A pessoa que abandona tudo que começa — puer aeternus
Transcrição do vídeo
“Onde há sentimentalismo, em geral há também uma certa quantidade de brutalidade.”
Puer Aeternus, Marie-Louise von Franz.
Tente imaginar uma criança. Se eu pedisse para você descrevê-la psicologicamente, talvez você dissesse que uma criança é bastante imaginativa. A fantasia tem muito peso, o faz-de-conta é quase que natural e tudo que elas olham pode vir a ser qualquer outra coisa. Elas também são imediatistas, não muito tolerantes com frustrações e largam as coisas na primeira dificuldade. E também não são responsáveis, e nem podem ser. Quem responde por elas são os pais, os adultos, e por isso elas são também muito influenciáveis e vulneráveis, tanto fisicamente quanto afetivamente.
Certo, agora tente imaginar um deus. E se eu também pedisse para você descrevê-lo psicologicamente, talvez você dissesse que ele é onipotente e que não está submetido às limitações de um ser humano. Ele também está fora do tempo e não envelhece como nós. Está acima das regras formais, sendo que, muitas vezes, é ele quem dita as leis. Outra coisa que você poderia pensar é associar um deus com a imagem de perfeição, no sentido de ser mais, estar além e acima de qualquer coisa.
Pois bem, mas e se agora você tentar juntar os dois e imaginar uma criança divina, qual será o resultado? Quando a personalidade de um indivíduo junta os elementos de uma criança e os elementos de um deus, o que temos é uma atitude psicológica que a psicologia analítica descreve como sendo a manifestação do arquétipo do puer aeternus, um termo latino traduzido para “eterna juventude”.
O termo aparece de forma conceituada já na antiguidade, em uma série de Poemas chamados de Metamorfoses, do poeta romano Ovídio, escritos no primeiro século a.C. Porém, quem transforma esse conceito em um estudo específico é a terapeuta junguiana Marie-Louise von Franz a partir dos escritos de Jung sobre o arquétipo da criança divina. Posteriormente, outro psicólogo junguiano, chamado James Hillman, completou os estudos de Marie-Louise sobre o puer aeternus, que serão comentados ao longo do vídeo.
Tal como um deus, uma pessoa com esse funcionamento psicológico sente que é capaz de feitos grandiosos, é bastante inteligente e com uma incrível capacidade criativa. Mas tal como uma criança, não consegue se comprometer com a realidade por muito tempo, fugindo de responsabilidades, relacionamentos duradouros e comprometimentos que requerem algum tempo para serem realizados, como explica James Hillman:
“O puer não suporta a falta de direção, com tempo e paciência. Não sabe quase nada das estações e da espera. E quando deve descansar ou retirar-se de cena, então parece estar preso num estado atemporal, inocente dos anos que passam, em desacordo com o tempo.”
O Livro do Puer, James Hillman.
Na prática, o puer aeternus é aquela pessoa que tem mil ideias, começa vários projetos, se apaixona intensamente pelas possibilidades, mas perde o interesse assim que aparece alguma rotina, disciplina, constância ou o sacrifício de abrir mão de algumas coisas para se dedicar a outras. Qualquer coisa que exija permanência, para o puer aeternus, começa a parecer uma prisão. O compromisso é confundido com a perda de liberdade e a responsabilidade é tida quase como uma ameaça à própria identidade.
É como se de fato estivéssemos diante de um deus-criança. O puer aeternus se sente pequeno demais para qualquer objetivo e grande demais para aceitar a vida comum. Entre essa fragilidade e essa grandiosidade, o puer nunca se fixa em algum lugar: ele sempre está na espera de que uma experiência espiritual o fará compreender de vez o seu passado, ou de que um relacionamento vai salvar a sua vida, ou de que o próximo trabalho vai ser, de fato, o melhor e definitivo para ele, como complementa Marie-Louise von Franz:
“Em geral, o homem que se identifica com o arquétipo do puer aeternus permanece durante muito tempo como adolescente, isto é, todas aquelas características que são normais em um jovem de dezessete ou dezoito anos continuam na vida adulta, juntamente com uma grande dependência da mãe, na maioria dos casos.”
Puer Aeternus, Marie-Louise von Franz.
É importante diferenciar o puer aeternus de algo saudável que todos nós precisamos preservar, que é a capacidade de sonhar, de se entusiasmar ou de manter um olhar curioso e vivo sobre o mundo. E a criança interior simboliza justamente isso, a possibilidade de um futuro, como o próprio Jung escreveu:
“Um aspecto fundamental do motivo da criança é o seu caráter de futuro. A criança é o futuro em potencial. Por isto a ocorrência do motivo da criança na psicologia do indivíduo significa em regra geral uma antecipação de desenvolvimentos futuros, mesmo que pareça tratar-se à primeira vista de uma configuração retrospectiva.”
Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo, Carl Jung.
Manter um “espírito jovem” é saudável. O arquétipo do puer nos traz um significado diante do começo das coisas. É aquele eterno “por quê” das crianças, que faz com que elas busquem e se aventurem, como explica James Hillman:
“Como uma estrutura arquetípica, o puer é a inspiração do significado e traz o significado como mensagem onde quer que apareça. Um começo é sempre significativo; cheio da excitação de eros.”
O Livro do Puer, James Hillman.
O problema aparece quando essa juventude deixa de ser um estado emocional flexível e se torna uma defesa rígida contra a vida adulta. O puer quer permanecer no encantamento da infância e da adolescência sem abrir espaço para a maturidade que a vida adulta exige.
Uma grande dificuldade do puer é passar do começo das coisas. E nós podemos conceituar o começo como uma dimensão psicológica do indivíduo, dimensão essa que é muito difícil para o puer ultrapassar, pois o arquétipo do puer aeternus não lida com a permanência. É difícil mas não é impossível, e o puer precisa lidar com a contraparte desse arquétipo, que será discutida ao longo vídeo.
É interessante como a psicologia analítica entende que a humanidade é estruturada, não a partir da sua história ou de seus sistemas políticos, mas da mitológica e das suas manifestações psíquicas, tendo os arquétipos como as imagens expressas que o inconsciente produz. Um arquétipo é como se fosse uma estrutura. Pense num copo. Se despejarmos água nele, a água toma a forma do copo, mas o copo é o molde. E o arquétipo é justamente esse “copo” psicológico: ele dá forma à maneira como vivemos certas experiências humanas, mas o arquétipo em si não possui conteúdo, ele serve apenas como um receptáculo, como explica Jung:
“Há tantos arquétipos quantas situações típicas na vida. Intermináveis repetições imprimiram essas experiências na constituição psíquica, não sob a forma de imagens preenchidas de um conteúdo, mas precipuamente apenas formas sem conteúdo, representando a mera possibilidade de um determinado tipo de percepção e ação.”
Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo, Carl Jung.
Como não podemos conhecer um arquétipo em si mesmo, só damos conta de sua existência através das suas manifestações em símbolos de diferentes culturas, em pinturas, nos contos de fada, nos sonhos e, principalmente, nos mitos.
Dito isso, uma das expressões do puer aeternus é através da figura de Dionísio, o deus da mitologia grega que expressa os desejos intensos, o êxtase e o rompimentos de limites da vida. Ele é retratado geralmente como um deus jovem e que, mais tarde, foi associado aos mistérios de Elêusis, que era o nome da cidade localizada perto de Atenas onde aconteciam ritos secretos que simbolizavam o renascimento, a renovação da vida e a morte. Esse motivo da renovação também é algo que acompanha a figura da criança. Em diversas culturas antigas, há vários deuses jovens da vegetação que morrem e renascem todos os anos, acompanhando o ciclo das estações.
Na mitologia mesopotâmica, por exemplo, temos o deus Tamuz; na frígia, o deus Átis; na mitologia egípcia, o deus Osíris, que também morre e renasce. Em todos esses casos, o jovem divino simboliza a força da vida e da natureza que brota, é cortada, morre, volta e se renova. Ele representa a promessa de um recomeço. Psicologicamente, o puer aeternus se alimenta exatamente dessa fantasia: a ideia de que sempre haverá um novo cenário, uma nova relação, um novo projeto que finalmente será “o certo”.
Se olharmos para tudo isso em conjunto, vemos que o puer aeternus está associado a deuses e mitos que expressam justamente a juventude eterna e a promessa de um futuro; a intensidade, o êxtase e a ruptura de limites; a morte e renascimento como ciclos de destruição e renovação. E por se tratar de um arquétipo, é como se o indivíduo fosse tomado por esse deus jovem, moldando o seu comportamento e influenciando seus estados psicológicos.
Alguns desses deuses também associados ao puer carregam um traço de ambiguidade moral e de travessia entre mundos, como Hermes, o mensageiro dos deuses na mitologia grega; ele é o viajante entre o Olimpo, a morada dos deuses gregos e o mundo humano; entre vivos e mortos. Hermes possui a característica de ser móvel o tempo todo; ele não se fixa e nunca está totalmente em lugar nenhum. Psicologicamente, o puer com as características do Hermes é aquele sujeito que está sempre “entre” as coisas: entre decisões, entre relações, entre cidades, entre carreiras. Sempre em trânsito, mas nunca completamente pertencente a alguma coisa.
E é aqui que reside o elemento central do puer aeternus com a frustração. A vida adulta exige tolerar frustrações: aceitar que não existe trabalho perfeito, relacionamento perfeito, cidade perfeita, nem uma versão de si mesmo perfeita. O puer aeternus tende a reagir às frustrações com a fuga. Quando a realidade não corresponde ao ideal, em vez de ajustar expectativas e permanecer, ele solta tudo e vai atrás de uma nova possibilidade, uma nova paixão ou um novo começo. Isso dá a sensação de movimento, mas é um movimento sem sair do lugar.
Veja uma coisa: não há problema em experimentar novos ares, testar outras possibilidades ou parar alguma coisa quando você está sentindo que aquilo não lhe diz respeito. O que acontece é que o puer aeternus não consegue continuar as coisas não por falta de motivação, mas pelo fato de não querer assumir compromisso nenhum. Ele pensa que está se limitando quando escolhe alguma coisa, ou que estaria perdendo uma oportunidade melhor caso se dedicasse a alguma outra. Em resumo, ele sempre está esperando a hora certa para ter a certeza de que é o melhor para ele, mas, é claro, essa hora nunca chega.
“O puer, portanto, mal compreende o que se ganha com a repetição e a consistência, ou seja, com o trabalho; ou o ir e vir, para a esquerda e para a direita, para dentro, para fora, que traz a sutileza de procedermos passo a passo através da complexidade labiríntica do mundo horizontal.”
O Livro do Puer, James Hillman.
Por isso, o puer aeternus, muitas vezes, se vê preso em histórias parecidas: vários relacionamentos que começam intensos e terminam rápido, vários cursos abandonados, empregos que “enjoam” depois de poucos meses, mudanças constantes de cidade, de planos, de estilo de vida e, principalmente, de pessoas também. Marie-Louise von Franz dá um exemplo de um paciente puer que enfrentou durante uma análise:
“O ‘menino bonzinho’, o homem que aceita tudo, de repente é substituído pela sombra do bandido que nada tem de humano. O mesmo acontece na análise: eles concordam com tudo, não mostram resistência, nem discutem com o analista; de repente, sem qualquer motivo aparente, eles dizem que estão mudando de analista ou parando a análise, e você cai das nuvens se não conseguiu prever isso. Não há agradecimentos nem nada. Está simplesmente terminado. No princípio havia calor, dependência e falta de agressividade masculina, e depois disso tudo se passou de forma negativa, desumana e distante. Isso é típico do puer aeternus.“
Puer Aeternus, Marie-Louise von Franz.
De fora, o puer aeternus pode ser visto como alguém espontâneo, livre e criativo. Por dentro, no entanto, costuma existir um sentimento de vazio, culpa e que geralmente é carregado com uma pergunta: “por que eu nunca consigo ir até o fim em nada?”
O puer aeternus quase sempre está preso num complexo materno. Ou ele veio de uma mãe muito protetora, que nunca o deixou realmente crescer, ou de uma mãe emocionalmente ausente, que deixou um buraco de carência. Em ambos os casos, ele fica preso a uma fantasia de que, em algum lugar, em algum momento, haverá um colo perfeito que o proteja de todas as dores da vida adulta. Enquanto ele espera essa mãe ideal – que pode ser em pessoas, em trabalhos ou em experiências, como no uso de drogas, por exemplo – ele adia indefinidamente o seu próprio amadurecimento, como explica James Hillman:
“A mãe, como aquela que dá e alimenta, como a própria vida natural, fornece ao puer dose excessiva de suprimento energético e, reforçando alguns traços básicos dele, exige que se comporte como filho dependente. Quando a mãe se apodera desses traços, leva-os ao extremo. A reflexividade do puer torna-se devaneio ineficaz; a morte torna-se não mais terror, mas conforto natural e bem acolhido; a imperfeição, em vez de ser aventura para a vulnerabilidade humana, torna-se, exagerada pela mãe, castração, paralisia, suicídio.” O Livro do Puer, James Hillman.
Esse vínculo com o complexo materno também costuma carregar uma mistura muito tensa de rancor e dependência. Em algum nível, o puer tem raiva da mãe – por ter sufocado, por ter faltado ou por não ter sido estável. Mas essa raiva nem sempre é consciente, e aí que ela se transforma em repetição. A pessoa continua dependendo de figuras substitutas, esperando que alguém finalmente compense aquilo que sente que não recebeu. Algumas vezes, essa falta não foi real, ou seja, a mãe fez o que podia, mas mesmo assim o puer pode interpretar como se fosse algo vivido.
O complexo materno é bastante expressivo pois se trata de uma das estruturas psicológicas mais antigas que se conhece e se experiencia. Porque, antes de termos uma mãe concreta, nós já carregamos dentro de nós imagens muito antigas do arquétipo da “Grande Mãe”: ela se apresenta na terra que alimenta, no ventre que acolhe e nutre, mas também no abismo que engole, na noite que nos envolve ou na própria vida que pode acabar. O complexo materno é, em parte, o modo como essas imagens arquetípicas relacionadas ao feminino na natureza e no universo ganham forma na nossa história pessoal.
Mitologicamente, o aspecto positivo do materno aparece na figura da mãe que nutre, protege e faz as coisas crescerem. Pense em Deméter, na mitologia grega, como a deusa da fertilidade e da agricultura; pensa em Gaia, como a própria personificação da natureza; na deusa Ísis, no antigo Egito, recompondo as partes de Osíris e amamentando Hórus; pense em Maria, no cristianismo, como a mãe que acolhe, cuida e intercede por nós. Essas são imagens de um materno que dá alimento, calor e segurança; que guarda e que envolve. Psicologicamente, esse lado se manifesta quando a pessoa consegue sentir que o mundo é minimamente habitável, que há um lugar onde é possível descansar, confiar e ser cuidado.
Mas toda imagem da Grande Mãe tem também um lado sombrio, e é aqui que entram os aspectos mais delicados do complexo materno. Esse duplo aspecto aparece com muita clareza também no mito de Deméter, mas agora com sua filha, Perséfone. Deméter é a mãe que ama a filha, mas quando a perde para Hades, ela paralisa a terra inteira provocando o outono e o inverno. A dor dela interrompe o próprio ciclo da vida. Perséfone, por sua vez, é a filha que é arrancada para o inferno, para o inconsciente, mas que também, com o tempo, se torna a própria relíquia que podemos extrair de lá, já que, de acordo com o mito, ela volta à superfície para equilibrar as estações com a primavera e o verão.
Em outras mitologias, como na mitologia Hindu, vemos deusas como Kali, que é ao mesmo tempo mãe e destruidora da vida, associada à morte e à dissolução do ego. Ela representa um aspecto do materno que destrói formas rígidas para que algo novo possa nascer. Quando esse lado do arquétipo aparece de forma muito bruta na psique de um indivíduo, a pessoa pode viver experiências de ruptura, perda ou desorganização que parecem acontecer de modo repentino. É como se a própria psique estivesse forçando a pessoa a crescer, e ela faz isso muitas vezes da pior forma.
Tendo tudo isso exposto, é comum perceber que alguém com um complexo materno intenso fala da vida como se falasse de uma deusa: ou a vida “é boa para mim”, ou ela é “cruel comigo”; ou seja, ou ela me alimenta, ou ela me abandona, tal como o lado positivo e negativo da Grande Mãe. A mitologia está atuando por baixo dessas posições: a psique do indivíduo não vê apenas uma mãe real falha e humana, mas uma Grande Mãe arquetípica – ora uma santa, ora um monstro. Enquanto essa dimensão não é reconhecida, a pessoa continua reagindo como um filho ou filha diante de uma divindade, e não como sujeito diante da própria vida.
Essa base mitológica é fundamental para entender por que o complexo materno é tão poderoso. Nós não estamos lidando apenas com nossas lembranças da infância, mas com imagens ancestrais que dizem respeito à própria experiência da existência: esse nascer de alguém, depender de algo maior, ser acolhido ou rejeitado pelo mundo é um processo que todos vivemos. E é exatamente por isso que trabalhar o complexo materno – tanto na teoria quanto na terapia – não é “falar bem ou mal da nossa mãe”, mas é mexer com o modo como a pessoa se sente diante da própria realidade, ou seja, se ela vive a vida através de uma mãe suficientemente boa ou como uma deusa imprevisível, que a alimenta mas que também a devora.
Enfim, e qual é o desfecho ou um possível caminho para trabalhar essas questões voltadas ao puer aeternus? Quando falamos sobre puer aeternus, principalmente nos homens, estamos, quase que de modo integral, falando do relacionamento que ele tem com a sua anima. Na psicologia junguiana, a anima é, de forma simples, a figura que simboliza o feminino interior do homem, ou seja, é o eixo responsável pelo sentimento, pela sensibilidade, pelo vínculo e pela capacidade de relação com o inconsciente, ou, se você preferir, com a alma, com a própria psique.
A anima não é uma mulher real, mas tende a ser vivida como se fosse. E por se tratar de um arquétipo, nós também só podemos conhecê-la através de suas manifestações conscientes, aparecendo em sonhos, nas nossas fantasias, paixões, nas idealizações e nas projeções que os homens fazem nas mulheres reais. Antes de você perceber uma mulher real, os pressupostos do seu feminino interior agem sobre ela. No puer aeternus, essa anima geralmente vem acompanhada por uma mistura entre mãe ideal, uma jovem muito bela ou uma deusa salvadora. Ou seja, o puer não se apaixona apenas por uma pessoa; ele se apaixona por uma promessa de completude, alguém que irá salvá-lo e poupá-lo das suas responsabilidades.
Mas ao longo do tempo, ele percebe que ninguém pode salvá-lo, e quando a projeção se desfaz, ele abandona a pessoa, as coisas ou os lugares.
Por isso, a primeira coisa que o puer precisa entender, é que ele precisa passar de uma relação infantil com sua anima – aquela em que ele espera ser salvo, compreendido ou carregado – para uma relação adulta com ela, em que a anima é reconhecida como mediadora do seu mundo interior, isto é, dos seus sentimentos, da sua intuição, e não como solução mágica para a sua vida. Enquanto ele enxergar a anima como uma deusa que vem salvá-lo, ele vai continuar boicotando compromissos, relações reais ou os projetos de vida, como Jung escreveu:
“A Anima em seu aspecto negativo, isto é, quando ela, permanecendo inconsciente, oculta-se no sujeito e exerce uma influência possessiva sobre ele. Os sintomas principais dessa possessão são, de uma parte, caprichos cegos e confusões compulsivas, e de outra parte isolamento, frio e sem nenhum relacionamento, numa atitude de princípios (confusão de ideias). O aspecto negativo da Anima significa uma forma especial de falta de adaptação psicológica.”
Mysterium Coniunctionis, Carl Jung.
Ele sempre busca “a mulher perfeita”, “as amizades perfeitas” ou “a experiência espiritual definitiva” que será responsável por fazê-lo enxergar o mundo de outra forma, mas no fundo o que ele está fazendo é buscar um atalho para não atravessar o árduo trabalho do amadurecimento, que exige consciência e constância. Portanto, o problema do puer, antes de ser um problema relacional, é um problema psíquico, tendo o puer que se resolver com a sua anima, ou seja, a própria personificação da sua psique, do acesso ao seus afetos, como escreve James Hillman:
“Assim, o principal problema do puer não é falta de realidade mundana, mas a falta de realidade psíquica. Em vez de compromisso com ordem do mundo, o puer precisa estar casado com à psique, à qual ele está naturalmente inclinado. Primeiro a psique, depois o mundo; ou, através da psique rumo ao mundo.”
O Livro do Puer, James Hillman.
Quando eu digo “dialogar” com a anima é perceber como ela aparece dentro de você: nos sonhos, nas imagens criativas, nos estados de inspiração, nas emoções que você não quer sentir ou na vulnerabilidade que você tenta evitar. É olhar para dentro e perguntar: “O que essa figura feminina em mim está tentando me mostrar? Que sentimento eu sempre fujo? Que necessidade emocional eu jogo nas costas dos outros para que cuidem por mim?”. A anima, uma vez amadurecida, não é uma mãe que acolhe tudo nem uma amante que nos salva; ela é justamente essa ponte entre o eu consciente e o inconsciente, entre a razão e o afeto, entre aquilo que mostramos e o que tentamos esconder. Jung escreve que:
“Quando os produtos da anima (por exemplo, sonhos, fantasias, visões, sintomas, ocorrências etc.) tiverem sido aceitos, digeridos e integrados pela consciência, então isso, por seu turno, favorece o crescimento e o desenvolvimento (“alimentação”) da alma.”
Mysterium Coniunctionis, Carl Jung.
Conversar com a anima é aceitar sentir, escutar o que dói, aceitar limitações e reconhecer necessidades reais – e, sobretudo, parar de exigir que alguém ou algo lá fora encarne uma perfeição inatingível.
Mas, como toda unilateralidade psíquica, dialogar somente com anima não basta, nós precisamos dos relacionamentos reais. Se resolver com seus aspectos internos é um caminho para se voltar à realidade e encará-la de alguma forma. Nem tudo é projeção e nem tudo diz respeito somente a nós.
E já que estamos falando de aspectos mitológicos que perpassam nossa história pessoal, uma das histórias mais completas que pode nos ajudar a entender esse relacionamento que precisamos ter com a anima é através da trajetória de Ulisses, como foi narrada na Odisseia, atribuída ao poeta grego Homero, escrita há mais de 2800 anos.
A Odisseia canta a volta de Ulisses para Ítaca, sua terra natal, depois que ele lutou na Guerra de Tróia ao lado de Aquiles, Agamenon e Páris. Só que, durante a sua volta, que durou um período de 10 anos, ele passa por diversas figuras femininas arquetípicas que encarnam aspectos da sua própria anima. A anima na Odisseia aparece como Circe, a feiticeira que pode reduzir o homem ao estado animal, mas que também pode auxiliá-lo. Ela aparece como Calipso, a ninfa que oferece a tentação da imortalidade; as Sereias, que prometem o ápice do prazer, mas que devoram quem se deixar iludir por isso; Nausícaa, a jovem pura, que o acolhe e oferece hospitalidade; e, por fim, a anima também aparece como Penélope, a mulher real, mortal, que envelhece, mas que espera, é fiel e que protege o reino enquanto Ulisses está fora. Cada uma dessas figuras é uma possibilidade de posição psíquica diante da própria anima.
Quando Ulisses encontra Calipso, por exemplo, o que está em jogo é exatamente a tentação típica do puer aeternus: a de ficar numa ilha paradisíaca, com uma deusa que o ama, sem envelhecer e sem voltar para as responsabilidades, isto é, sem ser marido, pai ou rei. Ulisses poderia permanecer ali numa espécie de juventude suspensa, sem compromisso com o tempo ou com a realidade. Mas Ulisses recusa esse destino. E para escolher não ficar ele sofre, hesita, mas mesmo assim decide navegar para Ítaca. Essa é uma posição contundente diante da anima: Ulisses não a usa como uma fuga diante do mundo em prol de uma fantasia; ele a usa como uma oportunidade para se fortalecer diante das tentações.
Que é o que acontece com as Sereias também. Durante sua trajetória, seu barco precisa passar pela ilha das Sereias. Só que, em vez de cobrir seus ouvidos com cera, para não escutar o canto hipnótico e ser devorado por elas, ele se amarra ao mastro do seu navio e ordena que os outros remem com os ouvidos tapados. Isso, simbolicamente, é uma imagem muito poderosa de como lidar com a anima: não é se anestesiar diante dela, nem matar o desejo. É reconhecer o seu fascínio, sentir o chamado, mas colocar limites concretos para não ser destruído por ela. O mastro do navio é a estrutura, a decisão e o compromisso com a própria jornada. O navio é a vida em andamento diante do inconsciente do oceano.
Mas é Penélope que, no fim, representa a escolha de Ulisses pela realidade. Ela não é uma deusa e não oferece a imortalidade. Penélope representa o tempo: ela espera Ulisses e sofre enquanto não aparece, segurando todo o caos que permeia a ilha enquanto ele está fora. Ao escolher voltar para Penélope, Ulisses está trabalhando o que Jung chama de função transcendente, a criação de algo novo a partir do casamento entre o masculino e o feminino interiorizados, permitindo que o real seja vivido com mais integridade e totalidade. É a escolha do amor que trabalha para acontecer, que suporta a demora, mas que principalmente sustenta as ambiguidades.
Se Ulisses até aqui tinha os traços do puer, que está sempre à procura da próxima Calipso ou da próxima Sereia, a sua persistência em direção a Ítaca revela outro arquétipo responsável por manter o equilíbrio na vida: o senex, o polo arquetípico do “velho”, do “ancião”, justamente o oposto complementar do puer aeternus. Se o puer é o jovem ligado à possibilidade e ao futuro, o senex é o que está ligado ao tempo, ao limite e ao comprometimento, como explica James Hillman:
“Por um lado, como os outros, ele [Ulisses] é puer — sempre partindo para outro lugar nostálgico e saudoso, amado por mulheres as quais ele rejeita, oportunista e trapaceador, sempre no perigo de afogar-se. Por outro, ele é pai, marido, capitão, com as qualidades senex do conselho e da sobrevivência.”
O Livro do Puer, James Hillman.
O senex aparece em mitos, contos e religiões como o velho sábio, o rei, o juiz, o eremita, o pai severo, o deus do tempo, aquele que olha de cima, que vê longe e que pensa a longo prazo. É o lado da psique que suporta frustrações e entende que nada realmente grande se constrói sem alguns limites.
O ponto importante é que puer e senex formam um par. Eles não existem um sem o outro. O puer traz movimento, sonhos, criatividade e entusiasmo; o senex traz a consistência, o compromisso e o tempo. No entanto, como estamos falando de pares opostos, um é a sombra do outro. Se uma pessoa vive com a atitude puer, a sombra do senex vai exercer uma pressão cada vez maior no inconsciente, se manifestando como autocobrança severa, crises de paralisia, sensação de que está atrasado para tudo na vida, medo do tempo e pavor de envelhecer.
Mas Ulisses é um dos únicos heróis que possui o puer e o senex quase sem conflitos. E é por isso que ele é também um dos heróis mais humanos já narrados pela literatura. Ele é imperfeito e cometeu muitos erros em sua vida, mas trabalhou suas feridas para que pudessem ser cicatrizadas, como explica James Hillman:
“Ulisses não está preso entre os opostos. Ele não sofre de unilateralidade. Nele não há necessidade de nenhum conflito entre senex e puer. Ele é uma consciência de ‘anima’”.
O Livro do Puer, James Hillman.
E essa é uma atitude que só quem vive apenas o puer não consegue ter. A ferida revela o segredo para a cura. É a nossa consciência de que somos mortais, sujeito a falhas e contradições, mas o puer prefere manter suas feridas abertas e escondidas, em vez de visíveis e cicatrizadas.
“O homem puer, psiquicamente falando, esconde sua ferida, uma vez que ela revela o segredo que enfraquece essa forma de consciência. Ela, essa consciência, tem medo de sentir sua própria inabilidade. Pois, quando a ferida é revelada no final da história, ela nos mata enquanto um puer. A ferida é nossa mortalidade. Cada complexo tem seu sintoma, seu calcanhar de Aquiles, sua abertura para à humanidade através de um ponto vulnerável e extremamente doloroso[…]”
O Livro do Puer, James Hillman.
Portanto, o caminho do puer aeternus não é destruir o puer dentro de dele, mas integrar o senex. É quando Frodo encontra Gandalf, Luke Skywalker encontra Yoda, ou Simba encontra Mufasa. É permitir que dentro da própria psique surja uma figura interna capaz de perceber o tempo, mas sem destruir a sensibilidade; alguém que transforme as ideias em um caminho e tenha suas feridas cicatrizadas. É quando o jovem eterno encontra o velho sábio dentro de si que ele deixa de ser só uma promessa e começa a se tornar um comprometimento com a própria vida.
“O puer inspira o brotar das coisas; o senex governa a colheita. Mas florescer e colher dão-se intermitentemente durante toda a vida.”
O Livro do Puer, James Hillman.
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