Ninguém consegue ser “desapegado” —

Ninguém consegue ser “desapegado” — Qual seu tipo de apego?

Nós queremos sofrer o mínimo possível, então tentamos não criar muitas expectativas sobre algo nem sobre alguém. Nós queremos estabilidade, então tentamos criar uma autossuficiência que muitas vezes beira a fantasia, para não precisar de ninguém. Só que o ser humano não foi construído para viver sem nenhum tipo de vínculo. Por mais paradoxal que pareça, nós precisamos dos outros até para nos conhecer; não somos deuses, pois como escreveu C. S. Lewis:

“Por outro lado, o que pode ser menos parecido com qualquer coisa que cremos a respeito da vida de Deus que o amor-Necessidade? Ele não tem falta de nada, mas o nosso amor-Necessidade, como viu Platão, ‘é o filho da Pobreza’. Em nossa conscientização, é o reflexo exato da própria real natureza. Nascemos desamparados. Logo que estamos totalmente conscientes, descobrimos a solidão. Precisamos dos outros física, emocional e intelectualmente; precisamos dos outros se queremos saber qualquer coisa, até de nós mesmos.”

C. S. Lewis, Cristianismo Puro e Simples.

A nossa mente não é uma máquina de desligar afetos quando convém; ela é um sistema complexo de conexões. E quando você tenta viver como se isso não fosse importante, você não elimina o sofrimento, você só o intensifica, mentindo para si mesmo.

Hoje em dia, se difundiu a ideia de que a autossuficiência, a solidão e o desapego são trilhas para uma vida de paz e sossego. E num mundo em que tanta gente já se sentiu deixada de lado, trocada, ignorada, rejeitada ou simplesmente não escolhida, essa promessa soa quase como um alívio. Mas isso, muitas vezes, não passa de uma racionalização justamente para não lidar com as vicissitudes que os relacionamentos humanos carregam. Muitas pessoas não estão buscando liberdade emocional; elas estão buscando anestesia emocional. E anestesia não é paz — é letargia, pura ausência.

Perceba como isso costuma acontecer no cotidiano. A pessoa se decepciona, sofre, e decide que o problema foi ter se envolvido demais. Então ela formula uma lei interna, em que ela se proíbe de se apegar. Só que, na prática, essa lei não se sustenta. Ela entra em relações já pronta para sair. Ela não se entrega, não se compromete, não pede, não admite saudade, não admite necessidade. E chama isso de autocontrole, quando muitas vezes é medo.

Aqui é importante separar duas coisas que parecem iguais, mas são opostas. Uma coisa é você ter autonomia e conseguir ficar bem sozinho quando é preciso. Nós precisamos da solidão tanto quanto do contato com os outros, é nela que nos desenvolvemos e nos avaliamos. Mas a outra coisa é você usar a solidão como uma armadura para não precisar lidar com o risco natural de se formar vínculos e se relacionar.

O problema não é você querer sofrer menos.Todos nós queremos. O problema é acreditar que a única forma de sofrer menos é se importando menos. Porque se importar é inevitável. A pergunta não é “se” você vai se apegar; porque uma hora você com certeza vai; a pergunta é “como” você vai se apegar.

Quando a gente fala em “apego”, muita gente imagina automaticamente uma pessoa carente, grudenta, dramática, que “precisa” do outro para existir em todas as circunstâncias. Só que isso é uma caricatura. Apego, no sentido psicológico, não é fraqueza, é um termo técnico para explicar um mecanismo básico de sobrevivência emocional. É o modo como o seu sistema nervoso aprende a buscar segurança.

E foi no século passado, a partir das ideias da psicanálise e da etologia — os estudos sobre o comportamento animal —, que o psicanalista britânico John Bowlby formulou sua teoria sobre o apego. Ele pensou no apego como um “sistema” que se ativa quando existe ameaça, distância ou alguma situação de estresse, e desativa quando há proteção e proximidade suficientes. Para ele, o apego não é uma patologia, é um modo de sobrevivência dos animais. 

Só que foi a partir dos trabalhos de John Bowlby que a psicóloga norte-americana Mary Ainsworth desenvolveu um experimento que ficou conhecido como “situação estranha”, onde um pesquisador observa a reação de uma criança quando sua mãe sai de um quarto e a deixa sozinha com um observador. A ideia da “situação estranha” é observar como uma criança explora o ambiente na presença da sua mãe, na ausência dela e na presença de um estranho, revelando, então, o seu padrão afetivo.

Foi com a “situação estranha” que Mary Ainsworth conseguiu classificar três tipos de apego, com base no comportamento das crianças durante o experimento: o apego seguro, o apego ansioso-ambivalente e o apego ansioso-evitativo. Mais tarde, uma aluna de Mary adicionou o apego desorganizado na classificação. Estes três últimos fazem parte das classificações dos apegos ansiosos, enquanto o primeiro tipo de apego, o seguro, oferece uma base para um comportamento emocionalmente estável.

Inicialmente, a teoria do apego foi desenvolvida para explicar o comportamento afetivo infantil, e só mais tarde foi compreendido que os padrões de relacionamento que vivenciamos durante a infância influenciam e muito o modo como nos relacionamos na vida adulta.

E para explicar cada tipo de apego, vou usar alguns personagens da literatura mundial.

Começando pelo apego seguro. O que é uma pessoa emocionalmente segura? Muita gente imagina uma pessoa calma, sempre equilibrada e que quase não entra em conflitos. Mas segurança emocional não é se abster de conflitos quando eles precisam ser encarados, muito menos ausência de falhas. Uma pessoa emocionalmente segura sabe que toda formação de vínculo está sujeito à vulnerabilidades e, principalmente, a falhas.

Formar vínculos exige aproximação, mas sem se sentir pequeno por isso; conseguir lidar com frustração sem transformar isso numa neurose. E na literatura, temos o exemplo de Fitzwilliam Darcy, o sr. Darcy, personagem do romance Orgulho e Preconceito de Jane Austen.

Sr. Darcy é um jovem muito rico, dono de uma propriedade na Inglaterra herdada depois do falecimento do seu pai. À primeira vista, Darcy é descrito no romance como alguém rígido, orgulhoso e com uma postura defensiva. E isso fica muito aparente no começo do romance, quando o amigo de Darcy, o sr. Bingley, decide alugar uma propriedade e dar um baile de boas-vindas, onde Darcy, que está presente na festa, faz alguns comentários depreciativos a respeito de Elizabeth Bennet, protagonista do romance e uma das filhas do Sr. Bennet, cuja posição social é muito inferior à de Darcy. 

Mas a questão do apego seguro não é nascer pronto; é justamente desenvolver um modo mais consistente de se relacionar com a verdade das coisas, com o outro e consigo mesmo. Ao longo da história, Darcy é obrigado a encarar e entender o impacto social que causa devido a sua riqueza, sem recorrer a manipulação ou negar sua condição.

A pessoa cujo apego é o seguro consegue se regular interiormente antes de agir. Isso não significa que ele não tenha medo, não tenha ciúme, não tenha insegurança. Significa que essas emoções foram trabalhadas a cada relacionamento e elas não comandam a sua vida. Na infância, a criança com apego seguro demonstra ansiedade ao ser separada de seu cuidador, mas se acalma sem maiores problemas quando ele retorna. Ela explora o ambiente mas sabe recorrer ao cuidador quando se sente ameaçada.

Só que o verdadeiro caráter de Darcy vai sendo mostrado ao longo do romance, principalmente quando entendemos que grande parte da visão que tínhamos dele era a partir da perspectiva da própria Elizabeth Bennet, que julgava as pessoas muitas vezes com base em uma primeira impressão; o preconceito dela a impediu de entender o orgulho de Darcy. A partir das suas ações para ajudar a família dela, do modo como ele trata cordialmente os seus criados e da maneira como ele mesmo foi criado, Elizabeth entende o caráter de Darcy. Em um trecho do livro, ele mesmo explica a sua condição: 

“Toda a minha vida fui um ser egoísta, se não na prática, pelo menos nos meus princípios. Em criança me ensinaram o que era direito, mas não me ensinaram a corrigir o meu gênio. Deram-me bons princípios. Mas deixaram-me praticá-los orgulhosamente. Infelizmente, sendo durante muito tempo único filho, e mais tarde único filho homem, fui mimado pelos meus pais e, embora eles fossem bons, meu pai sobretudo, que era a benevolência em pessoa, permitiram, encorajaram e quase me ensinaram a ser egoísta e tirânico, a pensar apenas nas pessoas da minha família e desprezar todos os outros e a pensar com desprezo no bom senso e valor das outras pessoas, comparados com os meus. Assim fui eu dos oito aos vinte anos. E se não fosse a minha querida e adorável Elizabeth, talvez ainda não me tivesse mudado. Que é que não lhe devo? A lição que me deu foi certamente a princípio muito dura, mas muito vantajosa. Por suas mãos recebi a humilhação que devia.”

Jane Austen, Orgulho e Preconceito.

Darcy foi se compreendendo mais à medida que conhecia Elizabeth. Em outras palavras, a pessoa com o apego seguro não é perfeita, mas íntegra. Ela entende que a individualidade do outro é uma base para confrontar algumas certezas do ego que se demonstram equivocadas; ela entende que o outro é fundamental para perceber alguns pontos cegos na própria consciência, pois como escreveu o terapeuta junguiano James Hollis:

“Essa é a principal contribuição do relacionamento para o processo de individuação. O diálogo entre o eu e o outro é uma psicodinâmica da qual vem o crescimento. Eu sou mais do que eu porque você me obriga a subir e sair da minha consciência limitada para reconhecê-lo como Outro, e vice-versa.”

James Hollis, Projeto Éden.

Para exemplificarmos o próximo tipo de apego, o apego ansioso-ambivalente — também chamado apenas de apego ansioso —, usaremos a personagem Catherine Earnshaw, do romance O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë.

Pode-se dizer que Catherine é quase uma personificação do que Jung chama de ser possuído por um complexo. Um complexo, na teoria junguiana, é um núcleo psíquico carregado de afetos, memórias e comportamentos que são ativados diante de algumas experiências semelhantes entre si que passamos durante a vida. Até termos consciência dos seus conteúdos, não vamos conseguir nos livrar deles. Mas a questão é que os complexos são tão poderosos que é como se um deus estivesse tomando conta da nossa psique. Por isso Jung diz que não somos nós que temos complexos, são eles que nos têm:

“[…] o que não é bem conhecido e, embora teoricamente seja de maior importância, é que os complexos podem ‘ter-nos’. […] Toda constelação de complexos implica um estado perturbado de consciência. Rompe-se a unidade da consciência e se dificultam mais ou menos as intenções da vontade, quando não se tornam de todo impossíveis.”

Carl Jung, A Natureza da Psique.

E Catherine Earnshaw é justamente essa personagem intensa, volátil, impetuosa e limítrofe. O Morro dos Ventos Uivantes é o nome da mansão inóspita e isolada onde ela viveu durante toda a sua infância, junto do seu pai, seu irmão, Hindley, e alguns criados. Acontece que, certo dia, depois que seu pai volta de viagem à negócios, um menino está acompanhado junto dele. Este é o Heathcliff, talvez um dos personagens mais demoníacos da história da literatura.

Ao longo dos anos, Catherine e Heathcliff desenvolvem um vínculo tão visceral que é como se fossem um só. O jeito que os dois se envolvem é tão compulsivo que a perda de um levaria a desintegração do outro. E o apego ansioso é uma mistura de paixão com imprevisibilidade. A pessoa sente a presença e a ausência do outro ao mesmo tempo, como se ela pudesse desaparecer a qualquer instante. Por isso, no adulto com apego ansioso, o amor vem junto com a vigilância. A intimidade vem junto com medo.

E isso fica claro no romance quando Catherine conhece outra propriedade pertencente a um homem chamado Edgar Linton, que é a antítese de Heathcliff. Enquanto Heathcliff é vingativo, sórdido e austero, Linton é calmo, compassivo e covarde. Por uma questão de segurança e estabilidade social, Catherine decide se casar com Linton em vez de Heathcliff. Heathcliff, por sua vez, foge do Morro dos Ventos Uivantes depois que o irmão de Catherine se torna o novo senhor da propriedade quando o pai falece.

A tragédia de Catherine é a de tentar sustentar duas verdades ao mesmo tempo: ela ama a segurança que Edgar Linton oferece, mas sente que sua essência está ligada a Heathcliff. Ela se vê presa entre as expectativas sociais, os impulsos intensos e a incapacidade de integrar seus desejos de forma madura. Essa cisão interna vai crescendo até virar um colapso emocional, especialmente quando Heathcliff retorna para O Morro dos Ventos Uivantes totalmente transformado — com dinheiro, poder e com a intenção de se vingar do irmão de Catherine depois dos maus-tratos por mero ciúme que havia recebido quando ele se tornou o novo senhor.

O problema do apego ansioso, por incrível que pareça, não é a questão dos afetos desordenados, mas o sofrimento do amor misturado com insegurança. Catherine sofre porque transforma o amor numa ameaça. Ela associa amor com falta. Em um dos trechos mais perturbadores da literatura, ela expõe o que seria a essência do apego ansioso:

“Meu amor por Linton é como a folhagem de um bosque: o tempo o transformará, tenho a certeza, da mesma forma que o inverno transforma o arvoredo. O meu amor por Heathcliff lembra as rochas eternas: proporciona uma alegria pouco visível, mas é necessário. […] eu sou Heathcliff! Ele está sempre, mas sempre, no meu pensamento; não como uma fonte de satisfação, que eu também não sou para mim mesma, mas como eu própria.”

Emily Brontë, O Morro dos Ventos Uivantes.

Vamos falar agora sobre o apego evitativo, e ninguém mais personificou com tanta expressão esse tipo de apego quanto Meursault, personagem do livro O Estrangeiro, de Albert Camus.

Se você já leu O Estrangeiro, você lembra do impacto que Meursault causou em você. Ele está presente, mas parece não estar. Ele vive os acontecimentos como quem observa de longe — como se ele estivesse no mundo, mas não fizesse parte dele, nem ele dele mesmo. A primeira frase do livro já causa uma certa surpresa, onde Meursault diz o seguinte:

“Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: ‘Sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames.’ Isso não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem.”

Albert Camus, O Estrangeiro.

E o que mais confunde é que, à primeira vista, isso pode parecer uma força da personagem: pode parecer estoico, sem dramas ou apegos. Só que, quando você olha com calma para a realidade, o que você enxerga é pura desconexão para evitar o sofrimento.

A pessoa de apego evitativo não é alguém que “não precisa de ninguém” por que se sente superior. Muitas vezes, é alguém que aprendeu cedo demais que precisar de alguém não era seguro, que demonstrar carinho não adiantava, que pedir alguma coisa podia levar a rejeição, julgamento ou frustração. O experimento da Mary Ainsworth demonstrou que a criança evitativa reagia pouco ou não reagia quando o cuidador voltava para a sala; muitas vezes a criança até mesmo resistia ao contato com ela.

A partir disso, dá para dizer que o sistema emocional do evitativo encontra a saída na redução da necessidade consciente. Não porque a necessidade desapareceu, mas porque ela foi empurrada para o inconsciente, para um lugar onde não atrapalhe a sua vida.

No dia seguinte após o enterro de sua mãe, Meursault narra um dia comum, como todos os outros. Ele conta sobre sua rotina como se nada tivesse acontecido. O segundo capítulo do livro continua assim: 

“Custei a levantar-me, pois estava cansado do dia de ontem. Enquanto fazia a barba, perguntei-me o que iria fazer e decidi tomar um banho de mar. Peguei um bonde para ir ao centro de lazer do porto. Uma vez lá, mergulhei no canal. Havia muitos jovens…”

Albert Camus, O Estrangeiro.

Como esse comportamento aparece na vida real? A pessoa diz que quer paz, mas está construindo anestesia. Diz que quer maturidade, mas está evitando vulnerabilidades. Diz que não cria expectativas, mas, no fundo, também não se desfaz da armadura. E isso produz uma existência funcional e ao mesmo tempo seca: ela trabalha, conversa, responde… mas não se entrega. Ela vive como se um sol estivesse a deixando letárgica o tempo todo.

E é assim que Meursault se expressa em um dos trechos mais surpreendentes do livro. Enquanto ele está andando com alguns amigos na rua, um grupo de árabes fere um deles e, depois de um tempo, Meursault decide voltar ao local, onde encontra um dos árabes e resolve matá-lo.

O cenário nessa cesa é descrito com um calor extremo, luz muito forte, o sol “martelando” a cabeça dele; suor, desconforto físico e por aí vai. O árabe está com uma faca; a lâmina reflete a luz e isso intensifica a sensação de cegueira e pressão. Meursault, que estava com a arma, fica num estado de tensão meio hipnótico, como se o corpo estivesse reagindo mais ao ambiente do que a uma decisão racional e clara. 

A “justificativa” que Meursault dá — especialmente quando é interrogado e depois no julgamento do seu crime — e que ele insiste, de maneira quase desconcertante, que ele fez o que fez “por causa do sol”: o calor, a luz, a sensação física insuportável, a lâmina brilhando, como se aquele conjunto tivesse empurrado seu corpo a agir. Ou seja, em vez de apresentar um motivo moral ou emocional, ele descreve um motivo sensorial, se afastando cada vez mais de lidar com as próprias emoções e sentimentos. Ele vive mais no registro do imediato físico do que no registro das justificativas emocionais e sociais que as pessoas esperam.

No final, o evitativo aprendeu que o caminho para não se frustar é reprimir as emoções. Quando a situação exige vulnerabilidade (como no luto, na culpa ou no medo), a pessoa tende a reduzir a intensidade consciente da emoção, mas não é que ela não sinta nada, é que sente sem acessar o que precisa, sem dar o devido nome para aquilo. Só que, tudo aquilo que é reprimido, uma hora volta à consciência como um sintoma. E nesse momento que não tem mais como fugirmos daquilo que nos causa sofrimento.

E se Meursault é um exemplo de apego evitativo, Hamlet, personagem da peça de Shakespeare, é um exemplo do apego desorganizado. Se Meursault tinha rejeição à intimidade emocional, Hamlet tem medo dela. Ele sente demais, pensa demais, desconfia demais, hesita demais. Ele quer agir, mas trava. Quer se aproximar, mas se protege. E por isso ele ilustra o apego desorganizado, marcado por um sistema emocional que não consegue construir uma estratégia estável para se sentir seguro com alguém.

Na peça de Shakespeare, Hamlet é o príncipe da Dinamarca que, numa noite, recebe a visita do fantasma de seu pai, que diz ter sido assassinado pelo irmão dele, o tio de Hamlet, para se casar com sua mãe e assumir o trono. A partir daí, Hamlet entra num estado de tensão quase permanente onde quer justiça, mas não confia em ninguém; ele quer agir, mas paralisa, pois passa a desconfiar até da própria percepção. Afinal, o que apareceu para ele foi realmente o espírito do seu pai, ou um demônio, ou apenas uma projeção sua?

Hamlet vive em um mundo onde sua base segura colapsou: a morte do pai e o casamento rápido da mãe com o tio indica que o mundo íntimo pode ser instável e traiçoeiro. Os cuidadores, que deveriam ser “um porto seguro”, viram uma fonte de ameaça e confusão e isso se expande para a forma como ele enxerga o mundo.

O apego desorganizado aparece quando o vínculo com o cuidador, em algum momento da vida, foi vivido com uma mistura confusa de necessidade e ameaça. É como se a figura que deveria oferecer segurança também fosse fonte de medo, imprevisibilidade ou desorientação emocional.

Sob alguma ameaça, a pessoa com o apego evitativo se fecha, a pessoa com o apego ansioso intensifica a emoção. Já a pessoa com apego desorganizado não sabe o que fazer com aquilo. Ela alterna entre as duas coisas e entra em conflito interno por causa disso.

O episódio mais emblemático que ilustra o apego desorganizado é o relacionamento de Hamlet com Ofélia. Ofélia é uma jovem da corte dinamarquesa e filha de Polônio (o conselheiro do rei). Hamlet já tinha um certo relacionamento com Ofélia, mas depois da morte do pai, Hamlet passa a viver num estado de desconfiança geral, como se a corte inteira fosse apenas um teatro. Nesse clima, Ofélia deixa de ser apenas a Ofélia e passa a ser também objeto de desconfiança.

Só que o golpe maior é quando Polônio usa Ofélia como “instrumento” para observar Hamlet, e a corte tenta entender se a instabilidade dele tem a ver com amor. Isso coloca Ofélia numa posição impossível de lidar: ela está entre o pai (que é a autoridade) e Hamlet (que é o seu afeto), e qualquer escolha vira a traição de um lado. Ela não tem liberdade emocional real para uma das relações. É como se a peça fosse um mundo de indecisões e incertezas. E Hamlet percebe — ou pelos menos intui — que há olhares por trás, que há alguma armadilha e que Ofélia pode estar sendo usada. Mesmo que Ofélia não queira feri-lo, o simples fato de ela estar presa ao jogo já é suficiente para acionar a desconfiança dele.

O resultado é um relacionamento que não chega a amadurecer. Em vez de se tornar um lugar de apoio no luto, vira um lugar de medo. Hamlet não consegue se entregar; Ofélia não consegue se proteger; e o que poderia ser um vínculo reparador vira mais uma motivo da própria destruição, tanto de Hamlet quanto de Ofélia. Nesse sentido, Hamlet lembra muito o homem do subsolo, do romance de Dostoiévski, onde a sua salvação poderia ter vindo da ajuda do outro, mas assim como Hamlet, ele foi vaidoso demais para buscar a redenção.

Resumindo os tipos de apego: Sr. Darcy simboliza o apego seguro, em que é possível se vincular com consistência, suportar frustração e manter a identidade sem precisar se isolar. Catherine simboliza o apego ansioso, em que a proteção vem da busca intensa por garantia e proximidade para afastar o medo de abandono. Meursault representa o apego evitativo, em que a proteção vem pela distância emocional e pela redução da vulnerabilidade; e Hamlet representa o apego desorganizado, em que desejo e o medo de formar vínculos se alternam, gerando oscilação, suspeitas e paralisação.

Quando a vida começa a exigir de você uma resposta, cada pessoa com um tipo de apego reage como se estivesse protegendo alguma coisa valiosa. O evitativo protege a autonomia como se proximidade fosse encarada como uma invasão. O ansioso protege o vínculo como se distância fosse um tipo de abandono. O desorganizado tenta proteger os dois ao mesmo tempo — e por isso entra em paranoia. O seguro, por outro lado, não é alguém sem medo; é alguém que aprendeu a sustentar o medo sem precisar se destruir ou destruir a relação com os outros. No final, a maturidade real não é ausência de necessidade, é a capacidade de atravessar essas necessidades com integridade e sem excessos. 

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