A pessoa que não consegue sair do lugar – Carl Jung e Santo Agostinho
Transcrição do vídeo
“Até quando te esquecerás de mim, Senhor? Para sempre? Até quando esconderás de mim o teu rosto? Até quando consultarei com a minha alma, tendo tristeza no meu coração cada dia? Até quando se exaltará sobre mim o meu inimigo?”
(Salmos 13:1,2)
Talvez você tenha chegado a um ponto em que nada mais parece funcionar. Os planos falharam. As relações mudaram. A motivação desapareceu. E então surge aquele pensamento de que você está no fundo do poço, estagnado. A sensação de desesperança é uma das piores coisas, senão a pior, que o ser humano possa experimentar. É uma sensação pior do que os piores sentimentos, justamente porque não há sentimento nenhum, apenas um silêncio fúnebre.
Só que talvez você não tenha se dado conta de que, muitas vezes, a verdadeira reconstrução da vida começa exatamente quando tudo parece ter acabado. Injustiça da vida ou não, é preciso descer lá no fundo para subir lá para o alto, pois como escreveu Jung:
“Árvore nenhuma, sabemos, cresce em direção ao céu, se suas raízes também não se estenderem até o inferno.”
Carl Jung, Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo.
E isso é tão comum que tem um nome muito antigo. Na mitologia, existe um conceito chamado katábasis — uma palavra para expressar “a descida ao mundo inferior”.
katábasis representa aquele momento da vida em que somos obrigados a encarar aquilo que passamos anos tentando evitar. Pode ser uma crise existencial. Pode ser um fracasso que destrói a identidade que construímos. Pode ser o fim de um relacionamento que parecia ser o centro da nossa vida. Pode ser a sensação de vazio que aparece quando percebemos que estávamos vivendo no piloto automático.
Esses momentos desmontam a versão antiga de quem acreditávamos ser. E é exatamente por isso que eles doem tanto. Quando estamos subindo na vida, acumulando conquistas e reconhecimento, nossa mente constrói uma narrativa confortável sobre quem somos. Mas a katábasis acontece justamente quando essa narrativa quebra. De repente, aquilo que parecia sólido se dissolve. O que antes era certeza vira dúvida.
E embora isso, de fato, seja um enorme sofrimento… na verdade é também um processo psicológico extremamente importante. Porque enquanto estamos presos à identidade antiga, muitas partes da nossa personalidade permanecem escondidas, reprimidas ou ignoradas. A queda força você a se perguntar quem você realmente é quando tudo parece que foi perdido.
Felizmente, pelo fato de nós, seres humanos, compartilharmos de uma estrutura psíquica semelhante, nossas experiências, embora sejam sentidas de forma individual, uma parte delas também é coletiva. E os mitos são justamente a expressão simbólica do nosso inconsciente coletivo. Há um mito que já foi narrado para cada etapa e circunstância da sua vida porque muitas experiências que você está passando agora já foram vivenciadas durante séculos pela humanidade, mudando apenas o conteúdo e o fator cultural, mas a forma permaneceu. Como escreveu Jung:
“A camada mais profunda que conseguimos atingir na mente do inconsciente é aquela em que o homem ‘perde’ a sua individualidade particular, mas onde sua mente se alarga mergulhando na mente da humanidade – não a consciência, mas o inconsciente, onde somos todos iguais. Como o corpo tem sua conformação anatômica com dois olhos, duas orelhas, um nariz e assim por diante, e apenas ligeiras diferenças individuais, o mesmo se dá com a mente em sua conformação básica. A esse nível coletivo não somos mais entidades separadas, somos um.”
Carl Jung, A Vida Simbólica.
E a experiência da katábasis não é diferente.
Na mitologia grega, esse padrão aparece repetidamente. Um dos exemplos mais conhecidos é o de Orfeu, o músico que desceu ao mundo dos mortos para tentar resgatar Eurídice, sua esposa. Para chegar até ela, Orfeu precisou atravessar o Hades — um lugar que representava tudo aquilo que os mortais temiam enfrentar: a perda, o sofrimento e a realidade inevitável da morte. Sua jornada ao Hades simboliza o momento em que o amor, a dor ou o desespero nos obrigam a entrar em territórios emocionais que sempre tentamos evitar. O psicólogo Paul Diel explica o seguinte sobre o mito de Orfeu:
“Segundo o mito, Eurídice desaparece na morada dos mortos, símbolo do subconsciente punitivo. Na verdade, o punido é Orfeu; é sua força da alma que morre, é seu amor ambivalente que o dilacera e atormenta. Orfeu sai à procura de Eurídice; desce à morada das sombras, ao subconsciente; arrepende-se. Sua afeição é despertada, o que é expresso simbolicamente pelo mito.”
Paul Diel, Simbolismo na Mitologia Grega.
Outro exemplo aparece na jornada de Odisseu, narrada por Homero na Odisseia. Em determinado momento da sua volta à Ítaca, Odisseu precisa descer ao Hades para consultar o espírito do profeta Tirésias. Essa descida representa um momento de confronto sobre si mesmo, sobre o destino e sobre o preço de suas escolhas. Somente depois de atravessar essa experiência ele consegue continuar sua jornada com maior consciência. O psicoterapeuta Murray Stein escreve o seguinte:
“O Hades é o lugar dos mortos, mas lá Odisseu aprende duas coisas que terão efeitos de longa duração em sua existência: o lado difícil disso é que ele toma conhecimento dos seus limites, o lado bom é que ele recebe uma tarefa para o resto da vida. Esta combinação da consciência dos limites e da convicção de uma tarefa constitui a essência de uma recuperação significativa da vida. Trata-se de uma iniciação e o senso de objetivo e identidade futuros de uma pessoa dependem deles.”
Murray Stein, No Meio de Vida.
Esse mesmo padrão também aparece na história de Hércules. Entre os seus doze trabalhos, um dos mais desafiadores era justamente descer ao Hades e capturar Cérbero, o cão de três cabeças que guardava os portões do Inferno. Hércules precisava encarar o território da morte e retornar vivo de lá. Na linguagem simbólica dessas histórias, isso representa a capacidade de confrontar nossas pulsões, aquilo que, dentro de nós, pode se tornar tanto uma via para a elevação espiritual quanto para a perdição. As três cabeças de Cérbero representam as três pulsões que foram corrompidas. A pulsão sexual, que foi corrompida em luxúria; a pulsão espiritual, que foi corrompida em vaidade; e a pulsão social, que foi corrompida em dominação. Hércules consegue domar Cérbero e, portanto, consegue dominar as suas pulsões, mas para isso ele precisou descer ao Hades, ao seu inconsciente.
Curiosamente, essa mesma estrutura narrativa atravessou os séculos e apareceu também em grandes obras da literatura clássica. Um dos exemplos mais impressionantes está na Divina Comédia, de Dante Alighieri. No início da obra, Dante se encontra completamente perdido em uma floresta, simbolizando sua confusão existencial e perda de direção. Para reencontrar o caminho, ele precisa atravessar os círculos do inferno. Essa jornada pelo Inferno representa uma profunda investigação que Dante faz a respeito da natureza humana, dos vícios, das fraquezas e das escolhas morais. Cada círculo do Inferno, totalizando nove, representa um pecado, um desejo corrompido ocasionado pelo livre-arbítrio do ser humano.
Em algum momento, nós vamos precisar atravessar nosso próprio inferno, confrontar aquilo que escondemos – e sabemos que escondemos –, de nós mesmos. E quando alguém chega nos seus portões, o impulso mais natural é tentar sair dali o mais rápido possível. A dor é intensa. A confusão é desconfortável. A sensação de estar perdido parece insuportável. Então a mente começa imediatamente a procurar qualquer forma de escapar dessa experiência. Algumas pessoas tentam preencher o vazio com distrações constantes. Outras mergulham compulsivamente no trabalho, nas drogas ou nas viagens sem fim. Algumas buscam motivação desesperadamente nas mudanças superficiais de rotina. E há também quem tente anestesiar o sofrimento com excesso de entretenimento, relacionamentos impulsivos ou hábitos autodestrutivos.
Todas essas reações são tentativas de evitar a descida interior. Mas quanto mais alguém tenta fugir dessa fase, mais tempo permanece preso nela.
No verão do ano de 386, Aurélio Agostinho de Hipona, também conhecido como Santo Agostinho, estava passando por uma inquietação profunda que nenhuma conquista intelectual ou prazer sensível conseguia satisfazer. Apesar de já ser um renomado professor de retórica, algo dentro dele permanecia insatisfeito. Durante sua juventude, Agostinho mergulhou em uma vida de paixões intensas, descrevendo esse período como uma espécie de dispersão interior, em que sua alma se afastou da unidade espiritual e se fragmentou em múltiplos desejos. Em suas confissões, ele escreve o seguinte:
“Tempo houve de minha adolescência em que ardi em desejos de me fartar dos prazeres mais baixos, e ousei a bestialidade de vários e sombrios amores, e se murchou minha beleza, e me transformei em podridão diante de teus olhos, para agradar a mim mesmo e desejar agradar aos olhos dos homens. […] Mas eu não era moderado, indo de alma para alma de acordo com os sinais luminosos da amizade, pois, da lodosa concupiscência de minha carne e do fervilhar da puberdade levantava-se como que uma névoa que obscurecia e ofuscava meu coração, a ponto de não discernir a serena amizade da tenebrosa libido. Uma e outra, confusamente, me abrasavam; arrastavam minha fraca idade pelo declive íngreme de meus apetites, afogando-me em um mar de torpezas.”
Santo Agostinho, Confissões.
Agostinho reconhece que sua busca por prazer e reconhecimento social era, na verdade, uma tentativa de preencher um vazio espiritual. Ele, contudo, entendia que era jovem e que, nessa fase da vida, o discernimento e a ordem são quase nulos, e que os desejos tomam o lugar da razão muito facilmente. A sua katábasis começou quando ele percebeu que sua alma estava sendo arrastada por impulsos que não conseguia controlar. Essa luta interior se agravava porque ele sabia, em certo nível, que sua vida estava desalinhada com a verdade que buscava. Esse conflito aparece em um de seus reconhecimentos mais famosos. Ele desejava mudar, mas não queria fazer isso imediatamente. E isso é algo que todos nós fazemos: muitas vezes, sabemos o que precisamos fazer, mas adiamos a hora de darmos o próximo passo, porque sabemos que não tem volta. Agostinho escreve o seguinte:
“Mas eu, jovem miserável, sim, miserável desde o despertar da juventude, já te havia pedido a castidade, dizendo: ‘Dá-me castidade e continência, mas não agora’ – pois temia que me atendesse muito depressa, e que me curasses logo da doença de minha concupiscência, que eu mais queria saciar do que extinguir. E caminhei pelas sendas ruins de uma superstição sacrílega, não porque estivesse certo dela, mas porque a preferia às demais doutrinas, que eu não estudava piedosamente, mas que hostilmente combatia.”
Santo Agostinho, Confissões.
Esse adiamento revela a natureza psicológica da katábasis, de que, muitas vezes a pessoa percebe a verdade, mas permanece presa a estruturas emocionais antigas. A própria narrativa de Agostinho mostra que ele estava dividido entre o amor à verdade e o apego aos prazeres da vida antiga.
A transformação decisiva acontece quando Agostinho, tomado por angústia, se retira para um jardim. Nesse momento de crise, ele ouve uma voz infantil repetindo a frase: “Toma e lê.” Interpretando isso como um sinal, ele abre as Escrituras e lê um trecho da carta de São Paulo que o confronta diretamente com sua vida. Ao narrar esse momento, Agostinho descreve uma experiência interior de iluminação súbita:
“[…] chorava oprimido pela mais amarga dor do meu coração. Mas eis que, de repente, ouço da casa vizinha uma voz, de menino ou menina, não sei, que cantava e repetia muitas vezes: ‘Toma e lê, toma e lê’.. […] Reprimindo o ímpeto das lágrimas, levantei-me. Uma só interpretação me ocorreu: a vontade divina mandava-me abrir o livro e ler o primeiro capítulo que encontrasse. […] Depressa voltei para o lugar onde eu deixara o livro do Apóstolo ao me levantar. Peguei-o, abri-o, e li em silêncio o primeiro capítulo que me caiu sob os olhos: ‘Não caminheis em glutonarias e embriaguez, não nos prazeres impuros do leito e em leviandades, não em contendas e rixas; mas revesti-vos de nosso Senhor Jesus Cristo, e não cuideis de satisfazer os desejos da carne’. Não quis ler mais, nem era necessário. Quando cheguei ao fim da frase, uma espécie de luz de certeza se insinuou em meu coração, dissipando todas as trevas de dúvida.”
Santo Agostinho, Confissões.
Esse instante marca o fim de sua katábasis espiritual. A luta interior que o havia dividido por tantos anos encontra finalmente uma resolução. Somente depois de atravessar essa crise profunda ele conseguiu reorganizar sua vida em torno de um novo centro espiritual. A transformação só começou quando ele teve coragem de olhar para a própria desordem interior e buscar uma verdade maior do que si mesmo.
Quando as estruturas externas entram em crise — seja um fracasso, uma perda, uma ruptura emocional — a identidade que dependia dessas estruturas também começa a desmoronar. E então algo que estava escondido por trás dessa identidade começa a emergir. Esse processo pode ser profundamente desconfortável porque ele revela coisas que evitamos durante anos.
Revela medos que estavam escondidos sob a aparência de autoconfiança, dependências emocionais disfarçadas de amor, ambições que nunca foram realmente nossas, padrões de comportamento que repetimos sem perceber.
É nesse momento que muitas pessoas descobrem que grande parte da vida que estavam vivendo era uma tentativa inconsciente de evitar certas verdades internas.
Carl Jung observou que o ser humano passa grande parte da vida identificado com aquilo que ele chamou de persona — a máscara psicológica que mostramos ao mundo. Essa máscara é necessária para a vida social, mas ela não representa a totalidade da personalidade. Quando a katábasis acontece, essa máscara começa a rachar. E através dessas fissuras surge o que Jung chamou de sombra — as partes da personalidade que foram reprimidas, ignoradas ou negadas ao longo da vida. Esse encontro com a sombra é, sim, perturbador. A pessoa começa a perceber que possui impulsos, ressentimentos, fragilidades e desejos que nunca quis reconhecer. Mas esse momento também contém um enorme potencial porque aquilo que é reconhecido pode ser transformado. Carl Jung escreveu que:
“Visto do ponto de vista unilateral da atitude consciente, a sombra é uma parte inferior da personalidade. Por isso, é reprimida, devido a uma intensa resistência. Mas o que é reprimido tem que se tornar consciente para que se produza a tensão entre os contrários, sem o que a continuação do movimento é impossível. A consciência está em cima, digamos assim, e a sombra embaixo, e como o que está em cima sempre tende para baixo, e o quente para o frio, assim todo consciente procura, talvez sem perceber, o seu oposto inconsciente, sem o qual está condenado à estagnação, à obstrução ou à petrificação. É no oposto que se acende a chama da vida.”
Carl Jung, Psicologia do Inconsciente.
Jung relatou o seu próprio confronto com o inconsciente, com a sua sombra, para conseguir desenvolver o seu método analítico. A crise interior vivida por Carl Jung se deu logo após sua ruptura intelectual com Sigmund Freud, por questões de divergências quanto à origem dos conflitos neuróticos e percepções sobre o inconsciente. Esse processo ocorreu por volta de 1913 e marcou o início de uma fase que Jung descreveu como uma ruptura radical com a estabilidade anterior de sua vida. Em seu livro Memórias, Sonhos e Reflexões ele escreve o seguinte:
“Freud me dissera várias vezes que me considerava seu sucessor. Essas alusões me perturbavam, pois sabia que jamais defenderia corretamente suas opiniões, isto é, no sentido que ele desejaria. Até então eu não conseguira ainda desenvolver minhas objeções de modo que ele as pudesse apreciar. Meu respeito por ele era sincero demais para que ousasse desafiá-lo numa explicação decisiva. A ideia de que deveria tomar, por assim dizer, a direção de um partido, contra minha convicção íntima, me era desagradável por muitos motivos. Tal papel não me convinha.”
Carl Jung, Memórias, Sonhos e Reflexões.
Depois de romper com Freud, Jung entrou em um período de grande desorientação interior. A estrutura intelectual que havia orientado sua vida até então desapareceu, deixando-o diante de um vazio psicológico. Essa crise marcou o início de katábasis, sua descida interior. Em vez de fugir dessa situação, Jung decidiu voltar-se deliberadamente para as imagens que emergiam do seu inconsciente. Ele mesmo decidiu ser o seu próprio experimento científico.
Durante esse período, Jung começou a observar cuidadosamente sonhos, fantasias e visões espontâneas que surgiam em sua mente. Em vez de reprimi-las, ele decidiu confrontá-las diretamente. Essa postura exigia grande coragem, porque Jung sabia que estava entrando em um território psicológico extremamente perigoso. Ele próprio reconheceu o risco que corria. Uma das visões mais perturbadoras ocorreu pouco antes da Primeira Guerra Mundial. Jung viu a Europa sendo devastada por uma catástrofe gigantesca. Ele descreve uma inundação de sangue cobrindo o continente, com cadáveres e destruição. Jung escreve o seguinte:
“No mês de outubro, viajando sozinho, fui subitamente assaltado por uma visão: vi uma onda colossal cobrir todos os países da planície setentrional, situados entre o mar do Norte e os Alpes. As ondas estendiam-se da Inglaterra à Rússia, e das costas do mar do Norte quase até os Alpes. Quando atingiram a Suíça, vi as montanhas elevarem-se cada vez mais, como para proteger nosso país. Acabara de ocorrer uma espantosa catástrofe. Eu via vagas impetuosas e amarelas, os destroços flutuantes das obras da civilização e a morte de inúmeros seres humanos. O mar transformou-se em torrentes de sangue. Essa visão durou cerca de uma hora. Perturbado, nauseado, tive vergonha de minha fraqueza. Passaram-se duas semanas e a visão se repetiu nas mesmas circunstâncias: porém a transformação final em sangue foi ainda mais terrível. Uma voz interior me disse: ‘Olha bem, isto é real e será assim; portanto, não duvides’.”
Carl Jung, Memórias, Sonhos e Reflexões.
Jung interpretou essa visão inicialmente como um possível sinal de que estava perdendo a sanidade. Porém, quando a guerra começou em 1914, ele passou a ver essa experiência como uma manifestação simbólica do inconsciente coletivo, antecipando o desastre que aconteceria.
Durante seus confrontos com o Inconsciente, Jung captava suas fantasias partindo da representação de uma descida, como se ele estivesse indo em direção às profundezas da sua própria psique. Em outras palavras, ele estava fazendo sua katábasis. Numa outra visão importante, Jung encontrou duas figuras simbólicas: A do profeta Elias e a figura de Salomé, conhecida por ter pedido a cabeça de João batista numa bandeja, o profeta que batizou Jesus Cristo.
Essas figuras conversavam com Jung e pareciam possuir uma existência psíquica própria. No entanto, ele se deu conta de que, tanto a jovem quanto o profeta, apareciam conjuntamente em vários outros lugares ao longo da história da humanidade. Jung escreve que:
“Ao longo das peregrinações oníricas encontra-se mesmo muitas vezes um velho acompanhado por uma moça; e em numerosos relatos míticos encontram-se exemplos desse mesmo par. Assim, segundo a tradição gnóstica, Simão, o Mago, peregrinava com uma jovem que tirara de um bordel. Ela se chamava Helena e era tida como uma reencarnação de Helena de Troia. Klingsor e Kundry, Lao-Tsé e a dançarina são exemplos do mesmo caso. […] Salomé é uma figuração da Anima. Elias é a figuração do profeta velho e sábio: representa o elemento do conhecimento, e Salomé, o elemento erótico. Poder-se-ia dizer que esses dois personagens encarnam o Logos e o Eros.”
Carl Jung, Memórias, Sonhos e Reflexões.
Posteriormente, Jung percebeu que essas imagens representavam justamente os arquétipos da psique, conteúdos não do seu inconsciente pessoal, mas do inconsciente coletivo. Salomé acabou sendo interpretada como uma manifestação da anima, o arquétipo da vida, que pode ter tanto uma expressão criativa quanto destrutiva; enquanto Elias representava uma figura do arquétipo do velho sábio.
Uma das visões mais derradeiras e cruciais para Jung durante esse período, foi que em uma certa tarde, teve a sensação de que os mortos estavam presentes em sua casa. Eles pareciam inquietos e buscavam respostas que não haviam encontrado em vida. Jung escreve o seguinte:
“Domingo, às cinco horas da tarde, a campainha da porta de entrada tocou insistentemente. Era um dia claro de verão e as duas empregadas estavam na cozinha, de onde era possível ver o que se passava no espaço livre diante da porta. Eu estava relativamente perto da campainha, ouvi quando ela tocou e também pude ver o badalo em movimento. Imediatamente corremos à porta para ver quem era, mas não era ninguém! Nós nos entreolhamos, estupefatos! A atmosfera era terrivelmente opressiva. Percebi que algo ia acontecer. A casa parecia repleta de uma multidão, como se estivesse cheia de espíritos! Estavam por toda a parte, até mesmo debaixo da porta, mal se podia respirar. Naturalmente, uma pergunta ardia em mim: ‘Em nome do céu, o que quer isso dizer?’ Houve então uma resposta uníssona e vibrante: ‘Nós voltamos de Jerusalém, onde não encontramos o que buscávamos.’”
Carl Jung, Memórias, Sonhos e Reflexões.
Ele escreve que os mortos haviam retornado de Jerusalém sem encontrar aquilo que procuravam. Na interpretação psicológica de Jung, os “mortos” não devem ser entendidos literalmente. Eles representam conteúdos psíquicos esquecidos ou reprimidos pela consciência moderna.
Para Jung, a civilização ocidental havia perdido contato com o simbolismo religioso; os mitos; a dimensão espiritual da psique; e as imagens arquetípicas do inconsciente. Os ‘mortos’ simbolizam as tradições espirituais e psicológicas da humanidade que haviam sido abandonadas. Essa visão marcou um momento decisivo na reflexão de Jung. Ele percebeu que o homem moderno estava psicologicamente desconectado de suas próprias raízes simbólicas. Por isso os “mortos” voltam — porque os conteúdos arquetípicos do passado exigem ser reconhecidos novamente pela consciência. O inconsciente coletivo contém imagens e estruturas antigas da humanidade que continuam tentando emergir na consciência.
A psique humana não pertence apenas ao presente. Ela carrega a história espiritual da humanidade. E a katábasis é uma dessas experiências espirituais que vamos ter que passar se quisermos chegar ao outro lado. É um padrão arquetípico que se repete durante toda a história da humanidade, e nós nos desesperamos diante dela porque perdemos o contato com os símbolos que ela nos quer transmitir. Jung percebeu que sua crise não iria passar se olhasse para fora, mas para dentro, como ele mesmo escreve:
“Nessa época e depois, sempre com maior clareza, os mortos me apareceram como portadores das vozes do que ainda não tem resposta, do que ainda não tem solução e remissão. As questões às quais eu devia dar uma resposta, mediante meu destino, não me abordavam do exterior, mas provinham precisamente do mundo interior. Por isso, as conversações com os mortos […] constituem uma espécie de prelúdio àquilo que eu devia comunicar ao mundo acerca do inconsciente, uma espécie de esquema ordenador e uma interpretação dos conteúdos gerais do inconsciente.”
Carl Jung, Memórias, Sonhos e Reflexões.
Depois da descida, da katábasis, o que acontece quando alguém retorna do submundo?
Nos mitos antigos, nenhum herói volta da katábasis sendo a mesma pessoa. Orfeu, Eneias, Ulisses ou Dante, todos retornam transformados, carregando algum tipo de conhecimento que não poderia ser adquirido no mundo comum.
O mesmo acontece na vida psicológica. Quando uma pessoa atravessa um período profundo de crise — quando a identidade antiga se desfaz e as ilusões sobre si mesmo começam a cair — algo novo começa lentamente a emergir. Só que isso ocorre de maneira silenciosa.
Primeiro, surge uma mudança na forma como a pessoa percebe a própria vida. Aquilo que antes parecia absolutamente essencial começa a perder importância. Certas ambições que dominavam a mente deixam de exercer o mesmo poder. A necessidade de aprovação externa diminui. Muitas vezes, até mesmo a maneira de se relacionar com o tempo muda. Depois de atravessar uma katábasis, muitas pessoas percebem que passaram anos vivendo em função de expectativas que nunca foram realmente suas.
E quando essas narrativas desaparecem, surge um espaço interior novo. Esse espaço é desconfortável no início, porque ele não possui respostas prontas. A pessoa ainda não sabe exatamente quem está se tornando. Mas é justamente nesse espaço que começa o verdadeiro processo de reconstrução. Depois do confronto com o inconsciente, o indivíduo começa a reorganizar sua vida em torno de algo mais profundo do que a persona social. Em vez de viver apenas para corresponder às expectativas externas, a pessoa começa a viver a partir de um centro interior mais autêntico.
Durante esse período, a pessoa aprende que não é possível reconstruir a própria vida usando exatamente os mesmos valores que levaram à crise inicial.Algumas pessoas percebem que precisam mudar completamente de caminho profissional. Outras descobrem que certos relacionamentos estavam baseados em ilusões. Algumas reconhecem que passaram grande parte da vida tentando provar algo aos outros. Essas descobertas podem ser desconfortáveis, mas também são libertadoras. Porque, pela primeira vez, a pessoa começa a viver com um nível de honestidade interior que antes parecia impossível. Como Jung escreveu a respeito do seu próprio experimento:
“Hoje posso dizer que nunca me afastei de minhas experiências iniciais. Todos os meus trabalhos, tudo o que criei no plano do espírito provêm das fantasias e dos sonhos iniciais. Isso começou em 1912, há cerca de cinquenta anos. Tudo o que fiz posteriormente em minha vida está contido nessas fantasias preliminares, ainda que sob a forma de emoções ou de imagens. Minhas buscas científicas foram o meio e a única possibilidade de arrancar-me a esse caos de imagens […] Procurei transformar cuidadosamente cada imagem, cada conteúdo, compreendendo-os racionalmente na medida do possível e, principalmente, procurei realizá-los na vida. Pois é isso em geral o que se negligencia.”
Carl Jung, Memórias, Sonhos e Reflexões.
E aqui tem um detalhe importante: a katábasis não elimina o sofrimento da vida. Crises continuam acontecendo. Dificuldades continuam surgindo. A existência humana nunca se torna completamente estável. Mas algo no indivíduo muda profundamente. A pessoa aprende que a escuridão não é necessariamente o fim da jornada, e de que precisamos dela, tanto quanto precisamos da luz. A escuridão pode ser parte do caminho. Isso encontra expressão em um trecho da literatura moderna. O escritor Albert Camus diz que:
“Não existe sol sem sombra, e é essencial conhecer a noite.”
Albert Camus, O Mito de Sísifo.
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