Aqui está a história da sua vida – Do Nascimento à Morte
Transcrição do vídeo
“A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal…
Agora é tarde demais para ser reprovado…”
O tempo, Mário Quintana.
O crescimento de um indivíduo está associado com as separações. Para conquistar alguma coisa em uma etapa da vida, quase sempre precisamos perder alguma coisa da etapa anterior. Para andar, a criança precisa abandonar parte da segurança de ser carregada. Para entrar na adolescência, precisa deixar para trás o corpo e o mundo infantil. Para amar alguém, precisa aceitar que o outro não existe apenas para satisfazer suas necessidades. Para construir uma vida adulta, precisa renunciar a inúmeras vidas que poderia ter vivido. E, na velhice, talvez encontre a tarefa mais difícil de todas: aprender a se despedir das coisas sem sentir que, junto delas, está perdendo completamente a si mesmo.
Neste vídeo, vamos acompanhar uma vida psicológica inteira. Mas não a vida de uma pessoa específica, mas aquilo que existe na trajetória de todos nós. Da primeira separação que experimentamos ao nascer até aquela separação que encerra todas as outras, a morte, passando pelas principais etapas do desenvolvimento psíquico e destacando os principais complexos a que estamos mais suscetíveis.
Vamos então voltar à etapa onde você não tinha consciência de quase nada, ou seja, quando você era só um bebê, que vivia na dependência absoluta de alguém. Você precisava de outra pessoa para alimentação, proteção, temperatura, deslocamento e regulação de boa parte dos seus estados internos. Você podia não ter consciência de nenhuma dessas coisas, mas elas influenciaram profundamente a sua psique e o modo como você entende o cuidado e os vínculos humanos. O olhar de uma mãe, a amamentação, o toque físico, a fala; tudo isso influencia na formação da nossa personalidade. Quando bebês, vivemos em um estado de onipotência quase divina. Somos uma majestade. Não é à toa que Freud, um dos grandes nomes da psicologia e que se debruçou veementemente na constituição psíquica infantil, é bem cômico quando explica isso. Ele escreve o seguinte:
“Os pais são levados a atribuir à criança todas as perfeições — que um observador neutro nelas não encontraria — e a ocultar e esquecer todos os defeitos […] Doença, morte, renúncia à fruição, restrição da própria vontade não devem vigorar para a criança, tanto as leis da natureza como as da sociedade serão revogadas para ela, que novamente será centro e âmago da Criação. His Majesty the Baby [Sua majestade, o bebê], como um dia pensamos de nós mesmos.”
Sigmund Freud, Introdução ao Narcisismo.
Esse estado de onipotência é vivido de maneira fusional com a mãe. Quando bebês, somos um só com a nossa mãe. Esse estado fusional produz uma ligação muito forte e primitiva com as nossa mãe, ou quem cuidou de nós logo nos primeiros meses de vida. Pode-se dizer que, quando bebês, não temos um ego, uma separação entre eu e o mundo. O mundo, para o bebê, é ele mesmo e mãe. O psicoterapeuta junguiano Erich Neumann descreveu esse estágio do desenvolvimento humano através do símbolo da ouroboros, a serpente que forma um círculo ao morder a própria cauda. O círculo é uma imagem importante porque não possui um começo ou um fim claramente distinguíveis. Dentro dele, tudo parece estar contido em uma única totalidade. Tudo está contido ali e se basta ali, assim como nós quando bebês com nossa mãe.
E é justamente aqui que aparece a imagem da Grande Mãe. Muito antes de compreendermos intelectualmente o significado de uma mãe, nós dependemos dela para nos alimentar, aquecer, acolher e proteger. Não surpreende, portanto, que tantas culturas tenham imaginado a própria existência através de figuras maternas: a terra que produz alimento, o ventre que gera a vida, a natureza que sustenta seus filhos. Gaia aparece como personificação da Terra entre os gregos. Deméter está ligada à fertilidade e às colheitas. Ísis aparece no Egito antigo como uma importante imagem materna. Em diferentes culturas, encontramos novamente a associação entre o feminino, a geração e aquilo que sustenta a vida. Mas existe uma ambiguidade importante nisso.
A mesma natureza que alimenta também destrói. O mesmo ventre que protege precisa, em determinado momento, ser abandonado. E aquilo que nos oferece segurança pode se tornar uma prisão quando permanecemos dependentes dele além do necessário. É essa ambivalência que torna a imagem da Grande Mãe psicologicamente tão poderosa. No início da vida, depender é uma necessidade para a sobrevivência. O problema aparece quando confundimos o desenvolvimento individual com a tentativa de nunca mais experimentar desamparo. Porque uma das primeiras descobertas dolorosas da existência é que nossas necessidades não serão satisfeitas imediatamente para sempre.
A criança começa sua longa descoberta de que o mundo existe independentemente dos seus desejos. E essas experiências psicológicas vão se repetir ao longo de toda a nossa vida. Quando um relacionamento termina, quando somos rejeitados, quando perdemos um emprego, quando alguém que amamos morre, existe novamente um confronto entre aquilo que desejávamos que a realidade fosse e aquilo que ela efetivamente é. Essa é a queda do paraíso que estamos submetidos até hoje. Adão e Eva caíram do Jardim do Éden com o despertar da consciência. E assim vamos repetir o seus padrões. Quando adquirimos uma consciência e nos separamos do campo maternos, começamos o árduo trabalho da individuação.
O colo é necessário para o bebê. Mas seria uma tragédia se um homem de quarenta anos ainda precisasse psicologicamente do mesmo colo para tomar todas as suas decisões. É por isso que os mitos de criação frequentemente começam com uma separação. Luz e escuridão. Céu e terra. Ordem e caos. O que estava misturado precisa ser distinguido para que um mundo possa existir. Algo semelhante acontece conosco. A consciência se desenvolve distinguindo. Eu e o outro. Desejo e realidade. Presença e ausência. Aquilo que posso controlar e aquilo que simplesmente acontece comigo.
E quando deixamos de ser bebês, já nos primeiros anos da infância, a criança começa a perceber com cada vez mais clareza que existe um mundo fora dela. Existem outras pessoas com vontades próprias. Existem regras que não desaparecem porque ela está chorando. Existem coisas que pertencem aos outros. Existem portas que não podem ser abertas, objetos que não podem ser tocados e desejos que precisam esperar.
Talvez poucas experiências sejam tão importantes para a formação psicológica quanto descobrir que desejar alguma coisa não significa necessariamente poder tê-la.
A criança quer continuar brincando, mas precisa dormir. Quer determinado objeto, mas escuta que não pode pegá-lo. Quer atenção imediatamente, mas percebe que os adultos também possuem outras preocupações. Pouco a pouco, ela é apresentada a uma realidade que não está organizada exclusivamente ao redor das suas necessidades. A queda do paraíso é inevitável. Mas frustrar uma criança não significa tratá-la com frieza ou ignorar suas necessidades. Significa permitir que, dentro daquilo que ela consegue suportar em cada etapa, descubra gradualmente que uma emoção desagradável pode ser atravessada sem que o mundo precise se reorganizar imediatamente para eliminá-la. Proteger uma criança também significa, progressivamente, permitir que ela experimente pequenas quantidades de realidade sem ser resgatada de todas elas.
É assim que começa a surgir algo que será necessário pelo resto da vida: a capacidade de permanecer diante de uma tensão sem fugir imediatamente dela. A tensão dos opostos, de que tanto fala Carl Jung.
E nesse meio tempo, outra transformação acontece durante a infância. A criança, além de se sentir frustrada, também está construindo uma imagem de si mesma a partir do mundo; ela já está recolhendo respostas nos olhos das outras pessoas. A criança percebe quando sua presença provoca alegria. Percebe quando é constantemente comparada. Descobre quais comportamentos recebem aprovação e quais provocam desapontamento. Escuta que é inteligente, bagunceira, bonita, preguiçosa, difícil, obediente, sensível, forte, fraca, talentosa.
E algumas dessas palavras se transformam em definições de identidade. Existe uma enorme diferença entre uma criança ouvir “você fez algo errado” e ouvir, repetidamente, que há algo de errado com ela. Porque a segunda mensagem pode continuar sendo escutada internamente décadas depois de ninguém mais estar pronunciando aquelas palavras. Às vezes, basta uma palavra de nossa mãe ou quem quer que for, ouvida durante a infância, que ela vai ecoar ao longo da nossa vida e modificar o nosso comportamento a menos que ela seja elaborada.
Me lembro de um paciente que me procurou por terapia e, durante as sessões, me disse que, ao ouvir ser chamado de bobo pela sua mãe, depois que ele estava fazendo algumas brincadeiras na frente dela para se mostrar e chamar atenção, o que é extremamente normal para uma criança, ela mudou de imediato o seu comportamento e passou a inibir ou se inculcar todas as vezes que pensasse que estava sendo bobo.
Uma pessoa pode ter trinta anos e reagir a uma crítica com uma intensidade que pertence a uma história muito mais antiga. Pode sentir um desespero extraordinário quando alguém demora para responder uma mensagem. Pode interpretar qualquer erro como evidência de que não possui valor. Pode precisar desesperadamente de aprovação, ou fazer exatamente o contrário e construir uma personalidade inteira em torno da ideia de que não precisa de ninguém.
Mas Isso também não significa que todos os nossos problemas sejam culpa dos nossos pais ou que seja possível explicar qualquer comportamento adulto procurando algum acontecimento traumático escondido na infância. Essa interpretação seria confortável justamente porque simplificaria demais a vida psicológica. Os pais também são seres humanos limitados.
Eles possuem medos, frustrações, histórias familiares, dificuldades financeiras, conflitos conjugais, expectativas e feridas que não começaram conosco. E uma das transformações necessárias do amadurecimento será justamente conseguir enxergá-los como indivíduos que existiam antes do nosso nascimento.
Só que a criança ainda não consegue fazer isso completamente. Para ela, os pais possuem proporções enormes. Eles podem parecer verdadeiros deuses para as crianças. Sabem aquilo que não sabemos. Alcançam aquilo que não alcançamos. Possuem dinheiro, dirigem carros, tomam decisões, determinam horários e conhecem lugares aos quais não conseguimos chegar sozinhos.
Só que, em alguém momento, a criança descobre, por exemplo, que o pai tem medo. Descobre que a mãe pode estar errada. Percebe uma contradição. Presencia uma discussão. Descobre que os adultos mentem. Nota que eles não possuem respostas para determinadas perguntas. Em casos mais dolorosos, percebe que justamente as pessoas das quais dependia também podem feri-la. E essa desidealização é dolorosa, mas necessária.
Porque enquanto nossos pais permanecerem psicologicamente como deuses, continuaremos diante deles como crianças. Essa é uma das razões pelas quais os contos de fadas estão tão repletos de crianças que precisam abandonar a casa. E um conto que explica essa separação é o de João e Maria.
João e Maria são filhos de um lenhador muito pobre. E diante da fome e da falta de alimentos, a madrasta convence o pai a abandonar as crianças na floresta, argumentando que, caso continuem todos juntos, a família inteira morrerá de fome.
João escuta a conversa dos adultos e prepara uma estratégia. Durante a primeira tentativa de abandono, leva consigo pequenas pedras brancas e vai deixando-as pelo caminho. Quando anoitece e as crianças percebem que estão sozinhas, João espera a lua iluminar as pedras e consegue encontrar o caminho de volta para casa.
Mas a situação se repete. Dessa vez, João não consegue recolher pedras e utiliza pedaços de pão para marcar o caminho. Quando as crianças tentam retornar, descobrem que os pássaros comeram as migalhas.
Agora estão verdadeiramente perdidas. E depois de vagarem pela floresta, famintas, encontram uma casa feita de pão, bolo e açúcar. As crianças começam a comer partes da casa até serem recebidas por uma velha aparentemente bondosa, que lhes oferece comida, camas e proteção.Só que a velha é uma bruxa. Ela construiu a casa justamente para atrair crianças. João é aprisionado numa pequena jaula para ser engordado, enquanto Maria é obrigada a trabalhar. A bruxa pretende matar João e comê-lo.
João consegue ganhar algum tempo enganando a bruxa, que enxerga mal. Sempre que ela pede que ele coloque o dedo para fora da jaula para verificar se engordou, João oferece um pequeno osso. A bruxa toca o osso e acredita que o menino continua extremamente magro. Até que perde a paciência.
Ela decide comê-lo de qualquer maneira e manda Maria verificar o forno. Maria percebe que a bruxa pretende empurrá-la para dentro dele e finge não compreender como verificar a temperatura. Irritada, a própria bruxa se aproxima para demonstrar. Nesse momento, acontece a inversão decisiva da história. Maria empurra a bruxa para dentro do forno e fecha a porta. A menina que começou a história como uma criança abandonada e aparentemente indefesa torna-se aquela que derrota a ameaça e salva o irmão. Depois disso, João é libertado. Os dois encontram joias e pedras preciosas na casa da bruxa, atravessam novamente a floresta e conseguem retornar para casa. A madrasta havia morrido e o pai os recebe de volta. Com o tesouro que trouxeram, a família deixa de viver na miséria.
A floresta nos contos de fadas é uma imagem particularmente poderosa. Dentro de casa existem nomes, regras e caminhos conhecidos. Na floresta, os caminhos se confundem. Existem animais, sombras e perigos. Aquilo que era familiar se torna perigoso e desconhecido A floresta é o símbolo do desenvolvimento nos contos de fadas. A individuação das personagens começa sempre numa floresta. A bruxa também é outro símbolo famoso. inicialmente ela acolhe e oferece abrigo. Depois aprisiona e devora quem conseguir. A bruxa é uma das manifestações arquetípicas do aspecto negativo da Grande Mãe: aquilo que alimenta e protege, mas que também pode engolir, aprisionar e impedir a diferenciação. O crescimento exige abandonar progressivamente a fantasia de que sempre existirá alguém capaz de nos alimentar e resolver nossa existência.
A primeira floresta da criança é a escola. E é uma verdadeira revolução psicológica. Durante algumas horas, ela entra num mundo onde a mãe e o pai não são as autoridades centrais. Existem professores, outras crianças, amizades, disputas, comparações e regras coletivas. E existe também Não ser escolhido. Ser ridicularizado. Descobrir que outra criança é mais rápida, mais bonita, mais popular ou aprende com mais facilidade. Pela primeira vez, o amor familiar deixa de ser a única medida do nosso valor. Agora existe um pequeno mundo social devolvendo imagens de quem aparentemente somos.
É também nessa época que a criança descobre sentimentos que os adultos prefeririam acreditar que crianças não possuem. Inveja. Ciúme. Raiva. Desejo de vencer. Prazer ao perceber que um rival fracassou. Vontade de mentir para escapar de uma consequência. A capacidade de ser cruel.
Isso não transforma a criança em alguém moralmente corrompido. Significa apenas que o ser humano não nasce composto somente daquilo que uma sociedade considera agradável. Na linguagem de Jung, podemos começar a aproximar essa questão do problema da Sombra. A Sombra contém aspectos da personalidade que o ego não reconhece facilmente como seus ou que entram em conflito com a imagem que desejamos possuir de nós mesmos. E sua formação está intimamente ligada ao processo de adaptação.
Imagine uma criança que percebe que sua raiva é sempre condenada, enquanto sua docilidade recebe amor e aprovação. Ela pode aprender não apenas a controlar a agressividade — o que é necessário —, mas a acreditar que não sente raiva. Outra percebe que chorar provoca humilhação e aprende que vulnerabilidade é fraqueza. Outra descobre que só recebe atenção quando obtém resultados excepcionais e começa a construir sua identidade ao redor do desempenho.
O problema surge quando essa adaptação significa amputar psicologicamente tudo aquilo que ameaça nossa aceitação. Porque aquilo que é rejeitado pela consciência não necessariamente deixa de existir. Às vezes retorna através de explosões emocionais que parecem incompreensíveis. Às vezes aparece naquilo que odiamos obsessivamente nos outros. Às vezes se manifesta como uma sensação persistente de estar interpretando um personagem. É aqui que começa a formação daquilo que Jung chamou de persona: a face psicológica através da qual nos apresentamos ao mundo.
Em sua origem, isso também é necessário. A criança aprende que não pode se comportar da mesma maneira em todos os ambientes. Existe uma forma de falar com amigos, outra diante de professores, outra em casa. Ela aprende papéis, convenções e expectativas. E essas identidades podem funcionar tão bem que começamos a acreditar completamente nelas. A criança “madura demais”, por exemplo, pode receber inúmeros elogios justamente porque aprendeu precocemente a controlar necessidades que deveriam ter encontrado espaço para existir. A criança que “nunca dá trabalho” talvez realmente possua um temperamento tranquilo. Mas também pode ter aprendido que existir emocionalmente custa caro demais.
Por isso, quando olhamos retrospectivamente para a infância, precisamos perguntar: Quem nós precisávamos aprender a ser para conseguir pertencer ao mundo em que crescemos. Porque algumas das características das quais mais nos orgulhamos podem ter surgido parcialmente como adaptações.
A independência pode esconder medo de depender. A perfeição pode esconder o medo de errar. A simpatia permanente pode esconder medo de conflito. A produtividade pode esconder a sensação de que repousar nos torna indignos.
Bom, mas a infância não é feita apenas de feridas. Existe nela uma força que a vida adulta frequentemente tenta recuperar. Jung via na imagem arquetípica da criança uma possibilidade de um futuro. Em seus escritos sobre o motivo da criança, ele afirma o seguinte:
“Um aspecto fundamental do motivo da criança é o seu caráter de futuro. A criança é o futuro em potencial. Por isto, a ocorrência do motivo da criança na psicologia do indivíduo significa em regra geral uma antecipação de desenvolvimentos futuros, mesmo que pareça tratar-se à primeira vista de uma configuração retrospectiva. A vida é um fluxo, um fluir para o futuro e não um dique que estanca e faz refluir. Não admira, portanto, que tantas vezes os salvadores míticos são crianças divinas. Isto corresponde exatamente às experiências da psicologia do indivíduo, as quais mostram que a ‘criança’ prepara uma futura transformação da personalidade.”
Carl Jung, Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo.
Existe uma diferença enorme entre preservar a curiosidade e permanecer irresponsável; entre conservar a imaginação e fugir permanentemente para as fantasias; entre continuar capaz de brincar e esperar que a vida adulta seja uma vida sem consequências.
Manter a criança viva dentro de nós é integrar o aspecto de maravilhamento que ela traz. De descoberta e de exploração. A criança é o símbolo de esperança, de um potencial, algo que pode se tornar. Imagine alguém que passou vinte anos vivendo exclusivamente para a carreira e começa, aos quarenta, a sentir uma necessidade inexplicável de escrever, pintar ou estudar alguma coisa completamente diferente. Esse interesse inicialmente pode parecer pequeno, inconveniente e até infantil diante da identidade profissional já estabelecida. Simbolicamente, porém, ele pode funcionar como uma criança: alguma coisa nova está tentando nascer, mas ainda não possui força suficiente para enfrentar a personalidade dominante.
Por isso a criança é simultaneamente frágil e poderosa. Frágil porque aquilo que está começando pode ser facilmente destruído. Poderosa porque contém, justamente, a possibilidade de um futuro.
Existe uma fase da vida em que você já não consegue voltar a ser quem era, mas ainda não sabe exatamente quem será. A infância começa a parecer pequena demais, enquanto a vida adulta ainda está distante demais para ser compreendida. O corpo muda antes que a mente consiga compreender completamente o significado dessas mudanças, os pais começam a perder parte da autoridade quase divina que possuíam e o olhar das outras pessoas adquire uma importância extraordinária. É nesse território intermediário que começa a adolescência. O adolescente está deixando um mundo sem ainda possuir um lugar seguro no próximo. Por isso existe tanta instabilidade nessa época. Estamos diante de alterações hormonais ou conflitos familiares, e de uma personalidade tentando reorganizar a maneira como se relaciona consigo mesma, com o próprio corpo, com os pais e com o mundo. Como escreveu Jung:
“O nascimento psíquico e, com ele, a diferenciação consciente em relação aos pais só ocorrem na puberdade, com a irrupção da sexualidade. A mudança fisiológica é acompanhada também de uma revolução espiritual. Isto é, as várias manifestações corporais acentuam de tal maneira o eu, que este freqüentemente se impõe desmedidamente. Daí o nome que se dá a esta fase: ‘os anos difíceis’ da adolescência.”
Carl Jung, A Natureza da Psique.
A adolescência possui um caráter muito contraditório: o adolescente precisa dos pais e, simultaneamente, precisa sentir que não precisa deles. Quer liberdade, mas ainda não possui recursos para sustentar completamente as consequências dessa liberdade. Deseja ser tratado como adulto quando quer decidir, mas pode desejar ser tratado como criança quando precisa ser protegido das consequências da própria decisão. É fácil interpretar esse comportamento apenas como rebeldia. Mas, para descobrir quem é, o adolescente precisa experimentar aquilo que não é. E frequentemente começa fazendo oposição. Se meus pais pensam dessa maneira, talvez eu pense de outra. Se minha família valoriza isso, talvez eu rejeite aquilo.
Várias culturas compreenderam intuitivamente que a passagem da infância para a vida adulta precisava ser marcada por alguma espécie de ruptura. Existiam ritos, cerimônias, períodos de separação, ensinamentos, provas físicas, mudanças de nome, iniciações religiosas e acontecimentos públicos que comunicavam tanto ao jovem quanto à comunidade que uma etapa havia terminado. A questão é que a adolescência, enquanto fase social e psicológica, é uma etapa recente na história da humanidade. Os ritos de passagem antigos retiravam o jovem do estado infantil e o colocavam já na vida adulto. Os xavante, por exemplo, que é um grupo indígena do mato grosso, retiram os jovens da convivência materna e o colocam com os anciões da tribo para lhe ensinarem as tradições do grupo. Com a perda dos ritos de passagem e com a desestruturação social ocasionada por inúmeros fatores, perdeu-se o que separava a infância da vida adulta, tornando essa fronteira mais ambígua.
Essa estrutura dos ritos de passagem é encontrada repetidamente na mitologia. O herói precisa partir da sua casa para amadurecer. Entra numa floresta, atravessa um oceano, desce ao mundo dos mortos, enfrenta um monstro ou recebe uma tarefa que parece inicialmente superior às suas capacidades. Perseu precisa enfrentar Medusa. Teseu entra no labirinto para encontrar o Minotauro. Héracles atravessa uma sequência de trabalhos. Ulisses passa anos tentando retornar para casa depois da Guerra de Troia.
Mas isso não significa que o sofrimento seja automaticamente bom. Uma experiência traumática pode desorganizar uma pessoa em vez de fortalecê-la. Existe uma diferença fundamental entre uma dificuldade que mobiliza capacidades e uma experiência que ultrapassa brutalmente aquilo que alguém consegue elaborar.
E é na adolescência que, geralmente, temos nossa primeira experiência amorosa. Alguém que, poucas semanas antes, não significava nada passa a ocupar uma parte enorme da nossa vida interior. Acordamos pensando naquela pessoa, interpretamos mensagens, relembramos conversas e imaginamos situações que ainda nem aconteceram. Aqui nos damos conta da projeção. Quando nos apaixonamos, não enxergamos apenas a pessoa concreta. Colocamos sobre ela expectativas, fantasias, necessidades e qualidades que pertencem também à nossa própria vida interior. Isso ajuda a explicar por que alguém pode adquirir uma importância extraordinária em tão pouco tempo. Objetivamente, ainda sabemos pouco sobre aquela pessoa; psicologicamente, porém, ela despertou um mundo inteiro.
O apaixonamento também pode despertar a fantasia da completude. Em O Banquete, de Platão, Aristófanes conta o mito segundo o qual os seres humanos teriam sido divididos e passariam a procurar sua metade perdida. A imagem sobreviveu porque expressa uma sensação de que podemos encontrar em alguém aquilo que faltava em nós. Mas o problema é que nenhuma pessoa consegue compreender todas as nossas necessidades, curar todas as nossas feridas, oferecer segurança absoluta e permanecer fascinante para sempre.
Outra circunstância que acompanha a adolescência, mas já para o final dela, em muitos casos, é o primeiro emprego. O primeiro emprego é importante justamente porque costuma representar um dos primeiros confrontos sistemáticos entre potencial e realidade. Até então, uma pessoa pode dizer que seria uma excelente escritora se realmente começasse a escrever, que poderia abrir uma empresa, aprender três idiomas, estudar filosofia, produzir música, tornar-se pesquisadora ou mudar de país. Enquanto essas possibilidades permanecem na imaginação, elas conservam uma perfeição extraordinária, porque nada foi suficientemente realizado para poder fracassar. O possível não possui erros. O possível não recebe críticas. Então, é somente quando transformamos uma possibilidade em alguma coisa concreta que ela pode ser julgada pela realidade.
E é aqui que muitos jovens experimentam uma espécie de humilhação psicológica necessária. Você pode ter sido um dos melhores alunos da sua escola e descobrir, no primeiro emprego, que ninguém está particularmente impressionado. Pode ter passado anos sendo considerado inteligente e encontrar pessoas mais experientes que sabem fazer em vinte minutos aquilo que exige sua tarde inteira. Pode ter ideias que ninguém utiliza. Pode receber ordens de alguém que você considera menos inteligente. Pode cometer um erro banal e precisar ouvir uma crítica sem conseguir explicar durante meia hora todas as circunstâncias que contribuíram para aquilo. A vida profissional te introduz o fato de que o mundo não remunera aquilo que poderíamos fazer; ele responde, em grande parte, àquilo que conseguimos efetivamente entregar.
Existe uma perda importante nessa passagem. Durante a juventude, podemos preservar uma imagem grandiosa de nós mesmos justamente porque ela ainda não foi suficientemente testada. Ela pode funcionar como uma proteção extraordinariamente eficiente contra uma descoberta dolorosa: porque talvez, quando eu realmente tentar, descubra que não sou tão excepcional quanto imaginava. É muito mais confortável possuir um talento secreto do que colocá-lo em contato com a realidade e correr o risco de descobrir seus limites.
Parte da resposta está no fato de que terminar alguma coisa exige matar outras possibilidades. Essa é uma das dimensões mais difíceis da escolha adulta. E, quando você menos percebe, já está nela, na fase adulta. Nós podemos, de maneira bem grosseira, dizer que um adulto é aquele que assume responsabilidades. Não que ele seja independente, porque ninguém, de fato, é independente ao pé da letra. Mas um adulto tem algo ou alguém pelo que é responsável e assume a consequência da sua escolha, o que, inevitavelmente, lhe coloca diante da questão de suportar perdas e mais perdas.
Toda escolha possui um custo. Escolher uma carreira significa abandonar outras. Construir uma família transforma nosso conceito de liberdade. Não ter filhos também produz uma trajetória específica. Permanecer numa cidade significa não viver em outra. Amar uma pessoa significa renunciar a inúmeras possibilidades. Não existe uma escolha capaz de preservar todos os futuros possíveis. O sofrimento que o adulto precisa suportar é o luto pelas vidas não vividas.
Esse é um ponto que merece atenção porque uma das grandes tentações da vida adulta é interpretar qualquer insatisfação como prova de que estamos na vida errada. Algumas vezes essas conclusões estão corretas. Mas existe outra possibilidade que raramente queremos considerar, que é a de que talvez nenhuma vida concreta consiga eliminar completamente a sensação de perda pelas outras vidas que deixamos para trás. E eis que, na vida adulta, podemos então incorrer no problema do puer aeternus. Puer aeternus é uma expressão latina que significa “jovem eterno”. Na psicologia analítica, ela descreve uma figura arquetípica associada à juventude, às possibilidades, à imaginação, à liberdade e ao desejo de permanecer aberto a tudo aquilo que a vida ainda poderia ser.
Em seu aspecto positivo, o puer representa características valiosas de criatividade, entusiasmo, curiosidade, espontaneidade, abertura para o novo e capacidade de imaginar possibilidades. Mas a sombra do puer é justamente acreditar que sua verdadeira vida ainda não começou. A pessoa possui uma carreira, mas imagina que sua verdadeira vocação começará depois. Ela possui um relacionamento, mas acredita que a pessoa destinada a ele ainda aparecerá. Cada realidade é experimentada apenas como uma preparação. É a chamada vida provisória, onde a pessoa sempre espera algo acontecer, trocando suas ações por potencialidades, apenas. A terapeuta junguiana Marie-Louise von Fraz escreve que:
“Geralmente, grandes dificuldades de adaptação a situações sociais são encontradas [no puer]. Em alguns casos, há um tipo de individualismo associai: sendo alguém especial, ele não tem necessidade de adaptar-se, pois as pessoas é que têm que adaptar-se a um gênio como ele, e assim por diante. Além disso, assume uma atitude arrogante em relação aos outros, devido tanto ao complexo de inferioridade como a falsos sentimentos de superioridade. Tais pessoas geralmente têm grande dificuldade em encontrar o tipo certo de trabalho, pois tudo que aparece nunca é exatamente o que queriam ou procuravam. Há sempre um ‘cabelo na sopa’.”
Marie-Louise von Franz, O Puer Aeternus.
E bom, a vida adulta vai acontecendo, e quando você menos espera já está na meia-idade, a próxima fase do desenvolvimento psicológico de um indivíduo. O trabalho já não produz a mesma satisfação, antigas ambições perdem força e o tempo parece adquirir outro peso. As tarefas psicológicas da primeira metade da vida podem ser diferentes das tarefas da segunda. Na primeira metade da vida, precisamos nos adaptar ao mundo, ou seja, construir uma persona: estudar, trabalhar, estabelecer vínculos e construir uma identidade. Mas, na segunda metade da vida, precisamos nos desidentificar disso tudo e nos perguntarmos para onde estamos indo.
Essa mudança pode ser dolorosa porque justamente a personalidade que nos trouxe até aqui começa a revelar seus limites. É nesse sentido que Jung fala de individuação. Para ocupar um lugar no mundo, desenvolvemos determinadas características e deixamos outras em segundo plano. Construímos a persona: uma identidade capaz de funcionar socialmente. Mas se confundimos essa identidade com tudo aquilo que somos, o que acontece quando essas estruturas deixam de ser suficientes? Porque, sim, uma hora elas vão ser. Jung escreve que a meia-idade é o momento de transformações e convicções cada vez mais rígidas:
“As estatísticas nos mostram que as depressões mentais nos homens são mais frequentes por volta dos quarenta anos. Nas mulheres, as dificuldades neuróticas começam geralmente um pouco mais cedo. Observamos que nesta fase — precisamente entre os trinta e cinco e os quarenta anos — prepara-se uma mudança muito importante, inicialmente modesta e despercebida […] outras vezes são traços desaparecidos desde a infância que voltam à tona; às vezes também antigas inclinações e interesses habituais começam a diminuir e são substituídos por novos. Inversamente, as convicções e os princípios que os nortearam até então, principalmente os de ordem moral, começam a endurecer-se e enrijecer-se, o que pode levá-los, crescentemente, a uma posição de fanatismo e intolerância, que culmina por volta dos cinqüenta anos.”
Carl Jung, A Natureza da Psique.
Diante disso, algumas pessoas tentam resolver uma crise interior modificando apenas o exterior. Trocam de relacionamento, carreira, cidade ou estilo de vida esperando recuperar a intensidade da juventude. Algumas dessas mudanças podem ser necessárias. O problema está em imaginar que mudar o cenário resolverá automaticamente um conflito consigo mesmo. Você pode mudar de cidade e levar a mesma personalidade. Pode mudar de parceiro e repetir a mesma dinâmica. Os aspectos negligenciados da personalidade na primeira metade da vida podem exigir maior atenção conforme envelhecemos. Quem viveu exclusivamente pela razão pode precisar recuperar a emoção e a imaginação. Quem sempre tentou agradar pode precisar aprender a decepcionar de vez em quando.
Os mitos colocam uma espécie de descida ao submundo no centro dessa transformação. Em algum momento, o herói dos mitos precisa atravessar um mar à noite com tempestades, entrar numa floresta ou descer ao mundo dos mortos. Na Odisseia, Ulisses precisa descer ao Hades para conversar com o profeta Tirésias e conseguir chegar em Ítaca. Simbolicamente, existem momentos em que avançar significa confrontar aquilo que estava há muito tempo guardado e reprimido. E a metade da vida pode ser justamente essa descida.
Durante anos perguntamos como ser bem-sucedidos, produtivos ou reconhecidos. Agora começamos a perguntar quais dessas conquistas realmente pertencem aos nossos valores e quais serviam apenas à necessidade de provar alguma coisa. Nesse sentido, a crise pode se transformar numa oportunidade. A primeira metade da vida foi necessária para construir um lugar no mundo. A segunda pode exigir descobrir quem somos além desse lugar.
O corpo continuará mudando. Pessoas continuarão partindo. Funções que durante décadas organizaram nossa identidade começarão a desaparecer. E aquilo que na metade da vida era apenas uma percepção distante se tornará cada vez mais concreto na velhice, a próxima etapa do desenvolvimento humano.
Jung atribuía uma importância particular à segunda metade da vida justamente porque não acreditava que o desenvolvimento psicológico terminasse quando conquistamos uma posição social. Em sua perspectiva, aquilo que funciona para a manhã da vida não necessariamente funciona para sua tarde. A juventude precisa se lançar para fora, conquistar, estabelecer-se, formar uma identidade e enfrentar o mundo. Com o envelhecimento, entretanto, torna-se cada vez mais difícil sustentar a fantasia de que a existência é uma expansão infinita. O tempo passa a exigir outro tipo de relação com a vida. Jung escreve que:
“O homem que envelhece deveria saber que sua vida não está em ascensão nem em expansão, mas um processo interior inexorável produz uma contração da vida. Para o jovem constitui quase um pecado ou, pelo menos, um perigo ocupar-se demasiado consigo próprio, mas para o homem que envelhece é um dever e uma necessidade dedicar atenção séria ao seu próprio Si-mesmo. Depois de haver esbanjado luz e calor sobre o mundo, o Sol recolhe os seus raios para iluminar-se a si mesmo. Em vez de fazer o mesmo, muitos indivíduos idosos preferem ser hipocondríacos, avarentos, dogmatistas e louvadores do passado; e até mesmo eternos adolescentes, lastimosos sucedâneos da iluminação do Si-mesmo, conseqüência inevitável da ilusão de que a segunda metade da vida deve ser regida pelos princípios da primeira.”
Carl Jung, A Natureza da Psique.
Talvez uma das tarefas mais difíceis do envelhecimento seja aprender a receber ajuda depois de uma vida inteira oferecendo-a. A pessoa que sempre dirigiu pode precisar ser levada. Quem sustentou a família pode depender financeiramente de outros. E para alguém cuja dignidade esteve associada à independência, essa inversão pode ser extremamente dolorosa. Nós começamos a vida dependentes de alguém. Passamos décadas conquistando autonomia. E, se vivermos tempo suficiente, talvez precisemos aceitar novamente algum grau de dependência. O bebê precisa ser carregado porque ainda não consegue caminhar. O idoso pode precisar de apoio porque já não consegue caminhar com a mesma segurança. Só que entre esses dois momentos aconteceu uma vida inteira. Uma das piores coisas para um idoso é ser tratado como criança. Tratá-lo dessa maneira significa retirar dele justamente aquilo que o tempo lhe ofereceu: experiência, história, subjetividade e uma identidade construída ao longo de décadas. A velhice talvez seja o momento onde quase tudo que está fora desaparece: amigos morrem. Irmãos morrem. Talvez um companheiro com quem se dividiu quarenta ou cinquenta anos de vida morra.
O idoso frequentemente retorna às histórias antigas. E contar histórias também é uma maneira de organizar a própria vida. Ao narrar aquilo que aconteceu, a pessoa seleciona acontecimentos e tenta compreender como aquela criança distante, aquele jovem apaixonado, aquele adulto cheio de responsabilidades e a pessoa que existe agora pertencem à mesma história. E é muito comum olhar para trás apenas através do arrependimento. A vida inteira é reinterpretada a partir daquilo que deu errado. Existe uma dificuldade em aceitar a totalidade da própria história.
Uma vida longa contém contradições, isso é inevitável. Existiram decisões boas tomadas pelas razões erradas e decisões ruins tomadas com as melhores intenções. Olhar para essa história sem precisar absolvê-la completamente nem condená-la por inteiro é uma tarefa que espelha uma das características presentes no arquétipo do velho sábio. O Velho Sábio é uma figura arquetípica associada à sabedoria, orientação, discernimento e conhecimento adquirido pela experiência. Pense em figuras como Merlin, na tradição arturiana, ou Tirésias, na mitologia grega. O herói geralmente possui força, desejo e coragem, mas chega a um ponto da jornada em que ele precisa compreender alguma coisa através de alguém com mais experiência e sabedoria. Só que envelhecer não torna alguém automaticamente sábia. Nem todo velho é sábio, mas todo sábio, necessariamente, é velho.
A figura de velho que é sábio, em geral, está relacionada também à aceitação da finitude. Ele sabe algo que o jovem consegue compreender intelectualmente, mas ainda não experimentou a passagem do tempo. Algumas oportunidades não voltarão. Algumas pessoas morrerão. Nem todos os sonhos serão realizados. Não podemos ser todas as pessoas que poderíamos ter sido. Essa consciência pode produzir discernimento.
Quando o tempo parece infinito, quase tudo pode ser adiado. Quando percebemos que ele termina, começamos a perguntar quais relações merecem ser preservadas, quais conflitos são inúteis, quais ambições ainda fazem sentido e quais podem finalmente ser abandonadas. O Velho Sábio já não precisa viver todas as possibilidades ou provar constantemente seu valor. Sua tarefa é discernir o que realmente importa e aceitar que algumas coisas precisam ser deixadas para aqueles que vêm depois.
E então, depois de toda uma vida, chega, inevitavelmente, a morte. Para alguns, é o fim de tudo, para outros apenas um ciclo, e para outros é o verdadeiro começo. Talvez seja estranho falar da morte como uma etapa do desenvolvimento. Afinal, normalmente pensamos que o desenvolvimento termina quando a vida termina. Mas psicologicamente a morte começa a participar da existência muito antes do último instante. Ela aparece quando perdemos alguém pela primeira vez, quando percebemos nossos pais envelhecendo, quando o corpo deixa de responder como antes ou quando compreendemos que determinados acontecimentos jamais se repetirão. Aos poucos, descobrimos que viver significa também aprender a nos despedir delas.
Durante grande parte da juventude, sabemos que vamos morrer, mas esse conhecimento permanece abstrato. A morte existe como uma informação. Sabemos que seres humanos morrem da mesma maneira que sabemos que existem países que nunca visitamos.
Poucos textos filosóficos falam sobre a morte com tanta plenitude quanto o Fédon, de Platão. Sócrates, que é o locutor do diálogo, está preso, foi condenado à morte e sabe que, ao final daquele dia, beberá a cicuta. Seus amigos estão ao seu redor e querem compreender como alguém pode permanecer tão sereno diante daquilo que normalmente desperta nosso medo mais profundo.
Ele transforma a própria morte em um último problema filosófico. Em determinado momento, diz que:
“O indivíduo que se dedicou a vida inteira à Filosofia, terá de mostrar-se confiante na hora da morte, pela esperança de vir a participar, depois de morto, dos mais valiosos bens.”
Platão, Fédon.
Para Sócrates, a filosofia é aprender, durante a vida, a não depender completamente daquilo que inevitavelmente perderemos. Dentro da filosofia platônica, portanto, a morte representa a separação entre corpo e alma. Mas existe uma dimensão psicológica nessa reflexão que continua interessante mesmo para quem não compartilha da metafísica de Platão. Porque a morte nos obriga a perceber que quase tudo aquilo que utilizamos para dizer quem somos pode ser perdido. Nosso corpo envelhece. Nossa profissão termina. Nossas posses ficam. Nossos papéis sociais desaparecem. As pessoas que amamos podem partir antes de nós. E finalmente nós também partiremos.
Se construímos toda nossa identidade exclusivamente sobre essas coisas, então cada perda se transforma não apenas na perda de alguma coisa que possuíamos, mas na perda de uma parte daquilo que acreditávamos ser.
É nesse sentido que podemos compreender a provocação socrática de que o filósofo passa a vida preparando-se para morrer. Não porque deseje morrer, mas porque tenta desenvolver uma vida interior que não seja completamente escravizada pelos prazeres, posses, medos e necessidades imediatas.
Sócrates leva essa ideia ainda mais longe:
“Os que praticam verdadeiramente a Filosofia, de fato se preparam para morrer, sendo eles, de todos os homens, os que menos temor revelam à idéia da morte.”
Platão, Fédon.
Preparar-se para morrer significa, então, aprender a perder. A consciência da morte organize a vida. Porque quando percebemos que o tempo é limitado, algumas coisas que pareciam enormes tornam-se pequenas. Certas disputas perdem importância. Alguns ressentimentos começam a parecer caros demais. E algumas coisas que continuamente adiamos começam a adquirir urgência. A morte parece retirar significado da vida porque tudo aquilo que construímos um dia desaparecerá. Mas podemos olhar para a mesma realidade de outra maneira: talvez seja justamente porque as coisas terminam que elas conseguem adquirir valor. Muitas vezes, é o limite que cria o valor. E se Sócrates estava certo ao dizer que filosofar é, em alguma medida, preparar-se para morrer, então talvez a preparação mais importante aconteça na coragem de reconhecer que esta vida, imperfeita, limitada e passageira, não é o ensaio para outra oportunidade. É justamente a vida que temos para viver.
“Da mesma forma que a trajetória de um projétil termina quando ele atinge o alvo, assim também a vida termina na morte, que é, portanto, o alvo para o qual tende a vida inteira. Esta fórmula paradoxal nada mais é do que a conclusão lógica do fato de que nossa vida é teleológica e determinada por um objetivo. Se atribuímos uma finalidade e um sentido à ascensão da vida, por que não atribuímos também ao seu declínio? Se o nascimento do homem é prenhe de significação, por que é que a sua morte também não o é? O jovem é preparado durante vinte anos ou mais para a plena expansão de sua existência individual. Por que não deve ser preparado também, durante vinte anos ou mais, para o seu fim?”
Carl Jung, A Natureza da Psique.
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