Como os sonhos antecipam a morte e preparam uma nova vida
Transcrição do vídeo
“Morte é tudo o que vemos acordados; sono, tudo o que vemos dormindo.”
Heráclito, Fragmentos.
Parte 1
A morte sempre representou um enorme paradoxo para a consciência humana. Intelectualmente, sabemos que todos vamos morrer. A morte, em nossas vidas, está presente desde o nosso nascimento. Essa talvez seja a única certeza da existência. Ainda assim, em algum lugar muito profundo da nossa experiência psicológica, continuamos vivendo como se esse momento estivesse sempre distante. Planejamos décadas à frente, acumulamos projetos, construímos uma identidade, nos comportamos como se o tempo fosse infinito. Existe, portanto, uma divisão curiosa dentro de nós: que é a de que, enquanto a razão aceita a questão da mortalidade, outra parte da psique parece se recusar completamente a enxergar a vida como algo que simplesmente termina.
Ao analisar milhares de sonhos, especialmente de pessoas idosas ou gravemente doentes, Jung percebeu que o inconsciente quase nunca retratava a morte como uma aniquilação absoluta, como o fim da vida. Muito pelo contrário. Em vez de imagens que expressassem o vazio, surgiam símbolos de continuidade, de travessia, de transformação ou de renovação. Os sonhos tornam-se fundamentais justamente porque escapam do controle consciente. Eles não são produzidos pela nossa vontade, nem obedecem às nossas preferências. Muitas vezes, inclusive, contradizem aquilo que gostaríamos de acreditar.
É exatamente por isso que Jung os considerava uma das manifestações mais espontâneas da realidade psíquica. Olha o que ele fala:
“Muitas vezes os sonhos possuem uma estrutura bem marcante, voltada, por assim dizer, para um objetivo e fazem supor que em sua base estejam uma ideia e uma intenção, mas que normalmente não são diretamente acessíveis à compreensão. […] os sonhos são as fontes mais numerosas e mais acessíveis em geral para a pesquisa sobre a capacidade simbolizadora das pessoas. Os produtos artísticos são mais singulares, mais complicados e de compreensão mais difícil, pois, quando se trata da originalidade individual, não dá para arriscar uma interpretação desses produtos inconscientes sem a ajuda do autor. Os sonhos são de fato a fonte de todo o nosso conhecimento sobre o simbolismo.”
Carl Jung, A Vida Simbólica.
O significado de um sonho nunca pode ser separado da história do sonhador. O mesmo símbolo pode exercer funções completamente diferentes dependendo do contexto psicológico de quem sonha. É por isso que Jung rejeitava a ideia de dicionários de sonhos. Para ele, nenhum símbolo possui um significado fixo e universal. Só que, embora cada sonho seja individual, determinadas imagens aparecem repetidamente em pessoas de culturas completamente diferentes. Velhos sábios, crianças divinas, árvores gigantes, rios, montanhas, labirintos, serpentes, mandalas, casamentos, morte e renascimentos surgem com impressionante frequência ao redor do mundo. Essas imagens não eram aprendidas de forma consciente. Elas pareciam brotar espontaneamente da própria estrutura da mente humana. Foi justamente essa constatação que levou Jung a formular a teoria do inconsciente coletivo e dos arquétipos.
Os arquétipos funcionam como tendências universais da psique para organizar determinadas experiências humanas. Assim como todos os seres humanos desenvolvem uma linguagem, independentemente do idioma onde nasceram, também possuem predisposições para representar psicologicamente os temas do nascimento, do amor, da perda, da transformação e da morte através de vários padrões simbólicos. É por isso que povos separados por oceanos e por milhares de anos produziram mitologias surpreendentemente semelhantes. Para Jung, essa repetição revelava uma estrutura compartilhada própria da psique humana, e não poderia ser explicada apenas pela transmissão cultural de um povo para outro.
Mas talvez a contribuição mais interessante de Jung para compreender os sonhos esteja em uma ideia conhecida como função compensatória. Segundo ele, o inconsciente procura compensar os excessos ou a unilateralidade da consciência. O inconsciente não produz sonhos aleatoriamente. Quando o ego se torna excessivamente racional, por exemplo, os sonhos podem apresentar imagens carregadas de emoção. Outro exemplo é quando a pessoa vive apenas para o trabalho e o sonho pode mostrar uma criança abandonada. Ou quando alguém acredita controlar completamente a própria vida e o inconsciente produz imagens onde forças muito maiores que o seu próprio ego assumem o comando da vida do sonhador. Os sonhos não existem para confirmar aquilo que pensamos sobre nós mesmos. Muitas vezes, eles surgem justamente para nos contradizer. Olha o que Jung fala:
“As contradições surgem inicialmente nos sonhos, e quando não são aceitas podem ser experimentadas na realidade, às vezes de forma fatal. Os sonhos históricos, bem como todos os outros, têm função compensatória: são indicações – sintomas – de que o indivíduo não está em sintonia com as condições do inconsciente, sendo prova de que, em qualquer ponto, ele desviou-se de seu caminho natural. Em algum ponto tornou-se vítima de suas próprias ambições, de seus propósitos ridículos. Caso não seja dada importância a esses avisos, a fenda irá ficando cada vez mais larga, e ele nela cairá […].”
Carl Jung, A Vida Simbólica.
E quando um sonho insiste em representar a morte como uma passagem, como comentei no começo do vídeo, isso não significa que ele esteja oferecendo uma prova de uma vida além da morte. Nossa investigação, aqui, é psicológica, e não metafísica. Muitos sonhos relacionados com o tema da morte como uma transformação ou uma passagem significam que essa é a maneira pela qual o inconsciente organiza essa experiência.
Portanto, o inconsciente não parece organizar a realidade a partir da mesma lógica temporal do ego consciente. Enquanto nossa consciência pensa em começos e fins absolutos, o inconsciente trabalha por meio de ciclos. Isso explica por que tantos sonhos utilizam símbolos agrícolas, estações do ano, sementes, rios, árvores ou deuses que morrem para depois renascerem. Essas imagens expressam um padrão da própria natureza; quase nada desaparece sem que outra forma surja em seu lugar.
Parte 2
Os mitos são expressões do inconsciente humano na sua forma mais pura. E um dos mitos mais antigos que simboliza a transformação da vida é o mito de Osíris, contado há mais de 5000 anos. O corpo despedaçado do deus, sua recomposição e seu renascimento refletem um movimento que é observado constantemente na natureza.
Se existe um fenômeno que a natureza ensina continuamente, é que praticamente toda forma de vida depende de algum tipo de morte. A folha precisa cair para que outra ocupe seu lugar. O fruto amadurece apenas para se desprender da árvore. A semente desaparece completamente sob a terra antes que uma nova planta possa surgir. Aos olhos humanos, tudo isso parece destruição. Mas, do ponto de vista da natureza, trata-se apenas de transformação. Os antigos egípcios observavam atentamente o ciclo anual do rio Nilo. Depois das cheias, o terreno parecia devastado. Durante algum tempo, tudo parecia morto. Mas era justamente daquela lama escura que surgia a fertilidade. Para eles, esse movimento tornou-se uma imagem da própria existência humana, a vida e a morte, expressa no mito de Osíris. A morte passou a ser entendida menos como um fim e mais como uma fase necessária dentro de um ciclo muito maior.
De acordo com o mito, Osíris era um rei lendário do Egito, muito conhecido pelo seu vigor e justiça nas batalhas. Seu irmão, Seth, com inveja, decide preparar uma armadilha e consegue assassiná-lo. Ele organiza um grande banquete e leva consigo um sarcófago de madeira, ornamentado com ouro e pedras preciosas. Diante dos convidados, Seth diz que o sarcófago será entregue de presente à pessoa cujo corpo se encaixar perfeitamente em seu interior. Nenhum consegue, até que Osíris, ao deitar-se dentro do caixão, é selado com a tampa por Set e seus cúmplices e depois lançado nas águas do rio Nilo.
Enquanto o caixão navega lentamente pelo Nilo, uma árvore cresce exatamente ao redor do sarcófago. Seu tronco envolve completamente o corpo de Osíris. A árvore cresce tanto e torna-se tão bela que o rei daquela região onde o sarcófago passa ordena que ela seja cortada para servir como coluna principal de seu palácio. E essa é uma das imagens mais belas de toda a mitologia egípcia. Da morte nasce uma árvore, que representa uma nova forma de vida. Abrindo um paralelo, em muitas tradições medievais, a cruz de cristo é representada através de uma árvore, e sua crucificação é feita numa árvore para redimir a humanidade do pecado original. Adão comeu do fruto da árvore do bem e do mal, e cristo é árvore da vida, como explica jung:
“Também não é estranho que a lenda cristã da árvore da morte, a cruz, tenha feito a árvore da vida, de forma que muitas vezes se vê Cristo crucificado numa árvore frondosa com folhas e frutos. […] Como se sabe, o pecado e a morte vieram ao mundo por culpa de Adão, e Cristo, por sua morte, nos redimiu da culpa. A pergunta sobre qual foi afinal a culpa de Adão, podemos responder que seu pecado imperdoável, punido com a morte, foi ter-se atrevido a comer da árvore da vida.”
Carl Jung, Símbolos da Transformação.
A terapeuta junguiana Marie-Louise von Franz, no seu livro sobre sobre sonhos e morte, mostra que árvores, plantas e sementes aparecem continuamente nos sonhos relacionados à morte porque expressam exatamente essa mesma lógica simbólica, ou seja, aquilo que desaparece numa dimensão pode se transformar na origem de uma nova vida. Ela escreve que:
“Ao lado da relva e do grão, a árvore também costuma aparecer como símbolo da misteriosa relação entre vida e morte. […] A árvore é a vida inconsciente que se renova e continua a existir eternamente, depois que a consciência humana se extinguiu. Jung nota que na tradição alquímica a árvore é também considerada símbolo da opus alquímica. Psicologicamente, ela simboliza o processo de individuação, ou seja, o contínuo crescimento interior em direção a uma consciência superior, durante o qual novas luzes são vistas. Essa mesma árvore também existe na Jerusalém celestial do Apocalipse: ‘No meio da praça… há árvores da Vida que frutificam doze vezes… e suas folhas servem para curar as nações’.”
Marie-Louise von Franz, Sonhos e a Morte.
De volta ao mito. Ísis, esposa de Osíris, percorre desertos, cidades, rios e templos procurando o marido desaparecido. E depois de uma longa procura, ela finalmente encontra a árvore que escondia o sarcófago. Consegue recuperar o corpo de Osíris e retorna ao Egito. Mas Seth descobre o que aconteceu. E tomado novamente pela fúria, rouba o cadáver durante a noite e esquarteja o corpo em quatorze partes, espalhando cada pedaço por diferentes regiões do Egito.
No entanto, é exatamente através dessa fragmentação que uma nova ordem se estabelece. Psicologicamente, o mito afirma que existe uma transformação justamente porque algo precisa ser desfeito antes que outra configuração possa surgir.
Essa ideia também aparece na alquimia medieval. Os alquimistas descreviam repetidamente um processo chamado putrefactio, a decomposição da matéria. Curiosamente, eles nunca entendiam essa decomposição como se fosse um tipo de fracasso. Pelo contrário, ela era considerada uma etapa indispensável da transformação. Antes que surgisse o ouro, a matéria precisava passar pela corrupção e pelo aparente caos.
Quando observamos isso psicologicamente, percebemos que o mesmo acontece ao longo da vida. Existem fases em que tudo aquilo que dava estabilidade começa a desaparecer. Uma carreira termina. Um casamento acaba. Uma identidade construída durante décadas deixa de fazer sentido. Para o ego, esses momentos costumam ser vividos como tragédias absolutas. Mas o inconsciente produz sonhos onde justamente nesses períodos aparecem árvores florescendo, jardins desconhecidos, sementes sendo plantadas ou campos férteis. É nesse momento de reconstrução que o mito de Osíris continua.
Ísis percorre todo o Egito recolhendo cuidadosamente cada pedaço do corpo do marido. Em cada lugar onde encontra um fragmento, ela ergue um templo. A mensagem, aqui, é a de que nada pode ser reconstruído enquanto as partes permanecerem dispersas. A unidade exige reunir aquilo que foi separado.
E depois de recuperar quase todo o corpo, Ísis realiza um ritual com a ajuda de Néftis e do deus Anúbis, onde recompõe Osíris. Anúbis realiza aquilo que a tradição considera a primeira mumificação da história. O corpo então, de maneira histórica e mitológica, deixa de ser apenas cadáver e torna-se um corpo preparado para uma nova forma de existência. É dessa forma que os mitos e a psicologia humana se influenciam mutuamente: um é material para o outro.
Essa percepção também muda completamente a maneira como enxergamos o envelhecimento. Nossa cultura frequentemente interpreta a velhice apenas como decadência biológica. A natureza age de outra forma. As árvores mais antigas normalmente são as que possuem raízes mais profundas. Muitos frutos só atingem sua maturidade depois de um longo tempo. Sob essa perspectiva, envelhecer representa um aprofundamento gradual da vida psíquica.
Talvez seja exatamente por isso que tantos sonhos de pessoas idosas deixam de enfatizar objetivos externos e começam a apresentar jardins, pomares, árvores carregadas de frutos ou paisagens naturais extremamente serenas. O inconsciente parece deslocar o centro da existência da produtividade para a maturação. A velhice é menos sobre a persona e mais sobre o Self. A natureza nunca luta contra os seus ciclos. Ela simplesmente os atravessa.
Parte 3
Na verdade, toda etapa importante do desenvolvimento humano exige que alguma identidade anterior seja abandonada. A criança precisa morrer psicologicamente para que o adolescente exista. Mais tarde, o adolescente precisa desaparecer para que surja o adulto. E, na segunda metade da vida, o próprio adulto precisa abrir mão da imagem construída durante décadas para que uma nova forma de consciência possa emergir.
Existe uma tendência muito profunda da psique humana de preservar aquilo que já conhece. Mesmo quando estamos infelizes, preferimos permanecer dentro do conhecido do que nos aventurarmos pelo desconhecido. Isso explica por que tantas pessoas continuam durante anos em relacionamentos destruídos, trabalhos que detestam ou estilos de vida completamente incompatíveis com quem realmente são. O sofrimento torna-se familiar. E aquilo que é familiar frequentemente parece mais seguro do que qualquer transformação. E é justamente nesse ponto que o inconsciente costuma intervir.
Em muitos sonhos, a morte aparece simbolicamente como um casamento. À primeira vista, isso parece completamente contraditório. Afinal, casamento normalmente representa união, enquanto morte representa separação. Só que, na verdade, todo casamento representa a morte de algo velho para que o novo possa surgir. Casar-se significa deixar de viver exclusivamente para si mesmo. Significa abandonar uma antiga identidade para construir outra completamente diferente. Depois de um casamento, ninguém permanece exatamente a mesma pessoa que era antes. E isso traz uma transformação irreversível à psique.
Os gregos, por exemplo, entendiam o casamento através do mito de Perséfone. Perséfone é raptada por Hades e levada ao mundo subterrâneo. Perséfone era filha de Deméter, a deusa da agricultura, da fertilidade da terra e dos ciclos da natureza. Perséfone também é chamada de Core, palavra que significa “donzela”. Esse nome é importante porque descreve a sua condição psicológica. Core é a jovem ainda ligada ao mundo materno. Ela vive protegida. Sua identidade ainda não está plenamente separada da mãe. Em uma das versões mais conhecidas do mito, Perséfone colhia flores com outras jovens quando encontrou um narciso de beleza extraordinária. Ao aproximar-se para colhê-lo, a terra se abriu. De dentro da fenda surgiu Hades, senhor do mundo dos mortos, conduzindo uma carruagem. Ele tomou Perséfone e a levou para seu reino subterrâneo.
Essa cena abrupta e violenta mostra que Perséfone é arrancada de uma condição de inocência e levada para uma experiência que o ego não escolheu. A descida ao submundo, que, em grego é chamado Katábasis, representa o contato com tudo aquilo que estava fora da consciência, isto é, a morte, o sofrimento, o desejo, a sexualidade, a separação e etc. Esse movimento é extremamente semelhante ao que acontece em diversos momentos da vida. Existem acontecimentos que nos obrigam a conhecer aspectos da existência que jamais escolheríamos experimentar. O sofrimento profundo, a perda, o luto e a doença geralmente nos apresentam uma dimensão da realidade que permanecia completamente invisível enquanto tudo caminhava bem. Ninguém se torna realmente consciente apenas através da felicidade. São justamente as crises que rompem a identificação excessiva do ego consigo mesmo.
Voltando ao mito: Enquanto Deméter ouve o grito da filha, mas não consegue encontrá-la, ela, desesperada, percorre a terra durante dias e abandona suas funções divinas e passa a procurar Perséfone por toda parte. Sua dor é tão intensa que a fertilidade da terra começa a desaparecer. Isso acontece porque Deméter, além de ser mãe, ela também representa a própria força materna que nutre a vida. Quando ela perde aquilo que ama, Deméter retira sua energia do mundo. A reação de Deméter mostra como a separação pode ser vivida como uma espécie de morte. Para a mãe, muitas vezes a filha que se torna adulta é um choque muito grande. Mas a jovem precisa construir uma identidade própria, e essa passagem provoca resistência em ambos os lados.
Quando finalmente Deméter descobre que Hades levou Perséfone, ela exige a devolução da filha. Zeus percebe que, se nada for feito, a humanidade morrerá de fome. Mas antes de partir, Perséfone comeu algumas sementes de romã oferecidas por Hades. E Perséfone, ao ingerir o fruto do mundo dos mortos, já não pode retornar completamente à vida anterior. Ela havia provado algo e havia incorporado uma experiência. Quem se alimenta no reino dos mortos cria um vínculo com esse mundo. É estabelecido então um acordo. Perséfone passará parte do ano com Deméter, na superfície, e outra parte com Hades, no mundo subterrâneo. Quando retorna à mãe, a terra floresce. Quando desce novamente, a vegetação enfraquece e chega o inverno. Assim, o mito explica simbolicamente o ciclo das estações, mas não apenas isso.
O casamento representa uma mudança radical na vida de uma mulher. Ela deixa a casa dos pais, afasta-se da proteção materna e entra numa nova família. De certa forma, sua identidade anterior precisa morrer para que uma nova identidade possa nascer. Não é difícil compreender por que esse processo podia ser representado como uma descida ao desconhecido. Em muitas versões do mito, como essa que contei, Perséfone é levada contra a própria vontade para o submundo. Isso revela que certas mudanças não são escolhidas conscientemente. Como havia dito, uma perda, uma separação, uma doença, ou uma demissão destroem a imagem que tínhamos de nós mesmos. Essas experiências podem funcionar como uma descida ao mundo subterrâneo. A pessoa sente que perdeu o contato com a vida conhecida. Mas o mito de Perséfone nos mostra que precisamos manter um vínculo com o submundo, isto é, com o inconsciente para sair desses momentos da vida.
Os alquimistas diziam que nenhuma matéria podia atingir sua forma mais elevada sem antes atravessar a nigredo, a fase do escurecimento. Era o momento em que tudo parecia entrar em decomposição. Nada fazia sentido. A matéria perdia completamente sua antiga organização. Somente depois desse aparente caos surgiam as etapas seguintes da transformação. Quando observamos esse simbolismo psicologicamente, percebemos que muitas crises seguem exatamente esse padrão. Primeiro desaparecem as antigas certezas que tínhamos a respeito de nós mesmos. Depois vem um longo período de confusão. Durante algum tempo, parece impossível compreender o que está acontecendo. Somente muito mais tarde a pessoa consegue olhar para trás e perceber que aquele sofrimento marcou justamente o nascimento de uma consciência mais ampla.
Nossa tendência imediata é interpretar essa experiência como um erro. Pensamos que estamos fracassando ou perdendo o rumo da vida. Fazemos de tudo para escapar desse desconforto. Procuramos novas distrações, mudamos de emprego, buscamos outro relacionamento ou tentamos preencher rapidamente esse vazio. Inúmeros sonhos apresentam imagens de túneis, cavernas, florestas escuras, noites intermináveis ou longas viagens por territórios desconhecidos justamente durante esses períodos. Esses lugares representam o afastamento temporário da consciência habitual para que uma reorganização psíquica possa acontecer.
É interessante perceber que praticamente todas as grandes narrativas da humanidade possuem esse mesmo momento. Antes de retornar a Ítaca, Ulisses precisa atravessar o mundo dos mortos. Antes de libertar seu povo, Moisés atravessa quarenta anos de deserto. Antes da ressurreição, Cristo desce à morte. Antes de alcançar a iluminação, Buda enfrenta Mara. Antes de encontrar o Santo Graal, os cavaleiros do Rei Artur atravessam a floresta onde não existe caminho. Em todas essas histórias ninguém encontra uma consciência mais ampla sem primeiro abandonar o território onde tudo parecia seguro.
Parte 4
E depois de atravessar o submundo, os sonhos começam a apresentar um elemento ainda mais intrigante. Em vez de cenários ou paisagem, passa a surgir uma presença. Alguém aparece. Às vezes é um velho desconhecido. Outras vezes, uma mulher misteriosa. Em certos sonhos, é um viajante, um médico, um rei, um monge, uma criança ou até mesmo uma figura completamente impossível de identificar. O curioso é que essas personagens quase nunca demonstram hostilidade. Elas parecem estar esperando. Como se conhecessem o caminho antes do sonhador.
Foi esse padrão que chamou profundamente a atenção de Marie-Louise von Franz. Ao estudar sonhos relacionados à morte, ela percebeu que o inconsciente personifica a própria morte. Ele cria uma figura que estabelece algum tipo de relação com quem sonha. A morte, então, passa a assumir o papel de um interlocutor da psique.
Isso explica por que tantas tradições antigas representaram a morte através de personagens específicos. Os gregos viam Caronte conduzindo as almas através do rio. Os egípcios viam de Anúbis guiando os mortos durante a travessia. Na tradição cristã, aparecem os anjos conduzindo a alma. Apesar das enormes diferenças culturais, o elemento comum é que quase nunca o ser humano atravessa completamente sozinho esse estado liminar.
Marie-Louise Von Franz observa que essa repetição dificilmente pode ser atribuída apenas à transmissão de histórias entre povos. O mesmo padrão reaparece espontaneamente em sonhos de pessoas que jamais estudaram essas mitologias. Isso sugere que estamos diante de um arquétipo, uma estrutura profunda da psique que organiza determinadas experiências fundamentais da existência. Essas figuras aparecem como sendo um outro, algo que se diferencia do ego e que lhe fornece um outro ponto de vista sobre as circunstâncias. E geralmente eles carregam um aspecto místico ou aterrorizante. Marie-Louise escreve o seguinte:
“Segundo minha própria experiência, parece-me que o aspecto aterrorizante e sinistro do ‘outro’, aparece especialmente quando o sonhador ainda não tem uma relação com a morte, ou não a espera. Basicamente, as figuras da morte personificada (morte, diabo, Yama, Jesus, Hades, Hei, etc.) parecem ser apenas um lado escuro da imagem divina. Na verdade, é Deus, ou uma deusa, que traz a morte ao homem; quanto menos familiaridade ele tiver com esse lado sombrio do divino, mais negativo será o modo de vivenciá-lo. Todas as grandes religiões sempre souberam que vida e morte fazem parte do mesmo mistério divino que se oculta atrás da existência física do ser humano.”
Marie-Louise von Franz, Sonhos e a Morte.
Mas por que justamente uma figura?
Porque nossa mente compreende melhor aquilo que consegue colocar em relação. É muito mais difícil estabelecer qualquer contato psicológico com uma ideia abstrata do que com uma presença. O inconsciente parece saber disso. Por essa razão, ele transforma processos internos em personagens. É exatamente assim que surgem os velhos sábios, as grandes mães, os reis, os heróis, os guias e também as figuras relacionadas à morte.
Naturalmente, isso não significa que essas figuras existam objetivamente fora da mente. Essa não é a questão. O ponto é que a psique organiza determinadas experiências através de imagens que facilitam sua integração pela consciência. Nesse sentido, quando a morte aparece como um guia, o inconsciente poderia estar mostrando como a personalidade tenta estabelecer uma relação menos caótica com aquilo que mais teme.
No entanto, essas figuras raramente forçam alguém a fazer alguma coisa. Elas costumam esperar e acompanham as coisas que o sonhador faz. É como se elas respeitassem o tempo psicológico do indivíduo. Esse detalhe é importante porque revela uma enorme diferença entre a lógica do ego e a lógica do inconsciente. O ego tende a interpretar toda mudança como uma ruptura brusca. Já o inconsciente parece compreender a transformação como um processo gradual de aproximação.
Essa diferença também aparece ao longo da própria vida. Pense nas pessoas que marcaram profundamente sua existência. Quase nunca elas surgiram impondo mudanças de modo imediato. Primeiro elas estabeleceram uma relação. Depois ampliaram sua forma de enxergar o mundo. Somente depois você percebeu que havia mudado. O inconsciente parece utilizar exatamente essa mesma lógica ao representar a morte. Em muitos sonhos, a figura que conduz a travessia é justamente uma pessoa conhecida, por quem tivemos uma grande estima durante a vida. Muitas pessoas relatam que, durante períodos de grande sofrimento, sonham com avós já falecidos, professores antigos ou pessoas importantes que marcaram suas vidas. Independentemente da interpretação religiosa que cada um atribua a essas experiências, nós devemos olhar para a sua função simbólica. Essas figuras representam valores ou orientações que continuam vivas na psique. É como se, diante da crise, o inconsciente convocasse justamente aquelas imagens capazes de oferecer estabilidade. Mais uma vez, o foco não está em provar qualquer crença sobre a vida após a morte. O foco está em compreender como a mente organiza simbolicamente situações extremas.
Parte 5
Uma outra forma que os sonhos e o inconsciente representam a morte é através do fogo e da água. E esses dois elementos ocupam um lugar central tanto na alquimia quanto nas antigas religiões. Não por acaso. Se a morte representa uma transformação, então a psique precisa encontrar símbolos capazes de expressar como essa transformação acontece. E poucos símbolos são tão universais quanto o fogo e água.
À primeira vista, esses dois elementos parecem completamente opostos. Um destrói pela intensidade; o outro transforma pela dissolução. Mas o que ambos, na verdade, é desfazer antigas formas para que novas possam surgir. Por exemplo, quase todas as grandes narrativas de renovação começam com algum tipo de simbolismo envolvendo a água. O dilúvio destrói o velho mundo para permitir o nascimento de outro. O batismo representa uma morte simbólica seguida de um renascimento espiritual. Diversos heróis mitológicos atravessam rios antes de alcançar uma nova etapa da jornada, como Hércules enfrentando o deus-rio Aqueloo, por exemplo. Mesmo biologicamente, a vida humana começa envolvida pela água. Nada disso é acidental. A água representa um retorno ao estado indiferenciado, ao lugar onde antigas formas deixam de existir para que outras possam ser organizadas. É por isso que tantos sonhos apresentam lagos profundos, oceanos, chuvas intensas ou rios desconhecidos nos momentos em que a personalidade está mudando. Sobre a água como símbolo de transformação, Marie-Louise escreve o seguinte:
“Aparentemente, é comum surgir esse elemento [água] fluente nas experiências de limiar da morte. Ele corresponde ao aspecto água do inconsciente. Os enterros dos hindus, nos quais as cinzas dos mortos são lançadas no Ganges, ou no mar, segundo a tradição de Bali, expressam simbolicamente a idéia de uma dissolução redentora, de um retomo ao oceano primordial. Ao mesmo tempo, esse simbolismo representa o aspecto água do inconsciente, algo em que flutuam ‘as imagens da criação’, de certa forma mais belas e mais intensas do que num sonho, só que ainda mais incompreensíveis.”
Marie-Louise von Franz, Sonhos e a Morte.
A consciência costuma interpretar essas imagens com medo. Afinal, a água profunda impede que enxerguemos o fundo. Ela simboliza justamente aquilo que escapa ao controle do ego.
E da mesma forma temos o simbolismo do fogo, sendo muito associado também à purificação. Na alquimia, nenhuma matéria podia alcançar sua forma mais elevada sem passar pelo fogo da fornalha. Era ali que as impurezas eram separadas daquilo que possuía um verdadeiro valor. Poucas substâncias permanecem exatamente iguais depois de passarem pelo fogo. O ouro torna-se mais puro. O barro transforma-se em cerâmica. O vidro adquire transparência. O alimento torna-se próprio para o consumo. Em todos esses casos, o fogo modifica a estrutura da matéria. Muitos sonhos utilizam exatamente essa lógica para representar as mudanças psicológicas que passamos na vida. O sonhador atravessa um incêndio, vê objetos sendo queimados ou observa uma casa em chamas. Curiosamente, esses sonhos nem sempre transmitem desespero. Em alguns casos, existe até mesmo uma sensação de inevitabilidade, como se aquilo precisasse acontecer para que algo novo pudesse surgir. Marie-Louise escreve que:
“De um ponto de vista psicológico, o fogo evidentemente não deve ser tomado em termos concretos. Os velhos alquimistas o usavam como símbolo; equiparando-o com seu oposto, a água, revelando portanto que, para eles, tratava-se de um fogo místico. O fogo, em si, é um símbolo de energia psíquica: aquele ‘algo’ psíquico desconhecido que se manifesta em impulsos, desejos, vontades, afetos, atenção, capacidade de trabalho, etc., e seus diversos graus de intensidade. O fogo dotado de mente, de Heráclito, corresponde a essa idéia relativamente original de energia: ‘Esse universo ordenado (cosmos), que é o mesmo para todos, não foi criado por deus nenhum nem pela humanidade, mas sempre foi, é e será sempre eterno Fogo, até certo ponto aceso e até certo ponto extinto.’”
Marie-Louise von Franz, Sonhos e a Morte.
Talvez uma das maiores dificuldades do ser humano seja distinguir aquilo que precisa ser preservado daquilo que precisa ser deixado para trás. Nós queremos conservar tudo. Nossas certezas. Nossas imagens sobre nós mesmos. Nossos hábitos. Nossas antigas formas de enxergar o mundo. Mas a vida insiste em mostrar que algumas dessas estruturas simplesmente não conseguem acompanhar nosso desenvolvimento. Quando resistimos excessivamente, o sofrimento costuma aumentar porque tentamos impedir um movimento que já começou. É interessante observar que fogo e água aparecem juntos nas tradições espirituais. Primeiro vem a água que dissolve. Depois o fogo que purifica. Ou, em outras narrativas, primeiro o fogo destrói, depois a água devolve fertilidade à terra.
A pior fase da vida de uma pessoa pode ser também a que mais transformou sua vida. Durante a época, quase ninguém consegue perceber isso. Durante o incêndio, tudo parece apenas destruição. Durante a enchente, tudo parece apenas perda. Mas, quando a travessia termina, torna-se possível perceber que o que permaneceu era o que havia de mais verdadeiro. E esse o ensinamento presente nos símbolos do fogo e da água.
Parte 6
Jung sempre foi cauteloso ao distinguir a experiência psicológica de afirmações metafísicas. O que lhe interessava era o fato de que a psique produz repetidamente imagens de continuidade da personalidade. Ele estava convicto de que o ser humano não seria constituído apenas de um corpo material.
Diversas tradições espirituais descreveram a existência de um “corpo sutil” — ou seja, uma dimensão invisível da pessoa que sobreviveria às transformações do corpo físico. É um conjunto de dimensões espirituais que interagem com o corpo físico, como se fosse um corpo quase material que conversa com o corpo físico. Entre os antigos egípcios, acreditava-se que o ser humano possuía diferentes dimensões espirituais, entre elas o Ka, associado à força vital, e o Ba, representado como um pássaro com cabeça humana, capaz de mover-se entre o mundo dos vivos e dos mortos. A preservação do corpo por meio da mumificação tinha justamente o objetivo de permitir que essas dimensões continuassem interligadas. Para os egípcios, a morte inaugurava uma nova forma de existência.
Na tradição hindu, fala-se do sukshma sharira, o corpo sutil que acompanha a consciência além da morte física. No budismo, embora a ideia de um “eu” permanente seja rejeitada, existem descrições de estados intermediários em que a continuidade da experiência não depende mais do corpo material.
O corpo sutil é justamente aquela lacuna entre a mente e o corpo, é algo que existe entre a consciência e nossa percepção sobre nós mesmos. Não seria um corpo material como o organismo biológico, mas uma espécie de corpo psíquico ou energético, por meio do qual a pessoa sentiria, sonharia, perceberia e experimentaria realidades não acessíveis aos sentidos comuns. Isso significa que as transformações que acontecem no corpo prosseguem de modo direto na psique. Nesse sentido, a energia física e a energia psíquica poderiam ser dois aspectos da mesma coisa, um não exclui o outro. Não há separação entre mente e corpo. Em uma carta de Jung ao neurocientista Raymond Smithies, ele expõe sua teoria sobre o corpo sutil:
“Talvez a psique devesse ser encarada como intensidade inextensa e não como um corpo movendo-se no tempo. Poder-se-ia admitir que a psique gradualmente passa de extensão mínima a intensidade infinita, transcendendo por exemplo a velocidade da luz e, portanto, tornando o corpo irreal […] A partir dessa concepção, o cérebro seria uma estação transformadora, na qual a relativa tensão infinita de intensidade da psique propriamente dita é transformada em freqüências perceptivas ou ‘extensões’. Reciprocamente, a diminuição da percepção introspectiva do corpo decorreria de uma gradual “psiquificação”, isto é, intensificação em detrimento de extensão. Psique = intensidade máxima por mínimo de espaço.”
Carta de Jung a Raymond Smithies.
Do ponto de vista psicológico, o corpo sutil simboliza que a nossa identidade não se reduz às características físicas. Algo permanece em nós que confere identidade. Continuamos dizendo “eu”, mesmo depois de décadas de mudanças. Marie-Louise von Franz, ao analisar sonhos de pessoas diante da morte, observou que, em muitos deles, o sonhador não se vê como um cadáver. Ele continua caminhando. Conversando. Visitando lugares desconhecidos. Às vezes encontra parentes já falecidos. Outras vezes recebe roupas novas, atravessa uma ponte ou entra numa casa completamente diferente. Em alguns sonhos, olha para trás e vê o próprio corpo deitado, enquanto ele mesmo continua plenamente consciente.
O sonho retira da identidade tudo aquilo que pertence exclusivamente ao envelhecimento biológico. O que permanece é apenas a experiência subjetiva de continuar sendo quem se é. Os alquimistas, por exemplo, acreditavam que o verdadeiro objetivo da Opus alquímica era produzir uma personalidade transformada. O ouro é um símbolo para essa transformação. Depois de atravessar todas as etapas de dissolução, purificação e integração, surgia aquilo que eles chamavam de corpo glorificado.
Jung interpretava isso como uma imagem da individuação plenamente realizada. Uma personalidade que deixou de viver exclusivamente identificada com o ego e passou a organizar-se em torno do Self. Isso muda completamente nossa compreensão da morte. Porque desloca o centro da identidade. Enquanto acreditamos que somos apenas nosso corpo, toda transformação física parece uma ameaça absoluta. Mas, à medida que a personalidade amadurece, o inconsciente nos ensina que tudo já estava lá.
Talvez seja exatamente por isso que tantas pessoas, ao envelhecer, experimentem uma curiosa mudança de perspectiva. Durante décadas preocuparam-se intensamente com reconhecimento, aparência, carreira e prestígio. Mas, pouco a pouco, essas questões deixam de ocupar o centro da vida interior. Não porque percam completamente sua importância. Mas porque outra forma de identidade começa silenciosamente a emergir. Nesse sentido, a morte é apenas uma parte do processo.
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