Desfoda o seu cérebro
Transcrição do vídeo
Pause o vídeo por alguns segundos e olhe para este quadro. É uma obra do pintor surrealista Salvador Dalí chamado o Grande Masturbador.
Quando não conseguimos expressar o que uma experiência nos causou, sempre podemos recorrer à literatura, à poesia ou à arte. E essa obra consegue mostrar uma representação visual do desejo sexual, mas não na sua forma pura, e sim carregada de repulsa, inquietação, traumas e feridas psíquicas. E é mais ou menos assim que uma pessoa pode estar quando sua mente está contaminada pela pornografia.
Hoje, nós vivemos em um mundo de facilidades e de abundância: a qualquer hora, em qualquer dispositivo, em qualquer lugar, temos uma infinita biblioteca de conteúdos explícitos para satisfazer todos os nossos desejos sexuais, até mesmo os mais idealizados. Mas essa facilidade tem um preço alto.
Quando a excitação pode ser acionada e satisfeita a qualquer momento, o cérebro aprende a esperar picos constantes de estímulo. Pouco a pouco, o sistema de recompensa do nosso cérebro precisa de cenas mais intensas para produzir o mesmo efeito químico, e tarefas simples — como trabalhar, conversar e estar presente com outra pessoa — ficam cada vez mais frustrantes e opacas. O resultado é um processo de dessensibilização: aquilo que deveria entusiasmar naturalmente parecer perde cada vez mais a cor.
À medida que o cérebro aprende a associar excitação máxima a um fluxo infinito de imagens sexualizadas, a paciência para construir intimidade desaparece. As relações reais, que possuem as suas pausas, imperfeições e ajustes recíprocos, podem soar lentas ou frustrantes diante do ritmo frenético dos conteúdos pornográficos. Isso explica porque até mesmo pessoas casadas estão tendo problemas com os seus cônjuges devido ao consumo de pornografia.
A palavra pornografia vem do grego pornographos – que significa “aquele que escreve sobre prostitutas”. Antigamente, essa palavra era designada justamente para quem escrevia sobre a vida ou o comportamento das meretrizes. Só na modernidade que a palavra se desprendeu do sentindo da prostituição e se tornou sinônimo de qualquer representação sexual explícita.
Mas o fenômeno da pornografia não atinge apenas homens que consomem vídeos explícitos. Mulheres também estão expostas a narrativas que idealizam o homem. Os contos eróticos, mais conhecidos como Dark Romances, costumam apresentar homens sempre disponíveis, sensíveis, mas ao mesmo tempo violentos, prontos para conduzir cada momento que leva ao seu clímax perfeito.
Assim como os vídeos moldam a imaginação masculina, essas histórias moldam desejos femininos, criando um padrão de comparação que a vida cotidiana raramente satisfaz.
Só que o conteúdo não precisa ser tão explícito. Hoje em dia, a sexualização parece estar por toda parte: nas músicas que você ouve, no seu feed da rede social, nos memes, nas séries e filmes que você assiste. Elas aparecem de forma direta ou sugerida centenas de vezes por dia. Essa sutileza vai moldando padrões e construindo idealizações sem percebermos. Ao mesmo tempo que se tornou parte do nosso cotidiano, a exposição parece que nos deixou mais isolados uns dos outros. Dessa forma, as pessoas passam a se refugiar cada vez mais no seu mundo de imagens projetadas.
Nesse vídeo, vamos entender como a pornografia se infiltra no nosso inconsciente e por que é tão difícil parar com o seu consumo; vamos entender também que o desejo sexual não é um mal a ser extirpado e sim um impulso natural que deve entendido, limitado e contido, assim como todos os outros impulsos; e, ainda, vamos aprender a como dessexualizar o nosso cérebro para podermos encontrar, novamente, as cores do mundo. Fique comigo até o final do vídeo!
1 — Instinto e Princípio do Prazer — A base freudiana do ciclo pornográfico
Todo ser humano nasce governado pelos instintos, uma tensão física que se manifesta como uma pressão interna que precisa ser descarregada. De acordo com Sigmund Freud, o pai da psicanálise, a corrente de energia que move esses instintos é chamada de libido.
No início da vida, essa energia se move guiada exclusivamente pelo princípio do prazer: qualquer tensão interna deve ser descarregada tão rápido quanto possível, porque o aparelho psíquico imaturo não suporta longos períodos de excitação. Dessa forma, a fome do bebê, por exemplo, leva-o a chorar; a mãe, então, o amamenta e a calma retorna, a tensão alivia. Esse circuito primário grava a lição de que basta desejar para receber alívio imediato.
Só que, com o crescimento do indivíduo, a realidade começa a impor limites. O objeto de satisfação, que pode ser a mãe, já não aparece ao primeiro pedido; as frustrações, então, se acumulam e o ego, o centro da consciência, aprende, aos poucos, a adiar o prazer para manter-se em sintonia com o mundo externo. Esse ajuste chama-se princípio da realidade. Ele não elimina o impulso, apenas o regula, fazendo o indivíduo buscar meios viáveis, socialmente aceitos e temporalmente adequados para reduzir a tensão. A passagem do princípio do prazer para o princípio da realidade marca o processo de maturação psíquica, que é quando tolerarmos incômodos por um benefício maior no futuro.
Mas sempre que esse processo de amadurecimento encontra lacunas — seja através de algum trauma, uma carência sofrida ou por falta de modelos que servem como guias — a mente procura atalhos para reativar o alívio instantâneo da infância. As drogas, a compulsão por jogos ou a pornografia oferecem exatamente essa rota curta de alivio da tensão. O vício é sempre um grande atalho para aquela satisfação infantil que já experimentamos.
A libido se agarra a esses novos modos de satisfação instintiva, evitando o trabalho emocional de conquistar a intimidade real. O aparelho psíquico, fiel ao seu velho hábito de poupar energia, seleciona o caminho mais rápido e menos custoso.
O problema é que o alívio não resolve a causa da tensão; ele apenas anestesia por algum tempo. Quanto mais se recorre ao atalho, menos se desenvolve a capacidade de sustentar frustrações normais da vida adulta. Assim, o consumo compulsivo de pornografia, por exemplo, não passa de uma regressão funcional ao estágio infantil em que o princípio do prazer era dominante.
Persistir nesse padrão fortalece o ciclo pueril do desejo, que parte para a descarga e culmina no vazio, até que a tensão se acumule novamente e precise ser descarregada o máximo possível. Quebrar esse ciclo requer reeducar o aparelho psíquico para suportar a excitação sem recorrer de imediato ao alívio instantâneo, recolocando o princípio da realidade no comando. Ou seja, um dos grandes desafios da maturidade é justamente suportar o princípio da realidade sem recuar ou ser consumido pelo princípio do prazer novamente.
Mas existe outro aspecto, que dessa vez a psicologia junguiana vai explicar, que faz com que a pessoa projete nas imagens pornográficas os seus próprios aspectos reprimidos e, dessa forma, mantêm o vício sempre ativo.
2. A Sombra do Desejo — Como a pornografia se infiltra no inconsciente
A pornografia vai além dos impulsos físicos e químicos no corpo. Do ponto de vista da psicologia analítica, o conteúdo pornográfico dialoga diretamente com a sombra, o conjunto de aspectos reprimidos da personalidade que, por não caberem na autoimagem consciente que fazemos de nós mesmos, permanecem dissociados da consciência.
A pornografia oferece uma via rápida para experimentar, em fantasia, os impulsos que tememos expressar ou sequer admitir em público. Ela se torna uma tela onde se projeta aquilo que o ego julga inaceitável: a agressividade, a vulnerabilidade e a curiosidade por práticas vistas como tabu. O ambiente on-line, anônimo e disponível 24 h, reduz a vigilância moral e amplia o espaço para que a sombra se manifeste sem os filtros que a realidade impõe para o bom convívio entre os indivíduos.
Esse processo cria um outro ciclo: quanto mais conteúdo consumido, mais o ego se convence de que certos desejos “só podem” existir ali, levando à repetição. Paralelamente a isso, se forma uma espécie de buraco de memória emocional: as experiências sensoriais intensas ficam registradas sem a devida integração afetiva, dificultando com que a pessoa lembre o que sentiu e por quê sentiu. É daí que surge aquela sensação de vazio após o orgasmo — que é quando o ego, retornando abruptamente à realidade do cotidiano, leva a acreditar que nada parece tão estimulante quanto ao que acabou de experienciar.
Do ponto de vista junguiano, a energia psíquica gasta na compulsão é a libido que deixou de circular nos relacionamentos, no trabalho criativo e no próprio processo de individuação. A pessoa sente cansaço, falta de motivação e, paradoxalmente, recorre novamente à pornografia para obter o impulso dopaminérgico que falta na vida desperta. Com o tempo, o consumo deixa de ser uma escolha consciente e vira um sintoma: a mente se serve dele para reduzir a ansiedade, a solidão ou os sentimentos de inadequação.
Para interromper esse padrão, o primeiro passo é perceber o mecanismo projetivo, isto é, reconhecer que a excitação não está naquilo que se vê ou que se lê, mas na própria psique, que encontra nesses objetos externos um modo de misturar os conteúdos inconscientes não elaborados pela consciência do ego. Mapear esses gatilhos — que podem ser os horários, os estados emocionais e os contextos que precedem o uso da pornografia — podem revelar justamente como a sombra individual opera. Esse ato de observação, sem julgamento, já devolve ao ego parte da energia que estava sequestrada.
3. A Anima Ferida — Impactos na afetividade e na imagem interna do feminino
Outro componente da psique diretamente impactado pelo consumo de pornografia é a anima.
Na psicologia analítica, a anima representa, no homem, o princípio feminino e relacional, empático e coletivo que o liga ao mundo dos afetos. Quando o contato com o feminino interno é saudável, ele serve como ponte para o diálogo com as próprias emoções e para com as outras pessoas também. O consumo reiterado de pornografia, no entanto, oferece ao inconsciente uma caricatura hipersexualizada do feminino, fixando a anima em estágios primitivos, como o estágio da Eva: ora uma sedutora onipotente, ora um objeto passivo de satisfação. Essa fixação empobrece o repertório afetivo da pessoa, porque a libido se prende a figuras fixas que não desenvolvem a alteridade necessária para vínculos reais funcionarem.
À medida que o hábito da pornografia se consolida, a vida emocional vai se organizando em torno de expectativas conflitantes, ou seja, a excitação intensa diante das experiências pornográficas vai degradando as relações concretas, já que nelas precisamos ir ao encontro do outro, que possui desejos, limites e ritmos próprios. O resultado é uma dificuldade em sentir ternura ou curiosidade após a fase inicial de um relacionamento, por exemplo; é como se o parceiro “perdesse a graça” quando deixa de corresponder ao script internalizado das imagens inconscientes. A imagem feminina interna, que foi ferida, não tolera as nuances do mundo real — ela exige gratificação imediata, sem as frustração da realidade.
Como a anima é uma espécie de deusa que habita o interior do homem, é quase como se fosse um ser autônomo, que possui vida própria. Se não aprendermos a ter um bom relacionamento com ela, seus conteúdos passam a nos possuir, alterando nossos estados de humor. Passamos a sentir uma raiva difusa, uma indecisão constante ou uma sensibilidade desmedida.
Nos sonhos, a anima do homem viciado em pornografia sempre surge como uma figura sedutora e profanada, sem rosto, com traços desfocados ou como um monstro ou um inseto, como aquele gafanhoto localizado na parte de baixo do rosto da pintura do Salvador Dalí. Nas mulheres, o animus, que é o seu lado interior masculino, geralmente aparece como um grupo de homens fortes e silenciosos ou como uma figura crítica que a ridiculariza e a rejeita.
A cura, então, começa com a reparação da imagem feminina interna. Isso não se faz abolindo de imediato toda fantasia, mas reconhecendo-a como uma metáfora de necessidades humanas: o contato, o acolhimento e a validação. Precisamos vivenciar esses sentimentos com os outros para trabalhar a nossa anima. O afeto requer a construção de estados emocionais ambíguos, inclusive desconfortáveis. A vida real requer esse encontro com o desconfortável para que possamos crescer e nos desenvolver. Uma anima ferida reage com impaciência: ela aprendeu que o alívio está a segundos de distância, bastando selecionar um vídeo que cause satisfação. E assim, ela vai tomando o homem cada vez mais para si, afastando-o do mundo real.
Mas o impacto não se limita ao campo pornográfico. Uma anima fragilizada repercute na autoimagem do próprio homem: o homem que percebe nele traços considerados “femininos” — como a sensibilidade, o cuidado e a receptividade — tende a nega-los ou reprimi-los cada vez mais. Essa repressão, por sua vez, aumenta a cisão interna e fortalece a compulsão pornográfica como um escape para experimentar, em segredo, tudo aquilo que não cabe na sua imagem social. Dessa forma, o desenvolvimento pessoal fica estagnado, pois a integração do oposto interno é um passo essencial para o amadurecimento da personalidade.
4. Erótico não é pornográfico — Desejo criativo versus Objetificação
É importante, nesta etapa do vídeo, fazermos uma distinção clara entre a pornografia e o erótico. O erótico é a energia que desperta a curiosidade, o movimento e a ligação entre duas pessoas. É uma manifestação fundamental em nossas vidas. Nós precisamos do Eros nas nossas vidas pois é ele que une e atrai, despertando desejo; o pornográfico, por outro lado, é um produto voltado à descarga rápida dessa mesma energia. No erotismo há espaço para a pausa, para a reciprocidade e para o mistério; na pornografia, só que o há é uma violação desse contrato, reduzindo pessoas a objetos de consumo. Tudo é exposto, retirando todo o mistério que o outro insinua. Quando o erótico é espremido em pornografia, a mente começa a perder a sensibilidade para o calor gradual que sustenta o desejo ao longo do tempo.
O desejo sexual não é bom nem mau em si mesmo. Ele é uma parte central da vida humana e do tecido social. Contudo, como qualquer força instintiva, precisa de limite e contenção para não degenerar em fornicação compulsiva ou em vício desenfreado. Contenção não significa repressão; significa justamente dar forma, ritmo e direção à energia sexual para que ela alimente laços, desperte a criatividade e o sentido das coisas. Muito mais do que uma questão meramente sexual, a energia sexual é uma pulsão de vida que cria e dá forma. Sem esse enquadramento, o impulso recai no princípio do prazer infantil e procura o alívio mais fácil — papel esse que a pornografia exerce.
Platão entendia o Eros, essa força metafísica que une seres e ideias, como um componente essencial do próprio cosmos. Em um dos seus diálogos mais famosos, intitulado O Banquete, ele propõe a “escada do amor” pelo qual o Eros passa: o amante começa admirando um corpo belo, depois todos os corpos belos, até contemplar a Beleza em si, isto é, as ideias eternas do qual todas coisas da terra participam. O erotismo, portanto, pode ser o ponto de partida para uma ascensão ética e intelectual; ele não termina no ato sexual, mas expande-se em amizade, em filosofia e serviço a algo mais elevado. É pulsão de vida que deseja cada vez mais se elevar.
C. S. Lewis, em seu livro Os Quatro Amores, descreve o Eros como o estado de estar apaixonado, distinto da pura atração física, que ele chama de “Vênus”. Eros valoriza a pessoa inteira; quer justamente a união duradoura. Ele se torna perigoso apenas quando é idolatrado — quando o sentimento passa a justificar qualquer ato em seu nome. Vemos isso em inúmeros casos na literatura, como Romeu e Julieta e Os Sofrimentos do Jovem Werther. A lição de C. S. Lewis é que o erotismo precisa ser integrado a outras formas de amor e à normas éticas para crescer sem, no entanto, nos escravizar.
Reconhecer essa diferença entre Eros criativo e pornografia de consumo é um passo decisivo para reorientar o desejo. Nos capítulos seguintes, veremos que a pornografia não se reduz a imagens explícitas, por que abandonar o hábito exige estratégias graduais e o que fazer para devolver ao erotismo seu lugar saudável na experiência humana.
5. A Pornografização do Mundo — A agonia do Eros na sociedade do desempenho
Extrapolando o conceito de pornografia para além da exposição sexual explícita, ela é também um fenômeno que tomou conta do mundo em que vivemos.
O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han observou que vivemos num tempo de “hipervisibilidade”, em que tudo precisa ser exibido, compartilhado e convertido em dados de consumo. Nesse ambiente, a libido vai se deformando progressivamente.
Aquilo que antes exigia distância, imaginação e encontro com o mistério, ou seja, com o Eros, passa a ser oferecido como mercadoria pronta e disponível a qualquer segundo. Byung-Chul Han, no seu livro A Agonia do Eros, afirma que o amor só nasce quando existe alteridade, ou seja, quando o outro permanece em parte inacessível para nós; porém, a lógica do mercado e das redes sociais dissolve essa diferença, substituindo o Eros, a parte do outro que é um mistério, pela exposição crua.
Byung-Chul Han chama esse processo de “pornografização” porque a pornografia expõe tudo de imediato, suprimindo o intervalo que, no erotismo, mantém o desejo aceso. O excesso de informação visual elimina a sombra, e com a sombra desaparecem o anseio, a surpresa e o risco que caracterizam o desejo autêntico.
Byung-Chul Han extrapola o conceito da pornografia para a vida social: tudo é exibido, sem mistério, e, portanto, tudo se torna pornográfico. Nas redes sociais, a constante exposição da vida pessoal, de corpos e de modos de vida padronizados seguem essa lógica da pornografização: tudo se tornou um produto para ser vendido.
Dessa forma, a vida privada se confunde com a vida pública, e a distância que permitia a confidência e a privacidade vai diminuindo cada vez mais. Influenciadoras que expõe toda sua vida pessoal transformam o seu modo de vida em um produto. As pessoas se tornaram marcas onde anunciadores mantem campanhas e vendem o que desejarem. As pessoas viram mercadorias, onde são escolhidas, descartadas ou acumuladas como produtos, enquanto a capacidade de se comover pelo que é singular diminui cada vez mais.
Byung-Chul Han relaciona essa exibição total com a sociedade do desempenho: cada um é impulsionado a produzir, exibir-se e comparar-se continuamente. E a sexualidade não escapa dessa lógica; ela é convertida em capital de atenção. Videoclipes de músicas pop, reality shows, séries de streaming e anúncios publicitários infiltram referências explícitas ou sugestivas em todas as faixas e em todos os horários. O resultado é uma anestesia afetiva: quanto mais estímulo, menos intensidade subjetiva, porque o cérebro se habitua a picos constantes de prazer e perde a capacidade de contemplação.
Para Byung-Chul Han, a agonia do Eros manifesta-se justamente nessa incapacidade de permanecer diante do outro sem reduzi-lo a um consumo rápido. O amor erótico, que requer exposição à alteridade e vulnerabilidade frente às negações, cede lugar a relações meramente utilitárias. Nesse sentido, a pornografia não é um fenômeno isolado, mas um sintoma mais evidente de uma cultura que converte todos os domínios — inclusive o íntimo — em objetos de exibição e de compra.
Compreender essa pornografização ajuda a explicar por que abandonar o vício não é apenas questão de disciplina individual: ele exige também reeducar nossos olhos e nossas relações com o outro; em vermos o outro como uma pessoa e não como um produto.
6. Caminhos de Integração — Ferramentas analíticas para resgatar a energia psíquica
Interromper o ciclo compulsivo do consumo de pornografia exige mais do que bloquear sites ou desinstalar aplicativos. O objetivo não é suprimir um impulso, mas reintegrar a energia que ele carrega ao restante da personalidade. O primeiro passo, então, é tornar consciente o automatismo do processo. Para isso, você pode manter um diário, escrito logo após a vontade de buscar pornografia, para perceber a trilha por onde o seu desejo passa: nesse diário, marque a hora, seu estado de humor, as sensações corporais, e os pensamentos automáticos quando você sentiu vontade de consumir pornografia. Ler essas anotações algumas semanas depois vai te revelar padrões invisíveis no dia a dia e te devolver a possibilidade de escolha, sem cair no automatismo inconsciente.
Com esses gatilhos identificados, você pode praticar a técnica da imaginação ativa — proposta por Carl Jung para dialogar com os conteúdos inconscientes —, onde se pode transformar fantasias em um riquíssimo material simbólico. Para isso, toda vez que você sentir vontade de acessar um vídeo, você fecha os olhos, respira fundo e permite que uma cena interna da sua imaginação se manifeste sem censura na sua consciência, e comece a narra-la em voz baixa ou escrevê-la.
O crucial é se manter participativo do processo. Você pode, inclusive, fazer perguntas para si mesmo e tentar responde-las. Quando estiver visualizando a imagem, pergunte: “O que você quer me mostrar além do prazer?”. Muitas vezes surgem temas de poder, medo de rejeição ou necessidade de autoafirmação. Quando simbolizado, o impulso perde parte da urgência, pois encontra um canal de expressão dentro da consciência. Esse processo de imaginação ativa pode ser melhor aproveitado com um acompanhamento terapêutico, pois, muitas vezes, as imagens que surgem do inconsciente podem perturbar ou exercer certo poder sobre a pessoa.
Outra coisa fundamental, é reduzir a dependência dopaminérgica. O cérebro precisa reaprender que há outras fontes de excitação além da superestimulação visual. Atividades de ritmo mais lento, porém imersivas — como trilhas na natureza, danças que possuem contato físico, artes marciais, pintura gestual — tudo isso alimenta sua anima sem deixar que ela o possua. A regra prática é substituir a lógica da gratificação instantânea da pornografia por experiências que requerem um engajamento contínuo, nas quais o prazer cresce em etapas, permitindo ao sistema nervoso regular-se de forma mais estável e natural.
Outro ponto é que, se você tem uma parceira ou um parceiro, é crucial que vocês se comuniquem sobre os seus desejos. Se você for sincero e conversar com o seu cônjuge, fazer acordos ou ouvir sem julgamento os desejos um do outro, o espaço erótico vai se abrindo cada vez mais e o campo da pornografia vai ficando cada vez mais contraído. Experiencie com o seu parceiro toques sem roteiro definidos, exploração sensorial e insinuações. O intuito não é reproduzir cenas pornográficas, mas descobrir o ritmo orgânico do parceiro, onde a excitação e o afeto se modulam mutuamente, dando espaço para que o Eros floresça de novo no relacionamento.
Outro elemento chave é a higiene do ambiente digital. Não se trata de demonizar a tecnologia, mas de assumir responsabilidade perante ela. Pare de seguir perfis hiperssexuliazados ou que vivem expondo a vida pessoal como mercadoria. Habilite a censura de conteúdos explícitos nas configurações da sua rede social e siga o mínimo necessário sobre arte, música ou desenvolvimento pessoal para começar a reeducar a sua mente e dessexualizar o seu cérebro. Esse ajuste altera o campo simbólico da vida; em outras palavras, ele enfraquece o complexo ligado à compulsão, pois reduz a frequente ativação das redes neurais associadas à pornografia.
E, em todo caso, faça terapia. A terapia permite com que você tenha um espaço seguro e acolhedor para que possa externalizar frustrações, contar a sua história, confrontar a sua vergonha, e afrouxar o pacto secreto que mantém o vício, já que você vai precisar encarar a sua sombra de perto.
Por fim, o processo exige tolerância à frustração. Toda vez que a vontade surge e não é atendida imediatamente, o que acontece é um desconforto físico e emocional. Em vez de reprimi-los, permaneça na sensação, respirando, até que ela atinja um pico e comece a diminuir. O corpo comprova, na prática, que a ansiedade é transitória. Cada microvitória dessas fortalece a função do ego como regulador de afetos, diminuindo a dependência dos alívios rápidos.
Quando essas práticas se combinam — observação, simbolização, substituição de estímulos, diálogo relacional, treino de tolerância e terapia — a energia psíquica, antes dispersa, retorna ao sistema como uma força criativa. O sujeito, de fato, percebe um aumento de concentração, espontaneidade e desejo de construir novos projetos. Gradualmente, a pornografia deixa de ser o centro gravitacional e se torna apenas uma possibilidade entre outras.
Se você chegou até aqui, então você reconhece que o impulso sexual não é um inimigo, mas uma energia que precisa de direção. Quando a pornografia monopoliza essa força, a mente se acostuma a atalhos neuroquímicos e o corpo desaprende a dialogar com o ritmo da vida real. O passo decisivo é inverter a lógica: em vez de usar o desejo para fugir da realidade, use a realidade para dar profundidade ao desejo.
Quando a energia erótica volta a circular pelo corpo, pelas emoções, pela criação e pelas relações humanas, o desejo deixa de ser um tirano invisível e se torna um aliado no processo de individuação, isto é, o caminho para você se tornar quem você realmente é.
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