Ninguém consegue ser “desapegado” —

Depois de ouvir isso, você nunca mais vai voltar para aqueles sites — Carl Jung

Na mitologia grega, Tântalo era um rei, filho de Zeus, que tinha o privilégio de conviver e banquetear junto aos deuses do Olimpo. Só que Tântalo resolveu testar a onisciência dos deuses, matando, cozinhando e servindo seu próprio filho a eles durante um dos banquetes. Os deuses, obviamente, perceberam o que Tântalo tinha feito e o lançaram no Tártaro, o lugar mais profundo do Hades, tendo como punição o seguinte: Tântalo fica em pé dentro de um rio, mas sempre que tenta beber daquela água, ela recua. Acima dele há alguns frutos de uma árvore, mas quando tenta pegar algum, os galhos se afastam.

O resultado da tortura são a sede e fome eternas, com o indicativo de que a satisfação sempre  esta“a um passo”, mas ao mesmo tempo impossível. O psicólogo francês Paul Diel explica o simbolismo dessa punição: 

“A água que se esvai e os frutos que lhe escapam são o símbolo claro de uma perda total do sentido do real, o símbolo da imaginação impotente que se tornou alucinativa. A alucinação oferece a Tântalo os frutos e a água, ambos elementarmente necessários para acalmar a fome e a sede. Quando porém tenta alcançá-los, percebe-se incapaz disso; as promessas alucinadas não são senão fantasmas e em vão procura agarrá-los. A água e os frutos, a satisfação de sua fome e sede, lhe são ao mesmo tempo alucinadamente prometidos e realmente interditados por seu espírito ascético, pelo espírito da vida que o anima mas que, por força da exaltação vaidosa, manifesta-se somente na forma de tormento e de inibição […]”

Paul Diel, O Simbolismo na Mitologia Grega.

E por que eu estou contando essa história? Bom, eu vou usar o nome e a punição de Tântalo para me referir a um paciente que me procurou por terapia, com a queixa de que estava tendo problemas, tanto na vida pessoal quanto na sua vida conjugal, quanto ao consumo de pornografia. E a punição de Tântalo é uma imagem muito certeira sobre o vícios, não só em pornografia, mas os vícios de forma geral: nós buscamos uma satisfação plena, mas essa satisfação nunca chega, e quando achamos que vamos nos saciar, percebemos que nos encontramos abaixo do limiar esperado e tentamos repetir o processo, assim como Tântalo, tentando chegar à água ou aos frutos. Paul Diel explica que:

“No mito de Tântalo, os símbolos do castigo, a água e os frutos que se lhe recusam, são a repetição e demonstração final do tema central do mito: a impotência corporal e espiritual, consequência da exaltação imaginativa.”

Paul Diel, O Simbolismo na Mitologia Grega.

O paciente, que eu vou chamar Tântalo, sentia que estava vivendo uma vida dupla: percebia que não conseguia falar sobre moralidade sabendo que o estava fazendo atentava contra a sua moralidade, as suas convicções religiosas e o seu relacionamento com a sua esposa.

Por mais que ele soubesse dos malefícios da pornografia, isso não parecia ser o suficiente para que parasse. Ele sabia que o consumo de pornografia impacta no sistema doparmigérico do cérebro. Ele entendia que consumia para aliviar o estresse ocasionado pelo trabalho e por algumas insatisfações no seu relacionamento. Percebia como afetava seu senso de recompensa, já que a pornografia oferecia uma via rápida de satisfação sem precisar se esforçar muito. Se dava conta do enorme impacto social que o consumo causava, pois passava a sexualizar outras mulheres que via aparecendo em séries, filmes e no cotidiano. É fato que o mundo está ficando cada vez mais sexualizado, mas isso já foi discutido em outro vídeo.

Mas voltando ao caso. Uma noite, quando Tântalo foi a um bar com a sua esposa e alguns amigos, apesar de estar se divertindo bastante, ele começou a sentir um certo desconforto depois que a conversa se inclinou para um tema de cunho sexual, quase puxando para a promiscuidade.

Só que, naquela mesma noite, ele teve um sonho perturbador e extremamente desconfortante, onde a sua esposa estava participando de uma orgia com os amigos que estavam naquele bar, e o sonhador só podia ficar olhando, sem conseguir se mexer para tentar fazer alguma coisa. Quando nós discutimos sobre o sonho na sessão de terapia, o paciente chegou à associação de que o sonho era uma imagem da sua própria impotência diante dos vídeos pornográficos. Era como se a sua esposa, no momento do sonho, fosse uma das mulheres dos vídeos que ele costumava assistir, e sua incapacidade de se movimentar era o seu estado de angústia em não conseguir parar com a pornografia.

Diante da experiência emocional que o sonho lhe proporcionou, ele começou a sentir uma certa repulsa em consumir vídeos pornográficos. Ele tinha passado por uma experiência emocional de internalização. No final das contas, é só dando-se conta do impacto emocional de um conflito que encontramos realmente a capacidade para mudar. Muitas vezes, o conhecimento intelectual acerca de algo ou de nós mesmos não basta, pois tudo o que fazemos é racionalizar.

Personagens como Raskolnikóv e o Homem do Subsolo de Dostoiévski exemplificam isso. Eles racionalizam demais por não quererem sentir o que de fato está errado com suas condutas. Quando não acessamos ou tentamos reprimir emocionalmente aquilo que nos perturba, a psique dá um jeito de nos mostrar através de sintomas.

E essa experiência emocional pode ser sentida de diversas maneiras, sendo os sonhos uma delas. Na psicologia analítica, os sonhos são acontecimentos psíquicos autônomos, como escreveu Jung

“Os sonhos, portanto, nos comunicam, numa linguagem figurada — isto é, por meio de representações sensoriais e imaginosas — pensamentos, julgamentos, concepções, diretrizes, tendências, etc, que se achavam em estado de inconsciência, por terem sido recalcados ou simplesmente ignorados. Mas por se tratar de conteúdos do inconsciente e porque o sonho é a resultante de processos inconscientes, ele oferece-nos justamente uma representação dos conteúdos inconscientes.”

Carl Jung, A Natureza da Psique.

Em outras palavras, os sonhos são uma produção espontânea do inconsciente que dialoga com a consciência — às vezes corrigindo, às vezes ampliando, às vezes desestabilizando aquilo que o ego pensa saber sobre si mesmo.

E foi esse um dos motivos daquele sonho. A imagem exagerada da orgia dramatizou a culpa que o sonhador sentia internamente pelo consumo de pornografia, extrapolando para o cenário social e coletivo. Mas não é como se isso fosse de fato acontecer, é como se o sonho estivesse desmontando a ilusão de controle do ego, indicando que isso já fazia parte do coletivo dentro dele, e pelo fato do sonhador estar em conflito, o sonho projetou esse conflito.

Outro componente interessante é o fato da esposa do sonhador ter aparecido como uma imagem da sua anima, o feminino interior do homem. No sonho, ela aparece no estágio mais baixo do relacionamento do homem com sua anima, aquele voltado à carne e à satisfação, que Jung chama de Eva. Só que no sonho, pelo fato do material pornográfico já ter contaminado o inconsciente, ela aparece dessacralizada, tornada simplesmente como um objeto de consumo.

Mas o ponto mais esclarecedor do sonho é a paralisia do sonhador diante da cena, um sinal de impotência do ego diante de um impulso autônomo do inconsciente, como o próprio sonhador notou. O sonho espelhou o consumo de pornografia: a pessoa não participa de nada, ela se torna apenas uma espectadora, e isso causa tortura. No final, a própria psique do indivíduo transforma sua angústia em tormento para exigir a integração e a ação da pessoa.

Aqui vale reforçar esse ponto: quando o ego tenta “resolver” um conflito apenas com força de vontade e moralidade, mas continua evitando o núcleo emocional do problema, a psique encontra outros caminhos para tornar isso inevitavelmente consciente — não só pelos sonhos, mas por sintomas, lapsos, irritações desproporcionais, fantasias intrusivas, compulsões ou “coincidências” que parecem que foi coisa do destino, mas são apenas encenações psíquicas para que, em algum momento, você consiga perceber.

Há uma frase de Jung onde ele diz que:

“[a] neurose é sempre um substituto para o sofrimento legítimo.”

Carl Jung, Psicologia da Religião Oriental e Ocidental.

Ou seja: quando o ego evita a responsabilidade que o sofrimento carrega, seja a dor do luto, a vergonha diante de situações novas, a frustração por um fracasso, as humilhações que podemos passar diante dos outros — a psique fabrica um sofrimento repetitivo, paralisante, que cobra alguma coisa do ego consciente.

E isso explica por que, no caso de Tântalo, não bastava ele saber dos malefícios, nem entender de dopamina, nem ter “bons valores” para escapar da pornografia. A questão não era falta de informação; era a fuga de uma tarefa interior. E o sonho serviu como uma experiência de realidade. O sonho pegou o que era “assistido” em segredo e transformou em cena pública; pegou o que era “prazer rápido” e transformou em tortura; pegou o que era “controle do ego” e expôs como impotência. E é justamente dessa forma que muitas vezes o inconsciente atua. Ele tem o compromisso de ser compensatório: ele tenta equilibrar a atitude consciente quando o ego fica unilateral, como o próprio Jung escreveu:

“A experiência no campo da psicologia analítica nos tem mostrado abundantemente que o consciente e o inconsciente raramente estão de acordo no que se refere a seus conteúdos e tendências. Esta falta de paralelismo, como nos ensina a experiência, não é meramente acidental ou sem propósito, mas se deve ao fato de que o inconsciente se comporta de maneira compensatória ou complementar em relação à consciência. Podemos inverter a formulação e dizer que a consciência se comporta de maneira compensatória com relação ao inconsciente.”

Carl Jung, A Natureza da Psique.

Quando a consciência se estreita, o inconsciente, então, amplia e equilibra a atitude. E se ainda assim o ego não escutar os ecos e ruídos que ele traz, vamos continuar repetindo as mesmas frustrações. Uma outra passagem bem famosa de Jung diz o seguinte:

“[…] quando um fato interior não se torna consciente ele acontece exteriormente, sob a forma de destino, ou seja: se o indivíduo se mantém íntegro e não percebe sua antinomia interior, então é o mundo que deve configurar o conflito e cindir-se em duas partes opostas.”

Carl Jung, Aion: Estudos Sobre o Símbolismo do Si-mesmo.

Em outras palavras, o que você não integra, você projeta; e o que você projeta, você encontra, chamando aquilo de destino. O que não é encarado por dentro, aparece por fora — seja na forma de crises, tentações, brigas conjugais, ressentimentos, desânimo, ou “acidentes” de percurso que parecem ter vindo do nada.

A pornografia, então, era uma solução psíquica provisória para um conjunto de conflitos que Tântalo não queria tocar, ou pelo menos não estava conseguindo compreender. E aqui a parte do sonho em que Tântalo paralisa e não consegue se mexer vai ficar mais clara quando entendermos que isso simboliza a impotência do ego diante de um complexo. Os complexos são núcleos psíquicos carregados com afetos, memórias e experiências que passam a possuir o ego consciente. É muito difícil nos desfazermos dos complexos, justamente porque eles são autônomos, são independentes da nossa vontade. 

E uma das formas do ego evitar um complexo é reprimindo aquilo que o tornaria fraco. Mas é justamente na resistência diante de algo que não queremos confrontar que pode estar o caminho para a cura, como Jung escreveu:

“O temor e a resistência são os marcos indicadores que balizam a via régia em direção ao inconsciente.”

Carl Jung, A Natureza da Psique.

Ou seja: se você está se sentindo travado, se está resistindo a alguma mudança, se está com vergonha de algo, se está desconfortável com alguma coisa que está se passando na sua vida — talvez você esteja exatamente na direção certa. Porque é aí que mora a verdade que o ego não quer pagar o preço de olhar; pois como é sabido em praticamente todas as histórias mitológicas e contos de fada:

“A caverna que você tem medo de entrar está o tesouro que você procura.”

Frase atribuída a Joseph Campbell. 

E, se nós não fizermos isso, a psique fará nós, à sua própria maneira. Porque o inconsciente tem os seus próprios modos de agir: ele muda de linguagem. Se o sonho não basta, ele se apresenta como irritação, distanciamento, fantasias mais extremas, desânimo, impotência, ou a vida inteira ficando cada vez mais distante de nós.

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