A pessoa que tem medo de incomodar

“[…] não existe nada mais deplorável do que, por exemplo, ser rico, de boa família, de boa aparência, de instrução regular, não tolo, até bom, e ao mesmo tempo não ter nenhum talento, nenhuma peculiaridade, inclusive nenhuma esquisitice, nenhuma ideia própria, ser terminantemente ‘como todo mundo’.”

Fiódor Dostoiévski, O Idiota.

Diante de um mundo potencialmente hostil e desconhecido, é comum que, em certa fase do nosso desenvolvimento psíquico, começamos a lançar mão de alguns mecanismos de defesa para tentar nos proteger. Esses mecanismos de defesa são disposições advindas da própria personalidade do indivíduo, que é formada de acordo com as relações familiares, principalmente dos cuidadores da primeira infância, mas também pelo modo como a criança absorve as experiências que passou diante do mundo exterior.

Durante a década de 30 do século XX, a psicanalista alemã Karen Horney, se debruçando sobre o legado deixado por Sigmund Freud, trouxe novas perspectivas e novos caminhos para a psicanálise. Enquanto Freud acreditava que a raíz dos conflitos neuróticos, grosso modo, se originava a partir de uma fonte erógena do corpo, que gerava excitação e prazer e, diante das barreiras da realidade e da própria consciência, o sujeito restringia sua satisfação, Karen Horney mostrou que os conflitos que perturbavam a psique se originam sobretudo da cultura que o indivíduo está inserido. Em seu livro ela escreve que:

“As condições de vida de toda cultura dão lugar a certos medos. Podem ser ocasionados por perigos externos (natureza, inimigos), pelas modalidades das relações sociais (injustiça, dependência forçada, frustrações), por oposição a tradições culturais (medo tradicional de demônios, de violação de tabus) independentemente de como se hajam originado. Um indivíduo pode ser mais ou menos sujeito a esses medos, porém, de modo geral, é lícito presumir que eles atuem sobre todos os indivíduos que vivem numa dada cultura e a que ninguém pode escapar.”

Karen Horney, A Personalidade Neurótica do Nosso Tempo.

Essa sensação difusa e constante de insegurança diante do mundo forma o que Karen Horney chama de ansiedade básica. É como se, diante dos potenciais perigos ao redor, a pessoa não se sentisse verdadeiramente protegida, aceita ou amada. E quando essa sensação se instala, o indivíduo precisa desenvolver estratégias para lidar com ela. Uma dessas estratégias é o movimento de aproximação das pessoas. Mas não se trata de uma aproximação saudável ou espontânea. É uma aproximação defensiva, uma espécie de generosidade tensa que vem acompanhada do medo de desagradar, de frustrar ou de ser rejeitada.

Essa aproximação começa na infância, onde a criança geralmente precisa se calar ou ficar quieta para obter a atenção que necessitava dos outros. Talvez ela tenha tido um irmão ou irmã mais velha que o protegia ou dava atenção se atendesse às suas demandas, ou para evitar que ele ou ela contasse alguma coisa aos pais. Algumas consequências desse comportamento infantil aparecem na idade adulta, como descreve Karen Horney:

“Eles têm inibições quanto a manifestar seus desejos ou a pedir alguma coisa, a fazer alguma coisa em seu próprio proveito, a expressar uma opinião ou crítica justa, a dar ordens a alguém, a escolher as pessoas com quem gostariam de se associar, a travar relações com pessoas […] muitas vezes, são incapazes de se defenderem contra ataques, ou de dizerem não se não querem concordar com os desejos de outros, como, por exemplo, a uma vendedora que lhes quer vender algo que eles não desejam comprar, ou a uma pessoa que os convida para uma festa, ou a uma pessoa que os queria namorar.”

Karen Horney, A Personalidade Neurótica do Nosso Tempo.

Muitas vezes, as pessoas com essa aproximação ansiosa têm muita dificuldade para expressar desejos que só dizem respeito ao seu próprio interesse, como se isso fosse a coisa mais errada de todas. Diversas vezes, a expressão desses desejos são suavizados, onde elas pedem menos do que precisam ou chegando no ponto em que não conseguem sustentar o próprio pedido se a outra pessoa entendeu errado e veem que precisam explicar de novo, com medo da pessoa se irritar ou algo do tipo. 

Eu atendi um paciente, certa vez, que tinha um comportamento parecido: o seu medo de incomodar as outras pessoas era tanto, que ele me contou que, certa vez, quando foi a um bar com sua esposa, ficou com medo de incomodar o garçom para fazer o pedido porque viu que ele já havia atendido muitas pessoas e talvez estivesse cansado e aborrecido. As pessoas com ansiedade de aproximação podem adotar esse tipo de comportamento, uma espécie de atitude condescendente na esperança de, se sentirem que não estão incomodando, o outro pode dar a afeição e a aprovação que eles tanto buscam. Karen Horney explica que:

“Já que obter afeto é de importância vital, [a pessoa] pagará qualquer preço para obtê-lo, na maior parte dos casos, sem perceber que o está fazendo. Os modos mais comuns de pagar esse preço são uma atitude condescendente e uma dependência emocional. A atitude condescendente pode revestir-se da forma de não ousar discordar ou criticar a outra pessoa, de não demonstrar senão devotamento, admiração e docilidade. Se pessoas desse tipo se permitem fazer observações críticas ou desairosas, elas se sentem angustiadas ainda quando tais observações sejam inócuas. A atitude condescendente pode ir até o ponto de o neurótico suprimir não só os impulsos agressivos mas todas as tendências de defesa dos próprios direitos, deixando-se maltratar e fazendo qualquer sacrifício, por mais lesivo que seja.”

Karen Horney, A Personalidade Neurótica do Nosso Tempo.

Alcançar a afeição é, no fundo, o que as pessoas com medo de incomodar mais desejam. Mas perceba uma coisa: ter e dar afeto não é uma coisa ruim, muito pelo contrário. Demandar e querer afeto atesta um certo nível de saúde mental. Quem se isola e não busca o mínimo de afeição dos outros também é um sinal de ansiedade, e não de maturidade. Mas as pessoas com ansiedade de aproximação fazem do afeto um dever, uma necessidade vital, a ponto de fazer isso o norte da sua vida. E, muitas vezes, quando não conseguem o afeto tão esperado nas relações interpessoais, elas recorrem às coisas. Passam a se ligar compulsivamente por objetos materiais, como explica Karen Horney:

“Ao invés de procurarem ligar-se a uma pessoa, elas se ligam compulsivamente a coisas, tendo de comer, de comprar ou de ler, ou, de um modo geral, tendo de obter algo. Essa transformação pode assumir formas grotescas às vezes, como nas pessoas que depois de se saírem mal numa aventura amorosa passam a comer tão compulsivamente que aumentam dez a quinze quilos em pouco tempo […] elas aindam desejam afeição e ainda ousam esforçar-se por alcançá-la, mas qualquer decepção pode romper o fio que as liga aos demais.”

Karen Horney, A Personalidade Neurótica do Nosso Tempo.

Karen Horney está dizendo que essa dinâmica é uma tentativa de lidar com uma ansiedade profunda que nunca foi realmente resolvida. A pessoa associou, por um bom tempo, afeição com autonegação. Quanto mais alguém tenta garantir o afeto através da autonegação, mais esse afeto se torna instável. Porque ele depende de uma performance. E nenhuma performance consegue ser sustentada para sempre. Em algum momento, o cansaço aparece, a frustração começa a se acumular e, muitas vezes, surge um ressentimento silencioso. 

Mas essa dinâmica de aproximação não diz respeito somente ao comportamento, ela também pode ser uma atitude psicológica, uma maneira de enxergar o mundo, que reflete no modo como a pessoa pensa e expõe suas ideias, trazendo algumas consequências para a sua vida.

A cidade de Alexandria, localizada no norte do Egito, foi, por volta do século III a.C. até o século II, um enorme centro cultural que abrigava diversas escolas e vertentes de pensamento que coexistiam e, muitas vezes, até se fundiam, com destaque para o neoplatonismo, o estoicismo e o gnosticismo. E por volta do ano de 185, nasceu Orígenes, uma figura importante para o cristianismo primitivo. Orígenes nasceu em um momento e em um local de enorme sincretismo de doutrinas, isto é, a fusão de diferentes religiões e crenças. Carl Jung escreveu o seguinte sobre Orígenes:

“Ele [Orígenes], porém, nasceu naquela atmosfera mental ímpar onde se misturavam as ideias do Oriente e do Ocidente. Com verdadeira ânsia de saber, absorvia avidamente tudo o que fosse digno de conhecer e aceitava tudo o que o riquíssimo mundo intelectual de Alexandria podia oferecer: cristão, judeu, helênico ou egípcio.”

Carl Jung, Tipos Psicológicos.

Carl Jung demonstrou que Orígenes se enquadra no tipo psicológico do extrovertido, o indivíduo que volta sua energia psíquica para fora, para o mundo exterior, e por isso são pessoas mais comunicativas, adaptáveis e baseiam a sua moral muitas vezes no ambiente ao seu redor. Jung escreve que:

“Orígenes é um exemplo clássico do tipo extrovertido. Sua orientação básica era o objeto; isto se mostrava em sua preocupação escrupulosa por fatos objetivos e suas condições, bem como na formulação daquele princípio supremo: amor e visão de Deus.”

Carl Jung, Tipos Psicológicos.

Os extrovertidos possuem mais facilidade para aceitar e concatenar ideias do que os introvertidos, que são mais voltados para o próprio interior. E foi justamente esse traço extrovertido que causou alguns problemas para Orígenes. Por tentar juntar ideias do gnosticismo e do neoplatonismo com as doutrinas do cristianismo, suas ideias foram excomungadas e tidas como heréticas pela Igreja, como Jung complementa:

“Sua teologia era essencialmente filosófica; inseria-se perfeitamente no âmbito da filosofia neoplatônica. Em Orígenes se interpenetram num todo pacífico e harmonioso os dois mundos: a filosofia grega e a gnose, por um lado, e as ideias cristãs, por outro. Mas esta tolerância ousada e perspicaz, sua imparcialidade, levaram-no também a ser condenado pela Igreja.“

Carl Jung, Tipos Psicológicos.

Uma dessas doutrinas condenadas foi a da apocatástase. Orígenes acreditava que, no final dos tempos, tudo voltará a ser um só com Deus como foi no princípio, independentemente do que tenhamos feito, dos nossos erros ou dos arrependimentos. Até o mesmo o Diabo e os demônios estarão salvos e voltarão a ser um com Deus. Olha o que Orígenes escreve:

“Devemos crer que toda esta nossa substância corpórea será tirada de tal consenso quando cada coisa for reintegrada para ser urna só coisa, e Deus será tudo em todos. Isso, porém, não acontecerá em um momento, mas lenta e gradualmente, através de séculos infinitos, pois a corrigirão e a purificação sucedendo pouco a pouco e singularmente, e enquanto alguns com ritmo mais veloz se apressarão em primeiro lugar para a meta e outros os seguindo de perto, outros, ao contrário, permanecerão muito atrás. E assim, mediante inumeráveis ordens constituídas por aqueles que progridem e, de inimigos que eram, se reconciliam com Deus, chega-se ao último inimigo, a morte, para que também este seja destruído e não haja mais inimigos.”

Orígenes, Os Princípios.

À primeira vista, essa ideia pode parecer bastante compassiva. Quase como uma forma de condescendência para com todos, até para quem não se arrependeu. Mas, se interpretarmos do ponto de vista psicológico, que é o que estamos propondo, isso revela uma tentativa de eliminar completamente o conflito. Porque, se todos serão salvos, então não há necessidade de assumir as consequências da própria vida. É o mesmo impulso de quem evita desagradar a qualquer custo. A pessoa quer manter todos bem, quer evitar rupturas ou garantir que ninguém se sinta ferido por ela. 

Apesar de Orígenes ter feito muitas contribuições ao cristinanismo, e de ter permanecido cristão até o fim da vida, a generosidade e condescendência proveniente do seu caráter extrovertido fez com que ele se excedesse em vários pontos na conciliação das doutrinas e até mesmo em sua vida prática. Orígenes acreditava que sua ligação sensual com o mundo devido à sua extroversão era um empecilho para se aproximar de Deus. E para se desvincular totalmente do mundo e se dedicar ao espírito, ele decide castrar a si mesmo. Carl Jung faz um comentário sobre isso:

“Essas pessoas eram coerentes também na prática e viviam suas convicções até o absurdo. Pela automutilação, Orígenes sacrificou seu vínculo sensual com o mundo. Para ele, evidentemente, o perigo específico não era o intelecto, mas o sentimento e a sensação que o ligavam ao objeto. Pela castração, livrou-se da sensualidade que estava acoplada ao gnosticismo e pôde entregar-se, sem medo, à riqueza do pensamento gnóstico […]”

Carl Jung, Tipos Psicológicos. 

E pelo fato de Orígenes se castrar, ele elimina justamente o conflito. Ele não queria incomodar nem a si mesmo, eliminando qualquer vínculo sexual que teria com o desejo e com o mundo. Então, além de ter sido uma castração física, foi também uma castração simbólica, como forma de eliminar os impulsos sexuais e se dedicar completamente à vida espiritual. No nível psicológico, isso significa uma tendência ao extremo oposto. De extrovertido passou para introvertido e se perdeu totalmente na sua intelectualidade, pois o sentimento é a sombra do pensamento e o pensamento, a sombra do sentimento. Se negligenciarmos um lado, o outro começa a se inflar cada vez mais, chegando ao ponto de explodir numa reação descompensatória, como foi a de Orígenes.  

E é isso que acontece com as pessoas com a ansiedade de aproximação. Se voltando demais para o outro, para o mundo externo, em busca de afeição e aprovação, elas vão reprimindo cada vez mais impulsos e reações que consideram inapropriadas para o seu objetivo, como o juízo crítico ou o conflito saudável. Todos esses conteúdos reprimidos acabam se voltando contra elas mesmas, culminando em um ódio a si próprias, pois o conflito, tendo que ocorrer em algum lugar, acaba acontecendo dentro delas, em vez de acontecer fora.

E de fato, as exigências e as dinâmicas mundanas podem perturbar até mesmo a mais genuína das pessoas que possuem uma atitude desinteressada em prol do outro. O espírito de altruísmo universal é constantemente tentado pelos conflitos do cotidiano, principalmente em um meio rodeado pela atitude oposta, de egoísmo, de mesquinhez e de orgulho. Mas a questão não é negar esses conteúdos reprováveis dentro de nós, mas justamente termos a consciência deles.

E o que acontece quando uma alma altruísta e boa se depara com os conflitos da vida terrena? É isso que Dostoiévski, no seu romance O Idiota, tentou nos mostrar. A narrativa do livro é centrada no Príncipe Míchkin, um homem de extrema bondade, quase ingênuo, com uma sensibilidade incomum e uma capacidade de agir sem malícia ou egoísmo. Ele é frequentemente visto pelos outros como “idiota” justamente por estar inserido em uma sociedade oposta ao seu caráter.

Dostoiévski pensou no príncipe Míchkin como alguém que personificasse os seus próprios ideais cristãos de amor universal, como escreveu o biógrafo Joseph Frank sobre a vida de Dostoiévski:

“O idiota é o mais pessoal de todos os seus principais romances, o livro que encarna suas convicções mais íntimas, acalentadas e sagradas […] O príncipe Míchkin se aproxima da personificação mais extremada do ideal cristão de amor que a humanidade em sua forma atual pode alcançar, mas ele está dividido pelo conflito entre os imperativos contraditórios de suas aspirações apocalípticas e suas limitações terrenas.”

Joseph Frank, Dostoiévski: Um Escritor em Seu Tempo.

No romance, Michkin retorna à Rússia após passar anos na Suíça tratando de uma epilepsia. Durante a viagem de trem, ele conhece Parfión Rogójin, um jovem rico, herdeiro de um comerciante, que possui um amor obsessivo por uma jovem chamada Nastácia Filíppovna, que talvez seja a personagem feminina mais complexa de Dostoiévski. Nastácia é órfã e foi criada por um pseudo-aristocrata chamado Tótski, que abusou dela sexualmente durante anos, fazendo-a desenvolver comportamentos autodestrutivos e uma profunda vergonha de si mesma. Sua beleza e inteligência a tornam fascinante para todos à sua volta, mas ela se considera um ser “corrompido” e indigno de receber o amor de alguém.

Quando Míchkin conhece Nastássia e crê na sua pureza de caráter que foi corrompida pelos anos que passou com Tótski, ele pede Nastássia em casamento, mas ela acaba rejeitando o pedido, com medo de fazer o príncipe perder a sua inocência e ingenuidade, assim como Tótski fez com ela. Ao longo do livro, Nastássia oscila constantemente entre se aproximar de Míchkin e se redimir diante da sua pureza, ou fugir e se aproximar de Rogójin, que tem um amor obsessivo que a faz se sentir menos culpada e confirmar a imagem que tem de si mesma como uma mulher corrompida. 

Durante esses conflitos, Míchkin conhece Aglaia, a filha mais jovem de um parente distante do príncipe. Só que Aglaia, ao mesmo tempo que se sente atraída por Míchkin, idealiza sua bondade e o enxerga como um cavaleiro templário. Ela espera que Míchkin seja o cristão combativo dos romances de cavalaria, como se fosse uma espécie de Dom Quixote, que saia por aí combatendo o mal e dando orgulho e respeito para ela. Mas essa é a personalidade totalmente oposta de Míchkin. Apesar de personificar o amor cristão, Míchkin não entra em conflitos e não consegue ver o mal no mundo e nas pessoas. A propósito disso, Joseph Frank escreve que:

“O engano de Aglaia reflete seu próprio caráter, com sua combinação de idealismo ardente, arrogância e orgulho pessoal. Ela é irresistivelmente atraída pela pureza de espírito e pelo desprendimento que encontra no príncipe, mas ao mesmo tempo deseja que seu ideal seja imponente e admirado pelo mundo. Essa fusão a aproximara do catolicismo militante, e ela se equivoca ao procurá-lo no príncipe.”

Joseph Frank, Dostoiévski: Um Escritor em Seu Tempo.

Quando Aglaia fica sabendo que Míchkin nutre uma compaixão por Nastássia, ela decide marcar um encontro para conhecê-la. Só que, diante das duas, Míchkin é incapaz de escolher entre o amor particular para com Aglaia, ou o amor redentor por Nastássia. Joseph Frank escreve que:

“O príncipe encontra-se, assim, preso nas malhas da rivalidade de egoísmos em choque e reage, no calor do momento, à necessidade mais imediata e mais aguda. Cada uma das mulheres tem uma reivindicação diferente mas igualmente forte à sua devoção, e sua incapacidade de optar dramatiza o nível mais profundo da ideia temática de Dostoiévski. O príncipe é o arauto de um amor cristão que não é nada se não for universal; mas ele também é um homem, não um ser sobrenatural — um homem que se apaixonou por uma mulher como criatura de carne e osso. A necessária dicotomia desses dois amores divergentes o envolve num inevitável imbróglio trágico do qual não há escapatória, um impasse em que a obrigação universal de ter compaixão passa fatalmente pelo amor humano que é a forma moralmente irrepreensível de ‘egoísmo’ do príncipe.”

Joseph Frank, Dostoiévski: Um Escritor em Seu Tempo.

O drama que Míchkin passa diz respeito às convicções de Dostoiévski sobre o amor divino e o amor humano. O homem é impossibilitado de amar como Cristo amou a humanidade se ele não renunciar ao seu próprio ego. Mas renunciar ao ego implica na aniquilação da própria personalidade, e por consequência, da própria vida individual. Dostoiévski acreditava que o ideal final da humanidade era a fusão total do ego individual com todos os demais em uma comunidade livre das tentações e exigências mundanas, mas para isso, era preciso atravessar as circunstâncias e as exigências da vida, que foi dramatizado no romance. Diante do mundo, o amor divino de Míchkin é visto como loucura e até mesmo como idiotice, e ele chega a realmente ser internado em um manicômio. No final, Míchkin, ao tentar imitar a Cristo, foi crucificado como ele. Joseph Frank escreve que:

“Com uma integridade que nunca será demasiado encarecer, Dostoiévski submete sem medo suas convicções mais sagradas […] Com honestidade exemplar ele mostra que o extremismo moral de seu próprio ideal escatológico, personificado no príncipe, é igualmente incompatível com as exigências normais da vida social comum e constitui um escândalo desagregador muito parecido com o surgimento do próprio Cristo entre os fariseus satisfeitos e respeitáveis.”

Joseph Frank, Dostoiévski: Um Escritor em Seu Tempo.

A pessoa que não quer incomodar ninguém vive, em menor escala, o mesmo dilema. Ela quer manter todos bem. Quer evitar conflitos. Quer preservar todas as relações. Mas, ao fazer isso, ela evita se posicionar. E sem posicionamento, não existe identidade, e por consequência não existe relação verdadeira. O que sobra é uma presença difusa. Alguém que está ali, mas nunca de forma inteira. Míchkin mostrou, de forma trágica, que a tentativa de ser absolutamente bom — no sentido de nunca incomodar, nunca ferir, nunca frustrar — leva à dissolução do próprio ego em vez de harmonia.

No final, a afeição tão desejada pela pessoa com aproximação ansiosa é barrada pelo seu próprio conflito interno. Viver tentando não incomodar, como se sua presença fosse incômoda, com o tempo, se torna um fardo difícil de carregar. Porque tudo aquilo que você não expressa, não desaparece simplesmente. E, no início, isso quase não é percebido.Mas aos poucos, esse acúmulo começa a se manifestar, chegando ao ponto de você se afastar das pessoas sem nenhuma explicação.

E isso provoca relações desequilibradas. Porque, quando você não coloca limites, não faz críticas, o outro não tem como adivinhar onde eles estão. Então, inevitavelmente, algumas pessoas vão avançar mais do que deveriam. Não necessariamente por maldade, mas justamente porque não encontram nenhuma resistência. E isso reforça ainda mais o ciclo de autoanulação. E quer saber: muitas vezes as pessoas querem ser criticadas, querem ser confrontadas, querem que suas ideias sejam contestadas ou simplesmente lhes digam o que elas precisam fazer. A própria natureza, diante de tanta paz, uma hora, cria o seu próprio caos. E assim segue.

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