Por que a modernidade acredita em alienígenas?

Por que a modernidade acredita em alienígenas? – Carl Jung

Em uma época como a nossa, dividida por antagonismos políticos, medo de uma possível guerra nuclear, massificação da população atrelada a uma renda básica universal e a religião perdendo cada vez mais espaço na vida das pessoas, cedo ou tarde, o que aconteceria é a necessidade de um mito compensatória que projetasse a totalidade que foi perdida. E parece que os OVNIs, os Objetos Voadores Não Identificados, são o nosso mito moderno.

Pensa comigo: diante da grande instabilidade do nosso tempo, existe uma certa tensão coletiva inconsciente acontecendo entre as pessoas. O medo, o perigo, a necessidade de salvação e respostas faz com que essa tensão, difícil demais de ser suportada internamente, seja projetada no mundo, adquirindo aspectos de imagens arquetípicas compensatórias de salvação, de redenção, de ameaça ou de ordem. Então, não seria surpresa se os OVNIs fossem projeções do nosso próprio inconsciente coletivo. Mas com isso, não estou falando que objetos estranhos voando no céu não existam de fato. Descartando os inúmeros vídeos recentes feitos com inteligência artificial, o ponto é que os OVNIs apareceram como um fenômeno coletivo desde o século passado e podem ser analisados do ponto de vista psicológico, e não apenas como um fenômeno extraterrestre.

Em 1958, Carl Jung escreveu um pequeno livro chamado Um mito moderno sobre coisas vistas no céu, que nos ajuda a entender por que o mundo inteiro precisa acreditar que há algo nos observando e tentando entrar em contato, aparentemente vindo de outro planeta.

E o ponto de partida de Jung é de que existe, sem dúvida, um problema psíquico nas aparições e relatos de OVNIs em todo o mundo. Ele escreve o seguinte:

“A realidade física dos Ovnis permaneceu por mais de uma década como um assunto muito problemático que não pôde ser definido em sentido algum com a desejável clareza […] Quanto mais tempo perdurava a insegurança, mais crescia a probabilidade de que o fenômeno tivesse, além de um possível fundamento físico, um importante componente psíquico. Um objeto deste tipo desafia, como nenhum outro, a fantasia consciente e inconsciente. Uma produz suposições especulativas e histórias inventadas, e a outra fornece o fundo mitológico que faz parte destas observações excitantes. […] O material, que até hoje chegou a meu conhecimento, apoia ambas as formas de consideração: num caso, um acontecimento objetivamente real, isto é, físico, dá motivo à criação de um mito que o acompanha; no outro, um arquétipo originou a respectiva visão.”

Carl Jung, Um Mito Sobre Coisas Vistas no Céu.

Jung, inicialmente, trata os OVNIs como um “boato visionário”. Mas isso não deve ser confundido com alucinação ou algo tipo, pois dá a impressão de ser patológico, mas pelo contrário, visões coletivas são fenômenos importantes e de forma alguma se trata de irrealidades, mas de realidades psíquicas advindas de um estado externo de grande sofrimento. Surge, então, um movimento compensatório da própria psique. 

Durante o ápice da Primeira Guerra Mundial, por exemplo, os católicos portugueses estavam sofrendo algumas perseguições do regime laicista da Primeira República. E diante desse cenário caótico, foi relatado que mais de 70 mil fiéis católicos presenciaram o que ficou conhecido como o Milagre do Sol, perto da cidade de Fátima, em Portugal. O sol ficou mais opaco e passou a se mexer em zigue-zague. As três crianças que receberam a profecia do fenômeno relataram ter visto a Virgem Maria, junto de São José e Jesus Cristo.

E durante a Primeira Guerra Mundial, no que ficou conhecida como a batalha de Mons, que é uma cidade da Bélgica, as tropas britânicas, durante o confronto com as tropas alemães, no meio da refrega e do tiroteio, exaustos e sob fortíssima pressão psicológica, relataram visões coletivas de anjos e até mesmo arqueiros medievais no meio do confronto.

O milagre do Sol dos católicos espelhou o arquétipo do Self, que uma das representações é justamente o círculo. E o sol, desde a antiguidade, sempre foi um símbolo da totalidade, da esperança e do renascimento. Já a batalha de Mons espelhou o arquétipo do Self da mesma maneira, colocando anjos, que são imagens arquetípicas de Deus. E não é surpresa que, diante do terror de um campo de batalha, as projeções do inconsciente coletivo comecem a operar. Na Ilíada de Homero, e na Eneida de Virgílio, deuses constantemente aparecem no campo de batalha para auxiliar os combatentes. Isso só mostra que a psique ainda possui restos arcaicos que projetam essas mesmas estruturas arquetípicas diante de um cenário de tensão e desespero.

E aqui voltamos para os primeiros relatos oficiais de OVNIs, que aconteceram durante o fim da Segunda Guerra Mundial, um período que modificou totalmente a atitude psicológica da humanidade, como escreveu Jung:

“Talvez estejamos mais dispostos a pensar na possibilidade de se tratar de distúrbios psíquicos, especialmente porque, desde a Segunda Guerra Mundial, nossa constituição psíquica tornou-se, de certa forma, duvidosa. Neste sentido, existe uma insegurança crescente. Até para a nossa historiografia, os meios tradicionais tornaram-se insuficientes para poder avaliar e explicar os acontecimentos que atingiram a Europa nos últimos séculos, devendo reconhecer que fatores psicológicos e psicopatológicos começam a ampliar, de forma assustadora, o horizonte da historiografia.”

Carl Jung, Um Mito Sobre Coisas Vistas no Céu.

Então, para que um boato visionário se torne uma projeção coletiva, é necessário haver , além de um certo sensacionalismo midiático, uma certa tensão emocional, que tem origem em uma situação de calamidade coletiva, como foi a Segunda Guerra, e depois disso, o conflito entre Estados Unidos e Rússia. Diante desses conflitos globais, a única saída não foi para os lados, mas para cima, para o céu, como explica Jung:

“Na atual situação de ameaça no mundo, em que se começa a perceber que tudo pode estar em jogo, a fantasia produtora de projeções amplia seu espaço para além do âmbito das organizações e potências terrestres, para o céu, isto é, para o espaço cósmico dos astros, onde outrora os senhores do destino, os deuses, tinham sua sede nos planetas. Nosso mundo terrestre está dividido em duas partes e não se pode ver de onde poderiam vir decisões e ajuda.”

Carl Jung, Um Mito Sobre Coisas Vistas no Céu.

Os relatos de avistamento de OVNIs são sempre descritos da mesma forma: corpos incandescentes ou de um brilho multicolorido em formato redondo, discos ou esferas, e mais raramente em um formato de charuto ou cilíndrico. Às vezes deixam uma mancha por onde passam e desaparecem depois de um tempo. E baseado na capacidade tecnológica da nossa época, conseguimos fazer comparativos e projeções dela para alguns anos no futuro, imaginando seres extraterrestres que já conseguem manipular a gravidade e viajar através do tempo. Então, diante de tudo o que foi exposto até aqui, levando em consideração o formato padrão dos OVNIs, Jung chegou à conclusão de que esses objetos redondos vistos no céu projetam o símbolo da totalidade, muito conhecida através das mandalas representadas ao longo da história da humanidade. Jung escreve que:

“Se aplicarmos estes princípios ao objeto redondo percebido, obteremos tranquilamente a analogia com o símbolo da totalidade, o mandala (em sânscrito: círculo). Este símbolo não representa de modo algum uma nova invenção, pois sempre foi onipresente e existiu em todos os tempos com o mesmo significado. Sem ter uma tradição externa, aparece também repetidamente entre os homens modernos ora como um círculo apotropeico (que afasta o mal) e que delimita e protege, ora como a chamada ‘roda solar’ pré-histórica, ora como círculo mágico, ora como microcosmo alquimista, ou como símbolo moderno, encerrando a totalidade anímica e ordenando-a. O mandala desenvolveu-se ao longo dos últimos séculos, cada vez mais como um verdadeiro símbolo de totalidade psíquica.”

Carl Jung, Um Mito Sobre Coisas Vistas no Céu.

As mandalas são círculos que o nosso inconsciente projeta sempre que o Self, o arquétipo da totalidade, se manifesta. Ela também aparece sempre que precisamos reavaliar nossa vida ou quando passamos por provações que ela nos coloca, para que possamos passar para um novo nível de consciência. As mandalas aparecem muito em pinturas e visões coletivas, mas principalmente nos sonhos. Nesse sentido, os OVINIs, além de serem vistos, são sonhados.

Jung conta uma série de sonhos que analisou de uma paciente sua com a temática de OVNIs. Ela já era idosa, nunca tinha visto um OVNI, mas também não tinha uma ideia concreta sobre isso. Um desses sonhos foi assim:

“Estou andando à noite, nas ruas de uma cidade. Aparecem máquinas interplanetárias no céu, e todas as pessoas fogem. As máquinas parecem charutos de aço. Eu não fujo. Uma das máquinas aponta em minha direção, e desce inclinada diretamente sobre mim. Eu penso: o Prof. Jung acha que a gente não deve fugir, e fico parada olhando diretamente na direção da máquina. De frente, olhando de perto, ela parece ser um olho circular meio azul, meio branco. Um quarto de hospital: meus dois chefes entram no quarto e, muito preocupados, se informam sobre o meu estado com a minha irmã, que os recebe. Minha irmã responde que só de olhar aquilo fiquei com o rosto queimado. Só nesse momento percebo que estão falando de mim, e que minha cabeça está toda enfaixada, embora não possa vê-la.”

Carl Jung, Um Mito Sobre Coisas Vistas no Céu.

A interpretação de Jung foi mais coletiva do que individual. As várias máquinas interplanetárias podem ser entendidas como projeções de várias imagens internas de totalidade. Eles aparecem no céu porque carregam uma força arquetípica muito intensa, mas o homem moderno não consegue reconhecê-los como algo psíquico. Ou seja: em vez de perceber que essas imagens vêm de dentro, da própria psique, a consciência as coloca para fora, como se fossem objetos reais, independentes, vindos do espaço. Aquilo que antes aparecia como mandala para os antigos, símbolo da totalidade interior, agora aparece como uma nave espacial pilotada por seres mais inteligentes do que a gente.

Isso acontece porque a nossa época pensa de modo técnico e científico, esquecendo as outras funções psicológicas, como o sentimento e a intuição, que os antigos tinham em muita conta. Por isso, uma imagem antiga da própria psique, como a mandala, precisa se vestir com uma aparência moderna: como máquina, disco voador e assim por diante. A psique, que antes era imaginada como algo celestial pelos antigos, passa a ser representada agora como uma nave, parecida com as formas das galáxias que a astronomia moderna revelou.

Em outras palavras, Jung está dizendo que a imagem arquetípica apenas mudou de aparência, mas a estrutura é a mesma. Antes aparecia como deuses, anjos, esferas celestes ou mandalas. Hoje, aparece como OVNI ou tecnologia extraterrestre. O símbolo continua sendo antigo, mas o formato é que se adaptou à consciência moderna.

Mas agora, se passarmos dos sonhos para as pinturas, uma bem expressiva é a do pintor Erhard Jacoby chamada “Semeador de Fogo”, pintada no século passado. A pintura é um exemplo de uma imagem moderna que condensa o medo coletivo de figuras que aparecem no céu. É uma representação do entendimento do nosso tempo, colocando a terra embaixo como pequena e o céu como algo imenso. Mas ela tem a figura de um humanóide meio que em chamas. E o fogo é um símbolo ambíguo, porque ora pode ser renascimento e transformação, ora pode representar destruição. Nesse sentido, os OVNIs são justamente esse momento psíquico da nossa era, tanto de transformação, como de medo e destruição.

Outra pintura muito interessante é a de Peter Birkhauser chamada “A Quarta Dimensão”. A pintura se assemelha à colisão de dois mundos, muito difundida no imaginário coletivo a partir do século passado. Peter Birkhauser foi um dos responsáveis por pintar os sonhos do próprio Jung ao se encontrar com ele, então é perfeitamente possível fazermos uma interpretação a partir da psicologia analítica das suas pinturas. E nesta em questão, os círculos na imagem não são olhos, mas círculos que passam justamente essa ambiguidade, ora um símbolo da totalidade vinda de cima, ora também parecem olhos que observam de cima.

Só que o mito dos OVNIs, se formos traçar a sua genealogia, começou bem antes do século XX. Jung sugeriu que o mito apenas se atualizou com a roupagem dos tempos modernos.  Um documento redigido em 1566 relata que, na cidade da Basiléia, na Suiça, no dia 7 de agosto, ao por-do-sol, muitas esferas grandes e pretas foram vistas no ar, com uma enorme velocidade que pareciam ir em direção ao sol. E em um outro documento, redigido em gravura por um artista, relata que, em 14 de abril de 1561, na cidade de Nuremberg na Alemanha foi relatado um suposto avistamento no céu de esferas, cruzes, cilindros e objetos em forma de flecha que pareciam lutar entre si antes de alguns caírem nos arredores da cidade. Em ambos os casos, não há, certamente, nenhuma evidência histórica de atividade extraterrestre: trata-se apenas de relatos impressos do século XVI interpretados como sinais milagrosos ou fenômenos atmosféricos. Jung interpreta-os simbolicamente como arquétipos visuais que projetam a totalidade da psique.

Então, a partir dos relatos, dos sonhos e das pinturas analisadas, Jung percebeu que o inconsciente usa imagens parecidas com OVNIs para representar certos conteúdos da própria psique. Para Jung, tanto os sonhos quanto as pinturas apontam para uma espécie de epifania, ou seja, uma aparição carregada de sentido numinoso, quase que religioso. Mas essa epifania não deve ser entendida literalmente como uma nave espacial, mas como a manifestação simbólica do arquétipo do Self, a totalidade da psique diante de uma tensão emocional coletiva.

Esse arquétipo aparece muitas vezes vindo do céu, como se algo superior descesse até o mundo humano, pois, desde a antiguidade, o céu sempre foi um símbolo do mistério e do numinoso. O self também costuma trazer opostos, como o fogo e água, masculino e feminino, alto e baixo, céu e terra e por aí vai. Por isso, essas imagens modernas podem ser relacionadas a símbolos antigos da totalidade, como o mandala já citado, mas temos também o Tao, na tradição chinesa, que simboliza os opostos complementares em um círculo, o Mercúrio alquímico, na Idade Média, que também é um símbolo da união dos contrários. Ou seja, a partir dessa interpretação psicológica, os OVNIs são projeções do inconsciente coletivo, são mitos antigos atualizados para o mundo moderno. O céu representando aquilo que é misterioso, e a terra representando o mundo comum, o OVNI aparece justamente entre esses dois mundos, como uma ponte entre aquilo que o homem conhece e aquilo que ainda não consegue compreender.

É claro que o fenômeno dos OVNIs não pode ser compreendido apenas como uma questão psicológica. Temos muitas coisas que ainda não sabemos. Mas mesmo que houvesse algo real no céu, o fascínio coletivo da modernidade pelos OVNIs espelha a tensão psíquica da nossa época. Eles expressam uma necessidade profunda da tentativa de reencontrar uma imagem de totalidade num mundo que hoje está fragmentado e dividido.

O homem moderno perdeu muitos dos antigos símbolos religiosos, mas a necessidade psíquica por sentido ainda continua existindo. Então se antes tínhamos anjos caindo do céud, agora temos discos voadores, naves, luzes no céu e seres vindos de outros mundos.

“A experiência psicológica ligada à experiência com Ovnis consiste na visão ou lenda do redondo, quer dizer, do símbolo da totalidade, e do arquétipo que se expressa nas configurações do mandala. Conforme foi observado, estas configurações aparecem, na maioria das vezes, em situações determinadas por confusão e impasse. […] Assim como a nossa época está marcada pela fragmentação, confusão e desorientação, da mesma forma se expressa este estado na psicologia de cada um.”

Carl Jung, Um Mito Sobre Coisas Vistas no Céu.

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