. Essa é uma das formas mais difíceis de reconhecer a possessão por um complexo. A pessoa pode acreditar que superou determinada relação porque rompeu o contato, deixou de falar sobre o assunto ou afirma não sentir mais nada. No entanto, sua vida continua sendo organizada em oposição àquilo.
A pessoa dominada pelo complexo escolhe parceiros que sejam completamente diferentes da figura que a feriu. Evita situações que possam despertar a antiga vergonha. Precisa provar constantemente que não depende de ninguém. Rejeita qualquer forma de cuidado porque associa cuidado com uma forma de controle. O passado, que aparentemente foi abandonado, continua determinando o caminho através das escolhas que ela faz. Superar um complexo não significa esquecer o que aconteceu.
No mito, os deuses tentam obrigar Hefesto a voltar, mas a força não resolve o impasse. Ares, o deus da guerra, não consegue removê-lo de sua posição. E isso revela que não se pode libertar ninguém de um complexo por meio de humilhação, ou a força. É aí que Dioniso entra na história.
Diferente de Ares, Dionísio desce à caverna, aproxima-se do deus ferido, oferece vinho e consegue colocá-lo em movimento. Depois, leva-o de volta ao Olimpo no lombo de uma mula. O trabalho de Dioniso é basicamente o trabalho que uma terapia é capaz de fazer: ela afrouxa uma identificação rígida. A análise cria movimento onde, pouco a pouco, coloca a pessoa em um confronto devidamente controlado com o complexo.
Dioniso representa uma experiência que diminui temporariamente a rigidez do controle. E ao voltar ao Olimpo, Hefesto concorda em libertar Hera, pois está embriagado com o vinho de Dionísio. A libertação de Hera é também a libertação da energia psíquica que permanecia investida na vingança. Somente depois disso, Hefesto pode ocupar seu lugar entre os deuses e desenvolver de maneira mais completa sua função criativa. Essa passagem nos ajuda a entender que elaborar uma ferida significa impedir que ela continue produzindo a mesma história na vida de alguém.
E aqui entra o segundo movimento da individuação: a coniunctio. Enquanto a separatio procura diferenciar, a coniunctio procura reunir só que de uma maneira nova. Depois de perceber que sua persona é limitada, a pessoa precisa construir uma relação mais flexível com o mundo. E depois de entrar em contato com o numinoso e os complexos, a pessoa precisa reconhecer que essas imagens e esses complexos não são partes do ego.
Pense numa pessoa que passou a vida inteira evitando conflitos. Durante a separatio, ela reconhece que a sua imagem de pessoa “tranquila” talvez tenha sido construída para evitar possíveis situações de rejeição. Ela percebe uma raiva acumulada, a necessidade constante de agradar ou o medo de decepcionar. E na coniunctio, ela precisa encontrar uma maneira adulta de integrar a agressividade. Talvez comece a dizer “não”, o que pode ser bem penoso no começo, a expressar discordância antes que o ressentimento se acumule, ou a suportar o desconforto de não ser aprovada por todos. A energia anteriormente vai se transformando porque ela foi dividida, analisada e depois integrada para dar vida a uma nova coisa.
É desse encontro entre consciente e inconsciente, entre separatio e coniunctio, que pode surgir aquilo que Jung chamou de função transcendente, que é o surgimento de uma terceira possibilidade quando conseguimos sustentar dois lados aparentemente opostos sem eliminar nenhum deles. E esses dois movimentos acontecem de forma simultânea. De um lado, desfazemos as identificações antigas, da persona e dos complexos. E do outro, prestamos atenção ao que começa a emergir do inconsciente a partir dessa desidentificação e buscamos integrar esse conteúdo à vida cotidiana, ou seja, buscamos ter uma nova relação com eles, sem reprimi-los ou negá-los, mas aprendendo a ter uma relação, e isso é o mais importante. Sem separação, permanecemos presos ao passado. E sem integração, apenas fragmentamos a personalidade.
A individuação portanto, é um fugir e um encontrar-se no caminho, de modo simultâneo. É desenvolver uma consciência suficientemente ampla para sustentar a complexidade daquilo que somos. A personalidade, então, passa a funcionar como um organismo vivo, capaz de integrar contradições e responder ao presente sem repetir automaticamente o passado. E esse é o trabalho de uma vida. Enquanto estivermos vivos, temos o árduo trabalho da individuação. Só nos tornamos seres individuados, plenamente, no momento em morremos.
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📘 O Caminho da Individuação: https://link.amazon/B0a5ojpKA
