Ninguém consegue ser “desapegado” —

A pessoa que se acha profunda demais — Dostoiévski e a Consciência Hipertrofiada

“Quanto mais consciência eu tinha do bem e de tudo o que é ‘belo e sublime’, tanto mais me afundava em meu lodo, e tanto mais capaz me tornava de imergir nele por completo.”

Fiódor Dostoiévski, Memórias do Subsolo.

Você já conheceu alguém que parece ter sempre uma análise genial sobre tudo… mas, quando precisa fazer uma escolha simples do dia a dia, como sair para algum lugar ou decidir entre uma tarefa e outra, simplesmente trava? Talvez você não conheça alguém assim, mas que você seja essa pessoa. Mas está tudo bem, isso não é um problema. Todos nós temos indecisões no cotidiano, porque escolher, mesmo que seja algo pequeno, envolve um certo tipo de sofrimento, e queremos, o máximo possível, fugir do sofrimento.

Mas o que acontece é que, diante de um certo grau de consciência, diante de uma certa percepção sobre a realidade, podemos correr o risco de rejeitar justamente esse cotidiano, como se percebêssemos coisas que as “pessoas comuns”, entre aspas, não percebessem, e passarmos assim, a vivermos ressentidos, amargos e solitários, como se ninguém fosse bom o suficiente para estar na nossa companhia. Só que a sombra dessa atitude é muito poderosa, pois ela revela uma necessidade de aproximação e de vínculo que é suprimida diante de qualquer percepção de vulnerabilidade vista pelo ego consciente.

E no livro Memórias do Subsolo, Dostoiévski traz esse conflito diante da personagem que ficou conhecida pela posteridade simplesmente como o homem do subsolo, alguém que transforma a sua doença numa personalidade; alguém que, nas suas palavras, afirma que uma consciência “muito perspicaz” é uma doença, e insiste que, no fundo, todo mundo adora se vangloriar das próprias doenças, como ele mesmo escreve:

“Finalmente, quase acreditei […] que o meu estado normal era esse. Não acreditava que o mesmo acontecesse a outrem, e por isso, mantive-o em segredo a vida toda. […] Chegava a ponto de sentir certo prazerzinho secreto, anormal […] Vou explicar-vos: o prazer provinha justamente da consciência demasiado viva que eu tinha da minha própria degradação.”

Fiódor Dostoiévski, Memórias do Subsolo.

O que o homem do subsolo está fazendo é encenar a própria consciência. E quando a pessoa entra nesse personagem, ela começa a colecionar sinais de “complexidade” como se fossem troféus. Ela não quer apenas sentir; ela quer provar que sente de um jeito mais raro; ela quer que o pensamento seja visto como um tipo de superioridade. O homem do subsolo faz isso o tempo inteiro: ele se descreve como alguém que está errado, mas que é por conta disso que ele se torna mais interessante, como se a própria autoconsciência já fosse uma espécie de transformação, como se entender o problema fosse equivalente a resolvê-lo. Ele escreve o seguinte:

“Tenho, por exemplo, um terrível amor-próprio. Sou desconfiado e me ofendo com facilidade, como um corcunda ou um anão, mas, realmente, tive momentos tais que, se me acontecesse receber um bofetão, talvez até me alegrasse com o fato. Falo a sério: com certeza, eu saberia encontrar também nisso uma espécie de prazer […] Pois, em primeiro lugar, tenho culpa de ser mais inteligente que todos à minha volta. (Considerei-me, continuamente, mais inteligente que todos à minha volta, e às vezes — acreditam? — tinha até vergonha disso. Pelo menos, a vida toda olhei de certo modo para o lado e nunca pude fitar as pessoas pelos olhos)”

Fiódor Dostoiévski, Memórias do Subsolo.

O processo de autoconsciência do homem do subsolo transforma todo o resultado em inércia. Ele explica que, quando tenta encontrar uma “causa primeira” para agir, cada causa puxa outra anterior, e depois outra, e outra, “até o infinito”. Mas isso paralisa a vida. O trecho do livro que eu acabei de citar nos ajuda a entender uma grande parte da consciência do homem do subsolo, que ele chama de consciência hipertrofiada. Nas palavras de Joseph Frank, o biógrafo de Dostoiévski:

“O homem do subsolo aparece enredado num conflito entre os aspectos egoístas de seu caráter e os aspectos solidários e sociáveis que também possui, mas estes últimos são continuamente reprimidos em favor dos primeiros.”

Joseph Frank, Dostoiévski: Um Escritor em Seu Tempo.

Quando ele pensa na possibilidade de agir por egoísmo, seus impulsos altruístas e sociais fazem com que ele pense que aquele tapa na cara foi devido ao determinismo das leis da natureza que estão condicionados os homens de ação, que é como ele chama os homens que interrompem todos os questionamentos e raciocínios que os fariam ficar na inércia.

Os homens de ação avançam nas situações como um touro, e só um muro os detém; e, quando encontram o muro, eles se acalmam — porque o muro dá uma solução, algo definitivo. Já o homem do subsolo transforma o muro em pretexto. Ele diz que, para os homens de consciência hipertrofiada, o muro vira desculpa para recuar — uma desculpa que, no fundo, todos os homens de consciência hipertrofiada adoram ter. Olha o que o homem do subsolo escreve:

“Como é que faz, por exemplo, aquele que sabe vingar-se e, de modo geral, defender-se? Quando o sentimento de vingança, suponhamos, se apodera dele, nada mais resta em seu espírito, a não ser este sentimento. Um cavalheiro desse tipo atira-se diretamente ao objetivo, como um touro enfurecido, de chifres abaixados, e somente um muro pode detê-lo. Pois bem, um homem desses, um homem direto, é que eu considero um homem autêntico, normal, como o sonhou a própria mãe carinhosa, a natureza, ao criá-lo amorosamente sobre a terra. Invejo um homem desses até o extremo da minha bílis.”

Fiódor Dostoiévski, Memórias do Subsolo.

O detalhe mais humilhante é que o homem do subsolo considera o seu próprio tipo, ou seja, os homens de consciência hipertrofiada, como um camundongo de consciência hipertrofiada. E quando esse camundongo é ofendido (o que acontece quase sempre), ele até deseja vingança, mas vai acumulando dúvidas, perguntas, até não agir. E, por fim, só resta sacudir a patinha com um desprezo que ele mesmo não acredita, e voltar para o subsolo, onde o rancor vai cada vez mais se acumulando. 

O homem do subsolo se diz consciente e observador, mas, no fundo, ele vive num estado de ofensa crônica. Ele interpreta o mundo como um ataque, e como não sabe se colocar com simplicidade, se vinga com ironia, com desprezo, com afastamento, com aquele silêncio punitivo. Só que isso não é independência. É só uma autoproteção disfarçada de filosofia.

O infeliz camundongo já conseguiu acumular, em torno de si, além da torpeza inicial, uma infinidade de outras torpezas, na forma de interrogações e dúvidas […] Naturalmente, resta-lhe sacudir a patinha em relação a tudo e, com um sorriso de fictício desprezo, no qual ele mesmo não acredita, esgueirar-se vergonhosamente para a sua fendazinha. Ali, no seu ignóbil e fétido subsolo, o nosso camundongo, ofendido, machucado, coberto de zombarias, imerge logo num rancor frígido, envenenado e, sobretudo, sempiterno. Há de lembrar, quarenta anos seguidos, a sua ofensa, até os derradeiros e mais vergonhosos pormenores […]”

Fiódor Dostoiévski, Memórias do Subsolo.

O homem do subsolo é alguém profundamente racional, mas é uma razão que o paralisa. A partir de uma perspectiva da psicologia analítica, pode-se dizer que o homem do subsolo possui o ego totalmente identificado com o Logos, o princípio racional, sentencioso e ordenador da realidade. Só que uma pessoa totalmente identificada com esse polo da realidade, reprime o Eros, o princípio da sensibilidade, do sentimento e do vínculo. 

No homem, Eros é relacionado com a anima, a imagem do feminino no seu interior, que atua justamente como uma ponte para os conteúdos do inconsciente. Se um homem negligenciar sua anima, isto é, o seu contato com o sentimento, ela voltará deturpada como capricho, como irritação, como fantasia, como desorganização afetiva, isto é, com todas as características de um feminino desorganizado. A terapeuta junguiana Marie-Louise von Franz escreve que:

“Anima é a personificação de todas as tendências psicológicas femininas na psique do homem — os humores e sentimentos instáveis, as intuições proféticas, a receptividade ao irracional, a capacidade de amar, a sensibilidade à natureza e, por fim, mas não menos importante, o relacionamento com o inconsciente.”

Carl Jung/Marie-Louise von Franz, O Homem e Seus Símbolos.

Isso ajuda a entender por que o homem do subsolo está preso em seu próprio lamaçal, como ele mesmo fala, pois o sentimento, embora esteja em algum lugar do seu inconsciente, está solto, reativo e se misturando com outros conteúdos até virar um veneno.

É como se a função relacional (o Eros) não estivesse disponível como um possível caminho; então ele tenta compensar com controle mental. Só que essa compensação sempre é prejudicial porque o sujeito passa a viver numa mistura de orgulho ferido com autoacusação, oscilando entre querer ser visto e odiar ser visto — um padrão típico da vida afetiva não integrada.

O homem do subsolo se ofende e ao mesmo tempo se orgulha da sua própria condição porque sua anima virou um complexo autônomo de sua personalidade e o está possuindo. E aqui entra um ponto central sobre projeção, que costuma aparecer quando a anima não foi reconhecida como um aspecto interior do homem. Quando algo dentro da nossa psique está causando um certo desconforto, a tendência é perceber como sendo algo externo e, por isso, a imagem da anima costuma ser jogada no mundo, na tentativa de aliviar o sofrimento. O homem do subsolo já vive numa tensão contínua entre desejo de contato e o medo de contato. Ele quer uma saída do isolamento, mas precisa que essa saída não o exponha. O resultado disso é que ele idealiza a possibilidade de relação (como fantasia de sentido) e, ao mesmo tempo, despreza a relação concreta (como ameaça ao seu controle).

Isso fica mais claro no episódio do homem do subsolo com a prostituta Liza. Quando o homem do subsolo visita um bordel e faz sexo com Liza, ele, por alguns instantes, abre os seus sentimentos para ela. Ele tenta impressioná-la com a sua intelectualidade; e isso é bem comum de um homem fazer quando está diante de uma mulher; ele exerce a sua função do sentir e começa a dizer coisas bobas e sentimentais na intenção de expor o seu feminino. 

Mas como a anima se trata da personificação do feminino, a mulher pode se ressentir, assumindo essa investida da anima do homem como se fosse um confronto com o seu Eros natural. É nesse momento que Liza desarma todas as defesas do homem do subsolo e deixa ele totalmente possuído pelo ressentimento e por sua anima, olha como acontece o diálogo:

“— O que foi que você… — começou ela, de repente, e se deteve. Mas eu já compreendera tudo: em sua voz tremia algo diverso, que não era abrupto, grosseiro, obstinado, como há pouco, mas algo suave e pudico, tão pudico que eu mesmo, de repente, senti certa vergonha perante ela, senti-me culpado.

— O quê? — perguntei com uma curiosidade carinhosa.

— É que você…

— O quê?

— É que você… fala como se estivesse lendo um livro — disse, e um tom de mofa pareceu ouvir-se, de novo, em sua voz. Esta observação espicaçou-me dolorosamente. Não era o que eu esperava.”

Fiódor Dostoiévski, Memórias do Subsolo.

O tipo psicológico do homem do subsolo, na tipologia de Jung, é o pensamento, então sua função inferior é a do sentimento. E a anima ataca justamente a função inferior do homem. Nesse momento, o homem do subsolo lança todas as diatribes sórdidas do seu feminino em direção a Liza, tentando menosprezá-la e insultar a sua condição de prostituta.

Quando a anima não é integrada como uma relação com o inconsciente, ela aparece justamente como bipolaridade afetiva — um dia, ela é uma musa inspiradora, uma fada bondosa, mas no outro dia ela é uma bruxa — e o ego fica refém dessa maré, achando que está defendendo princípios quando, muitas vezes, está defendendo a própria ferida. E quando a pessoa está no subsolo, isso se volta como um prazer em contradizer, uma necessidade de “não ceder” e uma defesa da identidade a qualquer custo.

Depois disso, o homem do subsolo insulta Liza de todos os jeitos e desarma suas defesas. Vendo que conseguiu se sobressair perante ela, ele dá o seu endereço à Liza e pede para visitá-lo algum dia. Aqui, Joseph Frank nos ajuda a perceber por que esse gesto foi a verdadeira perdição para o homem do subsolo:

“Esse gesto é sua perdição e proporciona a Dostoiévski seu desfecho, pois no momento em que emerge da névoa autoadulatória de seu charlatanismo, o homem do subsolo é acometido de terror. Não pode suportar a ideia de que Liza possa vê-lo como ele de fato é — enrolado em seu roupão gasto, vivendo em seu esquálido ‘subsolo’, sob o total domínio de seu criado, o impassível e digno Apollon, um camponês leitor da Bíblia. Nem por um momento lhe ocorre que poderia mesmo assim tentar ajudá-la; está tão preocupado com sua aparência aos olhos dela que a realidade da situação de Liza desaparece inteiramente de vista.”

Joseph Frank, Dostoiévski: Um Escritor em Seu Tempo.

Quando o homem do subsolo se sente exposto, ele transforma o outro em culpado pela própria vergonha. O outro vira um espelho da sua própria anima. E, em vez de olhar para o espelho e reconhecer a ferida, ele quebra o espelho, ele nega sua anima, a via para o seu sentimento.

Quando a Liza aparece na casa dele, trazendo exatamente o que ele diz que queria — um encontro para que ele saia do subsolo — ele desaba numa mistura de vergonha e raiva. Ele se sente humilhado, tentando se cobrir com o roupão enquanto a ingenuidade dela começa a enfurece-lo. O homem do subsolo então começa a lançar todos os insultos diante de Liza, como se ele estivesse tentando se defender de algo que ela descobriu, como se ele fosse um charlatão que tivesse sido pego. Olha o que ele fala:

“Nestes três dias, tremi de medo que você viesse. E sabe o que me inquietou, de modo particular, em todos esses três dias? Foi que então eu me apresentei tão heroico diante de você, e de repente você me veria indigente, repulsivo, com este roupãozinho esfrangalhado. Eu lhe disse, há pouco, que não me envergonhava da minha pobreza; pois saiba que me envergonho, sim, envergonho-me disso mais do que qualquer outra coisa; temo-a acima de tudo, mais do que se eu roubasse, porque sou tão vaidoso como se me tivessem arrancado a pele e o simples ar me causasse dor. E nunca desculparei também a você as lágrimas de há pouco, que não pude conter, como uma mulher envergonhada! E também nunca desculparei a você as confissões que lhe estou fazendo agora!”

Fiódor Dostoiévski, Memórias do Subsolo.

Só que o ponto mais perturbador disso tudo vem depois, quando ele explica a própria estrutura emocional: ele diz que amar, para ele, significava tiranizar e dominar moralmente, e que o amor, no imaginário dele, era sempre uma luta que começava pelo ódio e terminava pela subjugação. E depois disso, ele nem saberia o que fazer com a pessoa subjugada.

Logo em seguida, apesar de todas as reprimendas que o homem do subsolo joga em cima de Liza, ela, em um ato de espontaneidade, se joga em seus braços para consolá-lo. Ela foi visitá-lo com a intenção de amá-lo. Ele reconhece que ela foi à sua casa por uma espécie de salvação, por regeneração. E é aí que você entende que o homem do subsolo não é incapaz de amar por falta de sensibilidade, apesar da sua anima estar reprimida e dominando-o por completo. Ele é incapaz de amar porque ele acha que, fazendo isso, o amor o tiraria da sua posição de superioridade. 

Quando ele finalmente vislumbra uma saída do subsolo, ele volta àquela antiga história: ele prefere se sujar e se entocar cada vez mais no seu próprio lamaçal, se defendendo atrás de um arsenal de racionalizações para não deixar que nenhum sentimento suba à consciência. 

O gesto dessa repressão é quando ele tenta colocar algum dinheiro na mão de Liza, como se ela tivesse ido à casa dele para fazer um programa. O mais chocante é que ele fez isso por raiva, como ele mesmo fala: 

“Quis, ainda há pouco, mentir, escrever que eu fizera aquilo sem querer, não sabendo o que fazia, fora de mim, por tolice. Mas não quero mentir e, por isto, digo francamente que abri a mão dela e coloquei ali… por raiva. […] Mas eis o que posso dizer com certeza: cometi esta crueldade, ainda que intencionalmente, mas não com o coração, e sim com a minha cabeça má.”

Fiódor Dostoiévski, Memórias do Subsolo.

Ele transforma um gesto que poderia ser cuidado e transforma em insulto. Ele rebaixa o encontro de Liza ao nível do bordel, como se dissesse que ela não pode amá-lo porque ela é só uma mercadoria. Não porque ele realmente a vê assim — mas porque ele precisa vencer a sensação de estar precisando dela. Ele precisa esmagar a chance de vínculo antes que o vínculo o esmague. E isso é um padrão muito comum nas pessoas de consciência hipertrofiada: elas não suportam dever algo emocionalmente a alguém. Ela prefere virar cruel a virar dependente de alguma forma.

Depois disso, Liza, se sentindo totalmente insultada, consegue deixar o dinheiro em cima de uma mesa e sai da casa do homem do subsolo. Mas ele nota o que ela fez e tenta alcançá-la para se desculpar. Aqui, mais uma vez, ele estava prestes a sair do subsolo, alegando que precisa de ajuda, que precisava do outro para se livrar do seu amor-próprio infernal. Só que, mais uma vez, por uma questão de puro orgulho, ele se justifica, e faz o que Joseph Frank chamou de racionalização diabólica, olha o que o homem do subsolo pensa:

“‘E não será melhor, não será melhor’, fantasiava eu já em casa, depois, abafando com a imaginação a dor viva que me ia na alma, ‘não será melhor se ela levar consigo agora e para sempre a afronta? A afronta… mas é uma purificação; é a mais corrosiva e dolorida consciência! Amanhã mesmo eu sujaria com o meu ser a sua alma e cansaria o seu coração. Mas a afronta, agora, não se extinguirá nela nunca mais e, por mais repulsiva que seja a imundice que a espera, a afronta há de elevá-la e purificá-la… por meio do ódio… hum… e talvez pelo perdão também… Aliás, fará acaso isto com que tudo lhe seja mais leve?’. E realmente desta vez proponho já da minha parte uma pergunta ociosa: o que é melhor, uma felicidade barata ou um sofrimento elevado? Vamos, o que é melhor? Era isto que me vinha à mente […]’”

Fiódor Dostoiévski, Memórias do Subsolo.

O homem do subsolo tem lampejos de verdade, quase de transformação, mas a vaidade sempre o puxa de volta ao subsolo. Ele quer pedir perdão — mas quer garantir que não vai perder o controle. Ele quer amar — mas quer garantir que vai continuar por cima. Ele quer ser um homem de ação, mas não deixar o seu sofrimento por orgulho. Ele aproxima, se apavora, fere, se culpa, corre atrás, racionaliza e, em seguida, volta pro subsolo. E, infelizmente, muitas pessoas estão no subsolo, não por falta de instrução ou por falta de capacidade de agir, mas porque o orgulho e o prazer de sofrer superam a coragem de se redimirem.

No final, fica a pergunta: é possível sair do subsolo? Bom, Dostoiévski escreveu Memórias do Subsolo como uma paródia diante de um novo homem que estava surgindo na Rússia do século XIX; um homem que era determinado a não ter livre-arbítrio e seguir tudo o que fosse estritamente racional. E o grande lance do homem do subsolo é que ele assume justamente os pressupostos desse novo homem, que estava sendo difundindo através das ideias do materialismo, do determinismo e do positivismo da época.

O que Dostoiévski tenta mostrar com o homem do subsolo é que o ser humano não consegue racional o tempo todo, que mesmo que alguém diga o que é bom para nós, mesmo que alguém diga o devemos fazer, ainda assim, podemos recuar por mero capricho, simplesmente por orgulho, para afirmarmos um ponto. O próprio homem do subsolo explica:

“Mas o homem é a tal ponto afeiçoado ao seu sistema e à dedução abstrata que está pronto a deturpar intencionalmente a verdade, a descrer de seus olhos e seus ouvidos apenas para justificar a sua lógica. […] Pergunto-vos agora: o que se pode esperar do homem, como criatura provida de tão estranhas qualidades? Podeis cobri-lo de todos os bens terrestres, afogá-lo em felicidade, de tal modo que apenas umas bolhazinhas apareçam na superfície desta, como se fosse a superfície da água; dar-lhe tal fartura, do ponto de vista econômico, que ele não tenha mais nada a fazer a não ser dormir, comer pão de ló e cuidar da continuação da história universal — pois mesmo neste caso o homem, unicamente por ingratidão e pasquinada, há de cometer alguma ignomínia.”

Fiódor Dostoiévski, Memórias do Subsolo.

Só que o homem do subsolo assume esses pressupostos até às últimas consequências. Se alguém estava tentando prever o homem, colocá-lo em uma planilha e mostrar que ele pode ser determinado, então ele iria se degradar e se entocar no seu lamaçal por capricho, por mero possibilidade de fazê-lo, apenas para não ser um tecla de piano. Só que isso assume a sua personalidade de tal forma que passa direcioná-lo à sua perdição. Tentando assumir suas vontades e seus caprichos, ele se torna orgulhoso, com um amor-próprio doentio e paranoico. 

E para Dostoiévski, a única solução para o homem do subsolo seria se desapegar de sua personalidade e se voltar para o outro, se renunciar e se voltar para Cristo, cujo objetivo é obstruído justamente pela nossa personalidade. Muita gente acha que Dostoiévski era ateu, mas a partir da sua volta dos trabalhos forçados na Sibéria, ele passa por uma experiência religiosa e suas convicções a respeito de Cristo ficam cada vez mais fervorosas. Para Dostoiévski, a única maneira de sermos salvos é abdicarmos de nós mesmos e nos entregarmos a Cristo:

“Se alguém me provasse que Cristo está fora da verdade, e que, na realidade, a verdade está fora de Cristo, então eu preferiria permanecer com Cristo a ficar com a verdade”

Carta de Dostoiévski a Natália Fonvízina.

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