O paradoxo do intelectual que não sai do lugar – o problema da dualidade

“Havia aprendido boa parte de tudo quanto as pessoas de bom entendimento podem aprender, e era bastante ponderado. O que não havia aprendido, entretanto, era o seguinte: estar contente consigo e com sua própria vida.”

Hermann Hesse, O Lobo da Estepe.

No Clube da Luta, o personagem principal, que não tem nome, acredita que seu problema está apenas no mundo em que vive: o emprego sem sentido, o consumismo desenfreado de bens materiais, os remédios anestésicos, a vida automática e a sensação de estar acordando todos os dias dentro de uma existência que não lhe pertence. Ele vive a chamada vida provisória: sempre à espera de algo, de algum momento ou de uma epifania que vai solucionar todos os problemas. Mas, aos poucos, descobrimos que o verdadeiro conflito não está apenas fora dele. Está dentro. Eis, então, que aparece Tyler Durden, que surge como uma personificação de tudo aquilo que o personagem reprimiu: raiva pela sociedade, desejo sexual, coragem e vontade de romper com aquela vida domesticada.

Nós temos aqui o clássico problema do duplo, do homem dividido. Ele surge quando uma pessoa não consegue reconhecer certas partes de si mesma. Então, aquilo que foi reprimido, negado, censurado ou temido aparece simbolicamente como um “outro”: uma segunda presença, uma segunda voz, uma segunda personalidade, uma imagem espelhada ou uma força interior que parece estranha ao ego. Há alguma coisa que rompe com a unidade que o sujeito acreditava ser. Esse rompimento denúncia na pessoa a percepção de que há desejos, pensamentos, afetos ou tendências que contradizem a imagem que ela gostaria de ter de si mesma.

Isso fica claramente retratado no clássico O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson, que conta a história do Dr. Jekyll, um médico muito respeitado na província em que mora, e moralmente admirado pela sociedade. Mas ao mesmo tempo que precisa manter essa persona social, ele sente que existem desejos e impulsos que não combinam com sua persona de homem correto. Ele deseja viver sem prestar contas à reputação, à família, à sociedade ou à própria consciência. Para resolver esse conflito, Jekyll, então, cria uma poção capaz de separar suas duas naturezas. Ao beber a poção, ele se transforma no monstro Edward Hyde, tudo aquilo que Jekyll não consegue assumir conscientemente. O próprio nome do monstro, Hyde, significa esconder. No começo, essa separação parece libertadora, porque Jekyll acredita que pode viver seus impulsos proibidos sem comprometer sua reputação. Mas, aos poucos, Hyde ganha autonomia e ele se torna mais violento e mais difícil de controlar, muito parecido com o personagem de Clube da Luta.

O duplo ganha força quando não reconhecemos que temos um lado sombrio na nossa própria personalidade. Surge, então, esse duplo como uma figura de conflito. Ele revela aquilo que o sujeito não quer admitir como seu. Ou seja, o próprio sujeito transforma uma parte interna num inimigo externo porque o duplo mostra que ele não é apenas aquilo que pensa ser. Há nele aspectos contraditórios e desejos muito difíceis de assumir como próprios. E quando não nos damos conta de que esses aspectos da personalidade estão em nós, sentimos que estamos vivendo uma vida provisória, nos retraindo e nos enclausurando cada vez mais na nossa persona social. E tudo que é reprimido, volta como sintoma, seja no corpo, seja de forma psíquica.

Mas o ponto, aqui, não é a liberdade irrestrita de satisfazer todos os desejos reprimidos. Isso, se for feito, ocasionaria a nossa própria destruição. A questão é perceber que não somos um, ou dois. Somos muitos, e muitas vezes, contraditórios também.

Isso é o que Harry Heller, personagem do livro O Lobo da Estepe, do escritor Hermann Hesse, levou mais de 50 anos para perceber. Bom, e quem é Harry Haller? Vamos deixar o próprio autor nos apresentar:

“Harry, como toda pessoa sensível, queria ser amado na sua totalidade e, portanto, era exatamente com aqueles cujo amor lhe era mais precioso que ele não podia de maneira alguma encobrir ou perjurar o lobo. Havia outros, todavia, que amavam nele exatamente o lobo, o livre, o selvagem, o indômito, o perigoso e o forte, e esses achavam profundamente decepcionante e deplorável quando o selvagem e o perverso se transformava em homem, e mostrava anseios de bondade e refinamento, gostava de ouvir Mozart, de ler poesia e acalentar ideais humanos. Em geral, esses se mostravam mais desapontados e irritados do que os outros, e dessa forma o Lobo da Estepe levava sua própria natureza dual e conflitante aos destinos alheios toda vez que entrava em contato com as pessoas.”

O Lobo da Estepe, Hermann Hesse.

Harry Heller é apresentado como tendo duas naturezas: a de um homem e a de um lobo. Enquanto homem, ele se mostra intelectual, amante das obras de Goethe, das canções de Mozart, amante da tradição espiritual europeia e despreza tudo o que é consumido pelas camadas mais baixas da sociedade, mas ele também despreza a burguesia, que possui interpretações diferentes dos autores e das obras que gosta, se ressentindo com todos que não concordam com ele. E é aí que a natureza do lobo aparece. Vejamos como ela é:

“[…] se Harry, como homem, tinha um pensamento belo, experimentasse uma sensação nobre e delicada, ou praticasse uma das chamadas boas ações, então o lobo, em seu interior, arreganhava os dentes e ria, e mostrava-lhe com amarga ironia quão ridícula era aquela nobre encenação aos seus olhos de fera, aos olhos de um lobo que sabia muito bem em seu coração o que lhe convinha, ou seja, caminhar sozinho nas estepes, beber sangue vez por outra ou perseguir alguma loba. […] quando arreganhava os dentes aos outros, quando sentia ódio e inimizade pelos seres humanos e seus mentirosos e degenerados hábitos e costumes. Era isso o que ocorria ao Lobo da Estepe, e pode-se perfeitamente imaginar que Harry não levasse de todo uma vida agradável e feliz. Isso não quer dizer, entretanto, que sua infelicidade fosse por demais singular.”

O Lobo da Estepe, Hermann Hesse.

O lobo da estepe, como é conhecido Harry Haller, é chamado pelo autor do livro de “gênio do sofrimento”, pois ele desenvolveu uma espécie de talento para sofrer. Ele pensa demais, analisa demais, julga demais, e por isso mesmo, ao remoer tanto os pensamentos, eles acabaram se transformando em ressentimento contra o mundo. Harry enxerga com muita clareza as contradições do mundo, mas essa clareza não lhe dá serenidade. Pelo contrário, ela o empurra para um isolamento ainda mais radical. 

É por isso que o narrador afirma que a base de seu sofrimento não era exatamente o desprezo pelo mundo, mas o “desprezo de si mesmo”. Muitas vezes, uma pessoa acredita que odeia a sociedade, a mediocridade, a superficialidade dos outros, quando, em um nível mais profundo, está projetando no mundo uma guerra que acontece dentro dela. Harry despreza o mundo burguês, mas também despreza em si mesmo o desejo de estabilidade e de reconhecimento social. Ele despreza a vulgaridade, mas também teme sua própria capacidade de desejar coisas simples. Ele despreza o homem comum, mas sofre por não conseguir participar da mesma vida comum.

Harry é angustiado justamente por essa contradição. Nesse sentido, ele tem muito do homem do subsolo de Dostoiévski. Ambos pensam viver em um estado de hiperconsciência que os tornam únicos. Mas existem muitos que estão no subsolo, e são todos iguais. O lobo da estepe, assim como o homem do subsolo, é vaidoso da sua própria condição, mas ele não quer ceder sua vaidade por orgulho, para não se misturar com as pessoas comuns. O lobo da estepe se sente superior ao mundo, mas continua dependente dele. Critica a multidão, mas deseja ser visto pelos outros. Rejeita os vínculos afetivos, mas sofre por estar sozinho. Condena a vida comum, mas secretamente inveja quem consegue vivê-la com naturalidade. 

Essa é uma lição importante para quem vai ler o romance. Muitas pessoas tentam resolver seus conflitos internos escolhendo uma identidade fixa. Ou homem, ou lobo; ou Jekyll ou Hyde; ou homem de ação ou homem de consciência hipertrofiada. Alguns tentam ser sempre racionais, outros sempre produtivos, outros sempre rigidamente controlados. Mas outros também tentam ser sempre livres, sempre intensos e sempre impetuosos. Só que a alma humana não funciona bem quando é forçada a caber numa única imagem em oposição a outra. A vida psíquica exige o diálogo entre os opostos; que a pessoa reconheça suas contradições sem imediatamente transformá-las em culpa ou em orgulho. Não é porque você, consciente ou inconscientemente, decidiu dedicar boa parte da sua vida só a um lado dela, que os outros lados não vão cobrar o preço. Se boa parte da sua vida você se dedicou a uma vida intelectual, aos estudos, e a vida acadêmica, e esqueceu do seu corpo, das relações sociais e da vida amorosa, esse lado esquecido vai voltar na forma de sintomas para te avisar que algo precisa de atenção. Uma frase bem famosa de Jung diz o seguinte:

“A neurose é o sofrimento que não encontrou um sentido” Carl Jung, Psicologia da Religião.

É nesse sentido que o narrador do Lobo da Estepe nos mostra que somos muitos. Somos compostos de inúmeras partes relacionadas a cada setor da vida, tanto da vida interior como da vida exterior, como ele escreve:

“Pois não há um único ser humano, nem mesmo o primitivo, nem mesmo os idiotas, convenientemente simples, que possa ser explicado como a soma de dois ou três elementos principais; e explicar um homem tão complexo quanto Harry por meio da ingênua divisão em lobo e homem seria uma tentativa positivamente infantil. Harry compõe-se não de dois, mas de cem ou de mil seres. Sua vida (como a vida de cada um dos homens) não oscila simplesmente entre dois polos, tais como o corpo e o espírito, o santo e o libertino, mas entre mil, entre inumeráveis polos.”

O Lobo da Estepe, Hermann Hesse.

Um dos maiores erros de Harry Haller foi acreditar que conseguiu compreender a si mesmo quando se definiu como metade homem e metade lobo. A dualidade simplifica o sofrimento. A personalidade é uma realidade muito mais ampla do que o ego consciente. O ego é apenas o centro da consciência, aquilo que tenta manter uma narrativa estável sobre as coisas. Mas, ao redor desse ego, existe uma vida psíquica muito maior, composta pela persona, pela sombra, pela anima, os complexos, as imagens arquetípicas e por aí vai. A pessoa acredita ser uma unidade simples, mas por dentro carrega uma multidão de personalidades e imagens arcaicas.

Isso só fica claro para Harry Haller aos 50 anos de idade quando ele passa por uma transformação interior. Depois de sair derrotado durante a conversa na casa de um professor, em que estava conversando sobre Goethe, ele se deu conta de que havia perdido em argumentos na área da sua vida que mais se dedicou: na esfera racional, nas abstrações. Ao sair devastado da casa do professor, ele vagueia pelas ruas até achar um bar chamado Águia Negra e lá conhece uma figura feminina chamada Hermínia.

Ela percebe imediatamente o estado psíquico de Harry, pois Hermínia representa a vida como um todo, os sentimentos e o acolhimento maternal. Em vez de tratá-lo com reverência intelectual, ela o confronta de maneira direta, pois se ela entrasse na esfera intelectual, saberia que o lobo da estepe começaria a racionalizar. Ela o escuta, mas mesmo assim não cai no jogo de palavras dele. O lobo da estepe, que estava preso ao orgulho do sofrimento, encontra alguém que não se deixa impressionar pela sua própria tragédia.

Hermínia é a personificação do momento em que estamos no limite entre o desespero e uma possível transformação. Ela funciona como uma espécie de guia do inconsciente – a anima, na psicologia analítica –, que nos cutuca e nos confronta com sintomas físicos e psíquicos para que percebamos quais partes nós deixamos de lado em prol de uma outra. Em determinado momento da conversa do lobo da estepe com Hermínia, ele chega a dizer o seguinte:

“— Você sabe tudo, Hermínia! — exclamei assombrado. — E tudo é exatamente como você diz. E, no entanto, você é tão diferente de mim! É o contrário de mim; tem tudo o que me falta.”

O Lobo da Estepe, Hermann Hesse.

Aqui, o lobo da estepe, que até então estava voltado para o Logos, para a racionalidade, entra em contato com o Eros, com a vida. Harry despreza a vida sensorial porque a considera inferior ao espírito. Mas é Hermínia quem o reintroduz a ela. Ela mostra a dança para o lobo da estepe e o manda comprar uma vitrola e treinar alguns passos de dança para um baile. Hermínia mostra ainda que Harry precisa aprender a obedecer a algo que não seja sua própria razão amarga. Ele está acostumado a julgar tudo e a interpretar tudo, mas Hermínia o coloca na posição de aprendiz. Isso fere seu orgulho, mas é justamente o que ele precisa: deixar de ser apenas alguém que analisa a vida e começar a ser alguém que participa dela. Ela diz o seguinte:

“— Não se esqueça daquilo que me disse! Que eu devia mandar em você, e que lhe seria uma alegria obedecer às minhas ordens. Não se esqueça disso! Saiba de uma coisa, meu pequeno Harry: assim como há algo em mim que corresponde a você e lhe inspira confiança, o mesmo se dá comigo em relação a você.”

O Lobo da Estepe, Hermann Hesse.

Hermínia aparece com um desdobramento da vida de Harry Haller, e aos poucos, ela vai mostrando esse lado para ele, da sociabilidade e da vida mundana. Hermínia é uma segunda mãe para o lobo da estepe, que vai educando-o interiormente sobre a sensibilidade da vida. E durante uma noite em que Hermínia leva o lobo da estepe a dançar num hotel, ela o obriga a dançar com uma jovem chamada Maria, e que, mais tarde, ele volta para casa e a encontra deitada em sua cama. Mas foi Hermínia quem armou tudo, como parte do processo de o lobo da estepe reencontrar a vida sensorial. Maria representa justamente o desejo carnal que o lobo da estepe se afastou por ressentimento.

E o nome da personagem traz um simbolismo sagrado e profano ao mesmo tempo. É a tensão dos opostos que precisamos suportar dentro de nós. Hermínia não pode entregar o seu corpo diretamente ao lobo da estepe porque ela se recusa a se unir diretamente com ele. Essa separação é importante porque, se assumirmos que Hermínia é a anima do lobo da estepe, ele precisa saber diferenciar as imagens do feminino das mulheres que encontra na sua vida. Se projetarmos as imagens da nossa psique sobre o outro, podemos acabar nos frustrando com situações ocasionadas justamente por essas imagens; quando a pessoa não corresponde àquele ideal que lançamos sobre ela, nos frustramos com algo criado pelo nosso próprio inconsciente. No início de um relacionamento amoroso ou de uma relação social, isso é inevitável, mas com o tempo, precisamos fazer o árduo trabalho de retirar as projeções dos outros para que percebamos eles justamente como outros, e não como uma parte de nós mesmos.

Maria, assim como Hermínia, representam o mundo como ele é, que o lobo da estepe até então mantinha-se afastado, pois considerava inferior e indigno da sua intelectualidade, como ele mesmo escreve:

“O mundo dos salões de baile e dos locais de prazer, o cinema, o bar e os chás nos salões de hotéis, que para mim, o solitário e asceta, sempre tinham sido algo inferior, proibido e degradante, era, para Maria, para Hermínia e suas companheiras, simplesmente o mundo, sem ser bom nem mau, nem agradável nem odioso; nesse mundo florescia sua curta e anelante vida.”

O Lobo da Estepe, Hermann Hesse.

Essa é uma grande cilada que a pseudo-independência pode nos levar. A coisa que o lobo da estepe mais temia era perder a sua aparência de independência. Isso fazia com que ele se retraísse e se afastasse de qualquer situação onde essa suposta independência fosse posta a prova. A vida mundana, as conversas casuais e a aproximação das pessoas eram vistas pelo lobo da estepe como possíveis situações em que ficaria vulnerável, como se ele fosse descoberto, como se precisasse usar uma persona de intelectual solitário o tempo todo. Se se aproximasse dos outros e começasse a conversar sobre gostos mais populares, sua persona de intelectual cairia e sua independência seria posta à prova, pois as relações humanas exigem que as pessoas falem sobre elas mesmas para os outros. O lobo da estepe tinha medo de falar sobre si mesmo porque pensaria que os outros o veriam como uma farsa. A questão é que você não deixa de ser menos intelectual se participar de conversas cotidianas, quebra-gelos ou ter gostos populares, isso é fetichismo intelectual. Nem Schopenhauer, o filósofo que ficou conhecido pelo seu pessimismo, se isolou da vida cotidiana. 

Bom, e durante suas noites de dança, o lobo da estepe encontra Pablo, um saxofonista de uma orquestra. Pablo é tudo aquilo que o Harry Heller, o lobo da estepe, gostaria de ser. Enquanto Harry é um intelectual estagnado, Pablo detém uma grande sabedoria prática. Ele sabe se portar nos ambientes sociais de maneira leve mas sem perder a integridade. Ele não leva a vida tão a sério. E nesse sentido ele está muito associado à figura do trickster, o personagem ambíguo que desorganiza as certezas do ego. O trickster cria confusão, mistura planos, e muitas vezes conduz ao absurdo, para que ele nos salve de um jeito que o ego consciente nunca imaginaria. Para uma consciência rígida, como a do lobo da estepe, isso parece muito amedrontador. Mas, muitas vezes, a psique precisa desse tipo de figura para quebrar uma ordem interna que tornou a consciência estagnada.

Só que, o mais interessante é que Harry Haller, no início, não reconhece a sabedoria de Pablo justamente porque ela não se parece com a profundidade que Harry valoriza. Muitas pessoas só reconhecem a sabedoria quando ela aparece com a aparência que esperam: com seriedade, erudição, com palavras difíceis, e por aí vai. Mas há sabedorias que se manifestam com humor. Sócrates usava constantemente da ironia para chegar às suas conclusões junto dos seus interlocutores. E Harry Haller precisava aprender que a seriedade excessiva é apenas mais uma prisão do ego para não perder a máscara de independência.

Hermínia, Maria e Pablo são, portanto, a multiplicidade de Harry Haller. Eles anunciam que Harry não é dois. Ele é muitos. E enquanto ele insistia em se explicar apenas pela oposição entre homem e lobo, continuaria preso a uma falsa simplicidade. O inconsciente vem mostrar que a alma humana é mais vasta, mais contraditória e mais criativa do que isso. Cada um toca uma região diferente da psique de Harry, como o próprio Hermann Hesse escreveu:

“Hermínia, Maria e Pablo —, são desdobramentos da personalidade de Harry. Hermínia chega mesmo, em dado ponto da narrativa, a verbalizar a teoria de que o corpo e a alma eram unos a princípio, até serem separados pelo intelecto, que se identifica com a serpente paradisíaca, portanto, com o demônio, o que constitui uma das teses preferidas do Lobo. […] Maria por sua vez é apenas o corpo que se entrega, a parte ‘disponível’ de Hermínia, pois esta se recusa a unir-se com Haller e deseja ser ‘morta’ por ele. Já Pablo é sua versão masculina, aquele que gostaria de ser, e por isso suas referências guardam necessariamente um caráter homossexual, masturbatório, ou seja, o ser copulando consigo mesmo. Todos esses personagens vão se encontrar no Teatro Mágico, uma espécie de eufemismo para o uso de drogas.”

O Lobo da Estepe, Hermann Hesse.

O teatro mágico é onde todos esses personagens aparecem. Não é um lugar física no livro, mas também não é um lugar no inconsciente. Ele é uma representação da psique em sua totalidade. Na entrada do teatro, há uma inscrição dizendo que o acesso ao interior é só para loucos, ou seja, Harry Haller precisa abandonar a lógica rígida do ego racional para entrar. Ele entra acreditando ser um homem dividido entre espírito e animalidade, mas descobre que a alma humana não é feita de apenas duas partes. Ela é múltipla, contraditória, simbólica e muito mais vasta do que o ego consegue controlar, como explica Hermann Hesse: 

“Seria necessário que o homem e o lobo se conhecessem mutuamente sem falsas máscaras sentimentais, que se fitassem nos olhos em toda a sua nudez. Então, explodiriam ou se separariam para sempre, de modo que não voltariam a existir lobos da estepe ou chegariam a bons termos à luz nascente do humor.”

O Lobo da Estepe, Hermann Hesse.

O Teatro Mágico também revela que a psique humana é criativa. A condenação que Harry estava passando virou matéria de transformação dentro da própria psique. O teatro mágico é uma espécie de receptáculo alquímico onde os conteúdos combinados são transmutados e levam o sujeito a novo estágio da consciência, mas dessa vez não é rígida nem forçada. O lobo não precisa matar o homem; o homem não precisa domesticar completamente o lobo. Ambos podem ser colocados dentro de uma estrutura mais ampla.

E essa estrutura mais ampla é o Self, na linguagem junguiana. O Self não é o ego. O ego é o centro da consciência, aquilo que diz “eu”. O Self é uma totalidade maior, que inclui consciente e inconsciente. Quando a pessoa vive apenas a partir do ego, elas tenta controlar a sua identidade. Quando começa a se aproximar do Self, ela percebe que a vida interior é maior do que suas opiniões sobre si mesma. A individuação é justamente esse deslocamento de sair da rigidez de uma autoimagem e se aproximar de uma totalidade mais complexa.

Esse é o resultado do livro. Hermann Hesse mostrou que o sofrimento não desaparece completamente quando nos conhecemos, simplesmente. O autoconhecimento verdadeiro, muitas vezes, aumenta inicialmente o desconforto, porque nos obriga a ver o que antes estava escondido. Mas esse desconforto é diferente do sofrimento inconsciente. Antes, Harry sofria repetindo sua divisão em homem e lobo sem compreendê-la. Agora, ele começa a perceber que existe um caminho para além da identidade do Lobo da Estepe.

E é por isso que O Lobo da Estepe continua tão atual. Porque muitos de nós também temos nosso Teatro Mágico. Às vezes, ele aparece em uma crise. Às vezes, em uma perda. Às vezes, em um relacionamento que já está desgastado e precisa de uma transformação. Às vezes, em uma depressão profunda, em uma mudança de fase da vida, ou em uma pergunta que ela nos faz e que não podemos mais evitar. E é nesse momento que a sombra aparece, e mesmo que dure 50 anos, uma hora precisamos encará-la.

Rolar para cima