Aqui está o mapa da sua alma (assista quantas vezes precisar)
Transcrição do vídeo
Vamos criar um pequeno círculo aqui na tela e dar o nome de ego. O ego é o centro da consciência, de tudo aquilo que está perceptível a nós, que dá a sensação de identidade. É ele que permite que você acorde pela manhã e reconheça que continua sendo a mesma pessoa de ontem. É ele que organiza sua rotina, que lembra o seu nome, que sustenta suas escolhas, mede consequências e tenta manter alguma continuidade no meio das oscilações da nossa vida. Sem o ego, a experiência humana ficaria fragmentada, como se pensamentos e emoções surgissem sem um centro capaz de reuni-los. Em síntese o ego, ou o “eu”, é definido por Jung da seguinte forma:
“Entendemos por ‘eu’ aquele fator complexo com o qual todos os conteúdos conscientes se relacionam. É este fator que constitui como que o centro do campo da consciência, e dado que este campo inclui também a personalidade empírica, o eu é o sujeito de todos os atos conscientes da pessoa.”
Carl Jung, Aion.
Se nós não tivéssemos um ego, não haveria qualquer separação entre o ser humano individual de outros seres humanos. É o ego que individualiza a consciência humana. Então é claro que quando você ouve por aí alguns dizendo que devemos matar o nosso ego ou se desidentificar dele, tudo o que você vai ganhar é um distúrbio de realidade e de identidade. O que precisamos fazer é fortalecer o nosso ego.
Um ego forte ajuda o indivíduo a dizer “não”, a sustentar escolhas, a reconhecer limites, a assumir responsabilidades e a construir uma identidade minimamente estável. Sem essa estrutura, a pessoa se perde facilmente na opinião dos outros, nas próprias emoções ou nos movimentos inconscientes que ainda não compreende, embora isso não seja 100% possível, é claro. Já um ego frágil torna a pessoa mais vulnerável aos próprios impulsos, às pressões externas do mundo, às fantasias, às dependências emocionais e identificações inconscientes.
Mas o principal problema que jaz no ego, é ele acreditar que é o todo da psique e não se botar no seu devido lugar. O ego não é a totalidade da psique. Ele é o centro da consciência, não o centro da psique inteira. Isso se deve ao fato de que é empiricamente verificável que adquirimos consciência ao longo da vida, através do entrechoque do nosso corpo com a realidade externa, como explica Jung:
“A despeito do caráter relativamente desconhecido e inconsciente de suas bases, o eu é um fator consciente por excelência. Constitui, inclusive, uma aquisição empírica da existência individual. Parece que resulta, em primeiro lugar, do entrechoque do fator somático com o mundo exterior, e, uma vez que existe como sujeito real, desenvolve-se em decorrência de entrechoques posteriores, tanto com o mundo exterior como com o mundo interior.”
Carl Jung, Aion.
Ou seja, o ego é adquirido através do confronto com a realidade, tanto externa quanto interna. E durante a história da humanidade, a figura mitológica do herói simboliza justamente o nascimento do ego. Hércules, Perseu, Teseu, Gilgamesh, Siegfried, Parsifal, Ulisses ou mesmo figuras mais modernas como Luke Skywalker, são figuras que emergem de uma condição inicial de dependência e enfrentam monstros, que são projeções do desconhecido, para conquistar autonomia e retornar ao seu lugar de origem, só que mais consciente. A jornada do herói, nesse sentido, representa a jornada do despertar do ego.
No geral, o modo como enxergamos a realidade depende do estado da nossa consciência do ego, que avalia nossas preferências. Em outras palavras, ninguém observa a própria vida de um ponto de vista neutro. Todos nós olhamos a vida através do nosso ego, que é influenciada pelo meio externo e pelo meio interno. O ego é um dentre muitas outras partes da psique.
E aqui vamos em direção a uma outra parte dela. Já que ainda estamos no campo da consciência, há aqui ainda mais um componente psíquico, responsável por desenvolver nossa identidade social. Essa parte da psique é chamada de persona. A palavra persona deriva das máscaras utilizadas pelos atores do teatro greco-romano. A máscara permitia ao público reconhecer imediatamente qual personagem estava sendo representado. Nesse sentido, a persona é parte da psique que se comunica com a vida social. Ela não é pessoal real, mas uma apresentação social do próprio indivíduo. Jung define a persona da seguinte forma:
“A persona não passa de uma máscara da psique coletiva. No fundo, nada tem de real; ela representa um compromisso entre o indivíduo e a sociedade, acerca daquilo que “alguém parece ser: nome, título, ocupação, isto ou aquilo”. De certo modo, tais dados são reais; mas, em relação à individualidade essencial da pessoa, representam algo de secundário, uma vez que resultam de um compromisso no qual outros podem ter uma quota maior do que a do indivíduo em questão. A persona é uma aparência, uma realidade bidimensional.”
Carl Jung, O Eu e o Inconsciente.
A persona protege o ego do indivíduo do contato diretamente com o mundo externo. Imagine se não fizéssemos distinção entre vida pública e privada. Entre níveis de amizade e afetos, separações de cargos e posições sociais. A vida seria totalmente vulnerável, e é a persona, que faz essa intermediação entre nós e o mundo. Então, voltando ao nosso diagrama, vamos criar outro círculo, mas dessa vez englobando o círculo do ego e dar o nome de persona.
Nenhuma sociedade poderia existir se cada indivíduo expressasse integralmente todos os seus impulsos e fantasias sem qualquer mediação. A vida exige papéis sociais.
E isso acontece desde os primeiros anos de vida. Aprendemos rapidamente quais comportamentos são recompensados, quais despertam aprovação, quais provocam rejeição e quais devem ser evitados. A criança descobre que certas características facilitam sua integração ao grupo, enquanto outras tornam essa integração mais difícil. Pouco a pouco, ela começa a selecionar aspectos da própria personalidade e a organizá-los em uma forma socialmente aceitável durante a vida. Todos nós utilizamos máscaras psicológicas porque a realidade social exige determinadas formas de expressão. O professor desempenha um papel diante dos alunos. O médico desempenha um papel diante dos pacientes. O advogado diante do tribunal. O pai diante dos filhos. A mãe diante da família. O líder diante de sua equipe.
No entanto, acho que já deu para perceber que a persona pode exercer um certo fascínio perante o ego. Vivemos em uma cultura que constantemente nos estimula a construir identidades sociais. Tanto nas redes sociais ou nos ambientes profissionais, a criação de imagens cuidadosamente administradas pode se tornar uma identificação compulsória. Aos poucos, o indivíduo começa a investir uma quantidade crescente de energia na manutenção dessa imagem. O reconhecimento externo torna-se, então, uma necessidade psicológica e a aprovação social passa a funcionar como confirmação da própria identidade. Isso acontece quando o ego se identifica com a persona e ele passa a se assumir como sendo ela. Nesse momento, o indivíduo acredita que é o seu cargo ou a sua posição social, seja pobre ou rica. Essa identificação muitas vezes acontece de forma tão inconsciente que o indivíduo se torna uma imitação dos outros, sem uma identidade própria, pois a persona é um papel social mais ou menos padronizado. Murray Stein, um psicoterapeuta junguiano, escreve o seguinte:
“Frequentemente, porém, o ego identifica-se com a persona. O termo psicológico identificação assinala a capacidade do ego para absorver e unir-se a objetos externos, atitudes e pessoas. Isso é um processo mais ou menos inconsciente. A pessoa imita involuntariamente outra. Talvez ela própria nem se dê conta disso, mas outras pessoas vêem a imitação. Em princípio, pode-se dizer que o ego está inteiramente separado da persona mas, na vida real, não é esse o caso, visto que, com grande frequência, o ego tende a identificar-se com os papéis que desempenha na vida.”
Murray Stein, O Mapa da Alma.
Há um conto de Machado de Assis chamado O Espelho que mostra isso. Na história, Jacobina consegue um posto militar de alferes. Mas ele acaba se impressionando com como as pessoas o tratavam quando estava fardado, ele passou a assumir sua persona do posto militar e começou a andar de uniforme até mesmo em casa. Aos poucos, seu ego se identificou totalmente com a persona, a ponto dele não saber mais que ele era sem a farda.
Ao longo da vida, nosso trabalho é justamente nos desidentificarmos da persona, ou pelo menos não permitir que ela assuma um papel central nas nossas vidas. Quando a persona assume esse papel central, a pessoa já não sabe mais distinguir aquilo que efetivamente é daquilo que aprendeu a representar socialmente.
E quanto maior essa identificação, mais aspectos da personalidade precisam ser excluídos da consciência para preservar a coerência da imagem construída na persona. Afinal, toda identidade depende de uma seleção. Para afirmar que a pessoa é alguma coisa, é necessário afirmar simultaneamente que ela não é outra coisa. Toda definição implica numa exclusão. Então, necessariamente, quando assume uma persona, precisamos esconder algumas aspectos da nossa personalidade, e isso é inevitável. É exatamente nesse ponto que nasce a Sombra.
A sombra na nossa personalidade aparece justamente porque o próprio campo da consciência possui uma estrutura limitada. O ego só consegue organizar sua identidade escolhendo determinados conteúdos e rejeitando outros. Tudo aquilo que não encontra lugar na imagem consciente tende a ser deslocado para regiões inconscientes da psique. E aqui nós já estamos deixando o campo da consciência e adentrando no inconsciente. Vamos traçar uma linha logo abaixo do círculo do ego. Tudo que está acima dessa linha pertence ao campo de consciência, e tudo que está abaixo já é o inconsciente. E a sombra está no inconsciente, então vamos colocar o círculo que representa a sombra um pouco abaixo da linha que separa o consciente e inconsciente.
Jung define a sombra como o conjunto dos aspectos da personalidade que foram excluídos da consciência. Em outros termos, a sombra trata-se de um problema moral, pois todos nós temos um senso de certo e errado. Jung escreve o seguinte:
“A sombra constitui um problema de ordem moral que desafia a personalidade do eu como um todo, pois ninguém é capaz de tomar consciência desta realidade sem dispender energias morais. Mas nesta tomada de consciência da sombra trata-se de reconhecer os aspectos obscuros da personalidade, tais como existem na realidade. Este ato é a base indispensável para qualquer tipo de autoconhecimento e, por isso, em geral, ele se defronta com considerável resistência.”
Carl Jung, Aion
Se considerarmos algo como errado, a tendência é ocultar ou esconder o máximo possível. Mas como tais conteúdos não desaparecem quando são reprimidos, eles ficam no inconsciente se modificando e adquirindo uma certa autonomia, pois esses conteúdos reprimidos são dotados de uma enorme carga emocional. E conteúdos emocionais são muito difíceis de serem assumidos como próprios, por isso que a tendência é projetarmos a sombra no mundo e nas pessoas. Tudo aquilo que não é reconhecido dentro, aparece como vindo de fora. É mais fácil perceber os defeitos dos outros do que os nossos. Isso é tão basilar que é bíblico:
“E por que reparas tu no cisco que está no olho do teu irmão, e não vês a trave que está no teu olho? Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o cisco do teu olho, e eis uma trave no teu olho? Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e então verás claramente para tirar o cisco do olho do teu irmão.”
(Mateus 7:3-5)
Em resumo, aquilo que permanece invisível internamente torna-se exageradamente visível externamente. Mas isso não significa que toda crítica seja uma projeção. Perceber os aspectos da nossa sombra nos outros não é dizer que tudo se trata de nós. Quando temos uma reação emocional excessivamente intensa frente ao comportamento de alguém, ou quando uma característica alheia desperta uma certa repulsa ou indignação de modo desproporcional, significa que temos o potencial de fazer ou se tornar aquilo. Percebendo essas características nos outros, podemos trabalhar elas da melhor forma em nós mesmos.
No entanto, muitas interpretações populares reduzem a sombra ao lado negativo da personalidade. Falam dela como se fosse simplesmente um lugar de agressividade, de inveja, egoísmo ou impulsos somente destrutivos. Embora esses elementos frequentemente façam parte da sombra, ela é muito mais ampla que isso.
A Sombra contém tudo aquilo que o ego não reconhece como pertencente a si mesmo. Isso significa que ela pode incluir não apenas defeitos, mas também potencialidades. Uma pessoa educada para ser excessivamente obediente pode empurrar para a sombra sua capacidade de afirmar certos limites. Alguém que cresceu valorizando apenas a racionalidade pode deixar na sombra sua sensibilidade emocional para as coisas que considera importantes. Uma pessoa muito rígida pode esconder suas fragilidades, se afastando cada vez mais das pessoas com medo de descobrirem alguma coisa.
A questão é tornar-se consciente cada vez mais da própria sombra para não sermos possuídos por ela, pois toda reação emocional tem uma certa autonomia, uma vontade própria.
E a partir disso nós passamos para outro tópico. Por que tantas reações emocionais parecem tomar o controle da nossa consciência? Alguém pode fazer um comentário simples, por exemplo, e de repente você sente uma raiva desproporcional. Ou alguém pode ter feito uma crítica simples e desperta em você uma certa vergonha que você sentiu na infância. Uma rejeição mínima fez você se sentir completamente abandonado. Uma conversa comum do cotidiano passa a ser encarada como uma ataque pessoal, e você precisa se defender ou ironizar toda vez que isso acontece. Depois, quando a situação passa, você começa a se perguntar porque reagiu assim. Ou seja, muitas vezes, as pessoas enlouquecem sem um motivo aparente, ou tem fantasias bizarras sobre a situação. A questão, aqui, não é externa, do ambiente, mas interna, da psique.
Bom, muitas dessas reações acontecem porque um complexo foi constelado. Um complexo é um núcleo psíquico carregado de emoção. Ele se forma em torno de experiências que passamos, mas que foram muito marcantes e que ficam associadas a imagens e expectativas. Jung explica da seguinte forma:
“O que é um ‘complexo afetivo’? É a imagem de uma determinada situação psíquica de forte carga emocional e, além disso, incompatível com as disposições da consciência. Esta imagem é dotada de poderosa coerência interior e tem sua totalidade própria e goza de um grau relativamente elevado de autonomia, vale dizer: está sujeita ao controle das disposições da consciência até um certo limite e, por isto, se comporta, na esfera do consciente, como um corpo estranho, animado de vida própria. Com algum esforço de vontade, pode-se, em geral, reprimir o complexo, mas é impossível negar sua existência, e na primeira ocasião favorável ele volta à tona com toda a sua força original. Certas investigações experimentais parecem indicar que sua curva de intensidade tem caráter ondulatório, com um comprimento de onda que varia de horas, dias ou semanas. Esta questão é muito complicada e ainda não se acha de todo esclarecida.”
Carl Jung, A Natureza da Psique.
Quando algo no presente toca esse núcleo, a pessoa deixa de responder apenas ao presente. Ela começa a reagir também a tudo aquilo que foi acumulado ao redor daquela ferida. Quando um complexo é ativado, ele altera a percepção. A pessoa não vê mais a situação como ela é; ela vê a situação através do complexo. Nesse sentido, o ego é um complexo, pois é através dele que temos consciência sobre as coisas. Mas quando outro complexo assume a posição do ego, a percepção troca de lente. É por isso que, se estivermos diante de um complexo paterno, por exemplo, nossa percepção sobre a realidade será hostil e ameaçadora. Diante de um complexo materno, a percepção será de abandono ou falta de amparo. Diante de um complexo de inferioridade, a percepção será de derrota ou de inutilidade e assim por diante. É claro que essas descrições são simplistas. Os complexos dizem respeito à história individual de cada pessoa. É preciso, em terapia, elaborar a natureza dos complexos de maneira a fazer sentido na história de vida do paciente.
Jung descobriu os complexos enquanto trabalhava no hospital psiquiátrico de Zurique, na Suíça. Influenciado pelos métodos experimentais da psicologia da época, ele desenvolveu um teste de associação de palavras. O procedimento consistia nele pronunciar uma palavra e o participante responder imediatamente com a primeira palavra que lhe viesse à mente. Além da resposta verbal, Jung media o tempo de reação e observava alterações emocionais, hesitações, esquecimentos, risos nervosos, erros e comportamentos estranhos.
Jung, então, começou a notar que certas palavras provocavam perturbações inesperadas nos pacientes. Alguns participantes demoravam muito para responder. Outros respondiam de forma aparentemente absurda. Alguns esqueciam a palavra logo depois. Jung concluiu que determinadas palavras tocavam regiões emocionalmente carregadas da psique. Quando isso acontecia, a resposta normal da consciência era interrompida e algo interferia no funcionamento habitual do ego. E foi a partir dessas observações que surgiu o conceito de complexo. Jung escreve que:
“No experimento de associações observamos primeiro se a intenção da pessoa experimental é reagir com rapidez e corretamente. Esta intenção é perturbada pela intervenção do complexo de modo que a associação, contrariamente à expectativa, é em parte desviada do sentido do complexo ou substituída por alusões fragmentárias ou, ainda, é tão perturbada a ponto de tornar a pessoa experimental incapaz de produzir qualquer reação, sem saber de onde vem o distúrbio, isto é, de que o complexo se comporta de forma autônoma em relação às intenções do indivíduo. […] A razão óbvia disso é o caráter desagradável dos complexos. Logo no início os pacientes não falam abertamente com o médico sobre os assuntos íntimos, mas são precisamente estes assuntos os mais importantes para se descobrir a origem das neuroses. Em muitos casos o complexo descoberto não recebe a aprovação dos pacientes; ao contrário, tudo fazem para negar a existência dele ou, ao menos, para minimizá-lo.”
Carl Jung, Estudos Experimentais.
O próprio Jung considerava a descoberta dos complexos uma das evidências mais importantes da existência do inconsciente. Antes disso, o inconsciente era frequentemente tratado como uma hipótese filosófica. Com os experimentos de associação de palavras, Jung acreditava ter encontrado uma demonstração empírica de que existem conteúdos psíquicos capazes de influenciar a consciência sem serem controlados por ela.
E aqui nós começamos a descer cada vez mais no inconsciente, e à medida que descemos cada vez mais lá no fundo, o inconsciente se torna mais primitivo e indiferenciado. À medida que subimos em direção à consciência, nós vamos nos diferenciando, constituindo um eu e nos separando dos outros. Mas lá nas camadas mais profundas do inconsciente, todos são iguais, pois as estruturas são as mesmas. Nossa constituição humana nos permite enxergar a realidade de uma forma humana. Ela é a mesma em todos os cantos do mundo, o que a diferencia uma da outra é a superfície: a cultura, as figuras parentais e os costumes de modo geral. Mas antes disso, nós herdamos da humanidade, uma estrutura primitiva que nunca mudou, que está sempre lá, na renovação de cada vida.
E essa camada do inconsciente é chamada de inconsciente coletivo. Mas isso não significa que nascemos carregando memórias específicas de civilizações antigas ou experiências vividas por pessoas no passado. O que é herdado são moldes psíquicos, predisposições universais para organizar a experiência humana, e não os conteúdos que as pessoas vivenciaram.
Pensa comigo: assim como uma criança nasce com a predisposição para desenvolver a linguagem, mas não nasce falando português, árabe ou chinês, o ser humano nasce com predisposições psíquicas que orientaram a formação de determinados padrões de comportamento. A forma, isto é, o molde, é inata; mas o conteúdo será preenchido pela cultura, pela história e pela experiência individual.
E esses moldes universais receberam o nome de arquétipos. Pense numa taça vazia. Essa taça pode ter diversos formatos, e podemos despejar vários líquidos na taça. O líquido vai se adequar ao molde da taça. Pois bem, a taça é o arquétipo e os líquidos são as manifestações arquetípicas. E essa distinção é muito importante. O arquétipo em si é uma tendência; é vazio e invisível. Muitas vezes os arquétipos são apresentados como se fossem personagens específicos: o herói, a mãe, o sábio, o rei, e por aí vai. No entanto, isso são manifestações do arquétipo. O arquétipo é uma estrutura que organiza a experiência, é por isso que vemos tantas imagens semelhantes em diferentes épocas e culturas.
Nós encontramos figuras maternas sagradas em praticamente todas as tradições religiosas. Encontramos narrativas heroicas em civilizações separadas por milhares de quilômetros. Encontramos imagens de morte e renascimento, de jornadas ao submundo, batalhas contra monstros, velhos sábios e crianças divinas repetindo-se continuamente ao longo da história humana.
Essas semelhanças acontecem porque a própria psique humana possui tendências que geram espontaneamente essas formas simbólicas, ou seja, os arquétipos. Essa ideia transforma completamente nossa maneira de compreender a experiência humana. Porque, se Jung estiver correto, aquilo que sentimos nem sempre pertence apenas a nós. Os grandes dramas da existência são expressões de padrões muito mais antigos do que qualquer indivíduo. Quando alguém luta para conquistar autonomia – por exemplo, quando um filho tenta se desvencilhar o campo materno e seguir com a própria vida –, ele pode estar vivendo algo que as mitologias representaram através da jornada do herói.
A luta mitológica do herói enfrentando o dragão é, simbolicamente, a luta do menino lutando contra as forças regressivas da dependência materna. Quem está passando por uma crise ou depressão está, simbolicamente, fazendo a descida ao submundo, ao inferno, ao Hades, tão narrado nas histórias e contos da antiguidade. Então, bem no fundo do nosso inconsciente, depois do inconsciente pessoal, há um inconsciente coletivo que dimensiona nossa vida de forma universal. E os arquétipos se manifestam através de imagens arquetípicas, apresentadas em sonhos, em pinturas, em mitos e formas de pensamento.
Então, vamos atualizar nosso diagrama com essas informações: vamos chamar agora a linha que está logo abaixo do círculo do ego de inconsciente pessoal. No entanto, vimos que também existe o inconsciente coletivo, mais profundo e arcaico que o inconsciente pessoal. Vamos, então, traçar outra linha. Essa ficará abaixo do círculo da sombra, mas uma pequena parte do círculo ficará para cima, no inconsciente pessoal, e o resto no inconsciente coletivo. Isso porque existe, sim, uma grande parte da sombra localizada no inconsciente coletivo. Existe uma sombra coletiva que recai sobre todo um país.
Jung começou a perceber isso ao observar os vários movimentos políticos e sociais do século XX. Ele viveu duas guerras mundiais e viu multidões inteiras serem dominadas por ódio, fanatismo, violência e pela irracionalidade. Como milhões de pessoas aparentemente civilizadas podiam agir de forma tão destrutiva ao mesmo tempo? Jung concluiu que, assim como os indivíduos possuem uma sombra, os grupos humanos também possuem. Nações possuem sombra. Religiões possuem sombra. Partidos políticos possuem sombra. Culturas possuem sombra. O mecanismo para isso é essencialmente o mesmo que observamos no indivíduo. Uma comunidade é feita de vários indivíduos. Se todo indivíduo constrói uma identidade, toda comunidade constrói uma identidade também; e toda identidade implica numa seleção, que, por consequência, implica numa exclusão. Uma nação pode se declarar como democrática, livre e fraterna. No entanto, ao fazer isso, ela, inevitavelmente, empurra para a sombra tudo aquilo que contradiz essa autoimagem. Os impulsos agressivos não desaparecem, nem a crueldade, a necessidade de poder ou desejo de dominação. Esses conteúdos permanecem vivos na sombra coletiva, se investindo de fortíssimas cargas emocionais. Jung escreveu o seguinte:
“Uma argumentação racional é apenas possível e profícua quando as emoções provocadas por alguma situação não ultrapassam determinado ponto crítico. Pois quando a temperatura afetiva se eleva para além desse nível, a razão perde sua possibilidade efetiva, surgindo em seu lugar slogans e desejos quiméricos, isto é, uma espécie de possessão coletiva que, progressivamente, conduz a uma epidemia psíquica.”
Carl Jung, Presente e Futuro.
Assim como o indivíduo projeta sua sombra sobre outras pessoas, pelo fato dos conteúdos emocionais serem difíceis demais de serem admitidos como próprios, os grupos projetam sua sombra sobre outros grupos. A nação projeta sua sombra sobre outra nação, o que leva a criação de inimigos e bodes expiatórios. Jung percebeu que muitos conflitos históricos são alimentados por esse mecanismo. O grupo começa a enxergar no outro tudo aquilo que não consegue reconhecer em si mesmo. A corrupção está sempre “do outro lado”. A maldade pertence sempre ao adversário. A barbárie pertence sempre ao estrangeiro. Em outras palavras, o outro torna-se o recipiente da sombra coletiva.
Quanto mais um grupo se considera absolutamente bom, mais perigoso ele se torna. Porque aquilo que não é reconhecido internamente tende a ser projetado externamente. É por isso que Jung dizia que o verdadeiro problema da humanidade não era nem tecnológico, nem econômico, nem político. O verdadeiro problema é psicológico. A humanidade produz guerras porque não reconhece sua própria sombra. Ele escreve o seguinte:
“[…] nosso estado de guerra nacional reduzido cessaria no momento em que cada um percebesse suas próprias sombras e pudesse assumir a própria luta dentro de si, luta na verdade digna de todo valor contra a força extremamente poderosa das sombras.”
Carl Jung, Aspectos do Drama Contemporâneo.
Bom, nós ainda temos algumas atualizações para fazer no gráfico. Lembremos que os complexos fazem parte do inconsciente pessoal na psique. Então vamos desenhar alguns pequenos círculos e colocar a letra “c”, de “complexo”, dentro deles. Agora, na região do inconsciente coletivo, vamos adicionar mais alguns círculos e colocar a letra “a”, de “arquétipo”. Depois vamos ligar alguns complexos nos arquétipos. Mas por que eu fiz isso? Porque existe uma relação importantíssima entre os complexos e os arquétipos. Um complexo é formado pela experiência individual, mas ele se organiza ao redor de um núcleo arquetípico.
Pense no exemplo do complexo materno. Todo ser humano possui uma experiência particular com sua mãe. Essa experiência produz algumas lembranças, emoções, expectativas, feridas, desejos e padrões de relacionamento. Isso tudo fica no inconsciente pessoal. Mas a figura da mãe possui um enorme poder psicológico na nossa vida. Porque, por trás da mãe concreta, existe o arquétipo da Grande Mãe. A mãe real é individual, mas o arquétipo materno é universal. Ou seja, o complexo materno surge quando as experiências pessoais da pessoa se organizam ao redor desse núcleo arquetípico da Grande Mãe. As manifestações arquetípicas da Grande Mãe aparecem na Virgem Maria, na Ísis, na Deméter, na Kali, em Tiamat e assim por diante. O arquétipo é o molde universal, a taça vazia. O complexo é o preenchimento pessoal deste molde, é o líquido que se molda à taça.
Quando um complexo é ativado, ele produz imagens religiosas ou simbólicas. Por exemplo, uma mulher pode sonhar com uma rainha, uma deusa ou uma figura maternal gigantesca durante uma crise relacionada à maternidade. Um homem pode sonhar com um velho sábio durante um período de busca existencial. Nesses casos, o sonho está mostrando o arquétipo por trás do complexo. É como se a psique estivesse revelando a infraestrutura invisível que sustenta aquele conflito. Sem o arquétipo, o complexo seria apenas um conjunto caótico de lembranças emocionais.
Na prática clínica, o trabalho começa primeiro pelos complexos, porque eles são mais acessíveis à consciência. O paciente fala dos pais, dos relacionamentos, dos seus medos, das feridas ou dos conflitos. Aos poucos, porém, o que se percebe é que por trás desses conteúdos pessoais existem os padrões universais. A pessoa percebe que, além de estar vivendo apenas sua história, ela também está vivendo uma forma humana universal. Uma filha, além de lidar com sua mãe individual, também está lidando com a imagem arquetípica da Grande Mãe, que pode ser correlacionado com o mito de Deméter e Perséfone, por exemplo. Um homem além de estar enfrentando seu pai tirano, também está enfrentando o arquétipo da autoridade, que pode estar correlacionado com o mito de Cronos que devora os seus filhos.
Em resumo, quando encontramos um arquétipo ligado ao complexo, a nossa história passa do pessoal para o coletivo, e dessa forma podemos encontrar algum mito ou história que expressa esse conflito individual e diminuir sua carga emocional sobre a nossa consciência.
Mas agora, vamos nos concentrar nos dois principais arquétipos responsáveis por trazer os conteúdos do inconsciente para a consciência. Estes arquétipos são a anima e o animus. O homem possui a anima e a mulher possui o animus em seu interior. Ambos os arquétipos são compensações da psique consciente. Homens e mulheres tendem a desenvolver sua identidade consciente em torno de certos valores e atitudes. Ao fazê-lo, outras potencialidades permanecem menos desenvolvidas e acabam sendo projetadas no inconsciente. A anima e o animus são polaridades que compensam e complementam justamente essas atitudes conscientes. Anima é a personificação das qualidades inconscientes que aparecem na psique masculina e Animus é a personificação das qualidades inconscientes que aparecem na psique feminina. O psicólogo Murray Stein escreve que:
“Convencionalmente, para os homens anima é uma figura feminina; para as mulheres, a figura interior é equivalente – chama animus – é masculina. Anima e animus são personalidades subjetivas que representam um nível do inconsciente mais profundo do que a sombra. Para melhor ou para pior, elas revelam as características da alma e conduzem para os domínios do inconsciente coletivo.”
Murray Stein, O Mapa da Alma.
A Anima possui um papel importante na vida emocional do homem. Quando ela permanece totalmente inconsciente, é ela quem produz mau humor e fantasias eróticas nele. Quando um homem projeta sua Anima numa mulher, ele espera que uma ela resolva seus problemas afetivos e que cuide da sua vida interior. Como a anima é inicialmente influenciada pela mãe do homem, se ele não trabalhar essas questões interiormente, ele buscará uma figura materna em cada relacionamento que tiver.
Da mesma forma, o Animus exerce uma enorme influência sobre a vida psíquica da mulher. É o animus que produz as opiniões rígidas da mulher e os julgamentos sentenciosos. Quando o animus está totalmente inconsciente, ele se volta contra a própria mulher e se torna um verdadeiro homem ciumento dentro dela, diminuindo-a e afastando-a dos outros, pois seus julgamentos a tornam impenetrável ao convívio social. E como o animus é inicialmente influenciado pelo pai da mulher, se ela não trabalhar essas questões internamente, ela buscará uma compensação paterna em cada relacionamento que tiver.
A anima personifica o Eros no homem, que é o princípio do afeto e das ligações amorosas. Mas o Eros, quando é negligenciado, produz fantasias e o homem fica muito melindroso. Já o animus personifica o Logos na mulher, que é o princípio da racionalidade e da ordem. Mas quando negligenciado, produz tirania e sentenças punitivas sobre os outros. Jung escreve que:
“Uso os termos ‘Eros’ e ‘Logos’ meramente como meios nocionais que auxiliam a descrever o fato de que o consciente da mulher é caracterizado mais pela vinculação ao Eros do que pelo caráter diferenciador e cognitivo do Logos. No homem, o Eros, que é a função de relacionamento, em geral aparece menos desenvolvido do que o Logos. Na mulher, pelo contrário, o Eros é expressão de sua natureza real, enquanto que o Logos muitas vezes constitui um incidente deplorável. Ele provoca mal-entendidos e interpretações aborrecidas no âmbito da família e dos amigos, porque é constituído de opiniões e não de reflexões.”
Carl Jung, Aion.
Se até agora, tudo pareceu muito abstrato, vamos olhar para o fenômeno de estar apaixonado. Estar apaixonado é quando duas pessoas se encontram e, em pouco tempo, uma delas passa a enxergar a outra como alguém extraordinário, um deus ou uma deusa. As qualidades são ampliadas, os defeitos desaparecem e surge a sensação de ter encontrado a pessoa perfeita, a alma gêmea.
Do ponto de vista junguiano, esse fenômeno envolve a projeção da anima ou do animus. A pessoa não mais vendo o outro, mas sim conteúdos inconscientes da própria psique. A figura amada torna-se um recipiente para imagens interiores que até então permaneciam ocultas. Por isso as paixões possuem uma intensidade que parece desproporcional ao conhecimento real que temos da outra pessoa. A energia emocional está sendo alimentada por imagens arquetípicas que emergem do inconsciente. Muitas vezes, aquilo é a imagem mitológica que a anima ou o animus reproduziu nela. É como se, de fato, estivéssemos vendo um deus bem diante de nós.
É por essa razão que certas relações parecem mágicas no início e profundamente decepcionantes mais tarde. O encantamento inicial dependia da projeção. À medida que a convivência avança, a realidade concreta da outra pessoa começa a aparecer e o parceiro passa de uma figura idealizada para alguém humano, demasiado humano. É nesse momento que muitos relacionamentos entram em crise. A pessoa acredita que o amor acabou. Mas o que está desaparecendo é apenas a projeção da própria alma. Só que é justamente nesse ponto que um relacionamento pode tornar-se mais verdadeiro, porque agora o encontro pode acontecer realmente entre pessoas reais, e não entre duas projeções.
Mas seria um erro imaginar que a Anima e o Animus são apenas fontes dos nossos problemas afetivos e imaginativos. Estes arquétipos também atuam como pontes diretas para o inconsciente. Pontes entre o ego e o inconsciente. São eles quem nos enviam os conteúdos do inconsciente à nossa consciência mas com a roupagem característica do arquétipo. É por isso que precisamos ter um bom relacionamento com o nosso mundo interior. Da mesma forma que, se negligenciarmos ou ignorarmos nosso parceiro ou cônjuge na vida real vamos comprometer nosso relacionamento, se ignorarmos esses parceiros interiores, vamos comprometer igualmente o relacionamento com o nosso inconsciente, e ele, de alguma forma, vai voltar em forma de sintoma, de pesadelos ou de crises para que percebamos o que eles estão tentando nos comunicar, muitas vezes da pior forma possível, pois como escreveu Jung:
“A neurose é um sofrimento da alma que não encontrou um sentido.”
Carl Jung, Psicologia da Religião Ocidental e Oriental.
A anima e o animus são partes do inconsciente que atuam quase que de maneira autônoma. São verdadeiros deuses interiores que têm o poder de controlar nossas fantasias e estados de humor. Então, precisamos atualizar nosso diagrama com estes arquétipos. Vamos adicionar um círculo para representar a anima e o animus. Estes arquétipos englobam a sombra e estão totalmente imersos no inconsciente coletivo. Enquanto a sombra mostra aquilo que o ego rejeitou, a anima e o animus são responsáveis pelas fantasias que encobrem os conteúdos rejeitados.
Por exemplo, um homem pode ter na sombra sua vulnerabilidade, sua dependência afetiva, sua passividade ou sua necessidade de acolhimento. Mas, quando esses conteúdos se ligam à anima, eles deixam de aparecer apenas como traços pessoais reprimidos e passam a ser projetados em figuras femininas. Ele pode idealizar uma mulher como salvadora, sentir-se hipnotizado por ela, depender emocionalmente dela ou odiá-la quando ela não corresponde à fantasia inconsciente. Nesse caso, a sombra está sendo conduzida pela anima. Por isso, a sombra tem um caráter mais pessoal, relacionado às emoções e experiências pessoais, enquanto a anima e o animus pertencem a uma camada mais arquetípica, pois as fantasias são projeções do inconsciente coletivo. E por isso também, vamos adicionar alguns complexos ligados à sombra e à anima e o animus, pois estes também são arquétipos.
Aqui então percebemos que, além de ser autônomo, o inconsciente também atua de forma compensatória. A anima e o animus estão presentes no ser humano para equilibrar as polaridades masculino e feminino, Eros e Logos. Mas a compensação do inconsciente também atua de outras maneiras.
Tudo que falamos até agora, desde o ego até os complexos e o inconsciente coletivo, são movidos por uma força chamada de energia psíquica. É a energia psíquica que movimenta os conteúdos do inconsciente para a consciência, e da consciência para o inconsciente. Pense na sua própria vida. Existem fases da sua vida em que você acorda com vontade de fazer coisas; você consegue trabalhar, se relacionar, tomar decisões, lidar com problemas e sustentar uma rotina o mínimo possível. Mesmo quando há dificuldades, existe uma sensação de continuidade. A vida parece fluir. Esses períodos mostram uma progressão da energia psíquica, isto é, ela está disponível para a adaptação ao mundo, para ação, para escolhas e para o enfrentamento da realidade.
Mas também existem fases em que essa energia desaparece da superfície, da consciência. A pessoa olha para as tarefas e para a própria vida e parece que nada mais se move. As decisões ficam mais difíceis. O futuro parece muito distante e surge uma anedonia. O mundo externo continua exigindo respostas, mas por dentro algo parece que não se movimenta. Isso acontece porque, quando a energia psíquica deixa de servir à adaptação externa, às exigências do mundo, ela pode entrar num processo de regressão: ou seja, ela sai da consciência e retorna ao inconsciente, ativando justamente algum complexo que estava adormecido.
Mas Isso é muito diferente de enxergar a regressão como um fracasso. Muito pelo contrário, por incrível, um estado de sofrimento, uma depressão, ou uma crise podem não ser coisas negativas. Naturalmente, pode ser muito doloroso, mas também pode ser uma preparação para uma nova reorganização. A regressão da energia psíquica ativa o mundo interior e força a pessoa a lidar com conteúdos inconscientes que antes ela apenas estava ignorando. Depois desse confronto, pode surgir uma nova adaptação externa, mais madura do que a anterior. Jung escreve que:
“A experiência psicológica quotidiana fornece provas da exatidão da seguinte proposição: os mais graves conflitos, quando superados, deixam uma segurança e tranquilidade difícil de perturbar ou então uma ruptura, quase impossível de curar, e vice-versa: são justamente as maiores oposições e sua conflagração que vão produzir resultados valiosos e estáveis.”
Carl Jung, A Energia Psíquica.
Às vezes, a psique retira energia de uma direção porque aquela direção já não serve ao crescimento da personalidade. O problema é que, enquanto estamos dentro de uma crise, raramente conseguimos enxergar isso. Sentimos apenas a queda, e não a transformação que pode estar sendo preparada. Mas um mito nos ajuda a visualizar esse movimento de regressão e progressão da energia psíquica. E este mito é o da baleia que engole o herói durante sua jornada de autotransformação. Nós vimos anteriormente que os mitos são expressões do inconsciente coletivo. Jung acreditava que não era a cultura que moldava os mitos e os arquétipos, mas justamente os arquétipos presentes na psique humana que moldaram a cultura e os mitos. Nesse sentido, o mito da baleia é uma expressão inconsciente daquele momento onde o herói passa por uma crise, em que precisa voltar para um estado de regressão, obter daí sua força e progredir mais forte para sua jornada. É assim com, por exemplo, Jonas e a baleia e o Pinóquio. Jung escreve que:
“O princípio da progressão e regressão é ilustrado pelo mito do dragão-baleia […] O herói é o ator simbólico do movimento da libido. O desaparecer no dragão representa a direção rumo à regressão. A viagem para o Oriente (a viagem noturna) e os fatos daí decorrentes simbolizam o trabalho de adaptação frente às condições do mundo psíquico interno. O ser completamente tragado e o desaparecer do herói na barriga do dragão representam a renúncia completa a posicionar-se no mundo exterior. O dominar o monstro a partir de dentro é o trabalho de ajustamento às condições do mundo interno. O sair do corpo (eclodir/nascer) com a ajuda do pássaro – que é simultaneamente um nascer do sol – é a retomada da progressão.”
Carl Jung, A Energia Psíquica.
Ou seja, quando a energia psíquica recua para o inconsciente e ativa um complexo, isso não quer dizer necessariamente que houve um retrocesso, mas que pode ser uma fase do desenvolvimento. Talvez essa regressão da energia psíquica que voltou como uma crise ou uma depressão seja a própria psique tentando fortalecer o seu ego para suportar as próximas provações. Nesse sentido, a psique tem o seus próprios caminhos e seus meios reguladores que estão muito além do campo consciente do ego.
Essa afirmação pode parecer estranha porque toda a nossa experiência consciente parece girar em torno do “eu”. Somos nós que pensamos, escolhemos, planejamos, lembramos e tomamos decisões. Desde a infância, construímos a sensação de que existe um centro organizador da experiência, e esse centro parece ser precisamente aquilo que chamamos de identidade pessoal. Mas, à medida que exploramos a própria vida, vamos nos dando conta de que existe uma organização psíquica muito mais ampla do que aquela controlada pelo ego. Por que temos sonhos que desafiam nossa racionalidade e eles são mostrados, aparentemente, como coisas sem sentido? Por que temos crises psicológicas que parecem nos empurrar em direções que nós jamais teríamos escolhido por conta própria? A psique comporta-se como se existisse uma inteligência organizadora maior do que a consciência. E essa inteligência organizadora é chamada de Si-Mesmo. O Si-Mesmo é a totalidade da psique. Enquanto o ego representa o centro da consciência, o Si-Mesmo representa o centro e a circunferência de toda a personalidade, incluindo tanto a consciência quanto o inconsciente. E por isso, vamos traçar um enorme círculo abarcando todos os outros para representar o Si-Mesmo, ou Self, como também é chamado.
O Si-mesmo está presente em nossas vidas de diversas formas. Dentre elas, o Si-mesmo aparece como símbolos que vemos em templos religiosos e tudo que aparece como polaridade e opostos, seja máximo e mínimo, grande e pequeno, dia e noite e por aí vai. Jung escreve o seguinte:
“O si-mesmo, em sua totalidade, situa-se além dos limites pessoais e quando se manifesta, é somente sob a forma de um mitologema religioso; os seus símbolos oscilam entre o máximo e o mínimo. Por isso quem se identifica com a metade diurna de sua própria existência psíquica, só pode conceber os sonhos noturnos como nulidades desprovidas de valor, embora a noite possa ser tão longa quanto o dia, e toda consciência esteja baseada numa evidente situação de inconsciência, aí tendo suas raízes e aí se extinguindo cada noite. Além do mais, a psicopatologia sabe muito bem o que o inconsciente causa à consciência, sendo por isso que consagra ao inconsciente uma atenção muitas vezes incompreensível para um leigo, de início. Sabemos, com efeito, que aquilo que é pequeno durante o dia, torna-se grande durante a noite, e vice-versa. Por isso também sabemos que, ao lado do que é pequeno durante o dia, existe sempre aquilo que é grande durante a noite, embora invisível.”
Carl Jung, Aion.
Hoje em dia, sobretudo o homem que vive nas grandes cidades, sofre com a sensação de vazio e falta de sentido porque só desenvolve apenas uma parte da sua personalidade, que é aquela adaptada à vida do trabalho ou do cotidiano. Essa unilateralidade joga para o inconsciente outras partes da sua personalidade, que ficam arcaicas e enfraquecidas. Talvez a pessoa só precisou desenvolver seu senso analítico para analisar dados. Outro teve que suprimir qualquer sentimento para se distanciar afetivamente das pessoas por conta da objetividade no trabalho. Hoje em dia tem-se a impressão de que o intelecto dá conta de resolver tudo. Mas como vimos, a psique atua com compensações. Se dermos primazia a apenas um lado dela, isso produzirá uma tensão do lado oposto que aparecerá em forma de sintoma.
É por isso que, constantemente, precisamos nos voltar para nós mesmos, precisamos da solidão e do deserto, para usar um termo bíblico. Esses períodos de reclusão e de contato com o interior foram relatados de diversas formas. Sócrates afirmava que um daímon, uma entidade aparecia para ele sempre que ele estava prestes a agir. Este daímon pode ser relacionado com uma intuição que o fazia ponderar sua ação na medida correta. Cristo se recolhia ao monte todas as manhãs para estar em contato com o Pai. E da mesma forma nós nos recolhemos todas as noites para descansar, mas principalmente para sonhar também. Os sonhos são uma das maneiras mais importantes de percebermos de que maneira o inconsciente está atuando. Em geral, o Self, ou o Si-mesmo, se manifesta através de símbolos da totalidade, como o círculo, que está presente nas mandalas, em movimentos de ascensão, como a subida em uma monte ou uma montanha, mas também pode se apresentar através de ambiguidades. Nos sonhos de um homem de meia-idade, por exemplo, o Self pode aparecer através da figura de um jovem ou uma criança. Diversos são os exemplos que a terapeuta junguiana Marie-Louise von Franz consegue nos fornecer:
“Nos sonhos da mulher, esse núcleo em geral é personificado por uma figura feminina superior — uma sacerdotisa, uma feiticeira, uma Mãe Terra ou uma deusa da natureza ou do amor. No caso do homem, ele manifesta-se como um iniciador masculino ou um guardião (o guru dos hindus), um velho sábio, um espírito da natureza, e assim por diante.”
Carl Jung/Marie-Louise von Franz, O Homem e Seus Símbolos.
O Self também aparece nos sonhos em momentos críticos da vida do sonhador, justamente nos instantes decisivos em que suas atitudes básicas e todo o seu modo de vida estão em processo de mutação. A própria mudança é, muitas vezes, simbolizada pelo ato de atravessar um curso d’água. Nesse sentido, a Odisseia narrada por Homero é um imenso percurso que Self se manifesta, pois mostra a trajetória de Odisseu de volta à Ítaca, sua terra natal, depois de batalhar na guerra de Tróia.
Como o Self expressa a totalidade psíquica, é muito comum ele ser projetada na forma de uma imagem que abarca o todo. É nesse sentido que aparece a figura do homem cósmico. O Homem Cósmico é uma figura gigantesca que personifica e encerra o universo inteiro. É uma representação comum do self nos sonhos e nos mitos. Na tradição hindu, temos o deus-macaco Hanuman, que carrega dentro do seu coração os deuses Shiva e Parvati, que representam a união e o equilíbrio entre a consciência e a energia cósmica. A totalidade também pode se manifestar de maneira imanente. O leviatã do filósofo Thomas Hobbes é um exemplo disso. O leviatã é representado como um homem gigantesco feito de vários indivíduos, simbolizando que homens escolham sua própria autoridade central. No entanto, Jung associou Cristo como a expressão máxima do Self na nossa tradição Ocidental.
Em seu tratado chamado Aion, ele deixa claro que sua investigação é psicológica. Seu interesse não é decidir quem Cristo é em sentido metafísico, mas sim compreender por que a imagem de Cristo exerceu, durante dois mil anos, uma força tão profunda sobre a psique do homem ocidental.
Cristo aparece como o homem divino, o segundo Adão, a verdadeira imagem de Deus, aquele em quem a humanidade reencontra uma forma originária e íntegra. Do ponto de vista psicológico, isso significa que Cristo representa uma imagem do homem inteiro, do homem reconciliado com sua origem divina. A psique humana, ferida e dividida pelas transições mundanas, reconhece em Cristo justamente a figura de integridade. Ele se torna aquilo que a personalidade busca quando tenta superar sua fragmentação. Por isso, a linguagem religiosa fala em redenção, restauração, renovação e, posteriormente, conversão. A psicologia junguiana traduz essa mesma dinâmica em termos de individuação.
Mas Individuar-se não significa tornar-se o Cristo em si mesmo. Significa aproximar-se, de modo consciente, da totalidade que a figura de Cristo simboliza. Cristo é uma imagem daquilo que o ego não é, mas para o qual pode se orientar para uma forma mais inteira de existência. Por isso que, para finalizar nosso diagrama, vamos traçar uma linha, que conecta o self diretamente com o ego, essa linha é chamada de eixo ego-Si-mesmo. É este vínculo entre o Si-mesmo e o ego que devemos cultivar. Mas aqui cabe explicar uma coisa muito importante. Pelo fato do Self ser a totalidade psíquica, e o ego apenas uma parte dela, vai ficar mais claro por que não devemos nos identificar integralmente com o Self.
Cada personificação do inconsciente, quando se manifesta na consciência, apresenta tanto uma aspecto numinoso quanto um aspecto sombrio. A sombra, a anima e o animus e o Self apresentam aspectos tanto de crescimento e desenvolvimento quanto aspectos destrutivos e possuidores. Marie-Louise von Franz nos ajudar a compreender quais as consequências ao ego se ele pensar que é o Si-mesmo, ela escreve o seguinte:
“O lado sombrio e obscuro do self representa um grande perigo, precisamente porque ele é a maior força da psique. Pode levar as pessoas a ‘tecer’ fantasias megalomaníacas ou outras ilusões capazes de envolvê-las e ‘possuí-las’. Uma pessoa que se encontre nesse estado poderá pensar com crescente excitação ter aprendido e resolvido, por exemplo, os grandes enigmas cósmicos; e perde, portanto, todo o contato com a realidade humana. Um sintoma característico desse estado é a perda do senso de humor e dos contatos humanos. Assim, a manifestação do self pode acarretar grave perigo ao ego consciente do homem.”
Carl Jung/Marie-Louise von Franz, O Homem e Seus Símbolos.
O ego, ao entrar em contato com uma realidade maior, pode ser tomado pela energia dessa realidade. Ele pode achar que é esse algo maior. Em vez de reconhecer que foi tocado por um símbolo, acredita que se tornou o símbolo. Em vez de compreender que recebeu uma imagem do Si-Mesmo, passa a agir como se fosse o próprio centro da totalidade. Essa é a inflação do ego, tão perigosa quanto fatal para a própria vida. O ego se expande além de suas medidas reais. Ele passa a carregar uma energia que não lhe pertence.
É por isso que a inflação do ego pode aparecer tanto em pessoas religiosas quanto em pessoas intelectuais, artísticas ou políticas. Ela não depende da linguagem usada. Um indivíduo pode se inflar dizendo que Deus fala diretamente por ele. Outro pode se inflar dizendo que compreendeu a estrutura secreta da realidade. Outro pode se inflar acreditando que sua dor o torna mais profundo do que todos. Outro pode se inflar com a própria jornada de cura, como se o contato com seus traumas, sonhos e símbolos lhe conferisse uma superioridade psicológica sobre os demais. Mas a inflação espiritual talvez seja a forma mais sutil de inflação do ego. A pessoa começa buscando autoconhecimento, mas aos poucos vai transformando a própria busca numa identidade fixa. Ela já não quer compreender a si mesma; ela passa a querer ser reconhecida como alguém mais desperto e superior que os outros.
É por isso que devemos manter o relacionamento com o eixo que conecta o ego com o Si-mesmo. Quando esse eixo está funcionando bem, o ego não se sente abandonado, mas também não se sente onipotente. Ele sabe que precisa agir no mundo, assumir responsabilidades, mas também reconhece que não é o centro absoluto da psique. Ele escuta sonhos, sintomas, percebe símbolos, têm intuições , mas enxerga isso como mensagens de uma totalidade maior. O ego continua sendo ego, mas aprende a dialogar com o Si-mesmo.
Depois de atravessar todo esse mapa, talvez a maior descoberta seja justamente esta: nós não somos uma unidade simples. Aquilo que chamamos de “eu” é apenas o ponto iluminado de uma realidade psíquica muito mais vasta. O ego é necessário, organiza a consciência, sustenta decisões e permite que a vida cotidiana aconteça; mas ele não é a alma inteira. Por trás dele existem complexos que carregam memórias emocionais, desejos interrompidos, feridas antigas e padrões que parecem ter vontade própria.
E talvez compreender a psique em sua totalidade seja justamente isso: descobrir que não somos apenas o ego que tenta controlar a vida. Somos o campo inteiro onde todas essas forças se encontram. Somos o conflito, mas também a possibilidade de integração. Somos a fragmentação, mas também chamado à totalidade.

📚 Leituras Recomendadas:
📘 O Mapa da Alma: https://amzn.to/4eB2D6H
