Por que a falta de beleza no mundo causa doenças mentais?
Transcrição do vídeo
“A humanidade pode viver sem ciência, pode viver sem pão, mas não pode viver sem beleza. Sem beleza, não haveria mais nada para fazer nesta vida. Todo o segredo está aqui, toda a história está aqui.”
Fiódor Dostoiévski, Os Demônios.
Você está se sentindo cansado, meio…vazio? Bem, talvez isso não seja por acaso, olhe à sua volta.
Se você olhar para o mundo ao seu redor com um pouco de atenção, vai notar que há uma estranha hostilidade à beleza: a arquitetura moderna parece espelhar nossa sensação de vazio; prédios e casas que mais parecem caixas de concreto, idênticos, com cores neutras e ausência total de detalhes. Quase tudo parece ter sido projetado apenas para reduzir custos e otimizar espaço.
Algo semelhante acontece também nas músicas de hoje em dia, que parecem ser produzidas em massa, repetitivas, ou simplesmente descartáveis, feitas somente para tocar o refrão ou servir como trilha sonora de algum reels ou TikTok.
As marcas e os seus produtos estão cada vez mais sem personalidade. Logos chapadas, com cores menos chamativas e com um visual minimalista. Até mesmo os produtos estão vindo menores e menos saborosos.
Mas talvez seja na arte que esse fenômeno ganhou outras dimensões. Muito do que é chamado de arte contemporânea parece exigir mais explicação do que a própria contemplação que é próprio de uma obra de arte. Em vez de uma experiência de beleza, muitas vezes o que encontramos é uma ironia, uma desordem ou provocações vazias. Não é que toda arte moderna seja assim, mas há uma tendência forte de substituir aquilo que é belo, harmonioso e que faça sentido por algo bizarro, deforme e dessacralizado, como se tudo fosse uma grande piada; como se a feiura fosse mais autêntica só por romper com qualquer ordem ou padrão.
O filósofo Roger Scruton percebeu e estudou a falta de beleza da nossa época. No seu documentário chamado “Por que a Beleza Importa?” ele diz o seguinte:
“No século XX, a beleza deixou de ser importante. A arte, cada vez mais, concentrou-se em perturbar e em quebrar tabus morais. […] Não apenas a arte fez um culto à feiura; a arquitetura também se tornou desalmada e estéril. E não foi somente o nosso ambiente físico que se tornou feio. Nossa linguagem, nossa música e nossas maneiras estão cada vez mais rudes, egoístas e ofensivas; como se a beleza e o bom gosto não tivessem nenhum lugar real em nossas vidas. […] Eu acho que nós estamos perdendo a beleza e há um risco de que, com isso, nós percamos o sentido da vida.”
Roger Scruton, Por Que a Beleza Importa?
Durante muito tempo na história, a beleza foi vista como uma espécie de manifestação sensível do verdadeiro e do bem. O que era verdadeiro tendia ao bem, e o bem tendia a se expressar de forma bela. Uma catedral não era apenas um prédio; um ícone não era apenas uma pintura; uma sinfonia não era só um conjunto de sons. Havia a ideia de que a forma bela revelava algo da ordem profunda do mundo, algo da estrutura da realidade.
Só que, a partir do século XIX, a beleza começa a se desprender do bem e da verdade por dois lados. De um lado, o avanço das ciências experimentais abalam a estrutura religiosa das civilizações, questionando a ideia de que exista uma ordem fixa dada por Deus, que organiza o mundo. Esse foi o começo do viria a ser o niilismo, essa visão de mundo em que nada tem um sentido último e de que nada aponta para algo maior. Se não acreditamos mais que exista um sentido profundo na realidade, de não que exista o Bem em si, então a beleza vira apenas uma preferência individual, quase um capricho; ela não passa mais a espelhar a realidade superior.
Do outro lado, com o avanço da técnica, dos bens de produção e consumo e das revoluções políticas, a preferência pela utilidade e pela eficiência tomou o lugar da beleza. Hoje, se alguma coisa não servir para dar dinheiro, status, produtividade ou visibilidade, é considerado perda de tempo. Tudo aquilo que não é estritamente necessário para o funcionamento é visto como desperdício. O resultado é um mundo funcional, só que cada vez mais seco, dessimbolizado e pobre em significado.
A questão é que a utilidade, por mais paradoxal que seja, tende a se tonar inútil com o tempo. A beleza, pelo contrário, torna as coisas cada vez mais úteis, por mais paradoxal que seja.
Mas é justamente a falta de beleza no mundo e nas coisas a responsável por vários males psicológicos que sofremos hoje em dia: quando substituímos a beleza pela utilidade, o que ganhamos é um mundo mais feio e mais agressivo — e, por causa disso, mais difícil de suportar. E o que acontece é o resultado daquelas duas frentes: a vida se torna apenas um conjunto de tarefas a cumprir, ocasionada pela visão utilitarista, mas sem sentido nenhum, ocasionado pelo avanço da visão niilista sobre as coisas. E porque falta beleza, tudo começa a parecer inútil no nível mais profundo. Você até pode fazer muitas coisas, mas não sente que está vivendo algo digno e com sentido.
Talvez você nunca tenha ligado diretamente o seu cansaço, sua apatia, sua falta de sentido à ausência de beleza, mas isso está mais conectado do que parece. Um mundo sem beleza além de ser menos agradável, também é menos habitável, já que a beleza costuma atrair e o feio repelir as coisas.
Sim, a beleza é uma necessidade humana. Pense na experiência de ouvir uma música profundamente bela num momento difícil, ou de entrar em um lugar harmonioso quando você está numa crise, ou de se sentar diante de uma paisagem que parece organizar, por alguns instantes, a confusão dentro de você. Nessas horas, a beleza, de fato, não vai resolver objetivamente os problemas, mas ela nos reconcilia com o fato de simplesmente existir.
Ela nos dá a sensação de que, apesar de tudo, a vida ainda contém algo digno e que vale a pena ser cuidado. A beleza mostra que alguém se importou. Alguém gastou tempo, inteligência, esforço, dinheiro, paciência, para que aquilo não fosse apenas funcional, mas belo. Isso gera um tipo de humildade, de sentimento de pertencimento que a mera utilidade por si só não consegue gerar.
Hoje em dia, a arquitetura, a música e as artes refletem a nossa falta de sentido. É um espelho do nosso mundo interior, que se tornou vazio e obscuro. O filósofo Giovanni Reale em seu livro “O Saber dos Antigos” escreveu dessa forma:
“A crise expressiva da arte integra, portanto, aquela crise mais geral da perda de sentido e do desvio dos valores. […] Em vários campos da arte, abstrações que marcam o triunfo do dis-forme […] são tachadas como obras-primas. Na verdade, trata-se de autêntica feiura.”
Giovanne Reale, O Saber dos Antigos.
Em outras palavras, a decomposição da beleza apenas denuncia a perda dos nossos valores transcendentais e nossas incertezas perante a origem e o fim da vida.
Mas, afinal de contas, o que é a beleza? Quando alguém diz que a “beleza é relativa”, normalmente está tentando dizer que “cada um gosta de uma coisa”. E é verdade que há um componente subjetivo na beleza. Você, por exemplo, pode achar uma música maravilhosa e outra pessoa achar entediante. Há, de fato, um juízo estético que diz respeito ao sujeito tanto quanto diz respeito ao objeto.
Mas se tudo é apenas gosto, por que ainda sentimos vergonha de achar certas coisas belas e outras não? Por que ainda nos emocionamos quase unanimemente com certas obras, certos lugares, certos gestos humanos? Por que quase ninguém diria que um lixão é tão belo quanto um céu estrelado, por exemplo? Há um componente objetivo na beleza, com certeza.
E para entendermos o que é a beleza, precisamos voltar para a Grécia antiga, em meados do quarto século a.C., há mais de 2400 anos, e buscar o filósofo grego responsável por moldar quase todo o nosso entendimento sobre a beleza: Platão.
Para Platão, o mundo em que vivemos e as coisas que nele se apresentam, seja os animais, as plantas, as coisas materiais e até mesmo os atos humanos, são apenas cópias imperfeitas das Formas, ou eidos, em grego. As Formas são a essência das coisas, uma estrutura inteligível que faz uma coisa ser ela mesma e não outra coisa; são modelos perfeitos dos quais as coisas aqui da Terra participam.
Mas aí você pode pensar: mas onde estão essas Formas, a essência das coisas? Não é que elas estão em algum lugar. Para Platão, as Formas são uma realidade — a verdadeira realidade, diga-se de passagem; elas são a causa das coisas presentes no nosso mundo físico.
Para Platão, um cavalo só é um cavalo porque participa da Forma perfeita do Cavalo. Um ato de justiça só é justo porque participa da Forma perfeita de Justiça. Sendo assim, uma coisa só é bela porque participa da Forma da Beleza.
Quando falamos da forma de alguma coisa estamos falando de algo para além do momento, da opinião ou do gosto pessoal. As situações mudam, os rostos mudam, as épocas mudam; mas a forma continua lá, a essência é a mesma, só mudando sua aparência.
Isso significa que, quando você se emociona diante de algo belo, a sua mente está reconhecendo uma ordem, uma certa unidade em meio à multiplicidade das coisas. Há algo naquela música, naquele rosto, naquela paisagem, naquele gesto, que se encaixa, que tem unidade e proporção. Essa sensação de que as coisas estão no lugar é a marca da forma bem realizada. E a beleza tem justamente a ver com ordem, grandeza e proporção.
Um rosto harmonioso pode ser belo porque expressa, de modo limitado, algo da Beleza em si; uma obra de arte com unidade, proporção e equilíbrio, também participa da Forma da Beleza; a própria natureza, com seus padrões de regularidade e equilíbrio também participa desse algo superior.
A relação entre beleza e medida fica mais claro quando pensamos não apenas na beleza física, mas na beleza moral. Quando vemos um ato de coragem ou de generosidade diante dos nossos olhos, significa que alguém fez aquilo na exata medida, no exato equilíbrio diante das circunstâncias em que estava. Significa que, ali, alguém conseguiu dar ordem aos caos, equilibrou os opostos e imprimiu uma unidade na multiplicidade. O ato corajoso é a justa medida entre a temeridade e a covardia; a generosidade, a justa medida entre o esbanjamento e a mesquinhez. É a exata proporção diante do múltiplo, da confusão, e por isso mesmo é belo.
Não há ali nada “bonito” no sentido visual propriamente dito. Na verdade, pode até ter, mas há uma forma de humanidade que se realiza de um jeito tão pleno que provoca admiração. É como se, naquele gesto, a forma de uma vida boa e digna aparecesse com nitidez. A beleza, então, não está só em objetos exteriores, em coisas físicas; ela está em modos de ser e em formas de se viver.
Porém, como nós estamos imersos no devir, ou seja, em um constante vir-a-ser das coisas — sujeitos ao tempo e à matéria —, as cópias das Formas são imperfeitas e não expressam toda a realidade das Formas em si mesmas. Ou seja, por mais que vemos coisas belas e atos de bondade, jamais vemos a Beleza ou a Bondade em si mesmas. Mas, diante dessas cópias, é como se tivéssemos um vislumbre dessa realidade superior aqui da Terra. E como somos atraídos pelo que é belo, não existe nada mais belo do que a Verdade das coisas, e de algum modo, queremos alcançá-la, ou seja, queremos chegar até as Formas em si mesmas, ou até o Bem em si mesmo.
E é aí que surge um outro componente vital na filosofia de Platão: Eros, ou o amor.
Diferente da visão que temos hoje, onde eros é confundido apenas com desejo sexual, em Platão, Eros é uma força metafísica, um impulso em direção a algo superior. Eros também está presente dentro de nós, pois também participamos das formas perfeitas, então há um buraco que produz falta e buscamos preenchê-lo. Mas então como Eros vai em direção a essa plenitude, para essa realidade causadora de tudo?
Lembra que eu disse que a beleza atrai? Pois bem, em um dos seus diálogos mais famosos, intitulado “O Banquete”, Platão escreve uma sequência de discursos sobre o amor. O mais importante para nós é o discurso que Sócrates relata em nome de uma mulher sábia chamada Diotima, uma sacerdotisa da cidade de Mantinéia, na Grécia, que inicia Sócrates nos mistérios do amor. É ela quem apresenta a famosa imagem da “escadaria da Beleza”. Essa metáfora serve para explicar por que a beleza é objetiva, por que ela é uma experiência transcendental e um processo de ascensão, que parte da natureza mais baixa para a realidade inteligível das coisas.
Primeiro, vamos entender a natureza de Eros através do seu nascimento. Olha o que Diotima diz à Sócrates:
“Quando Afrodite nasceu, os deuses fizeram um banquete, e entre os convidados estava Poros [recurso]. Terminado o banquete, veio Penia [pobreza] para mendigar as sobras da festa. Então Poros, embriagado de néctar, entrou no jardim de Zeus e, entorpecido como estava, foi dominado pelo sono. Penia, então, por estar carente de tudo o que Poros possui, deitou-se com ele e concebeu Eros. Por isso, Eros torna-se seguidor e ministro de Afrodite, porque foi gerado durante as festas de seu aniversário; ao mesmo tempo, é por natureza amante da beleza, porque também Afrodite é bela.”
Platão, O Banquete.
É por isso, então, que Eros é um intermediário entre o desejo e a falta, entre a aquisição e a privação. Ele busca justamente aquilo de que é privado, ou seja, as coisas belas e boas, justamente porque as faltam. Giovanni Reale comenta sobre Eros da seguinte forma:
“Eros é antes, intermediário entre belo e feio, bom e mau. [Ele] realiza a síntese dos opostos: privação e aquisição, necessidade e capacidade de buscar aquilo de que se tem necessidade, pobreza e riqueza. […] Dessa síntese dos opostos deriva, enfim, sua força dinâmica, que o impele cada vez mais para o alto.”
O Saber dos Antigos, Giovanni Reale.
Entenda aqui Eros como um elo que liga o mundo físico com o mundo divino, o sensível com o suprassensível. Ou seja, Eros é o modo pelo qual nos relacionamos com as instâncias superiores a nós, com toda aquela realidade das Formas que Platão nos fala.
E como Eros faz essa ligação? Justamente através das coisas belas, pois o que é belo atrai; e é daí que vem a imagem da escadaria.
A escadaria começa no degrau mais baixo, ou seja, o fascínio por um corpo belo. Diotima diz que, em um primeiro momento, o amante se apaixona por um corpo específico — seja um rosto, um sorriso, enfim, uma pessoa particular, pois uma pessoa é uma unidade, uma medida que reflete a perfeição da Forma. Essa é a experiência de estar apaixonado, que todos nós conhecemos. Só que o fascínio de Eros pelas coisas belas faz com que ele, de alguma forma, tente imortalizar a beleza. E por isso nós procriamos e temos filhos. Nós desejamos imortalizar aquilo que é belo, e o corpo humano, dotado de medida e proporção, é belo, como continua Platão:
“[…] ao alcançar uma certa idade, nossa natureza anseia por dar à luz. Ora, não é possível que dê à luz em algo disforme, mas somente no belo. A conjunção do homem com a mulher é geradora de ambos. Essa geração e concepção constituem uma ação divina, a presença de um elemento imortal num ser vivo mortal, e não pode ocorrer naquilo a que falta harmonia. O disforme não se harmoniza com tudo aquilo que é divino, ao passo que o belo se harmoniza.”
Platão, O Banquete.
Essa é a maneira como participamos da Forma da imortalidade, através da procriação. E os seres humanos, mais que todos os outros seres vivos, têm a capacidade de experimentar essa transformação através da gestação e, mais que do isso, em ter a consciência de que, apesar dos inúmeros corpos, algo imutável subsiste em todos eles, uma essência que permanece em todos os seres humanos.
Aqui, Eros percebe que todos os corpos são belos, ou seja, todos compartilham de uma unidade que tentamos deixar imortalizada a partir da procriação no belo, como continua Platão:
“[…] observe como o belo associado a um ou outro corpo é irmão do belo associado a qualquer outro, e que se pretende buscar a beleza da forma seria muito tolo se não considerasse como una e a mesma a beleza de todos os corpos […]”
Platão, O Banquete.
É exatamente isto! Eros está buscando o Belo em si, a essência e a unidade que todas as coisas belas compartilham.
Mas quando Platão diz que a gestação é uma das formas de imortalizar o belo, ele não está falando somente de dar à luz a outros seres humanos. Há também a gestação de ideias que se faz na alma humana, e aqui Eros sobe mais um degrau da escadaria, passando da beleza dos corpos para a beleza da alma humana.
Todos são propensos a conceber ideias e virtudes na alma, fazendo delas um meio de imortalizar a beleza, pois o caráter, a inteligência ou a coragem são coisas belas que devem ser imortalizadas. Aqui, o amor já é menos possessivo e mais contemplativo. A pessoa não busca apenas “ter” o outro; ela deseja vê-lo crescer e se tornar melhor que até ela própria. A beleza, nesse degrau, passa a ser percebida como algo que se aproxima do bem absoluto.
Mas como Eros está tentando encontrar a unidade de todas as coisas — que começou na beleza de um corpo individual, passou para a beleza da unidade de todos os corpos e depois para a beleza da alma humana —, ele, então, sobe mais um degrau da escadaria e começa a se interessar pela beleza das leis, das práticas e das formas de vida. Eros percebe que existem modos de organizar a cidade, a convivência, a educação, a cultura, que são mais belos que tudo que já foi dito até aqui porque refletem justiça e harmonia. A beleza deixa de ser apenas uma experiência individual e passa a se tornar uma preocupação com a ordem das coisas. Não basta amar uma pessoa boa; é preciso amar um mundo que favoreça o florescimento do próprio bem.
O que Platão tenta mostrar é que a beleza tem uma função pedagógica e espiritual. Ela nos educa enquanto nos puxa para cima. O amor pela beleza começa quase sempre pelas coisas sensíveis — ou seja, aquilo que podemos ver, ouvir e tocar — e, a partir disso, nos convida a perceber formas mais inteligíveis da realidade. A beleza de um corpo pode ser o início de um caminho que leva à beleza do caráter, da justiça e por fim, da verdade.
E depois das leis e da justiça, Eros sobe mais um degrau e percebe que a sabedoria é mais bela do que as leis, pois é ela que as prepara e as organiza. E esse é o último degrau até que Eros, ou seja, o amor, se torna um filósofo — um amante da sabedoria —, e contempla o Belo em si mesmo.
E é aqui que a ideia de Eros ganha toda a sua força: o amor é desejo de elevação, é o desejo de obter o Bem supremo para sempre, como escreve Platão:
“Diotima — Os seres humanos estão dispostos a cortar os próprios pés e mãos se julgarem que esses seus membros se revelam nocivos. Penso que cada um não é aficionado do que lhe é próprio a não ser que o possa classificar como bom […] Então podemos afirmar pura e simplesmente que os seres humanos amam o bem?
Sócrates — Sim.
Diotima — Mas não deveríamos acrescer que ao amá-lo desejam que venha a ser deles, que venha a lhes pertencer? […] E mais, que não se limite a lhes pertencer, mas pertencer para sempre?
Sócrates — Que se acresça isso também.
Diotima — Em síntese, o amor deseja que o bem lhe pertença para sempre.”
Platão, O Banquete.
Quando olhamos para a nossa cultura atual, o que se percebe é que ficamos presos nos primeiros degraus. Exploramos a beleza corporal até o limite, mas raramente mostramos como esse encanto poderia ser conduzido para algo mais alto. Nós interrompemos o avanço de Eros em direção a Beleza em si. O desejo que nasce diante de um corpo belo é imediatamente capturado pela lógica do consumo e da utilidade, o corpo se torna um objeto de exploração e de engajamento. O impulso de Eros é achatado, impedido de se transformar em amor à alma, e depois amor ao bem e ao verdadeiro.
E isso tem consequências psicológicas. Quando a beleza é vivida apenas como estímulo sexual ou como objeto de consumo, o desejo nunca se satisfaz de verdade. Ele é sempre incompleto, sempre à procura de algo mais intenso, mais diferente e mais excitante, podendo culminar na própria autodestruição do indivíduo. E aí, o que poderia se tornar mais belo, passa a se tornar tão só a expressão da feiura.
Perceba como a visão de Platão contrasta com a lógica do niilismo e da utilidade modernas. No niilismo, nada aponta para nada, tudo é vazio em última instância. No utilitarismo, tudo tem que servir para algo imediato. Em Platão, a beleza é exatamente o oposto disso: ela aponta para um sentido mais alto e, ao mesmo tempo, não se reduz a um uso prático. Ela é gratuita, mas profundamente orientadora. É inútil no sentido funcional, mas essencial no sentido cósmico.
Talvez seja por isso que, mesmo numa cultura saturada de estímulos, ainda nos comovemos com certas experiências de beleza autêntica. Uma música que faz você chorar sem saber por quê; um gesto de bondade gratuito que é “belo” moralmente; um lugar que, ao entrar, faz você baixar a voz por mero respeito e reverência. Nesses momentos, por um instante, a escadaria reaparece. E a alma, cansada de tanta utilidade, lembra que é impulsionada para o Bem.
