brainrot e vício

O brainrot é real! – Por que você não consegue parar com o que te faz mal?

Em 1845, aos 28 anos de idade, Henry David Thoreau estava passando por uma crise interior: desconfiado das rotinas sociais que anestesiavam sua mente, do consumismo ocasionado por mera imitação e das convenções que a vida na cidade normalmente carregam, ele decidiu construir sua própria cabana e viver por algum tempo nos bosques de Walden, um local dentro da cidade de Concord, no estado de Massachusetts, nos Estados Unidos.

Thoreau nunca se sentiu confortável com a ideia de “sucesso” como carreira ou status; ele, em vez disso, preferia uma vida de autonomia intelectual, algum tempo para observar a natureza e uma certa liberdade para escrever. E nos bosques de Walden, ele passa dois anos vivendo de forma simples, num experimento social de independência, na tentativa de enxergar o mundo com mais nitidez.

E o resultado da sua vida nos bosques foi o livro Walden, onde ele relata suas observações a respeito da natureza, várias críticas sociais e atesta a favor de uma vida de simplicidade e de observação. Em seu livro ele escreve:

“Fui para os bosques porque pretendia viver deliberadamente, defrontar-me apenas com os fatos essenciais da vida, e ver se podia aprender o que tinha a me ensinar, em vez de descobrir à hora da morte que não tinha vivido. Não desejava viver o que não era vida, a vida sendo tão maravilhosa, nem desejava praticar a resignação, a menos que fosse de todo necessária.”

Henry David Thoreau, Walden, ou A Vida Nos Bosques.

E é justamente deste livro que se popularizou a palavra “brainrot”, termo utilizado hoje em dia para descrever aquela sensação de embotamento ocasionada pelo uso excessivo das redes sociais ou pelo consumo de memes e conteúdos de baixíssima qualidade. No contexto do livro, ela aparece quando Thoreau critica a preguiça intelectual que o pessoal do seu tempo parecia se encontrar. A sociedade corria para salvar o que era material, mas negligenciava o desenvolvimento intelectual e cultural. Ele escreve o seguinte:

“Enquanto a Inglaterra se empenha em sanar o apodrecimento das batatas, não haverá ninguém empenhado em sanar o apodrecimento do cérebro, que se alastra de modo mais amplo e fatal?”

Henry David Thoreau, Walden, ou A Vida Nos Bosques.

E parece que sim, o brainrot se alastrou de modo amplo e fatal. Estamos cada vez mais com dificuldade de concentração, baixa tolerância ao tédio, perda de vontade de ler/estudar e cada vez mais consumindo informações pela metade ou através de manchetes.

Nosso cérebro preza pela economia de energia. Quanto mais conteúdo curto e fácil consumimos, como reels no Instagram, shorts no Youtube e vídeos no Tiktok, dá ao nosso cérebro uma sensação de alívio e novidade com esforço quase zero. Isso cria um caminho preferencial para quando você está cansado, ansioso ou entediado, em que você opta sempre pela via mais curta.

E dessa forma, é claro que ler um livro ou assistir a um filme fica chato e muitas vezes insuportável. Esses materiais não te proporcionam uma descarga de prazer a cada segundo. Já as redes sociais fazem o oposto disso: ela te treina, sim, te treina, a trocar de estímulo em poucos segundos. Se alguma coisa que você consumiu não te causou prazer, basta você deslizar o dedo na tela, na expectativa de encontrar outra coisa mais estimulante. Não é que ler ou estudar é sem graça, mas é porque o nosso cérebro já se acostumou com uma alta estimulação e nossa atenção está tão fragmentada quanto a de um peixe.

Quando nós falamos de estímulos, e principalmente sobre vícios, estamos falando sobre o sistema límbico, uma das partes mais primitivas do nosso cérebro, depois do tronco encefálico, responsável pelas ações involuntárias do nosso corpo, que também é associada aos instintos. Só que o sistema límbico é ligado à parte emocional; é um conjunto de circuitos que influencia no prazer, na motivação e na memória, e que foi moldado para te manter vivo: seja na busca por alimento, para evitar o perigo, se vincular a pessoas ou repetir aquilo que funciona.

Isso acontece porque o sistema límbico aprende por associação: se algo te dá alívio, prazer, excitação ou uma sensação de pertencimento, ele registra aquilo como valioso e aumenta a chance de você repetir. Esse registro, além de ser uma lembrança mental, é um traço emocional. É por isso que certas coisas parecem “puxar” você mais do que outras: o cérebro aprendeu que aquilo melhora o estado interno — ou pelo menos dá uma sensação de melhora.

Mas já que o sistema límbico mantém o seu aprendizado por associação, diferentes substâncias e comportamentos podem gerar tipos semelhantes de recompensa e desejo. Drogas como álcool e o cigarro “sequestram” esses mesmos circuitos de motivação do sistema límbico e aumentam a sinalização de recompensa, o que fortalece o aprendizado por repetição, pois o cérebro passa a marcar a substância como “altamente valiosa”.

Isso explica por que o ambiente pode virar uma espécie de gatilho, um disparador para do vício: com o tempo, o cérebro libera dopamina –– aquele famoso hormônio responsável pela expectativa da recompensa, não só quando consome a substância ou quando a pessoa produz o comportamento que gera a recompensa ––, mas quando encontra os sinais associados àquela recompensa (um horário específico do dia, um ambiente, um cheiro, alguns amigos, etc.).

É por isso que você pode continuar querendo algo mesmo quando já não gosta tanto. As pessoas persistem no que o cérebro rotulou como altamente recompensador “mesmo depois de deixar de ser prazeroso ou benéfico”, pois a memória emocional é muito mais primitiva e forte do que o mero entendimento das coisas.

Um autor americano especialista na história das drogas, chamado David Courtwright, chama esse processo de “aprendizagem patológica”, que é quando as drogas ou alguns comportamentos aumentam a liberação de dopamina, transformando um mecanismo evolutivamente útil como o nosso sistema límbico em algo que pode virar uma compulsão. Em seu livro, The Age of Addiction, que infelizmente ainda não tem tradução para o português, ele explica esse processo:

“Pesquisadores começaram a usar o termo aprendizagem patológica para o processo que ocorre quando substâncias ou comportamentos viciantes aumentam a liberação da dopamina, transformando o que evoluiu como um processo benéfico em um processo patológico. […] As pessoas continuam fazendo o que seus cérebros lhes dizem ser altamente recompensador, muitas vezes além do ponto em que ainda é prazeroso e benéfico.”

David T. Courtwright, The Age of Addiction.

Só que também, não é como se o vício em drogas, pornografia, álcool, jogos de azar, fosse culpa inteiramente nossa. Nós vivemos dentro de um sistema que aprendeu a transformar prazer em produto, e consequentemente produto em dependência. 

Porque, além do cérebro humano ter caminhos naturais de recompensa, existe o que o David Courtwright chama de “capitalismo límbico”: um sistema de negócios em que indústrias globais ou até mesmo as organizações criminosas, estimulam o consumo excessivo e a dependência de substâncias ao mirar diretamente no sistema límbico. A tese dele é que essas mesmas redes neurais, feitas pela evolução para sustentar a sobrevivência, acabam sendo usadas para gerar lucro com práticas que trabalham contra a sobrevivência, como ele escreve:

“O capitalismo límbico é o gêmeo malvado do capitalismo. É baseado em estímulos, ganância e em um jogo de soma zero. Produz lucros grandes e sustentados (e, com eles, os meios de asfixiar a oposição) por meio do comércio de produtos reprováveis como pornografia e cigarros ou, no caso de alimentos e celulares, de produtos cotidianos que se tornam “reprováveis” graças a uma engenharia deliberadamente viciante. O gêmeo bom e o gêmeo mau estão ligados não “pelo quadril”, mas por um ponto historicamente contingente: aquele em que a ciência e a tecnologia tornaram possível transformar uma mercadoria em vício.”

David T. Courtwright, The Age of Addiction.

Mas é importante deixar claro que Coutwright não está dizendo que o capitalismo é “malvadão” ou algo parecido, mas que todo sistema pode ser usado para fins exploratórios. No capitalismo comum, a inovação e competição tendem a melhorar os produtos e os benefícios sociais; no capitalismo límbico, a inovação e a competição tendem a piorar as consequências sociais, porque “melhorar” o produto significa torná-lo mais sedutor, mais repetível e consequentemente mais difícil de largar. 

Apesar de estarmos vivendo numa era tecnológica que potencializa e propaga os componentes responsáveis pela aprendizagem patológica, a nossa relação com o vício começa com a nossa capacidade de buscar o prazer, ou seja, antes do começo da história das civilizações, como escreve Coutwright:

“O capitalismo límbico não surgiu de repente, no palco da história moderna. Pelo contrário, emergiu de algo primordial, dos esforços da nossa espécie para expandir continuamente o nosso repertório de prazeres. A busca pelo prazer precedeu a civilização e […] contribuiu para a sua fundação.”

David T. Courtwright, The Age of Addiction.

O que  precisamos entender é que o prazer não é nosso inimigo. Prazer é, em grande parte, um mecanismo de sobrevivência. Ele sinaliza para o seu cérebro que algo é bom, então que devemos repetir aquilo. O problema começa quando a nossa inteligência — somada às condições do mundo — faz esse sistema sair do equilíbrio. Conforme aumentou o número e a intensidade dos prazeres disponíveis, decorrente do aumento populacional ocasionado pela formação das civilizações, aumentaram também os vícios e as oportunidades de dependência. Não porque o ser humano “piorou”, mas porque o ambiente ficou mais eficiente em nos estimular. 

Primeiro, nós descobrimos prazeres na natureza: açúcar, mel, plantas que alteram a consciência, substâncias que anestesiam a dor, estimulam a energia ou criam euforia. Migrações humanas funcionaram como uma espécie de “caça ao tesouro” por recursos prazerosos espalhados no mundo, e cada cultura deu significado a essas experiências por meio de rituais, crenças e dentro do contexto social.

Com o surgimento da agricultura, passamos a nos estabelecer em diversos territórios e isso mudou não só a disponibilidade dos alimentos, mas os costumes. O álcool, que provém da fermentação de açúcares de alguns vegetais, passou a ser produzido e comercializado, e com o assentamentos dos povos, novas formas de prazer começaram a surgir, como explica Courtwright:

“À medida que as sociedades agrícolas se tornavam mais desiguais, o álcool tornou-se um segundo papel, não menos vital, como compensação para aqueles que realizavam o árduo trabalho da agricultura. Proporcionavam alívio temporário do estresse, da fadiga, da ansiedade e das doenças endêmicas das sociedades agrícolas. Ofereciam, fugazmente, uma sensação de libertação, relaxamento, solidariedade e prazer. […] A política do prazer também se transformou. Mais do que nunca, as elites, particularmente os homens da elite, tornaram-se os oligarcas do hedonismo”

David T. Courtwright, The Age of Addiction.

Quando os prazeres passam a ser trocados e distribuídos por rotas comerciais, surge, então, a base do que viria depois: as substâncias, os jogos e os “intensificadores”, que se espalharam, ficando mais fortes, mais acessíveis e mais sedutores. Só que a grande virada foi a criação de um mercado de massa para o prazer entre os séculos XVII e XVIII e que explode nos séculos XIX e XX, principalmente no período da Belle Époque, quando os produtos passaram a ser fabricados com mais velocidade graças a industrialização, o incremento da tecnologia, da urbanização e dos novos meios de comunicação.

A história inteira aponta para um mesmo padrão: quando você junta acesso, barateamento, novidade e intensificação, você aumenta o risco de transformar o prazer em vício, que é o que aconteceu hoje devido à internet.

O que torna justamente o prazer num vício é como o processo de industrialização e a globalização fazem as mercadorias serem mais acessíveis e baratas, em ambientes frequentemente anônimos e saturados com publicidade. Courtwright resume esse motor do vício em massa com os cinco “A’s, na terminologia em inglês: acessibility (acessibilidade), affordability (baixo custo), advertising (publicidade), anonymity (anonimato) e anomie (anomia, ou desorganização social).

E o fato da internet, sobretudo das redes sociais, serem tão viciantes, é porque ela reúne todas essas condições, como explica Courtwright: 

“Acessibilidade, preço baixo, publicidade, anonimato e anomia, os cinco cilindros do motor do vício em massa, encontraram, em última análise, sua expressão tecnológica mais radical com o advento da internet.”

David T. Courtwright, The Age of Addiction.

Então, é claro, séculos e séculos de aprimoramentos tecnológicos e maneiras de explorar e entender o nosso relacionamento com o prazer, resultaram em maneiras cada vez mais engenhosas e até mesmo silenciosas de capturar a nossa atenção. E as redes sociais como conhecemos hoje foram desenhadas milimetricamente para fazer isso. O Instagram, Tiktok e o Youtube ganham “mais dinheiro a cada segundo extra” que você fica olhando para a tela, e perde dinheiro toda vez que você fecha os aplicativos, pois quanto mais tempo você fica, mais anúncios você vê, e mais a plataforma recebe por isso.

E a maneira mais engenhosa de fazer com que você permaneça vidrado no celular não é te recompensar sempre, é te recompensar de forma imprevisível. Isso é o que a psicologia comportamental chama de reforço intermitente: você fica na expectativa de que alguma coisa aconteça, alguma notificação apareça, alguma coisa prenda a sua atenção para você se livrar do tédio. 

E essa expectativa libera dopamina, lembra que ela é o hormônio da expectativa de recompensa? Os feed infinitos das redes sociais hoje em dia, por exemplo, são uma estratégia para, além de deixar você na expectativa de algo estimulante, te impede de pensar por um momento se você deseja continuar alí ou não; os feeds das redes sociais não funcionam como os sites, que contém paginação.

Quando um sistema consegue te manter num ciclo de micro-recompensas imprevisíveis, é como se você vivesse preso numa espécie de caça-níquel. Você não entra mais nas redes sociais para simplesmente fazer algo; você entra para ver “o que apareceu” por lá, intermitentemente. 

Mas perceba toda a trajetória que fizemos até aqui: o vício é uma forma que insiste durante todas as épocas da humanidade. O conteúdo, ou seja, o objeto pode mudar, mas o padrão, a forma, permanece a mesma. Muito mais do que um hábito compulsivo, o vício é uma estrutura presente onde o prazer está presente, só mudando conforme a época e a disponibilidade. Se antes era o vinho e os cultos dionisíacos na Grécia Antiga, agora temos os destilados industriais; se antes eram as apostas em praça pública, agora temos os cassinos e aplicativos de apostas no celular. 

E quando falamos de um padrão que persiste cujo conteúdo muda conforme a época e o lugar, estamos falando dos arquétipos presentes na estrutura inconsciente da psique humana. Segundo Jung:

“O arquétipo é uma espécie de aptidão para reproduzir constantemente as mesmas coisas […] Logo, é possível supor que os arquétipos sejam as impressões gravadas pela repetição e reações subjetivas […] são impregnações de experiências típicas, incessantemente repetidas, mas também se comportam empiricamente como forças ou tendências à repetição das mesmas experiências.”

Carl Jung, Psicologia do Inconsciente.

Ou seja, independentemente do conteúdo, o vício promete oferecer as mesmas experiências: a promessa de êxtase, alívio, expansão, esquecimento. Quando Jung olha para os vícios, ele enxerga um fenômeno de posse psíquica, e não uma falta de força de vontade, apenas; é como se alguma coisa dentro de você tomasse o controle do ego.

Diante dessa percepção, a pergunta não é ˜Por que eu faço isso comigo? Por que eu não consigo parar?˜; a pergunta é ˜Que força interior está me usando como uma saída?˜. Os arquétipos são padrões autônomos que muitas vezes podem tomar conta do ego consciente da pessoa, como Jung escreveu:

“É preciso constatar, expressamente, que [o arquétipo] não se trata unicamente de conteúdos reconhecíveis, mas de sistemas psíquicos trans-subjetivos, amplamente autônomos, e, portanto, submetidos só muito condicionalmente ao controle do consciente e provavelmente até lhe escapando, em grande medida.”

Carl Jung, Psicologia do Inconsciente.

Ou seja, existem sistemas psíquicos autônomos, independentes da nossa vontade, capazes de tomar o centro da nossa consciência por um tempo. É por isso que, no vício, a pessoa muitas vezes descreve a experiência dizendo que não foi ela, que quando ela percebeu já era tarde demais ou que ela sabia que não queria mas mesmo assim não conseguia parar.

E lembra que eu disse que o padrão permanece, mas o conteúdo muda? Pois bem, hoje nós chamamos esse conteúdo que nos domina de compulsão, mas antes era como se um deus estivesse nos possuindo ou nos punindo. Os deuses da antiguidade não morreram, eles apenas trocaram de nome, como explica Jung:

“Ainda estamos tão possuídos pelos conteúdos psíquicos autônomos, como se estes fossem deuses. Atualmente eles são chamados: fobias, compulsões, e assim por diante; numa palavra, são sintomas neuróticos. Os deuses tornaram-se doenças. Zeus não governa mais o Olimpo, mas o plexo solar e produz espécimes curiosos que visitam o consultório médico.”

Carl Jung, Estudos Alquímicos.

Em outras palavras, aquilo que antes era vivido como “forças” — deuses, demônios, possessões — hoje aparece como sintoma, diagnóstico, transtorno, dependência.

Vendo por essa ótica, o vício costuma funcionar como um pacto inconsciente com a Sombra. A Sombra não é “o mal” em si mesma; é tudo aquilo que foi empurrado para fora da consciência: que pode ser uma dor não sentida, uma raiva que foi engolida, uma carência, medo de não ser suficiente, vergonha, ressentimento, mas principalmente uma sensação de vazio. Quando a consciência não consegue sustentar esses conteúdos, eles procuram uma válvula de escape, e a válvula mais eficiente é sempre a que dá alguma recompensa imediata e reduz o desconforto com mais rapidez.

E uma das piores drogas que fazem isso, mesmo antes do surgimento da compulsão por  redes sociais, é justamente o álcool. Jung escreveu  que o vício costuma nascer onde existe um vazio de sentido e uma vontade por plenitude muito forte. Na sua famosa carta a Bill Wilson, o cofundador dos Alcoólicos Anônimos, Jung escreve o seguinte:

“Portanto, tive de ser muito cuidadoso ao conversar com Roland H. [um paciente dependente químico de Jung]. Sua fixação ao álcool era o equivalente, num grau inferior, da sede espiritual do nosso ser pela totalidade expressa em linguagem medieva, pela união com Deus […] O único caminho correto e legítimo para tal experiência é que ela aconteça para você na realidade, e ela só poderá lhe acontecer se você procurar um caminho que o leve a uma compreensão mais alta. E você poderá ser conduzido a esta meta pela ação da graça, pela convivência pessoal honesta com os amigos ou por meio de uma educação mais elevada da mente, para além dos limites do mero racionalismo.”

Carl Jung, Carta a Bill Wilson (AA).

Para Jung, a compulsão e o vício não é só uma busca por prazer; muitas vezes é uma tentativa desesperada de alcançar algo que pareça inteiro, absoluto. Em outras palavras, é uma questão estritamente espiritual. Na mesma carta ele continua:

“Estou firmemente convencido de que o princípio do mal que prevalece no mundo conduz às necessidades espirituais, que, quando negadas, levam à perdição se ele não é contrabalanceado por uma experiência religiosa ou pelas barreiras protetoras das comunidade humana. Um homem comum, desligado dos planos superiores, isolado de sua comunidade, não pode resistir aos poderes do mal, muito propriamente chamado de Demônio. Mas o uso de tais palavras nos leva a enganos; por isso, temos de nos manter afastados delas, tanto quanto possível.”

Carl Jung, Carta a Bill Wilson (AA).

Portanto, o caminho que Jung enxerga para combater o vício é através de uma experiência interior mais forte do que a compulsão; algo que devolva ao indivíduo um sentido de conexão, significado e, principalmente, de comunidade. Na mesma carta, ele insiste que o caminho legítimo é aquele em que essa mudança “acontece dentro da realidade”, seja por uma graça, seja por “um contato pessoal e honesto com amigos”, seja por uma educação da mente que vá além do “mero racionalismo”.

A palavra álcool veio do árabe, onde os alquimistas medievais traduziram e adaptaram para o latim de alcohol, que significa espírito. Sendo assim, só se combate o espírito contra espírito, como Jung escreveu:

“Veja você que ‘álcohol’ em latim significa ‘espírito’; no entanto, usamos a mesma palavra tanto para designar a mais alta experiência religiosa como para designar o mais depravador dos venenos. A receita então é ‘spiritus’ contra ‘spiritum’.”

Carl Jung, Carta a Bill Wilson (AA).

O vício quase sempre é uma tentativa de cura só que feita do jeito errado: ele tenta aliviar a alma, mas acaba a destruindo; tenta dar sentido a ela, mas acaba levando-a para a perdição; tenta unir o que está dividido, mas com um preço que desintegra a pessoa por dentro. E é exatamente por isso que o trabalho real começa quando você deixa de tratar o vício como um monstro externo e começa a tratá-lo como um sintoma carregado com uma mensagem do inconsciente, uma porta de entrada para o processo de individuação, onde você não vira alguém perfeito e espiritualizado, mas se torna mais inteiro, mais consciente e menos manipulável por aquilo que te possuía.

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