O homem que tem medo da vida – complexo materno negativo
Transcrição do vídeo
A tribo indígena Mehinaku, que habita a região conhecida como alto Xingu, no Mato Grosso, retrata, através de um mito, o que acontece com um menino se ele ceder aos seus desejos de permanecer dependente da mãe por muito tempo. O mito é chamado A mulher anta e ele é contado da seguinte forma:
“Uma criança estava sozinha em casa. Sua mãe o havia deixado lá, sozinho. Ele chorou e chorou por sua mãe, mas ninguém veio. Mas então a mulher anta ouviu o seu choro, e ela veio para confortá-lo. ‘Você não me conhece?’ Ela perguntou. ‘Eu sou como sua mãe. Não chore.’
Curvando-se, a mulher anta disse: ‘Põe o teu braço no meu reto.’ ‘Não!’ respondeu a criança. ‘Eu não vou fazer isso.’
Mas a Mulher anta pediu, implorou e pediu e implorou, e finalmente a criança deslizou todo o seu braço dentro dela, até o ombro. A mulher anta se apertou em torno do braço e correu para fora, arrastando o menino atrás dela. O menino tentou se libertar, mas não conseguiu; seu braço foi apertado e esmagado por dentro. A mulher anta arrastou-o pela floresta, pelo pântano, dia após dia. O menino foi cortado com espinhos e ensanguentado. Ele estava coberto com os carrapatos da anta e dos insetos mordedores. Mas então a mulher anta chegou a um bosque de árvores frutíferas, comeu, comeu e comeu e comeu. Ela encheu-se de frutos. Ela comeu cada vez mais frutas.
Mais tarde naquele dia, ela defecou a fruta. Saiu todo o fruto. Saiu o braço do menino. Mas o braço saiu encolhido e minúsculo. Muito pequeno, muito encolhido para o menino usá-lo novamente.”
Thomas Gregor, Prazeres Ansiosos.
Com o membro atrofiado, o menino se tornou incapaz de exercer as atividades pertinentes à tribo, como a pesca, a caça, a luta e a construção. Em outras palavras, ele foi castrado da sua masculinidade, porque o braço atrofiado também é um símbolo para a impotência sexual, e dessa forma ele não pode mais procriar com outras mulheres.
Na maioria das sociedades tradicionais, o amadurecimento masculino não era deixado ao acaso nem ao simples passar do tempo. Havia ritos de passagem, provas, separações, instruções e, sobretudo, um reconhecimento público de que o menino havia morrido simbolicamente para que um homem pudesse nascer. O terapeuta junguiano James Hollis explica que:
“Esses ritos envolvem não apenas a transição das dependências da infância para a auto-suficiência da idade adulta, como também a transmissão de valores, como a qualidade e o caráter da cidadania, e as atitudes e as crenças que ligam a pessoa aos seus deuses, à sociedade e a si mesma. No entanto, esses ritos de passagem definharam e desapareceram há muito tempo.”
James Hollis, Sob a Sombra de Saturno.
Os rituais de passagem tradicionais cumpriam exatamente essa função: arrancavam o menino do mundo conhecido, da mãe e da segurança infantil, e o colocavam diante do desconhecido, do medo, da dor e da solidão. Esse movimento forçava a emergência de um ego mais forte, capaz de suportar tensão, adiar gratificação e agir com consciência.
Os Mehinaku têm os seus próprios mitos e ritos de passagem para que um menino se torne um homem adulto. Outra tribo indígena do Mato Grosso, os Xavante, possui um rito de passagem mais rigoroso. Os meninos são separados das suas mães e das mulheres aproximadamente aos 10 anos de idade e passam a conviver por 5 anos no H’o, uma casa de homens onde os anciões da tribo ensinam os seus costumes, bem como a pescar e a lutar e conviver com a solidão. E como transição para a vida adulta, eles furam a orelha do menino com um osso de uma onça.
É claro que os ritos de passagem não são exclusivos dos povos originários do Brasil, eles surgem de forma independente em culturas separadas por milênios, mostrando que há uma necessidade psíquica universal de maturação. O ego não amadurece por conforto, mas por confronto. Quando não existe um momento claro de separação da infância, o jovem permanece psicologicamente ligado ao campo materno. Ele cresce no corpo, mas não atravessa o limiar interno que o arrancaria da dependência, da passividade e da expectativa de ser cuidado, como explica James Hollis:
“Entendemos, então, por que nossos antepassados possuíam ritos de passagem tão poderosos. Conheciam muito bem o poder regressivo da psique, o anseio pela segurança e saciedade da Mãe.”
James Hollis, Sob a Sombra de Saturno.
Na ausência desses rituais, a cultura moderna ofereceu apenas alguns substitutos: como os diplomas, a maioridade legal, o status profissional ou o sucesso sexual. Nenhum deles exige, de fato, uma morte simbólica da infância. Nenhum confronta o jovem com seus medos mais profundos. Nenhum lhe diz, de maneira clara, que agora ele responde pela própria vida. O resultado é o que Jung descreveu como a vida provisória — homens que vivem como se tudo fosse temporário, reversível. Compromissos são assumidos com ressalvas e responsabilidades são carregadas com ressentimento, como continua James Hollis:
“O que mais leva o homem moderno a sofrer, portanto, é o ferimento sem a transformação. […] Sofre as espetadas na alma sem a visão divina. É-lhe pedido que seja homem quando ninguém é capaz de definir o que isso significa, a não ser de maneira bem trivial. É-lhe pedido que saia da infância à idade adulta sem ritos de passagem, sem velhos sábios para recebê-lo e instruí-lo, e sem a idéia positiva do que seja masculinidade.”
James Hollis, Sob a Sombra de Saturno.
Mas recuperar esses ritos de passagem não significa que precisamos voltar ao que era antes, ou copiar as formas antigas. Infelizmente, em uma sociedade onde a ausência paterna é quase uma regra, e muitas vezes disfuncional; onde a religião está perdendo cada vez mais sua força, sendo uma das poucas instituições que perpetua ritos e leva significado à vida; e onde a figura dos velhos sábios está praticamente desaparecendo, nós temos o árduo trabalho de procurar e criar os nossos próprios ritos de passagem sozinhos, como escreve James Hollis:
“Considerando o fato de que os ritos de passagem desapareceram em grande parte da nossa cultura, cabe aos homens refletirem como indivíduos a respeito do que era oferecido por esses ritos. Somos, portanto, obrigados a descobrir por nós próprios o que não nos está disponível através da nossa cultura.”
James Hollis, Sob a Sombra de Saturno.
O que os ritos de passagem basicamente faziam era desenvolver um ego forte para superar a força regressiva da dependência materna. A dependência materna é uma das formas mais silenciosas de aprisionar psiquicamente a vida de um homem. Ela não se apresenta necessariamente como um sofrimento objetivo, mas como estagnação, confusão interior, paralisia diante da vida e uma sensação difusa de impotência. A pessoa vive como um Hamlet ou como um homem do subsolo, sempre na espera de algo que vá lhe salvar ou revelar alguma coisa que o fará compreender tudo. Quando essa constelação se instala precocemente, o menino corre um risco elevado de desenvolver aquilo que a psicologia analítica chama de complexo materno negativo.
Esse complexo gira em torno do desejo inconsciente de permanecer dependente, protegido e isento das exigências da vida adulta. O homem pode envelhecer biologicamente, mas uma parte essencial de sua psique permanece fixada na infância. A libido, que é como Jung chama a energia psíquica, retrocede para estágios mais dependentes de adaptação, como ele escreve:
“O caminho de volta, a regressão, leva à infância e por fim quase até o ventre materno. A intensidade desta saudade regressiva cresce até tornar-se intolerável quando o processo de adaptação se defronta com exigências maiores.”
Carl Jung, Símbolos da Transformação.
Esse retorno, evidentemente, não pode ocorrer de maneira literal. O útero físico é inacessível. Mas a psique encontra substitutos simbólicos para isso: que pode ser a casa da mãe, a dependência financeira, a submissão emocional a alguma parceira e o refúgio em fantasias, vícios ou compulsões.
Um dos principais cuidados que uma mãe precisa ter com um filho homem, é não se preocupar tanto com algumas decisões que o filho venha a tomar. Se uma mãe for emocionalmente dependente do filho, ela vai questionar todas as escolhas que ele fizer, inculcando a dúvida em sua cabeça. E essa dúvida se transforma em paralisia emocional. É claro que uma mãe deve se preocupar com o filho, mas também deve encorajá-lo a sair do seu ninho. A terapeuta junguiana Marie-Louise von Franz dá um exemplo do aspecto devorador que o materno pode ter:
“O jovem conta seus planos à mãe com toda a sua exuberância. A mãe então começa a se preocupar com o fato de ele ficar longe de casa. O rapaz está vivendo e aprendendo sobre a vida de maneira natural, e assim continuará desde que a mãe não se grude nele. Ela poderá, neste caso, dizer: ‘Você tem que fazer isso? Não acho que esteja certo. Não quero impedir você. Acho que é bom praticar esportes, mas uma viagem assim, agora…’. Nunca está ‘na hora’. Tudo tem que ser analisado antes — este é o truque preferido do animus da mãe devoradora. […] Se o filho for um pouquinho covarde começará a ter dúvidas e acaba perdendo o entusiasmo. Fica em casa no domingo enquanto os outros partem sem ele e sofre outra derrota em sua masculinidade.”
Marie-Louise von Franz, O Puer Aeternus.
Esse tipo de comportamento vai podando o impulso natural masculino do menino, de explorar e se aventurar. Muitas mães acham que estão protegendo seus filhos com essa atitude, mas na verdade o estão castrando. Mas os filhos não devem ficar revoltados ou cortar laços com a mãe. Muito pelo contrário, isso só atesta uma perda maior da masculinidade e da consciência, o que pode gerar revolta e ressentimento.
É nesses casos que a figura do pai ou uma figura paterna é muito importante. É ele quem vai cortar o cordão umbilical da mãe com o filho. Só que hoje em dia, infelizmente, os pais e as figuras paternas estão cada vez mais ausentes e fracas, o que contribui para os filhos também cresçam fracos. Já escreveu Freud uma vez:
“Não consigo pensar em nenhuma necessidade da infância tão intensa quanto a da proteção de um pai.“
Sigmund Freud, O Mal-estar na Civilização.
Os ritos de passagem na antiguidade e o contato com uma figura paterna nos tempos atuais são importantes, pois diferente da feminilidade, a masculinidade não é algo inato.
A consciência é algo que precisa ser conquistada e, uma vez conquistada, precisa ser constantemente vigiada para que ela não volte à inconsciência, para o conforto do ventre materno.
O mito de Prometeu exemplifica essa tarefa: quando Prometeu roubou o fogo divino do Olimpo e o entregou aos humanos, despertando-os à consciência e permitindo com que eles tivessem acesso à inteligência para produzir equipamentos e facilitar a vida, Prometeu foi amarrado no topo de uma montanha e castigado todos os dias com uma águia que aparecia para devorar o seu fígado. O fígado de Prometeu regenerava de noite para que, no dia seguinte, a águia o bicasse novamente. Essa é uma imagem poderosa para explicar que a consciência é dolorosa e sustentá-la durante o dia envolve muita resiliência.
Basicamente, a consciência é a capacidade da psique de distinguir, refletir, escolher e sustentar uma posição diante dos conteúdos internos e da realidade externa. Do ponto de vista do desenvolvimento, a consciência não é inata nem automática. O ser humano nasce imerso no inconsciente, em um estado de indiferenciação psíquica. Nos primeiros estágios da vida, não há separação clara entre eu e mundo, sujeito e objeto, interno e externo. A consciência começa a emergir à medida que o ego se diferencia desse campo indiferenciado, processo esse que exige frustração, separação e um certo confronto com os conteúdos do inconsciente. Por isso que a consciência é associada ao masculino e o inconsciente ao feminino: para termos consciência, precisamos nos desvencilhar do colo materno, como explica Jung:
“Não existe consciência sem diferenciação de opostos. É o princípio paterno do Logos que, em luta interminável, se desvencilha do calor e da escuridão primordiais do colo materno, ou seja, da inconsciência. Sem temer qualquer conflito, qualquer sofrimento, qualquer pecado, a curiosidade divina almeja por nascer. […] Nem o princípio materno nem o paterno podem existir sem o seu oposto, pois ambos eram um só no início e tornar-se-ão um só no fim. A consciência só pode existir através do permanente reconhecimento e respeito do inconsciente: toda vida tem que passar por muitas mortes.”
Carl Jung, Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo.
O psicoterapeuta junguiano Erich Neumann descreve o desenvolvimento da consciência em alguns estágios arquetípicos que podem ser compreendidos tanto do ponto de vista estrutural da psique humana, quanto do ponto de vista ontogenético, isto é, o processo biológico de desenvolvimento de um indivíduo, como ele escreve:
“[…] afirmamos que esses estágios de desenvolvimento se organizam em uma sequência ordenada e determinam assim todo desenvolvimento psíquico. Sustentamos, do mesmo modo, que esses estágios arquetípicos são determinantes inconscientes, podendo ser encontrados na mitologia, e que só poderemos chegar à compreensão do desenvolvimento psíquico em geral e do desenvolvimento individual em particular se considerarmos a estratificação coletiva do desenvolvimento humano ao lado da estratificação individual do desenvolvimento consciente.”
Erich Neumann, História das Origens da Consciência.
Esse coletivo de que fala Erich Neumann, se relaciona com o indivíduo justamente através dos arquétipos, os elementos do inconsciente que dão forma aos instintos humanos. Eles orientam a maneira como percebemos, sentimos, reagimos e atribuímos sentido à vida.
Os arquétipos se manifestam indiretamente, nunca de forma pura. Eles aparecem em mitos, religiões, contos de fadas, sonhos, fantasias, até em sintomas e em obras de arte. Quando falamos do arquétipo da Mãe, do Herói, da Sombra ou do Velho Sábio, não estamos falando de pessoas reais, mas de padrões psíquicos que estruturam nosso entendimento sobre o cuidado, o confronto, o sacrifício, os medos comuns e assim por diante. Por isso, culturas que nunca tiveram contato entre si produzem mitos surpreendentemente semelhantes: nós compartilhamos de uma estrutura psíquica semelhante.
Então, depois dessa explicação é possível compreender melhor que o desenvolvimento do ego também passa por uma série de arquétipos que determinam o seu crescimento. Existem arquétipos que orientam o nascimento, a separação da mãe e o amadurecimento do indivíduo. E por se tratar de uma estrutura autônoma da psique, os arquétipos não podem ser ativados, como se fala por aí. O que podemos fazer é estarmos conscientes das suas atuações em nossas vidas para não sermos possuídos por eles.
E para compreender a dependência materna em sua raiz, precisamos retornar ao ponto onde tudo começa, ou seja, no estado indiferenciado da psique humana. Erich Neumann chama esse estágio de condição urobórica, em referência ao símbolo da serpente que morde a própria cauda — a ouroboros.
Nesse estágio, não existe ego. Não existe um “eu” separado do mundo. A psique vive numa totalidade indiferenciada, onde sujeito e objeto ainda são um só. Neumann descreve esse momento como uma existência de contenção absoluta, na qual tudo é dado e nada é exigido. O símbolo da ouroboros é um círculo pois é associado à perfeição, como escreve Erich Neumann:
“Um dos símbolos da perfeição original é o círculo. […] O círculo, a esfera e o redondo são aspectos do Autocontido, sem começo nem fim; na sua perfeição pré-mundo, precede todo processo, é eterno, porque, em sua rotundidade, não há antes nem depois, não há tempo; não há em cima nem embaixo, não há espaço. Tudo isso só pode surgir com o surgimento da luz, da consciência, que ainda não está presente; aqui ainda domina a divindade não exteriorizada, cujo símbolo é, por conseguinte, o círculo.”
Erich Neumann, História das Origens da Consciência.
Psicologicamente falando, trata-se de uma fase em que a vida psíquica está sob o domínio da Grande Mãe, o arquétipo que representa o campo simbólico de proteção, de nutrição e de pertencimento.
O problema não é entrar nesse estado. O problema é não sair dele. Diversas culturas retratam essa condição psicológica através do mito do Paraíso. Um estado indiferenciado onde a consciência do bem e do mal ainda não foi despertada, e portanto tudo ainda é um só com tudo. Bem e mal convivem unidos e integrados.
Só que enquanto o ego ainda é frágil, a dependência é natural. A consciência ainda não suporta a separação e a responsabilidade. Mas a própria estrutura da psique contém um impulso contrário, uma força que empurra o indivíduo para fora desse círculo fechado, que em diversos mitos e inclusive na bíblia é retratado como uma serpente, que é um dos símbolos da consciência. Neumann descreve isso como a tensão fundamental entre inconsciência e consciência:
“A evolução em direção à consciência é o que há de ‘não natural’ na natureza; é exclusiva da espécie Homem, tendo este denominado a si mesmo, a partir disso, e com toda razão, Homo sapiens. A luta entre o que é específico do homem e o que é universalmente natural constitui a história do desenvolvimento consciente do homem.”
Erich Neumann, História das Origens da Consciência.
E o próximo estágio do desenvolvimento é justamente esse: quando o ego embrionário aparece e é protegido pela Grande Mãe. Nesse estágio, a proteção é total. A vida parece “cuidar de si mesma”. As necessidades são atendidas sem que o ego precise assumir responsabilidade. O problema surge quando essa matriz não é atravessada na vida adulta. Quando o ego, por medo ou fragilidade, não suporta a tensão da separação e permanece orbitando o campo materno. A Grande Mãe, então, apesar de ser nutridora, passa a se tornar uma força regressiva, ainda que inconscientemente vivida como amor e cuidado.
Esse caráter ambivalente da Grande Mãe exerce uma grande influência sobre o ego do filho. É nesse momento que acontece um fenômeno onde o filho pode se tornar, simbolicamente, o amante da própria mãe: ela cuida, mas está contribuindo para a própria castração do filho, como explica Erich Neumann:
“Todos os amantes das Mães Deusas têm certas características em comum: todos são jovens de beleza e encanto tão marcantes quanto o seu narcisismo. […] Fora isso, são privados, em contraste com as figuras heróicas da mitologia, de força e caráter, carecendo de toda individualidade e iniciativa. São, em todos os sentidos da palavra, rapazes atraentes cuja vaidade narcisista é evidente.”
Erich Neumann, História das Origens da Consciência.
O mito de Narciso é um exemplo de um homem sob o domínio da Grande Mãe. Narciso se apaixona pela sua própria imagem refletida no lago. Seu desejo é o de permanecer jovem e de possuir o próprio corpo, ou seja, é o desejo de não amar nada que não seja a si mesmo. As águas do lago representam um desejo de voltar ao estado de inconsciência materna, se afundar no indiferenciado, simbolizado pela Ouroboros. Se Narciso ama somente a si mesmo, ele não confronta, não supera, e por isso permanece sob o domínio castrador da Grande Mãe.
Outra figura que demonstra a dependência materna é a de Don Juan. Ele é um homem dominado por uma imagem feminina arquetípica não integrada. Don Juan está sempre perseguindo uma mulher que, inconscientemente, representa algo absoluto. Mas nenhuma mulher concreta corresponde à imagem arquetípica que ele busca. A Grande Mãe, em sua forma inconsciente, é vivida como totalidade por Don juan, como promessa de completude. No fundo, todo sedutor acredita que a próxima mulher trará essa fusão perfeita. Mas como essa plenitude só pertence ao nível arquetípico — não ao humano — ele nunca encontra satisfação com ninguém. A terapeuta junguiana Marie-Louise von Franz escreve que:
“[…] a imagem da mãe — a imagem da mulher perfeita que tudo dá ao homem, e que não tem nenhum defeito — é procurada em todas as mulheres. Ele procura uma mãe-deusa, portanto, cada vez que se apaixona por uma mulher, mas logo descobre que ela é um ser humano comum. Por ter sido atraído por ela sexualmente, toda a paixão de repente desaparece e ele decepciona-se e a deixa, apenas para projetar a imagem novamente em outra mulher, sempre repetindo a mesma história. Eternamente sonha com a mulher maternal que o tomará nos braços e realizará todos os seus desejos. Isto é freqüentemente acompanhado pela atitude romântica da adolescência. Geralmente, grandes dificuldades de adaptação a situações sociais são encontradas.”
Marie-Louise von Franz, O Puer Aeternus.
Se a dependência materna é a permanência sob o domínio da Grande Mãe e a tudo que ela se associa, a libertação psicológica desse campo regressivo é representado em diversas culturas pela luta com o dragão. O dragão é a forma simbólica da força que guarda o tesouro — e esse tesouro é justamente a consciência do ego. O dragão representa o poder regressivo do inconsciente, especialmente o aspecto devorador da Grande Mãe.
Já o herói é aquele que enfrenta a Grande Mãe em sua forma devoradora e conquista a consciência do ego. Na nossa ontogênese, ou seja, no nosso desenvolvimento biológico, isso não significa brigar e confrontar nossa mãe. O herói luta contra a força psíquica que o mantém infantil. Ele precisa enfrentar aquilo que o protegeu — e é exatamente isso que torna essa luta tão difícil. O dragão simboliza o medo da separação. Simboliza a culpa de crescer; a tentação de regressar ao conforto da fusão, como explica Erich Neumann:
“Aqui, quando o jovem se torna homem […], o elemento masculino se une ao seu oposto feminino e o leva a dar à luz algo novo e terceiro; surge uma síntese em que, pela primeira vez, o elemento feminino equilibrado se une ao elemento masculino equilibrado, formando uma totalidade. O herói não é apenas o vencedor do elemento materno, mas também mata o aspecto terrível deste para libertar o seu aspecto fértil e abundante.”
Erich Neumann, História das Origens da Consciência.
É por isso que, nos mitos, o dragão costuma guardar uma caverna, um tesouro ou uma princesa aprisionada. A caverna é o ventre, o tesouro é a consciência e a princesa é a alma ainda não integrada. A libertação da princesa-cativa representa a destruição do aspecto devorador da Grande Mãe integrado como o feminino que guia o interior do homem, que na psicologia analítica é chamado de anima, o arquétipo da vida, como explica Erich Neumann:
“A transformação da masculinidade, que ocorre no herói pela luta com o dragão, inclui também uma transformação da sua relação com o elemento feminino, expressa simbolicamente pela libertação da cativa do poder do dragão, o que significa a separação do aspecto de feminilidade da imagem de Mãe Terrível. Na linguagem da psicologia analítica, trata-se da cristalização da anima a partir do arquétipo da mãe.”
Erich Neumann, História das Origens da Consciência.
O mito de Perseu é uma das representações simbólicas mais claras da vitória do ego nascente sobre a Mãe Terrível. Medusa, o monstro que Perseu enfrenta e cujo olhar transforma em pedra qualquer um que a encare, representa o lado devorador da Grande Mãe. Seu poder de petrificação simboliza a paralisação psíquica: é a imagem da consciência congelada, incapaz de se diferenciar.
Para Perseu enfrentar a Medusa, ele usa o escudo de Atena, a deusa da sabedoria. E após decapitar a Medusa, coloca a cabeça dela no escudo de Atena. Ou seja, isso é um símbolo de que a sabedoria e a verdade são caras aos olhos e muitas vezes não podem ser olhadas diretamente. Atena é o feminino em sua forma espiritual que serve como guia da consciência masculina, como explica Erich Neumann:
“O fato de Perseu dar, em seguida, a cabeça da Górgona a Atena, e de ela a colocar em seu escudo, coroa todo esse desenvolvimento como a vitória de Atena sobre a Grande Mãe, do aspecto guerreiro favorável ao homem e à consciência. A superação da antiga mãe-deusa pelo novo princípio espiritual feminino tem a sua expressão mais clara na figura de Atena.[…] Tendo brotado da cabeça de Zeus, Atena é nascida de pai e sem mãe, diferentemente das figuras da época anterior, nascidas de mãe e sem pai; ela é a companheira e auxiliadora do herói masculino, ao contrário da Mãe Terrível, hostil à masculinidade.”
Erich Neumann, História das Origens da Consciência.
Dessa forma, a consciência é um aspecto masculino do ser porque ela precisa ser diferenciada e separada do inconsciente. E aqui, não estamos falando de sexo biológico, mas de estruturas transpessoais. O feminino é associado a tudo que abarca e envolve, como o inconsciente. Já o masculino é tudo aquilo que se diferencia e se separa, é um processo secundário da natureza. É por isso que o menino precisa sofrer mais para se separar da mãe do que a menina. A menina já possui a feminilidade em sua essência e não precisa necessariamente se diferenciar do aspecto materno.
Uma consciência pressupõe maior força de vontade do ego, e consequentemente, maior capacidade de resistir aos conteúdos do inconsciente que tentam nos puxar de volta, como as compulsões ou os vícios. E para mantermos essa autonomia do ego, vamos precisar fazer muitas coisas que não queremos. E essa condição é totalmente nova comparada com os nossos ancestrais. Se antes eles estavam subjugados pelas forças do inconsciente, hoje nosso ego consciente pode escolher o que fazer com essas forças, como escreveu a psicoterapeuta Esther Harding:
“Isso nos parece muito estranho; pois uma das principais características que diferenciam o homem civilizado de seus irmãos mais primitivos e, de fato, de seus próprios ancestrais mais primitivos, é o fato de que, dentro de certos limites, ele pode fazer o que quer fazer. Ele pode até fazer coisas que não quer fazer, se sabe que é sábio ou conveniente fazê-las. Por exemplo, ele pode se levantar de manhã, apesar de seu desejo quase irresistível de tirar outra soneca, ou pode se dedicar ao trabalho.”
Esther Harding, Psychic Energy.
Mas essa condição só permanece se a vontade for educada e constantemente fortalecida. E isso leva tempo. A luta com o dragão é todos os dias, durante muito tempo. Jules Payot, um dos grandes pedagogos do século XX, escreveu o seguinte:
“Compreendemos que o domínio de si não pode ser entendido como uma vontade intermitente; que a suprema energia é a energia contínua, prolongada durante meses e anos, e que a pedra de toque da vontade é a duração.”
Jules Payot, A Educação da Vontade.
E no nosso dia a dia, os grandes dragões da abulia, ou seja, esse estado de preguiça existencial, são a sensualidade excessiva, isto é, os prazeres excessivos; as distrações sociais; as companhias fracas; os sofismas de preguiça, ou seja, aqueles pensamentos do tipo “amanhã eu começo”, “não estou com vontade”, etc.; e a vida agitada em sem interioridade, como o trabalho excessivo e as viagens sem rumo. Para combatermos esses dragões precisamos ter paciência e constância todos os dias.
Lembre-se do mito de Prometeu, onde a águia, representando o sofrimento da consciência desperta, aparece todos os dias para bicar o fígado de Prometeu. E aqui os mitos também nos ajudam a fortalecer a vontade, pois além dele ser um aspecto intelectual, a vontade é uma potência sentimental. Não basta saber o que é o correto a se fazer. É preciso tornar emocionalmente atraente o que é correto. A vontade é sustentada por estados afetivos organizados, e só conseguiremos organizá-los partindo para ação e consertando os erros no processo. O mais difícil são os começos, como escreve Jules Payot:
“Nada se perde em nossa vida psicológica: a natureza é um contador minucioso. Nossos atos aparentemente mais insignificantes, por pouco que os repitamos, formam, ao longo das semanas, dos meses, dos anos, uma soma enorme, que se inscreve na memória orgânica sob a forma de hábitos inarredáveis. […] Feito um primeiro ato, ainda que penosamente, sua repetição já custará menos.”
Jules Payot, A Educação da Vontade.
No início deste vídeo, falamos do mito da mulher-anta dos Mehinaku. O jovem caçador foi absorvido pelo conforto, ele não foi destruído pela violência. Ele não morreu lutando — ele desapareceu sendo acolhido demais. E essa é a imagem mais precisa da dependência materna.
Não se trata de falta de amor. Não se trata de erro moral. Trata-se justamente da permanência onde deveria ser apenas uma passagem.
Todo ser humano começa sob o domínio da Grande Mãe. Começa na fusão, na proteção. Mas é necessário haver o conflito para que a consciência possa nascer. Não pode haver consciência sem dor. O mito bíblico nos mostrou isso. E é exatamente por isso que tantos evitam o confronto. Porque crescer significa abrir mão da posição de protegido.Significa sustentar a própria existência. A dependência materna, no fundo, é o medo de existir sozinho.
A figura do herói é aquela que se diferencia da mãe. Quando o ego do herói se fortalece, o feminino deixa de ser devorador e torna-se uma fonte de sabedoria.
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